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Aquecimento Global: Uma Problemática Verdade



            Nas últimas décadas, um dos assuntos de maior destaque em âmbito internacional remete à questão do aquecimento global e as repercussões deste sobre as mudanças climáticas no nosso planeta. O Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris foram dois eventos de grande impacto nessas discussões, os quais reforçaram o alerta sobre o processo de aquecimento global que a Terra vem enfrentando e, principalmente, batendo o martelo de acusação do papel das atividades humanas como o fator de maior importância nesse processo desde meados do século 20. Porém, por trás do consenso científico sobre a interferência humana nesse fenômeno global, existem muitas controvérsias e debates entre especialistas na área. Alguns dizem que essa culpa está sendo empurrada por razões políticas enquanto a maioria refuta tal ideia. E dentro do consenso, existem amplos debates sobre o real grau de de avanço das mudanças climáticas, a confiabilidade dos modelos de simulação futura das mesmas e as estratégias de prevenção a serem adotadas.

           Essas incertezas científicas e imposições políticas acabaram gerando uma grande confusão na cabeça da população, com a consequente geração de desinformações para todos os lados. Caso você realmente queira entender o assunto, convido você, leitor, a ler este artigo até o final. É um trabalho do projeto Saber Atualizado envolvendo semanas de vasta pesquisa na literatura acadêmica e debates com pesquisadores/professores na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). O assunto será abordado de forma neutra, analisando cada lado da discussão. Também será comentado o recente vídeo lançado no canal de YouTube do Nando Moura. Convido também os leitores a acessarem os links indicados ao longo do texto para outros artigos deste Blog, para um melhor entendimento de pontos específicos.

          ATENÇÃO! Como é um tema bastante complexo, o artigo ficou bem longo. Para facilitar a leitura, dividi os tópicos principais com placas bem chamativas para facilitar a navegação. São os seguintes tópicos:

  • EFEITO ESTUFA (Uma introdução básica sobre a base científica central das discussões internacionais sobre o tema)
  • AQUECIMENTO GLOBAL (Esclarecimento sobre o que é realmente o Aquecimento Global e e os fatores naturais e antropogênicos que cercam o tema)
  • POLÍTICA (Breve história política por trás das discussões internacionais sobre o Aquecimento Global)
  • INTERFERÊNCIA HUMANA (Balanço e análise das diferentes opiniões científicas sobre o real papel antropogênico nas Mudanças Climáticas)
  • DESINFORMAÇÕES ENFEITADAS (Comentários sobre o vídeo do Nando Moura, e os documentários Uma Verdade Inconveniente e A Grande Farsa do Aquecimento Global)
  • FOCO NO REAL PROBLEMA? (Aqui é abordado o principal ponto sendo pouco enxergado além das discussões sobre culpabilidade humana nas Mudanças Climáticas)
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS (Uma análise final sobre as falhas de abordagem do problema a nível dos esforços internacionais)

   


           Vamos começar pelo básico. Diferente do que muitos tendem a interpretar, o fenômeno conhecido como efeito estufa não é um vilão. Pelo contrário, ele é o responsável por manter a temperatura do nosso planeta suportável para a vida que hoje conhecemos. Sem o efeito estufa, a temperatura média na superfície da Terra cairia de 15°C para 19°C negativos, impossibilitando a existência da nossa rica diversidade ecológica. O grande problema aqui é o excesso do efeito estufa. Um exemplo bem interessante de efeito estufa em excesso ocorre em Vênus (Mercúrio é o planeta mais quente do Sistema Solar?).

           No efeito estufa temos gases presentes na atmosfera que seguram parte do calor sendo emitido pela superfície terrestre na forma de ondas longas de infravermelho. Basicamente, a radiação solar que chega ao nosso planeta pode ser tanto refletida quanto absorvida. Quando a parte não refletida é absorvida nos continentes e nos oceanos, ambos são aquecidos e emitem uma maior quantidade de radiação infravermelha. Essa radiação segue em direção ao Espaço, mas boa parte dela é absorvida por certos gases na atmosfera, como o dióxido de carbono, e reemitida de volta para a superfície terrestre, aquecendo-a novamente. Esse novo aquecimento, por sua vez, gera mais infravermelho, o qual é parte absorvido pela atmosfera e parte passa direto. Esse contínuo processo é o efeito estufa, e garante um importante aprisionamento de energia térmica, especialmente na troposfera (a primeira camada da atmosfera próxima da crosta terrestre, e onde as temperaturas médias afetam diretamente o ecossistema).




             O Sol possui no seu espectro de radiação eletromagnética emitida a maior parte da energia distribuída nas frequências da região no visível (cores) - principal -, ultravioleta e infravermelho. As rochas, asfalto, solo, água, e qualquer outro objeto na superfície da terra, absorvem vários comprimentos vindos dos raios solares, principalmente aqueles compreendidos no visível. A radiação eletromagnética é compostas por partículas-ondas energéticas chamadas ´fótons´ e quando essas são absorvidas pelos corpos, podem fazer esses se aquecerem. Por isso, objetos escuros se aquecem muito mais rapidamente e eficientemente quando deixados expostos ao Sol por absorverem várias ´cores´ do espectro dos raios solares, enquanto os objetos brancos demoram para se aquecer na mesma situação por refletirem a maior parte das cores. O ozônio na atmosfera, por outro lado, absorve na faixa do ultravioleta (UVB no caso, sendo que o UVA passa praticamente direto e o UVC é absorvido antes de chegar na estratosfera). Para a radiação visível, a atmosfera é praticamente transparente, deixando sua totalidade alcançar a superfície terrestre.

Espectro das radiações eletromagnéticas; observem que a ordem de grandeza das temperaturas da superfície terrestre (entre -10 e 50°C, para mais ou menos) produzem, preferencialmente, radiação infravermelha de comprimento longo; quanto maior a frequência - e consequentemente menor o comprimento de onda - mais energética será a radiação eletromagnética 



            Nesse sentido, temos o Sol como o aquecedor absoluto da nossa superfície terrestre. Existem outras fontes energéticas, como a luz refletida pela Lua oriunda do Sol, luz oriunda de estrelas presentes em outros sistemas estelares e galáxias, raios cósmicos de fontes diversas, erupções vulcânicas, energia cinética gerada por forças gravitacionais de maré, entre outras. Mas todas essas juntas são negligíveis perto da radiação solar direta em termos de aquecimento da nossa superfície terrestre. A Terra gera bastante energia térmica internamente, mas a mesma só é importante para a movimentação de placas tectônicas, campo magnético e atividades vulcânicas. Assim, o principal fator terrestre que interfere com a sua capacidade de nos aquecer é chamado de ´albedo´, ou seja, a capacidade da superfície do planeta em refletir a radiação solar de entrada (essa reflexão, aliás, é o que nos permite ver planetas à noite no céu, como Marte, na forma de pontos luminosos parecidos com estrelas, o mesmo ocorrendo com a Lua) . Entre os refletores terrestres naturais mais poderosos, temos:

    GELO

           As superfícies cobertas por gelo e neve, especialmente nos Polos do planeta, ajudam bastante a refletir a radiação solar de volta para o Espaço, especialmente na radiação do visível (a faixa emanada em maior quantidade do Sol). Por isso, mesmo o gelo sendo transparente, vemos superfícies congeladas com a cor branca, ou seja, a junção de todas as cores do espectro visível. Quanto mais gelo/neve derretido, menor é a capacidade do planeta de reduzir o aquecimento pela radiação solar. Na superfície existe também reflexão pelos oceanos/lagos (10% do total incidente sobre essas águas é refletido) e pela massa florestal (12%), mas nada que se compara com a taxa de reflexão do gelo/neve (90%).

     NUVENS

          Da mesma forma que as superfícies de gelo, o vapor de água em suspensão na atmosfera - condensados na forma de nuvem - age também refletindo a radiação solar e, por isso, vemos as nuvens brancas. Aliás, a reflexão pelas nuvens podem alcançar os 90%. Porém, aqui existem algumas complexidades adicionais.

          O vapor de água na atmosfera é, de longe, o principal gás estufa da atmosfera. Enquanto as nuvens refletem boa parte da radiação solar incidente, a radiação infravermelha (calor) gerada pela superfície terrestre é absorvida pelo vapor de água presente nas mesmas. Então, qual é o resultado desse balanço? Bem, os cientistas ainda não sabem ao certo. Será que a retenção de calor pelas nuvens atrapalha em significativa extensão sua ação de resfriamento por reflexão? E mais importante: será que a capacidade reflexiva é suficiente para compensar o aumento de vapor de água total na atmosfera (nuvens + umidade)?

           Segundo as atuais evidências, hoje as nuvens atuam efetivamente no resfriamento do planeta. Porém, em um mundo mais quente, esse cenário pode mudar, e aqui entram as incertezas. Em um planeta com a média mais alta de temperatura, mais nuvens frias de alta altitude podem ser criadas, levando a uma maior absorção do infravermelho sendo emitido pela superfície terrestre. Quando temos mais nuvens próximas da superfície, e consequentemente com uma temperatura próxima da mesma, as emissões de infravermelho delas quase se igualam com a superfície abaixo, mandando para o Espaço praticamente a mesma quantidade calor do que em um cenário sem essas nuvens.

            Mas, se por outro lado, mais nuvens brancas e brilhantes se formarem no futuro - certas condições, como quantidade de aerossóis, promovem a formação dessas nuvens - talvez o efeito estufa das mesmas seja compensado, gerando até uma significativa ajuda no resfriamento do planeta.


     VULCÕES

             Aqui, por mais contraditório que possa parecer à primeira vista, o resfriamento decorre da capacidade reflexiva de certas pequenas partículas (aerossóis) liberadas pelas grandes erupções vulcânicas, as quais ficam dispersas na altas camadas da atmosfera e refletem grande quantidade de luz solar, impedindo que esta chegue na proximidade do solo. E enquanto parte reflete, outras apenas impedem que a luz chegue na superfície terrestre. Em ambos os casos, um significativo resfriamento ocorre no nível habitável do planeta (troposfera).

           E esse processo de resfriamento tende a durar bastante, porque diversas partículas de sulfeto (altamente reflexivas) são lançadas de forma dispersa e violenta da boca do vulcão, alcançando as porções mais altas da atmosfera, principalmente a estratosfera. Nesta camada, a formação de nuvens é mínima e as precipitações são muito raras. Sem água de chuva para arrastar as partículas de sulfeto, o processo de reflexão solar pode durar anos. Além disso, a estratosfera acaba aquecendo, enquanto a troposfera resfria, mudando a dinâmica das massas de ar da região atingida, ou até mesmo do globo inteiro, dependendo do tamanho da explosão vulcânica. Processo similar ocorre com grandes impactos de asteroides no planeta.

             Além disso, os aerossóis, poeira, cinzas e outras minúsculas partículas lançadas pelas erupções vulcânicas - grande parte delas formadas por compostos de enxofre expelidos, especialmente o dióxido de enxofre - servem como sementes para a formação de mais nuvens. Assim, as atividades vulcânicas também fomentam uma maior presença de nuvens na atmosfera, as quais ajudam a resfriar o clima.

            Recentes "invernos" decorrentes de atividades vulcânicas: 

1. Um artigo escrito por Benjamin Franklin, em 1783, responsabilizou as cinzas vulcânicas o estranho frio do verão de 1783 da Islândia, onde a erupção do vulcão Laki tinha produzido enormes quantidades de dióxido de enxofre, resultando na morte de grande parte do gado e uma catastrófica fome que matou um quarto da população local. As temperaturas no hemisfério norte caíram em aproximadamente 1°C no ano seguinte à erupção do Laki.

2. A erupção de 1815 do Monte Tambora, na Indonésia, ocasionou mudanças climáticas no estado de New York e neve em junho por todo o território de New England, fenômeno que foi apelidado de ´Ano de Verão´ de 1816.

3. Em 1883, as explosões do Krakatoa (Krakatau) também geraram um inverno vulcânico. Os quatro anos seguintes à erupção foram mais frios, e, no verão de 1888, nevou pela primeira vez na região. Nevascas recordes foram registradas ao redor do mundo.

4. Na poderosa erupção do Monte Pinatubo, em 1991, a enorme quantidade de partículas lançadas por essa gigantesca explosão é uma das suspeitas de ter freado o aquecimento global nos anos recentes

Monte Pinatubo durante a erupção de 1991

           Porém, enquanto uma grande erupção lança grandes quantidades de aerossóis na atmosfera que podem esfriar o clima na troposfera, erupções menores podem apenas gerar gases estufas e partículas que ficam em grande parte na troposfera, gerando um aquecimento maior nesta última e também esfriando em menor escala, ao contribuir para a formação de nuvens. Porém, essas partículas e gases como os óxidos de enxofre duram pouco tempo na atmosfera, por causa das chuvas. Existe também uma grande quantidade de dióxido de carbono sendo gerado durante os eventos de erupção, mas se somarmos todas as fontes desse gás ao longo da história industrial humana, ainda produzimos em torno de 100 vezes mais dele do que os vulcões.


      GASES DO EFEITO ESTUFA

           Apesar da população em geral achar que apenas o gás carbônico e o metano são os responsáveis pelo efeito estufa, diversos outros gases na atmosfera contribuem para o aquecimento geral do planeta, inclusive com um sendo o mais poderoso de todos: a água. A água, na forma de vapor na atmosfera, contribui com algo entre 36 e 72% para o aquecimento do globo, variando de região para região, e com uma média em torno 50% (1). O gás carbônico contribui com algo entre 9 e 26%, com uma média global em torno de 20%. O metano, entre 4 e 9%. E o gás ozônio, entre 3 e 7%. Entre outros gases que barram fortemente o calor sendo transmitido pela superfície terrestre  podemos citar os óxidos de nitrogênio (N2O, NO2, NO), CFCs (clorofluorcarbonos), HCFCs (hidroclorofluorcarbonos), tetrafluometano, hexafluoreto de enxofre, trifluoreto de nitrogênio, hexafluometano, entre vários outros. Além disso, partículas dispersas na atmosfera (fuligem, aerossóis de maiores dimensões, matéria orgânica diversa, etc.) também são potentes agentes estufas, por espalharem a luz solar e também absorverem calor no visível e infravermelho.  Como estes últimos exemplos não estão presentes em quantidade significativa na troposfera, normalmente são ignorados.

           Levando tudo isso em consideração, os principais gases estufas da atmosfera são o vapor d´água, gás carbônico, metano e ozônio. Entre os gases mencionados , o gás carbônico e o metano são os que mais geram discussões no âmbito do aquecimento global por serem amplamente produzidos pelo homem. O gás carbônico é gerado pela queima de combustíveis fósseis, carvão vegetal e do próprio metano, além da respiração aeróbica dos seres vivos e oxidação geral da matéria orgânica quando o oxigênio está envolvido, pela oxidação de gases diversos na atmosfera e pelas atividades vulcânicas. Já o metano é oriundo principalmente da decomposição anaeróbica de matéria orgânica, especialmente em pântanos e lixões a céu aberto, dos bolsões de gás natural junto à extração de petróleo - e também durante o transporte e produção de gás natural, petróleo e carvão mineral - e do arroto de bois e vacas (devido à digestão da matéria vegetal dentro do estômago desses animais por bactérias em simbiose com eles). Existem outras fontes para ambos, mas essas são as majoritárias. Agora, precisamos deixar esclarecido outra confusão que é importante na nossa análise das mudanças climáticas.

Um dos principais emissores de metano para a atmosfera; pesquisadores da Pennsylvania State University recentemente descobriram que alimentar o gado com o composto 3-nitrooxypropanol (3NOP) diariamente, reduz as emissões de metano em 30%! A substância age inibindo a metil-coenzima-M redutase, uma enzima usada durante a fermentação bacteriana e a qual está ligada à produção do metano por elas. Mais testes serão feitos antes de liberarem a substância para uso. Outras pesquisas do tipo já vêm sendo feitas há um bom tempo, mas o 3NOP é o que apresentou melhor rendimento, não prejudicando a saúde bovina e não sendo danoso ao meio ambiente

  METANO E O GWP

            Muitos já devem ter ouvido falar que o metano é um gás estufa em torno de 30 vezes mais potente do que o gás carbônico em "aprisionar o calor" na atmosfera, gerando, com isso, grande preocupação. Sim, essa afirmação é parcialmente verdade, mas é importante entender de onde vêm o valor ´30´, este o qual é uma estimativa. Existe um termo chamado de GWP (Global Warming Potential, ou Potencial de Aquecimento Global, na tradução) e é ele quem define o quão ´poderoso´ é o gás estufa, mas sem isso estar ligado, necessariamente, à capacidade intrínseca da molécula em reter calor transmitido. O GWP é medido levando-se em consideração diferentes períodos de análise (em anos). Assim, teremos o GWP20, GWP100 e o GWP500 como os principais representantes. O GWP20, por exemplo, compreende um período de análise de 20 anos, e o mesmo raciocínio vale para o resto. Para medir o potencial de aquecimento de cada gás, é levado em consideração:

1. A absorção no infravermelho de cada gás;

2. A localização, no espectro, do comprimento de onda absorvido;

3. O tempo de degradação do gás na atmosfera.

            Assim, mesmo um gás que consiga absorver bastante calor na forma de radiação infravermelha (faixa onde o efeito estufa é promovido), especialmente  aquela refletida pela superfície do planeta, sua força de aquecimento global pode ser muito menor do que outro que absorva bem menos do que ele. Por exemplo, a água absorve ondas muito largas no espectro do infravermelho e em diversos comprimentos, sendo muito potente em absorver e armazenar calor. Porém, sua produção antropogênica direta não é alvo de preocupação imediata (2), independentemente ou não de estarmos produzindo mais vapor de água em indústrias, agricultura e afins, porque o tempo de vida dela na atmosfera é muito curto, de apenas 9 dias, devido ao ciclos da água (chuva, neve e outros mecanismos que fazem com que a água na atmosfera volte novamente para a superfície).

              O ozônio não é uma preocupação direta porque o ser humano não o produz de forma significativa. Porém, na troposfera, sua concentração vem subindo por causa do aumento de metano, o qual é um percursor químico da produção de ozônio na atmosfera. Já o gás carbônico está sendo produzido em larga escala pela atividade humana, e apesar de estar continuamente sendo dissolvido nos mares, rios, lagos, e sendo fixado pelas plantas/algas/fitoplâncton através da fotossíntese, existe ainda um excesso que fica na atmosfera. Com o metano, ocorre o mesmo, onde sua produção humana só vem crescendo, fruto dos vazamentos de tubos de gás natural, explorações diversas dos combustíveis fósseis, alagamento de áreas florestais e à crescente criação de gado. Mas por que o metano é bem mais poderoso do que o gás carbônico?

              Se observamos o gráfico abaixo, iremos ver que o metano absorve o infravermelho em uma região totalmente distinta do gás carbônico. Primeiro, a concentração do metano é bem menor do que a de gás carbônico na atmosfera. Em termos de comparação, nossa atmosfera está bem mais saturada com gás carbônico e, somando com a absorção de vapor de água e óxidos de nitrogênio, boa parte dos comprimentos da radiação infravermelha absorvida passam sem serem capturados em várias faixas. Portanto, é preciso uma alta quantidade de gás carbônico para capturar, significativamente, mais do restante. Já a faixa de comprimento absorvido pelo metano está muitos mais disponível, estando apenas sendo também aproveitado pelo vapor de água e por pequenas quantidades de óxido nitroso. Portanto, qualquer quantidade a mais de metano lançada na atmosfera absorve bastante calor transmitido nessa faixa.
Aqui, podemos ver, claramente, que o metano absorve, preferencialmente, uma faixa bem distinta da do gás carbônico 

            É como se houvesse dois quartos cheios de comida. Em um deles está cheio de pessoas comendo a comida ofertada e, no outro, existe também muita comida, mas apenas algumas poucas pessoas comendo. Se mais duas pessoas entrarem no quarto cheio, pouco da comida ainda está sobrando e será difícil alcançá-la tendo em vista a super lotação. Esse quarto é uma analogia ao gás carbônico. Já no quarto com pouca gente, bastante comida ainda estará disponível e o acesso a ela será bem mais fácil, fazendo com que duas pessoas que entrem comam bastante. Esse quarto é uma analogia ao metano. Mesmo se todas as pessoas comem da mesma forma, a quantidade de comida consumida não será igual.

              O motivo acima explicado é principal do porquê o metano é tão mais poderoso em reter calor transmitido na forma de infravermelho. Na verdade, se analisarmos qualquer espectro de absorção do dióxido de carbônico, veremos que esse gás possui bandas bem mais largas de absorção e em grande intensidade, sendo mais eficiente em absorver energia da radiação infravermelha. Ou seja, não é porque o metano  absorve 30 vezes mais infravermelho e, sim, como ele absorve essa energia. E outro mal entendido: o metano só possui esse potencial de ´30´ porque estamos citando o GWP100. Se considerarmos o GWP20, o metano é cerca de 85 vezes mais poderoso do que o gás carbônico por igual período de tempo! Isso é devido ao fato de que o tempo de vida médio de uma massa de metano na atmosfera é algo próximo de 12 anos e, depois disso, ela acaba sendo degradada  em água e gás carbônico por oxidação, principalmente, de radicais hidroxilas na alta atmosfera (gerados pela ação da radiação ultravioleta nas moléculas de água).

               Ou seja, dentro de 20 anos, o metano age, na maior parte do tempo, como gás estufa na forma de ´metano´. Depois da sua degradação, ele passa a ter papel estufa como gás carbônico e água, ambos com potencial de aquecimento bem menores. Assim, quando fazemos uma média ao longo de 100 anos, o metano acaba ganhando ´força estufa´ de 30. Mas se considerarmos um período de 20 anos, ele é bem mais poderoso. Se diminuirmos ainda mais o tempo, para 10 anos, por exemplo, podem ter certeza que o seu potencial de aquecimento frente ao gás carbônico é muito maior do que 85. Aliás, muitos cientistas na área reclamam do GWP100 ser o mais utilizado como base de análise e de painéis climáticos na maior parte das vezes, porque isso maquia o efeito estufa do metano. Segundo eles, mudanças climáticas estão acontecendo em intervalos de tempo muito curtos e 100 anos é um período de projeção muito longo.

          Sabendo disso, é fácil entender, por exemplo, porque existem aquelas torres de fogo nos depósitos de lixo e nas plataformas de petróleo. Os gases emanados nesses lugares são compostos basicamente de metano. Queimando as torrentes de metano, produzimos gás carbônico, o qual, como já explicado, é bem mais inofensivo em termos quantitativos. Se você consegue captar este metano indesejado, como nos biodigestores, é mais lucrativo usá-lo como combustível, cuja queima produzirá o gás carbônico e energia de movimento mecânico. Porém, o metano dos gases emanados pelo gado é impossível de ser controlado, o que preocupa muito por causa da demanda cada vez crescente de carne bovina pelo mundo. Os ruminantes, incluindo as vacas, se alimentam exclusivamente de folhas e capim. E para quebrar a parede celular vegetal, composta dos polissacarídeos celulose e hemi-celulose, esses animais contam com a ajuda de bactérias em simbiose presentes no seu estômago. Nesse órgão, elas quebram os polissacarídeos, produzindo ácidos graxos e liberando outros nutrientes presentes no interior das células vegetais, os quais nutrem o animal. Mas neste processo é gerado metano como subproduto, o qual é liberado junto ao arroto do boi/vaca.

     ÁGUA E DIÓXIDO DE CARBONO

         Outro erro cometido por muitos nesse aspecto é a sugestão de que a absorção de infravermelho emanado pela superfície aquecida da Terra pelo dióxido de carbono é obscurecida pelo vapor de água na atmosfera, usando isso como um argumento de que o gás carbônico não possui papel significativo como gás de efeito estufa. Isso é absurdamente errado. Como mostrado na tabela abaixo, o gás carbônico possui picos de absorção fora dos máximos de absorção da água. E além disso, apesar do menor efeito de absorção em faixas obscurecidas pela água, o efeito nas mesmas é somado, mesmo gerando um resultado bem menor do que os constituintes individuais.


          E essa questão da sobreposição da bandas de absorção de água é outro ponto importante. Não podemos analisar os gases de efeito estufa como componentes isolados. Apesar da permanência, homogeneidade e formas físicas do dióxido de carbono na atmosfera, por exemplo, não dependerem das variações normais de temperatura na mesma - suas moléculas permanecerão na forma de gás em uma grande faixa de temperatura por causa do seu baixíssimo ponto de ressublimação - as moléculas de água são altamente sensíveis à essas variações. Dependendo da temperatura e condições climáticas em geral, teremos mais ou menos chuvas (água líquida saindo da atmosfera), neve (água sólida saindo da atmosfera), vapor d´água (água gasosa na atmosfera) e nuvens em alta, média ou baixa altitudes (vapor de água se condensando em diferentes graus).

            Toda essa dinâmica da água na atmosfera interfere profundamente com o efeito estufa total. Por isso, mesmo gases como o dióxido de carbono e o metano estando em quantidades traços na atmosfera como um todo (3), mudanças climáticas tragas pelo efeito estufa dos mesmos influenciam fortemente a dinâmica da água atmosférica, potencializando o resultado final. Com uma maior temperatura traga pela maior emissão de gás carbônico, mais água tende a evaporar e ficar na atmosfera após um equilíbrio dinâmico, e como a água é o mais poderoso agente estufa de longe no nosso planeta, o aquecimento disparado inicialmente pelo CO2 acaba sendo amplificado várias vezes.

           Nesse sentido, fica bastante claro o porquê de não subestimar as baixas quantidades relativas desse gás no total circulante de massa de ar. E as maiores temperaturas também levam a um maior derretimento das geleiras e diminuição da reflexão solar. E esse é também é um dos motivos do porquê ser mais correto se referir ao assunto central sendo explorado nesse artigo como ´mudanças climáticas´ do que simplesmente ´aquecimento global´, já que o primeiro termo engloba o aquecimento global e suas consequências.

      GASES ESTUFAS ASSUSTADORES

              Ah, e é interessante mencionar que seguindo o modelo do GWP, outros gases estufas são verdadeiros monstros em contribuírem para o aquecimento global. O GWP100 do hexafluoreto de enxofre, por exemplo, é de 22 800! Já o tetrafluormetano apesar de ter um GWP20/100/500 menor, fica circulando na atmosfera por 50 mil anos antes de ser degradado, causando um estrago até maior do que o hexafluoreto de enxofre em um grande período de tempo. Mas como ele está em quantidades ínfimas na atmosfera, ele não é motivo de significativa preocupação por enquanto. Veja uma lista dos principais:

O gás carbônico, por padrão, é considerado como GWP 1; e apesar dos outros gases além do metano e dióxido de carbono estarem em quantidades muito pequenas na atmosfera, eles também contribuem para o efeito estufa de forma significativa e, portanto, também precisam ter suas emissões controladas

Ozônio e Óxidos de Nitrogênio: O tempo de existência do ozônio na troposfera varia com o local, ficando em uma faixa que vai de dias até 1 ano. Em altitudes maiores, ele costuma durar mais tempo. As fontes de óxidos de nitrogênio, como o óxido nitroso (N2O), vem do uso de compostos nitrogenados (como os nitratos) usados na agricultura e da queima de combustíveis fósseis (petróleo e carvão mineral). Com o aumento das lavouras, maior é a necessidade de nitrogênio para o bom crescimento das plantas e maior será a quantidade de óxidos de nitrogênio sendo lançados na atmosfera como subproduto.

(1) Por exemplo, em cima de massas florestais, o total de vapor d´água é muito grande devido à evapotranspiração das plantas. Já em regiões desérticas a quantidade de vapor/umidade no ar é bem baixa, gerando grandes variações de temperatura durante o dia: à noite, sem um significativo efeito estufa da água atmosférica, o calor é perdido rapidamente pelo solo aquecido pelo Sol, causando quedas de 50°C para valores abaixo de 0°C facilmente.

(2) Mas em um planeta cada vez mais quente, futuramente a quantidade de vapor de água na atmosfera pode aumentar bastante, seguindo em proporção a elevação média de temperatura no globo (maior capacidade da atmosfera de reter o vapor de água). Nessa situação, previsões da NASA mostram que o efeito dessa quantidade extra de vapor pode ser devastador, com o potencial de aumentar o efeito estufa em uma intensidade tão grande quanto o dobro do aquecimento gerado apenas pelo dióxido de carbono nas próximas décadas (caso o aquecimento global permaneça com o atual ritmo).

(3) Só lembrando, a atmosfera é composta majoritariamente dos gases oxigênio (O2, 21%) e nitrogênio (N2, 78%). Porém, nenhum dos dois absorvem as faixas de infravermelho emitidas pela superfície terrestre e, portanto, não contribuem para o efeito estufa. No entanto, o oxigênio absorve faixas no ultravioleta, fazendo parte do ciclo de formação de ozônio (O3) na estratosfera.

OBS.: Os gases estufas podem ter diversos outros efeitos diretos e indiretos na complexa química da atmosfera, os quais contribuem em várias extensões para as mudanças climáticas. Alguns, inclusive, podem até ajudar a esfriar o clima em certas situações. Para um estudo mais aprofundado sobre o assunto, sugiro a leitura do relatório do IPCC na Ref.6.

IMPORTANTE: O dióxido de carbono (CO2), ou simplesmente ´gás carbônico, não é uma substância nociva, longe disso. Quase toda a base de vida do nosso planeta depende dele, na famosa fixação de carbono através da fotossíntese. Nossos blocos orgânicos (proteínas, DNA, carboidratos, etc.) vem do gás carbônico fixado pelos seres fotossintetizantes. Aliás, quando existe um aumento desse gás na atmosfera, existe também um aumento na massa viva do planeta, por causa da maior quantidade de fotossíntese sendo realizada. Mais à frente isso será discutido.

    


            Não, a afirmação acima não é algo saindo da boca de um fanático, é a simples e pura verdade. O problema é que como existem diversas discussões sobre o assunto e controvérsias, até mesmo esse fato acaba sendo vítima da má interpretação fora do campo acadêmico. O planeta hoje se encontra em uma acelerada tendência de aquecimento. O controverso debate que existe é sobre a real existência de interferência humana como a principal causa desse atual processo de aquecimento - o qual se mostra anormalmente acelerado -, fazendo com que esse se torne mais potente do que o normal e impondo riscos significativos para o nosso ecossistema terrestre. Existem também controversas quanto ao futuro dessa tendência atual de aquecimento e as consequências da mesma sobre o planeta.

             As mudanças climáticas no planeta são normais, e seguem ciclos geológicos muito bem estabelecidos (pelos menos em um quadro geral). Aquecimento e resfriamentos globais sempre ocorreram. Nesse cenário, temos três principais fatores que causam as mudanças climáticas no nosso planeta, sendo eles:

1. INFLUÊNCIA SOLAR

          Como já deixado bem claro, o Sol é o nosso fornecedor absoluto de aquecimento na superfície terrestre, entregando radiação solar essencialmente na forma de ultravioleta, espectro visível e um pouco na forma de infravermelho. Portanto, mudanças nessa entrega de energia pela nossa estrela pode influenciar significativamente nas condições climáticas do nosso planeta. E, nesse quesito, existem dois principais mecanismos a serem destacados: geometria de órbita da Terra e atividade solar.

GEOMETRIA DE ÓRBITA

           No primeiro caso, temos a excentricidade, a obliquidade e a precessão do nosso planeta gerando substanciais, mas graduais, impactos no nosso clima e sendo fundamentais para explicar as famosas Eras Glaciais. Atualmente, a Terra orbita o Sol em uma órbita praticamente circular em termos astronômicos. Mesmo ainda tecnicamente sendo uma elipse, a diferença entre distância máxima (afélio) e mínima (periélio) do Sol é de apenas 3% (5 milhões de quilômetros). Porém, em um ciclo de aproximadamente 100 mil anos, essa órbita se torna ainda mais elíptica, gerando momentos de grande afastamento e aproximação solar e, com isso, resultando em um periélio com 20 a 30% mais insolação do que o afélio. Isso, por si só, já garante um clima totalmente diferente do que conhecemos hoje.

Visão exagerada das variações de excentricidade que a órbita do nosso planeta ao redor do Sol sofre

            A Terra, como todos sabem, é inclinada em sua rotação sobre o próprio eixo em relação ao plano do Sol. Essa inclinação, porém, varia entre 22,1 e 24,5°, durante um ciclo completo em torno de 40 mil anos. Devido a essa variação de inclinação, a quantidade de energia solar que incide no hemisfério Sul e Norte também variam, resultando em estações mais ou menos quentes. Quando a inclinação é máxima, temos um inverno mais frio e um verão mais quente do que o normal. Menos inclinado, menos extremos de temperatura, e é onde se pensa que as camadas de gelo durante o verão podem durar mais nas altas latitudes. Para entender o porquê da inclinação ser um fator tão importante para o clima, sugiro a leitura do artigo  O que causa as estações do ano?

            E, por fim, temos a precessão. Aqui, o eixo de rotação se mantém na sua inclinação quase constante, mas a direção desse eixo muda em conformação com a forma geométrica de um cone, como mostrado na figura abaixo. Essa mudança na direção do eixo de rotação ocorre devido às influências gravitacionais da Lua e do Sol, e, um pouco dos outros planetas do Sistema Solar, especialmente de Júpiter (porém, esses últimos com efeitos quase sem importância). Um giro completo nesse cone imaginário acontece a cada 26 mil anos, processo o qual altera as datas do periélio e afélio e, portanto, aumenta o contraste sazonal em um hemisfério e diminui o contraste sazonal no outro. Por exemplo, se durante um ponto da precessão um hemisfério estiver apontando em direção ao Sol no periélio, esse hemisfério estará apontando na direção contrária do Sol no afélio, gerando diferenças mais extremas no clima.

Aqui temos representados a variação de inclinação e a precessão da Terra; para melhor visualizar e entender o processo de precessão, basta imaginar um peão em rotação (a): à medida que a energia cinética de rotação vai diminuindo, a força peso gera um torque que força o eixo de rotação a mudar e tender a tombar; essa força-peso atuando no peão pode ser razoavelmente traduzida como a influência do campo gravitacional do Sol e da Lua sobre a Terra em seu movimento de rotação no próprio eixo

          Juntando todos esses parâmetros, conseguimos estabelecer uma relação bem clara entre as eras de grande resfriamento do planeta (Eras Glaciais) e posterior aquecimento (Eras Interglaciais) até a normalidade média, com a geometria da órbita terrestre. Essa teoria relacionando o Sol com as grandes mudanças climáticas na Terra foi primeiro criada pelo cientista Milutin Milankovitch (1879-1958) e depois confirmada por análises no núcleo de sedimentos marinhos na década de 1970 - onde conseguiu-se determinar com precisão as variações de temperatura sofridas pelo globo nos últimos 450 mil anos, e com as mesmas se encaixando muito bem com as previsões feitas por Milankovitch.

No primeiro conjunto de gráficos, as mudanças geométricas de órbita terrestre ao longo de centenas de milhares de anos, as quais se encaixam muito bem às mudanças climáticas nas últimas centenas de milhares de anos atrás (segundo gráfico)

     ATIVIDADE SOLAR

            A intensidade energética do Sol não é a mesma sempre e muda em padrões parcialmente bem entendidos, com o principal deles sendo um ciclo de 11 anos. O aumento da atividade solar inclui uma elevação nas emissões de raios-X e ultravioleta, e de partículas altamente energéticas, provocando dramáticos efeitos na atmosfera superior da Terra, e afetando tanto a temperatura quanto a densidade do ar nessas altitudes. Essas atividades solares possuem origem de fenômenos magnéticos no Sol.

          Mudanças na intensidade solar podem também contribuir em mudanças cíclicas no clima do nosso planeta como um todo. Acredita-se que as variações na quantidade de manchas solares que ocorrem periodicamente na superfície do Sol possam interferir significativamente no balanço energético associado aos mecanismos de aquecimento e resfriamento da Terra. E existem evidências bastante sugestivas.

         Durante um período que se estendeu de 1645 a 1723, a Europa sofreu um resfriamento mais do que incomum, o qual não tinha sido visto desde a última Era do Gelo. E esse período, conhecido como Pequena Era do Gelo, coincidiu com uma quantidade muito pequena de manchas solares (Maunder Minimum). Além disso, um período de significativo aquecimento na Europa, se estendendo por mais de 100 anos a partir de 1050, foi iniciado com um aumento na atividade das manchas solares (aliado com um aumento das atividades vulcânicas). Porém, é válido mencionar que as manchas solares nem sempre estão intimamente ligadas à produção energética do Sol.

          O ciclo solar mais bem definido dura em torno de 11 anos, mas existem também ciclos já observados de 22 e 720 anos. Recentemente, evidências apontam para um ciclo regular durando 125 anos de aquecimento e resfriamento nas temperaturas da superfície terrestre, o qual pode ser fruto de um ciclo também de 125 anos de manchas solares.

         Apesar disso, os efeitos da atividade solar sobre o clima geral da Terra permanecem no campo teórico de desenvolvimento, e mais análises precisam ser feitas através de satélites para confirmar as evidências. Existem, porém, cientistas contrários à ideia de interferência humana nas mudanças climáticas atuais que possuem extrema confiança de que o Sol é o verdadeiro responsável nessa história, apesar dos dados astronômicos hoje disponíveis contradizerem tal ideia.


2. COMPOSIÇÃO QUÍMICA DA ATMOSFERA

          Esse é um fator já discutido, e está associado à intensidade do efeito estufa ligado à composição de gases e sua concentração na atmosfera. Quanto mais gases estufas, maior tende a ser o aprisionamento de calor e, consequentemente, maior tende a ser a temperatura média. Aliás, o dióxido de carbono é muito provavelmente (restam poucas dúvidas) o agente majoritário de regulação dos ciclos glaciais-interglaciais disparados pela geometria de órbita da Terra.


3. ALBEDO

         Também já discutido, é a capacidade reflexiva da superfície/atmosfera terrestre. Quanto maior a reflexão de radiação solar chegando do Sol, maior será o resfriamento, por impedir que os corpos absorvam essa energia e se aqueçam. Nas eras glaciais, por exemplo, as camadas de gelo se mantêm em grande expansão por causa também da ajuda de uma maior reflexão radiativa oriunda do próprio gelo se formando, ou seja, é um processo que auto se alimenta.


          .A conjuntura desses fatores regula as variações globais de temperatura, com a força de cada um deles mudando de acordo com a escala de tempo analisada e podendo ser exacerbados frente a um evento raro (grandes impactos de asteroides ou gigantescas atividades vulcânicas, por exemplo). E, hoje, o aquecimento global observado está sendo amplificado por algum desses fatores, sendo a maior produção de gases estufa pelas atividades humanas a principal acusada e com pesadas evidências muito próximas para condená-la sem sombras de dúvida.

          Um erro comum, no entanto, é associar o aumento de temperatura global com aumento o compulsório de temperatura em qualquer local do planeta. Se estamos no meio de um processo de aquecimento global e em determinado lugar o inverno chega com mais frio do que nunca, não podemos acusar os cientistas de estarem loucos. É normal regiões ficarem pronunciadamente mais ou menos quentes do que a média global ou mesmo do que períodos locais anteriores.E esses efeitos podem ser potencializados com o aquecimento global. A exceção ocorre sobre os oceanos, porque as massas de água experimentam mudanças graduais de temperatura por causa do maior calor específico das água, prevenindo pronunciadas anomalias climáticas. Além disso, fatores como a altitude e latitude obviamente geram extremos no planeta. Mas, em uma média global, a temperaturas está subindo sim, e de forma significativamente acelerada. Lembre-se sempre: local não é global. Porém, isso fica mais válido quando estamos considerando um grande intervalo de tempo, porque as temperaturas médias podem cair em alguns anos em comparação com os anos anteriores, e isso é normal. Como mostrado no gráfico abaixo, existem quedas e ascensões, mas a tendência geral é de um aquecimento acelerado do globo.


             Desde 1880, a temperatura da superfície terrestre tem aumentando em um passo médio de 0,07°C a cada 10 anos, em um acumulado final de 0.95°C até o ano passado (2016). Ao longo desse período de 136 anos, as temperaturas continentais aumentaram mais rápido do que as temperaturas oceânicas por década (0,10°C e 0,06°C, respectivamente). O último ano com temperaturas mais baixas do que a média do século 20 foi em 1976, com contínuo e pronunciado crescimento desde então.
   

           À medida que a comunidade internacional começou a enfatizar a importância das mudanças climáticas como um dos mais críticos desafios que a humanidade já enfrentou, a partir de estudos cada vez crescentes sobre a questão, diversas forças políticas surgiram para dar corpo a essas preocupações. O primeiro grande impacto veio com a criação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em 1988, projeto o qual se tornou o coração das discussões sobre o aquecimento global, suas causas e consequências.

          O IPCC foi criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial para estudar os fenômenos relacionados às mudanças climáticas. O Painel reúne 2.500 renomados cientistas de mais de 130 países, sendo, atualmente, dirigido pelo indiano Rajendra Pachauri, o IPCC faz relatórios com base na literatura técnico-científica sobre as mudanças do clima (AR - Assessment Reports) e estuda os efeitos das alterações climáticas, subsidiando as Partes da Convenção.

           Em 1992, como consequência do IPCC, foi criado a Convenção-Quadro sobre o Clima, no primeiro grande reconhecimento político e público para a questão climática. A partir dessa data, o aquecimento global se tornou um dos focos das discussões internacionais e a interferência humana foi sendo cada vez mais vista e evidenciada como a principal força acelerando as mudanças climáticas. Com isso, em 1997, acionado pela Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, criada em 1994), surge a primeira ação internacional para uma efetiva resolução prática de prevenção ao aquecimento global supostamente acelerado pelas atividades humanas: o protocolo de Kyoto, realizado em Kyoto, Japão, no dia 11 de Dezembro.

           O Protocolo de Kyoto veio para transformar incentivos e conscientizações políticas sobre as mudanças climáticas em ações práticas, na forma de um acordo histórico firmado entre várias nações industrializadas do mundo para a redução da emissão de 6 gases do efeito estufa:

• Dióxido de carbono (CO2);
• Metano (CH4);
• Óxido nitroso (N2O);
• Hidrofluorcarbonos (HFCs);
• Perfluorocarbonos (PFCs);
• Hexafluoreto de enxofre (SF6)

            O protocolo entrou em vigor em 16 de Fevereiro de 2005, com 184 Partes da Convenção tendo-o ratificado. No acordo, foi reconhecido que os países desenvolvidos eram os principais responsáveis pelo atual nível de emissão de gases estufas na atmosfera, como resultado de mais de 150 anos de atividades industriais, e, por causa disso, seria necessário que os mesmos suportassem um pesado fardo de ações com o objetivo de reduzi-las. O nível de redução global visado era em torno de 5% daquele medido em 1990, durante o período entre 2008 e 2012, em um esforço conjunto de 37 países industrializados e a comunidade Europeia.

            Em 2006, antes dos esforços firmados pelo Protocolo de Kyoto serem acionados, outro impactante evento ocorreu: a apresentação do documentário Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth). Dirigido por Davis Guggenheim, o documentário segue as campanhas realizadas pelo ex-Vice-Presidente e ex-candidato à Presidência dos EUA, Al Gore, de conscientização sobre o problema do aquecimento global e o papel da interferência humana sobre o mesmo, onde as grandes emissões de gases estufa, especialmente de dióxido de carbono, estariam impondo graves riscos para a humanidade. Gerando grande alcance no mundo inteiro, o documentário ganhou diversos prêmios, e, inclusive, foi responsável por garantir um Prêmio Nobel da Paz ao Al Gore, em 2007. Além disso, passou a ser uma referência científica internacional, entrando até mesmo como parte do currículo de diversas instituições de ensino. Com o grande sucesso, uma sequência do documentário foi realizada e está atualmente em cartaz nos cinemas (An Inconvenient Sequel: Truth to Power/Uma Inconveniente Sequência: Verdade ao Poder). Porém, existem erros científicos no documentário, os quais serão apontados mais adiante.

           Se tornando cada vez mais consolidados os perigos previstos pelo aquecimento global e a quase certa ação humana majoritária por trás desse processo, boa parte das publicações científicas no decorrer do século 21 começaram a adereçar a questão, e a população em geral começou a ficar cada vez mais familiarizada com o assunto. Mas enquanto grupos ambientalistas e políticos hasteavam cada vez mais alto a bandeira de culpa humana em relação à mudanças climáticas, grupos contrários a essa ideia também cresceram, incluindo diversos cientistas. Em 2007, um polêmico documentário, praticamente em resposta ao documentário de Al Gore, chamado de A Farsa do Aquecimento Global (The Great Global Warming Swindle, no original em inglês), foi transmitido pelo Channel 4. Realizado pelo produtor televisivo Martin Durkin, o documentário reúne entrevistas à cientistas, em grande parte céticos às conclusões do IPCC, jogando afirmações de que a culpabilização antropogênica sobre o aquecimento global é infundada, e que estaria sendo guiada por interesses políticos e econômicos. Vários erros foram apontados no conteúdo do documentário e a comunidade científica acusou o mesmo de expor desinformações e mentiras à população.

          Todas as discussões internacionais sobre o tópico terminaram, finalmente, no segundo marco histórico relativo às políticas de mudanças climáticas: o Acordo de Paris, firmado no final de 2015. Depois de 2 semanas de negociação, um acordo foi alcançado na COP21, a conferência internacional para a discussão e planejamento sobre o grave problema das mudança climáticas. Pela primeira vez na história, todos os líderes participantes concordaram com a decisão final. Houve muita comemoração. Entre os 197 países do encontro, apenas 2 se opuseram ao acordo, com o resto se comprometendo às metas traçadas, as quais, resumidas do acordo final, incluem:

1. Alcançar um balanço significativo entre a emissão de gases estufas e sua fixação (maior reflorestamento, por exemplo) até a metade desse século;

2. Não permitir que o aquecimento global se aproxime da casa dos 2°C, com um máximo de 1,5°C sendo o ideal;

3. Revisão das ações sendo tomadas para alcançar as metas a cada 5 anos;

4. Investimento de 100 bilhões de dólares por ano nos países mais pobre e em desenvolvimento a partir de 2020, além do compromisso de manter os investimentos no futuro.

           O acordo final foi firmado tanto em base legal quanto na vontade voluntária de cada país. Isso inclusive gerou críticas, já que muitos países podem fugir do acordo ou não segui-las com rigor, principalmente países em desenvolvimento como a China, Brasil, Índia e Rússia, responsáveis por grande parte das emissões de gases estufas no planeta, mas cobertos com menos responsabilidades e pressões. Aliás, recentemente os EUA se retiraram do acordo, em um anúncio realizado pelo Presidente Donald Trump, sob a alegação de que o mesmo é injusto com o país e que geraria graves danos econômicos, resultando em inúmeros desempregos:

          "...Em ordem de cumprir meu solene dever de proteger a América e seus cidadãos, os EUA irão se retirar do Acordo Climático de Paris, mas iniciando também as negociações para reentrar no Acordo ou em uma nova transação inteiramente diferente sob termos mais justos para o nosso país, seus negócios, seus trabalhadores, seu povo, seus contribuintes. Assim, estamos saindo do acordo firmado. Mas iremos iniciar as negociações, e nós iremos ver se podemos fazer um acordo que seja justo. E se nós conseguirmos, será ótimo. Se não conseguirmos, tudo bem." - Trump, 1° de Junho de 2017

         A decisão do governo norte-americano, o qual se encontra atualmente em grande divisão e instabilidade, gerou criticismo por todo o mundo, especialmente pela União Europeia, incluindo também diversos setores dentro dos EUA.

         Indo em direção contrária aos EUA, o Ministro do Meio Ambiente da França, Nicolas Hulot, este mês, anunciou um plano para banir todos os veículos movidos à combustíveis derivados do petróleo no ano de 2040, como parte do Acordo de Paris. Hulot também anunciou que a França não mais usaria carvão mineral para a geração de eletricidade após o ano de 2022 e que acima de €4 bilhões será investido para o desenvolvimento de tecnologias que otimizem a eficiência energética.
     


            Já deixamos claro que o aquecimento global é real, e agora entramos no ponto de incertezas e controvérsias: o papel das atividades humanas /antropogênicas nesse processo e o quão este pode se escalar no futuro. Segundo o gigantesco consenso científico, as evidências acumuladas até o momento deixam claro que as ações humanas são mais do que prováveis de serem as responsáveis pelo atual padrão acelerado de aquecimento global. De acordo com relatórios da NASA, e outros estudos de revisão (Ref.41 e 42), esse consenso alcança os 97% da comunidade científica, e onde a maioria das instituições líderes de pesquisas acadêmicas ao redor do mundo também corroboram esse consenso. De fato, não resta dúvidas de que os especialistas contrários ao consenso são a minoria, apesar de existirem críticas muitas vezes infundadas de que uma grande parte dos cientistas se opõem à teoria antropogênica das mudanças climáticas.

           No público em geral, especialmente nos EUA, muitos ainda acreditam que os cientistas discordam em grande extensão da ação antropogênica sendo decisiva no atual aquecimento global, e vários políticos, novamente com notoriedade porcentagem nos EUA, também insistem nessa ideia. Estudos recentes encontraram que apenas 12% do público norte-americano estava ciente de que o consenso fica acima de 91%, e que somente 30% e 45% dos professores de ensino básico e ensino médio, respectivamente, estavam cientes que o consenso estava acima de 80%, sendo que 31% deles apresentavam os dois lados da história aos alunos - minoria e consenso - com a mesma ênfase.

            Esses são dados são preocupantes, porque mostram que as evidências científicas não estão sendo transmitidas com um mínimo de acuracidade ao público, algo que pode ser extrapolado negativamente para diversas outras áreas de suma importância, como a saúde. É preciso deixar claro: não existe certeza absoluta quanto ao papel humano no aquecimento global, mas que a maioria esmagadora dos cientistas suportam essa teoria, por causa das inúmeras evidências favoráveis. De qualquer forma, existe uma minoria que não deve ser desprezada de cientistas que refutam essa teoria. A química e dinâmica da atmosfera é muito complexa, com vários fatores intra e extra terrestres atuando de forma não totalmente clara para nós.

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    FAVORÁVEIS QUANTO À AÇÃO HUMANA NO AQUECIMENTO GLOBAL 

          As atividades humanas, sem sombra de dúvidas, mudaram as concentrações de certos gases do efeito estufa na atmosfera desde o início da Revolução Industrial, em torno de 1750. As quantidades de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram substancialmente no ar atmosférico. O mais preocupante é o dióxido de carbono, gerado em quantidades assombrosas principalmente pela queima de combustíveis fósseis no setor industrial, energético e automotivo. A concentração global hoje desse gás já está acima de 400 partes por milhão, ultrapassando escancaradamente a média ao longo de centenas de milhares de anos atrás, como mostrado no gráfico abaixo.



           Os dados coletados por satélites e outros instrumentos de análises atuando tanto na atmosfera quanto na superfície terrestre possibilitaram nas últimas décadas a coleta de inúmeras evidências indicando um papel forte dos gases do efeito estufa no atual padrão de aquecimento global. Núcleos das camadas de gelo retirados da Groenlândia, Antártica e montanhas glaciais mostram que o clima na Terra responde às mudanças nos níveis de gás do efeito estufa. Evidências de períodos antigos também podem ser encontrados nos anéis de árvores, sedimentos oceânicos, recifes de corais e camadas sedimentares de rochas. As evidências da paleoclimatologia revelam que o atual aquecimento global está ocorrendo em torno de 10 vezes mais rápido do que a média de aquecimento pós-era glacial.

           Estima-se que 90% do aquecimento global observado desde 1900 e que, virtualmente, 100% daquele observado desde a década de 1970 seja de responsabilidade das ações antropogênicas.  Embora muitos contrários à ação do homem nesse aquecimento acelerado do globo só mencionem o dióxido de carbono, martelando que o mesmo é apenas fonte de vida, outros gases estufa frequentemente são esquecidos nessas defesas (mesmo sendo bem menos importantes no atual quadro geral). O metano, por exemplo, é uma das maiores preocupações junto ao dióxido de carbono, especialmente por causa do seu GWP várias vezes superior, o que compensa em significativa intensidade sua menor produção frente ao CO2. Abaixo, no gráfico, podemos ver que enquanto os níveis de dióxido de carbono aumentaram em 38% entre 1750 e 2009, o nível de metano aumentou em 148% no mesmo período.


            E como esses gases absorvem infravermelho em faixas emitidas pela superfície terrestre, o efeito estufa na Terra obviamente é influenciado, fato que por si só já estabelece uma potencial correlação com tendências de aquecimento. Analisando dados paleoclimáticos de centenas de anos atrás e modelos globais, fica visível que tivemos períodos no passado remoto até mais quentes do que hoje, porém a atual tendência acelerada de aquecimento é muito maior do que em qualquer outro período geológico envolvendo eventos de aquecimento no planeta. À medida que o planeta se recuperava das Eras Glaciais compreendidas no último intervalo de quase 1 milhão de anos, a temperatura global aumentou um total de 4 a 7°C, durante um período de tempo de aproximadamente 5 mil anos. Apenas no último século, as temperaturas no planeta aumentaram 0,7°C, algo em torno de 10 vezes mais rápido do que a média das Eras Interglaciais. E desde 1850 a temperatura global média aumentou 0,9°C, com mais da metade desse aumento - em torno de 0,5°C - ocorrendo a partir de 1970. Modelos preveem que a Terra irá se aquecer entre 2 e 6°C no próximo século, algo 20 vezes mais rápido do que a média geológica. De fato, é um ritmo de aquecimento extremamente anormal. E recentes consequências dessa abrupta inclinação de curva são várias, onde podemos citar:

- A taxa de aumento do nível dos mares nas últimas duas décadas é o dobro daquela vista no último século;
- Nos últimos 35 anos, 16 dos 17 anos mais quentes ocorreram desde 2001, sendo que 8 dos 12 meses de 2016 foram os mais quentes já registrados (na média, a temperatura do período entre Janeiro e Setembro foi de 1.2°C acima daquelas registradas em períodos pré-industriais. O El Niño teve papel no recorde de temperatura de 2016 e de 2015, mas isso conta por apenas 0.2°C);
- Dados da NASA mostram que a Groenlândia perdeu de 150 a 250 quilômetros cúbicos de gelo por ano entre 2002 e 2006, e que a Antártica perdeu cerca de 152 quilômetros cúbicos de gelo entre 2002 e 2005;
- As geleiras vem retraindo em quase todos os lugares ao redor do mundo - incluindo nos Alpes, Himalaias, Andes, Rockies, Alasca e África;
- O número de eventos ligados à altas temperaturas nos EUA aumentaram, enquanto o número de eventos ligados à baixas temperaturas diminuíram desde 1950. O território norte-americano também testemunhou um aumento no número de intensos eventos de chuva

             Como já discutido anteriormente, existem diversos fatores que podem contribuir para as variações de temperatura global, desde a geometria de órbita da Terra até as atividades vulcânicas. Apesar delas estarem continuamente atuando, a influência das mesmas é muito pequena ou ocorre muito lentamente para explicar o atual padrão de aquecimento global, de acordo com inúmeras medidas realizadas por satélites e outros métodos de análise climática. Modelos simulados que retiram a contribuição do aumento de gases estufa na atmosfera no balanço energético, ou seja, consideram primordialmente as atividades vulcânicas e atividade solar, só conseguem explicar observações das variações de temperatura global até o ano de 1950. A partir desse ponto, o ritmo de aquecimento global não pode ser explicado sem a contribuição do grande aumento de gases do efeito estufa na atmosfera.

            Eventos naturais de significativo impacto no clima recente do planeta são relacionados com as atividades vulcânicas, porém, com consequências de resfriamento. Os vulcões El Chichon, em 1982, e o Pinatubo, em 1991, jogaram enormes quantidades de gás enxofre na atmosfera, o qual foi convertido em minúsculas partículas que permaneceram na parte atmosférica superior por mais de 1 ano, refletindo a radiação solar incidente e causando sombra na superfície terrestre. Com isso, as temperaturas ao redor do globo diminuíram significativamente por 2 a 3 anos.

            Alguns citam que os vulcões também emitem muito dióxido de carbono na atmosfera, e que isso deveria também ser levado em conta. Porém, apesar das atividades vulcânicas estarem atuando ainda no mundo inteiro, as quantidades médias emitidas de gás carbônico pelos vulcões ficam entre 130 e 230 milhões de toneladas por ano. Pode parecer muito, mas as quantidades emitidas pelos humanos através da queima de combustíveis fósseis é cerca de 100 vezes maior, ficando em torno de 26 bilhões de toneladas anualmente e completamente obscurecendo a contribuição vulcânica.

             Quanto à atividade solar, já discutimos que elas podem influenciar no clima, mas as contribuições analisadas até hoje são mínimas. Entre o principal ciclo solar de 11 anos, temos um máximo e mínimo do brilho do Sol, o qual varia em aproximadamente 0,1% na média entre os dois períodos. Porém, após o último ciclo de mínimo no final de 1990, ouve uma redução de atividade solar entre 2005 e 2010. E essa redução não se encaixa com o padrão de contínuo e acelerado aquecimento que estamos observando hoje. Além disso, se o fator solar fosse realmente decisivo para o atual aquecimento global, estaríamos vendo um aumento de temperatura tanto na atmosfera superior (estratosfera) quanto na atmosfera inferior (troposfera). Mas não, a estratosfera resfriou em anos recentes enquanto a troposfera e superfície terrestre se aqueceram, seguindo os modelos de aquecimento global gerados pelo efeito estufa, o qual está agindo com maior intensidade nas camadas inferiores e diminuindo a concentração de ozônio na estratosfera. O ozônio garante um maior aquecimento durante o máximo solar por absorver o UV e gerar energia térmica. A depleção do gás ozônio nas últimas décadas explicam parte do resfriamento, mas não é o suficiente. Os dois gráficos abaixo ilustram o que foi dito neste parágrafo (Fonte: NASA):



           Reunindo as evidências, podemos resumir os papeis de impacto na temperatura global de cada um desses fatores, incluindo as interferências tragas pelo fenômeno El Niño, no conjunto de gráficos abaixo (Fonte: NASA):
   

           Outra evidência mais do que importante para mostrar o quão íntimo o dióxido de carbono é em relação à temperatura média global do planeta surge quando analisamos o ciclo glacial-interglacial. Observando o gráfico abaixo, podemos ver que a concentração de dióxidos de carbono na atmosfera está ligada ao aumento de temperatura disparado pelos fatores de geometria de órbita da Terra. Esses dados foram obtidos depois da análise do núcleo de gelo na Antártica (1), onde a compactação de gelo ao longo do tempo aprisiona ar e cria camadas que acompanham a história geológica do nosso planeta há centenas de milhares de anos. Apesar do gráfico abaixo dar a impressão que as variações de temperatura coincidem perfeitamente com as variações de dióxido de carbono, este último segue a mesma tendência só que com um leve atraso. 


             Como a concentração de dióxido de carbono muda pouco depois (entre 400 e 1000 anos depois) da mudança de temperatura, céticos do aquecimento global criaram o mito de que os níveis desse gás na atmosfera não influenciam o clima e, sim, apenas respondem ao clima. Porém, esse pensamento apenas conta parte da história. Como já dito, as eras glaciais e interglaciais são disparadas pelas mudanças de geometria na órbita terrestre. No início de uma Era Glacial, esses fatores orbitais disparam um resfriamento no planeta, fazendo com que as camadas de gelo avancem em direção às altas latitudes. Nesse processo, o ciclo do carbono é profundamente afetado, as menores temperaturas no oceanos aumentam a quantidade de dióxidos de carbono dissolvido e provavelmente as atividade do fitoplâncton na superfície dos mares é aumentada, levando a um maior crescimento dessa massa fotossintetizante e consumo de mais dióxido de carbono. Tudo isso leva a uma diminuição na quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, como mostrado no gráfico acima. Com essa diminuição, menor é o efeito estufa e maior é o resfriamento. Portanto, a menor concentração desse gás é tanto consequência como provável causa do grande resfriamento visto nas Eras Glaciais! Apenas as mudanças de órbita terrestre não são suficientes para explicar as profundas mudanças climáticas nesse período. São padrões geológicos que sustentam fortemente a Teoria Antropogênica do Aquecimento Global.

          E com o período Interglacial é o mesmo. Com o aumento de temperatura global disparado pela nova disposição geométrica da órbita terrestre, os oceanos são gradualmente aquecidos, levando a uma maior liberação de dióxido de carbono dos mesmos. Com uma maior concentração desse gás na atmosfera, maior o efeito estufa, maior é o aquecimento dos oceanos, maior é a evaporação de água (aumentando ainda mais o efeito estufa) e maior a temperatura média global. Além disso, um estudo liberado nessa semana, e publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (Ref.77), mostrou que durante o período de expansão das geleiras, a quebra do solo e de rochas durante o processo leva a uma maior oxidação de pirita (dissulfeto de ferro - Fe2 -, o mais comum mineral de sulfeto) e, quando existe o descongelamento do gelo para o oceano, este acaba ficando mais ácido - 2FeS2 + 7O2 => 2Fe2+ + 4SO42- + 4H+ -, e liberando mais dióxido de carbono para a atmosfera (das rochas e carbonato dissolvido). 

            É válido mencionar também o tão comentado "hiato" ou "pausa" no aquecimento global observado desde 1998 e adereçado em um dos relatórios do IPCC. Houve, realmente, uma desaceleração no aumento da temperatura média global em comparação com o período a partir de 1951 até o presente, mas isso não significa uma desaceleração no aquecimento global. Diversos estudos realizados sobre o fenômeno mostram que houve uma redistribuição do calor em excesso da superfície para o interior dos oceanos, podendo também existir contribuições de correntes atmosféricas, atividade solar e emissões de aerossóis de fontes diversas (Ref. 58,59,60,61,62,63,64,65,66, 67,97). Essas flutuações são normais e continuam dentro da tendência da taxa de aquecimento global observada antes de 1998 a longo prazo. Muitos na mídia e grupos contrários à ação do homem nas mudanças climáticas vêm usando essas observações para afirmarem que o aquecimento global ´parou´, sendo que tais alegações são claramente incorretas. Aliás, tivemos diversos dos anos mais quentes do século 20 e 21 desde 1998, sendo os declínios mais acentuados observados presentes apenas em alguns pontos específicos, como em 2000 e 2010.

          Aliás, muitos começaram a sugerir, erroneamente, que os cientistas até pararam de usar o termo ´aquecimento global´, substituindo por ´mudanças climáticas´, por causa desse hiato. Pelo contrário, o termo ´mudanças climáticas´ (aquecimento global e suas consequências climáticas) é o mais usado na literatura científica há décadas. Porém, após o sucesso do documentário de Al Gore, em 2007, onde o termo ´aquecimento global´ foi usado exaustivamente, as pessoas e a mídia começaram a adotá-lo preferencialmente. Mas à medida que a mídia começou a reportar mais os crescentes trabalhos científicos sobre o tema, o termo ´mudanças climáticas´ voltou a ser reportado com mais frequência.

           Outro erro cometido por alguns é associar os períodos conhecidos como Pequena Era do Gelo (Little Ice Age -LIA) e Ótimo Clima Medieval (Medieval Climatic Optimum-MCO) com dois períodos de aquecimento e resfriamento globais. No MCO, evidências relatam que na Europa Medieval e partes da América do Norte entre os anos de 900 e 1300 d.C. houve um aumento da temperatura média no mesmo patamar registrado para o final do século 20. Enquanto isso, na LIA, houve uma grande diminuição nas temperaturas médias na Europa Medieval entre os anos de 1350 e 1850. Ambas as observações estão associadas à mudanças nas atividades solares e atividades vulcânicas em níveis anormalmente extremos, mas que não refletiram no quadro global como um todo. Algo similar ocorreu no período conhecido como Holoceno Médio Quente (Mid-Holoceno Warm Period), cerca de 6 mil anos atrás, onde as temperaturas no Hemisfério Norte ficaram mais quentes do que o normal no Verão. Mas isso foi gerado por mudanças na órbita da Terra, algo já previsto teoricamente.

(1) A Paleoclimatologia é fortemente dependente da análise de núcleos de gelo extraídos de regiões como a Antártica e Groenlândia. À medida que o tempo vai passando, camadas de gelo vão se acumulando nessas regiões, aprisionando bolhas de ar contendo a composição da atmosfera em diferentes períodos de tempo. Como as camadas vão se acomodando verticalmente, é possível construir uma excelente linha do tempo climatológica. Além da composição atmosférica, esses núcleos de gelo também guardam a temperatura da época nessas regiões, já que o calor flui vagarosamente nessas camadas, preservando a temperatura original (é como quando você vai fritar ou cozinhar um pedaço grande de carne congelada, e o seu interior permanece congelado mesmo após um bom tempo sob aquecimento). Assim, podemos relacionar, por exemplo, as variações de gases estufa na atmosfera com as variações de temperatura. Com esses dados, unidos com outras fontes de análise (fósseis, camadas de solo, ciclos orbitais terrestres, etc.), conseguimos ter uma boa ideia de como o clima na Terra vem mudando ao longo das eras.


     EFEITOS DO ATUAL RITMO DE AQUECIMENTO GLOBAL PARA O FUTURO

            Como a atmosfera é algo muito complexo e dinâmico, produzir modelos de simulação para predizer o seu comportamento futuro ainda é um grande desafio para o campo da climatologia. Para se ter uma ideia, ainda estamos desenvolvendo sistemas de análise objetivando prever detalhadamente o tempo (meteorologia) dentro de 48 horas com uma precisão em torno de 80%. Apesar dessas limitações, modelos computacionais de simulação podem dar um ideia geral do que pode acontecer com o clima do planeta caso os principais fatores afetando sua variabilidade sejam levados em conta, sob uma base teórica embasada em leis fundamentais da física - conservação de energia, massa e momento.

            De acordo com esses modelos teóricos, se o aquecimento global continuar nesse ritmo e as emissões de gases estufas não forem reduzidas, até o final do século 21 a temperatura média global pode subir de 2 a 6°C. Inclusive, se os humanos deixassem de emitir de imediato gases do efeito estufa, o mundo se aqueceria em pelo menos 0,3ºC até o final deste século. Como mencionado, existem incertezas de como fatores como as nuvens, massas oceânicas e vapor d´água irão reagir - amplificando ou suavizando o aquecimento global -, mas de acordo com os cenários mais prováveis, teremos como principais consequências:

Mudanças Climáticas bruscas: Com temperaturas cada vez mais quentes, ondas mais letais de calor e também mais frequentes irão abater diversas regiões do planeta. Além disso, tempestades, inundações e secas serão mais severas com as drásticas mudanças de precipitação. E quando os oceanos começarem a realmente responder às mudanças de temperatura (lembre-se, as massas de água se aquecem ou resfriam mais lentamente do que o restante da superfície terrestre), furacões, por exemplo, podem aumentar de intensidade, entre outros eventos naturais desastrosos.

          E a situação de aquecimento nos oceanos parece ser pior do que o imaginado. Um estudo publicado este ano na Science (Ref.47) revelou que sistemas mais acurados de medição da temperatura da superfície dos oceanos mostraram que os dados antes computados estavam subestimando o real valor de aquecimento. Anteriormente, os sistemas mais antigos forneciam um aumento de 0,07ºC por década. Agora, esse aquecimento é considerado ser de 0,12°C por década nos últimos 19 anos, uma grande e preocupante diferença. Esse achado também reforça as explicações por trás do "hiato" do aquecimento global entre 1998-2015.

          Alguns gostam de citar que o aumento do dióxido de carbono na atmosfera pode até ajudar as lavouras, ao oferecer mais substrato para a fotossíntese e, assim, aumentar o crescimento das plantas. Apesar disso ser, a princípio, verdade, um estudo recente na Nature (Ref.48) mostrou que a intensificação das secas tragas pelo aquecimento global faz com que a maior disponibilidade de gás carbônico para as plantas tenha seu efeito benéfico positivo zerado, e gerando grandes perdas nas plantações. O estudo foi realizado com simulações em plantações de soja.

         E enquanto as secas causam prejuízo de um lado, mudanças nos padrões pluviométricos podem trazer prejuízos do outro por causa do aumento excessivo de chuvas em certos períodos ou regiões. Isso pode levar, por exemplo, a uma maior lixiviação do solo e deposição de compostos nitrogenados nas águas de rios e mares, gerando graves problemas de eutrofização e profundo desequilíbrio ecológico, como indicam estudos recentes (Ref.79).

Aumento dos níveis dos mares: Com o derretimento acelerado das camadas de gelo nos Polos e na Groenlândia, o IPCC estima que até 2099 os níveis dos mares irão aumentar, no mínimo, entre 0,18 e 0,59 metro. Caso o ritmo de derretimento seja maior na Groenlândia e na Antártica, os níveis dos mares podem aumentar ainda mais até o final deste século. Isso pode significar  o desaparecimento de ilhas, maior erosão das costas marinhas e alagamentos mais frequentes das áreas litorâneas. E isso é preocupante, considerando que em torno de 10% da população mundial vive nessas áreas mais vulneráveis.

          Dados recentes (Ref.49 e 50) mostram que no atual ritmo das mudanças climáticas, é previsto que, até 2100, 2 bilhões de pessoas - ou quase um quinto da população - se tornaram refugiadas devido ao aumento no nível dos oceanos. O número foi obtido a partir de um estudo realizado na Universidade de Cornell, EUA, e é extrapolado do número de refugiados esperados para 2060: 1,4 bilhões, em uma população total acima de 9 bilhões de pessoas no mundo. Para 2100, é esperado que a população total some algo em torno de 11 bilhões de pessoas.

          Aumentando também a área coberta pelos oceanos, aumenta-se também o alcance de perigosas ondas, especialmente aquelas geradas durante tempestades, o que impõe ainda maior risco em áreas urbanas localizadas em regiões costeiras.

           Somando-se a tudo isso teremos um mundo muito mais faminto, menos espaço para a agricultura - devido ao avanço dos oceanos nos continentes -, e muito mais pessoas lutando por menos espaço de terra.

Doenças tropicais: O aumento de temperatura pode trazer indesejáveis visitantes à diversas áreas. A porção superior do hemisfério norte que normalmente vive livre de vetores e parasitas encontrados nas regiões mais quentes começam a se tornar mais acolhedoras para diversas espécies, principalmente mosquitos. Malária, dengue, leishmaniose, entre outros, seriam muito mais comuns em países como Inglaterra, Noruega, Canadá e Japão.

           E o pior disso é que este fenômeno atingiria uma população que não está acostumada com essas enfermidades, o que seria um baque tremendo na saúde pública desses lugares, primeiro por causa da falta de estrutura para tratá-las e, segundo, pela falta de imunidade adquirida normalmente por gerações de exposição aos parasitas.

           E não seriam apenas as regiões frias a sofrerem com as doenças. Com o aumento médio das temperaturas, as estações do ano seriam todas mais quentes, o que permitiria uma maior ação dos vetores durante maior parte do ano de forma geral no globo.

Impacto sobre os ecossistemas: Em um processo já ocorrendo com significativa intensidade, o bioma em praticamente todas as regiões do planeta serão fortemente afetados. As bruscas mudanças no clima podem atingir perigosamente o ciclo natural de diversas espécies no globo. Ecossistemas inteiros podem não conseguir se adaptar em um curto espaço de tempo, levando à perdas irreparáveis. Até mesmo a já citada invasão de espécies em diversas áreas causaria desastrosos desequilíbrios ambientais. O IPCC estima que entre 20 e 30% das espécies de plantas e animais estarão em risco de extinção se as temperaturas subirem mais do que 1,5-2,5°C.

             Um exemplo recente que ilustra bem essa situação é o que está acontecendo com a Grande Barreira de Corais, na Austrália, a qual sofreu, em 2016, sua pior destruição já registrada. Cerca de 67% dos corais na parte norte da região morreram, segundo um estudo da ARC Centre of Excellence for Coral Reef Studies (Ref.51). Na parte central, as perdas foram de 6%, enquanto na parte sul os corais ainda se encontram saudáveis.

             A morte de tantos corais foi devido ao contínuo aquecimento das águas marinhas na região, algo que leva ao alvejamento dos corais. O alvejamento dos corais é quando estes expelem algas (Zooxanthellae) que vivem em seus tecidos para fora, fazendo com que fiquem brancos, já que os pigmentos coloridos estão nessas algas. O coral não morre nesse processo, mas fica suscetível à morte devido ao maior estresse e insuficiência de alimentos, já que essas algas o produziam em grande parte através da fotossíntese. Além disso, a própria maior temperatura já é um fator de estresse e danos.

           Os cientistas dizem que é possível uma recuperação nas áreas de grande perda de corais, mas apenas se a tendência do aquecimento global for freada. Em Fevereiro, Março e Abril de 2016, as temperaturas no mar em volta da Barreira bateram um novo recorde, estando, no mínimo, 1°C mais elevadas.

           A Grande Barreira de Corais é uma imensa faixa de corais que se estende por 2,2 mil quilômetros de comprimento e com largura variando entre 30 e 740 quilômetros. Podendo ser vista do Espaço, ela suporta uma gigantesca biodiversidade e foi eleita um dos patrimônios mundiais da humanidade em 1981. Não só a fauna e a flora ficam em grande ameaça na região com a sua degradação, mas também o turismo que a Barreira gera, o qual movimenta cerca de 8 bilhões de dólares por ano.


    CONTRÁRIOS À AÇÃO ANTROPOLÓGICA NO AQUECIMENTO GLOBAL


             Enquanto a interferência humana sem sombra de dúvidas gera grandes impactos no microclima, ou seja, interferem com o clima em pontos específicos do planeta, através da urbanização e outros fatores que modificam aspectos geográficos de uma região (gerando Ilhas de Calor, por exemplo), dizer que nossas ações desde a Revolução Industrial estão sendo determinantes para a modificação do clima global não encontraria base em sólidas evidências, restando ainda dúvidas quanto ao real poder de interferência climática do dióxido de carbono.        

           A parametrização dos modelos climáticos usados pelo IPCC e afins é outro grande problema, feita com algoritmos físico-estatísticos que dependendo da intuição física do modelador e, portanto, podem não representam a realidade física, especialmente de algo tão complexo quanto o dinâmica climática. Em um exemplo claro, a temperatura global tende a aumentar principalmente com a presença de nuvens estratiformes (forma de “camadas horizontais”) na alta troposfera. Essas nuvens altas (tipo “cirro”) são mais tênues, constituídas, em parte, por cristais de gelo, e tendem a aquecer a Terra, porque permitem a passagem da radiação solar mas absorvem fortemente o infravermelho que escaparia para o Espaço, ou seja, nuvens cirro intensificam o efeito-estufa. Por outro lado, nuvens baixas (tipo “estrato”), mais espessas, tendem a esfriá-lo, pois aumentam o albedo planetário. Se um modelo tem tendência particular de produzir mais nuvens cirro, o aquecimento é amplificado (“feedback” positivo) para um dado forçamento radiativo. Para ilustrar, o modelo do Serviço Meteorológico Inglês inicialmente previu um aumento superior a 5°C para o dobro de CO2. Porém, estudos já relataram que, apenas mudando as propriedades ópticas das nuvens estratiformes, foi possível a redução do aquecimento para menos de 2°C, ou seja, uma redução de 60%!

          Seguindo no caminho desses modelos deficientes, o transporte de calor sensível pelas correntes oceânicas para regiões fora dos trópicos também é outro processo físico parametrizado, e mal resolvido. O calor transportado para o Ártico, por exemplo, aumenta as temperaturas da superfície do Mar da Noruega e, como o efeito-estufa é fraco nessas regiões devido à baixa concentração de vapor d´água, a emissão de infravermelho para o espaço aumenta, e o sistema terra-atmosfera-oceano, como um todo, perde mais energia para o espaço exterior. Em 2006, utilizando dados de Reanálises (NCEP), pesquisadores mostraram que, atualmente, a Escandinávia está perdendo 20 Wm-2 a mais, em média, do que perdia há 50 anos.

            Além dos modelos de simulação atuais serem muito limitados para previsões futuras englobando décadas e análises minimamente acuradas de todos os fatores específicos influenciando o clima global, várias tendências apresentadas pelo relatório do IPCC e outros estudos não fazem muito sentido. Desvios de temperatura do ar para o Globo, com relação à média do período
1961-1990, aumentaram cerca de 0,6°C desde o ano de 1850. Vê-se que, até aproximadamente
1920 em princípio, houve apenas variabilidade anual e aparentemente não ocorreu aumento
expressivo de temperatura num período extenso, embora haja relatos de ondas de calor como, por
exemplo, a de 1896 nos Estados Unidos, que deixou mais de 3 mil mortos somente em Nova Iorque.
Porém, entre 1920 e 1946, o aumento global foi cerca de 0,4°C.

            No Ártico, por exemplo, em que há medições desde os anos 1880, o aumento foi cerca de 10 vezes maior nesse período, 2,7°C somente entre 1918 e 1938! Entre 1947 e 1976, houve um resfriamento de cerca de 0,2°C, não explicado pelo IPCC e, a partir de 1977, a temperatura média global aumentou cerca de 0,3°C. O próprio Painel concorda que o primeiro período de aquecimento, entre 1920 e 1946, pode ter tido causas naturais, possivelmente o aumento da produção de energia solar e a redução de albedo planetário. Antes do término da Segunda Guerra Mundial, as emissões decorrentes das ações antrópicas eram cerca de 10% das atuais e, portanto, torna-se difícil argumentar que os aumentos de temperatura, naquela época, tenham sido causados pela intensificação do efeito-estufa provocada pelo homem.


            A variabilidade natural do Clima não permite afirmar que o aquecimento global registrado nas últimas décadas seja decorrente da intensificação do efeito-estufa causada pelas atividades humanas, ou mesmo que essa tendência de aquecimento persistirá nas próximas décadas, como sugerem as projeções produzidas pelos relatórios do IPCC.

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     BALANÇO DE OPINIÕES

          Como vimos, em ambos os lados existem incertezas analíticas. Porém, é importante deixar claro o grande peso de evidências que corrobora com a ação humana sendo a principal causa do aquecimento global observado nas últimas décadas.

         Basicamente, a minoria contrária tende a acreditar que a Atividade Solar é a maior responsável por essas anomalias climáticas, enquanto o lado favorável defende a ação dos gases do efeito estufa. Além disso, os críticos tendem a desacreditar os modelos de previsão climática para os próximos 100 anos, e muitos deles acreditam que esse aquecimento global é natural e que não irá afetar substancialmente o ecossistema terrestre. Do lado majoritário, acredita-se que o aquecimento global atual irá se escalar dramaticamente, gerando danos irreparáveis no bioma terrestre caso não façamos nada para suprimir a ação antropogênica nas mudanças climáticas.

           O problema da ação da atividade solar é que as evidências que existem não dão muito suporte de que a mesma esteja causando mudanças significativas no nosso clima, especialmente nos últimos anos. Além disso, a relação entre ciclos solares normais e influência no clima global ainda está no campo das hipóteses. As diferenças de brilho observadas nos últimos ciclos de 11 anos do Sol não parecem ser suficientes para fomentarem o ritmo recente de aquecimento do planeta. Ou seja, os críticos apenas acham que os seres humanos não tem culpa nesse processo, mas não explicam satisfatoriamente o que está acontecendo.

          Além disso, mesmo que os modelos climáticos hoje sejam limitados em suas simulações e previsões, devemos ignorar os dados gerados pelos mesmos? Em termos de saúde, por exemplo, não se ignora os fatores de riscos de um paciente que tenham base científica, caso contrário você pode estar condenando o indivíduo à graves danos de saúde ou até morte. Voltando à questão climática, se você não possui mínimas provas para absolutamente refutar previsões futuras de risco, não se pode parar de investir em métodos que protejam a humanidade e o meio ambiente em geral dessas desastres projetados. Se você vai dar um pulo de mergulho em uma cachoeira e 97 pessoas dizem para não fazer isso porque existem diversas pedras perigosas em seu raso fundo, você vai pular de qualquer jeito porque 3 pessoas disseram que o fundo é grande o suficiente e sem pedras perigosas? Ou você vai entrar calmamente na água e nadar do mesmo jeito, e ainda aproveitar para dar uma analisada no fundo?

          De qualquer forma, é preciso também lembrar que existem algumas inconsistências na teoria antropogênica, especialmente quanto à questão do intervalo de anos entre 1948 e 1976, onde a produção industrial subiu muito após o período das Grandes Guerras, levando a um enorme consumo de combustíveis fósseis (cerca de 5% ao ano), produzindo enormes quantidades de gases estufas na atmosfera, mas, ao contrário do esperado, as temperaturas globais tiveram uma significativa queda dentro da tendência de aquecimento global. Porém, diferente do que os céticos costumam afirmar, existe uma hipótese muito boa que pode explicar essa tendência negativa nas temperaturas globais, e já aceita como suficiente por vários cientistas.

           Após a Segunda Guerra Mundial (>1945), a enorme queima descontrolada de combustíveis fósseis produzia grande quantidade tanto dióxidos de carbono quanto fuligem e aerossóis sulfatados coloridos, em um período de tempo muito curto. Enquanto o primeiro aquece o clima, os dois últimos podem esfriá-lo bastante, por mecanismos já explicados (formação de nuvens e reflexão solar por partículas). Nesse balanço, o resultado pode ter sido um maior resfriamento, sendo que estudos estimam uma redução de 50% no aquecimento global devido a esse fator (Ref.73). Enquanto outros fatores naturais provavelmente atuaram concomitantemente no processo de resfriamento, os aerossóis e fuligem parecem ter tido papel determinante. Na década de 1970, os EUA e outros países aprovaram leis de redução da produção de sulfatos (estes os quais causam chuva ácida e problemas de saúde), como o U.S. Clean Air Act of 1970, coincidindo com a acentuação do efeito global anos mais tarde. Porém, é difícil estimar com uma mínima precisão os níveis de aerossóis naquele período, porque, diferente dos gases estufas, essas partículas não se distribuem de forma igual na atmosfera. E é importante frisar que não existiu tendência de queda do aquecimento global, apenas temperaturas ligeiramente menores.

            Sobre essas incertezas, alguns estudos apontam falhas nos modelos usados pelo IPCC, afirmando que existe uma superestimação da ação humana no processo de aquecimento global. Um estudo de 2016 (Ref.74) mostra que levando em conta um modelo semi-empírico, e com ferramentas mais sofisticadas, as previsões de aumento médio da temperatura global seria menor do que 2°C até 2100. Isso sugere que políticas que visam deter o avanço do aquecimento global a partir de cortes nas emissões de gases estufas não precisam ser tão onerosas, com ações mais moderadas sendo suficiente para responder ao problema.

             Em outro exemplo, uma série de estudos publicados ano passado na Science e na Nature (Ref.113, 114 e 115), pesquisadores mostraram que o processo de formação de nuvens usados nos modelos de simulação climática podem estar significativamente equivocados. Acredita-se que as partículas de aerossóis raramente se formam na atmosfera sem ácido sulfúrico, exceto em certas regiões costeiras onde óxidos de iodo estão envolvidos. Essas partículas, como já mencionado, são essenciais para a formação de nuvens através do processo de nucleação. E como também já mencionado, o ácido sulfúrico oriunda do dióxido de enxofre de emissões antropogênicas e vulcânicas, e do dimetil sulfeto do bioma marinho. Porém, esses novos estudos, utilizando ambientes extremamente controlados, mostraram que as partículas ideais para o processo de nucleação também podem ser criadas através de compostos voláteis tipicamente exaladas por plantas, como o isopreno (C5H8), monoterpenos (C10H16), sesquiterpenos (C15H24) e diterpenos (C20H32). Os pesquisadores, nesse caso, usaram o mais comum deles, o a-pineno (C10H16), liberado por coníferas (pinheiros, por exemplo). Os a-pinenos, quando oxidados por radicais hidroxilas e ozônio (ambos presentes na atmosfera), logo formavam compostos oxidados, entre monômeros e dímeros, os quais, em seguida, levavam à formação de partículas. Esses resultados mostram que, no passado, antes do período industrial, onde as quantidades de ácido sulfúrico eram bem menores devido à inexistência de fontes antropogênicas de óxidos de enxofre, as quantidades de nuvens na atmosfera podiam ser muito mais abundantes do que os modelos climáticos simulam, fato este que altera bastante os cálculos de albedo e real contribuição dos gases estufas para o aquecimento do planeta.

           No final, tanto a Teoria Antropogênica do Aquecimento Global quanto os argumentos céticos em relação à mesma possuem variados graus de limitações, mas com bem mais sólidas evidências favorecendo a primeira. Uma significativa contribuição das atividades humanas para o aquecimento global é, praticamente, certa, mas qual a extensão das mesmas? É realmente o fator decisivo? A vasta maioria das evidências sugerem que sim, mas restam certas dúvidas. E as consequências? E se ocorrerem eventos inesperados na Terra nas próximas décadas? Fazer afirmações absolutas em qualquer um dos lados é desonesto, e aqui entramos em uma parte importante desse artigo: formadores de opinião.
 

           Infelizmente, grande parte da população geralmente não realiza uma pesquisa aprofundada sobre um tema de interesse, ignorando fontes confiáveis de informação e buscando a primeira coisa que aparece na frente. E se a fonte encontrada incluir celebridades ou for de rápido consumo, essa acaba sendo a escolha final. Com isso, o risco de desinformações aumenta substancialmente, principalmente em assuntos polêmicos. Para defender um ponto de vista, muitos distorcem fatos ou inventam argumentos sem nenhuma base científica.

            Para ilustrar esse problema, vamos analisar erros grosseiros tragos por três populares produções audiovisuais sobre o tema das mudanças climáticas, e mostrar o quão perigoso são as desinformações. Iniciaremos com o vídeo recente de um popular (e polêmico) canal brasileiro do YouTube, e depois daremos prosseguimento com dois documentários de alto impacto internacional.


1. Nando Moura x Ricardo Felício - Aquecimento Global - Canal Nando Moura



- Primeiro, o professor da USP, Ricardo Felício, afirma que não existiu aumento nos níveis dos mares nas últimas décadas, algo contrário à realidade. Mesmo cientistas céticos quanto à ação do homem no aquecimento global e aos modelos climáticos atuais confirmam a tendência de aumento médio dos níveis dos mares desde 1850 (Ref.83). Além disso, ele cita apenas o derretimento das geleiras como causa de possíveis subidas do nível médio dos mares ao redor do mundo, mas esquece de uma propriedade física básica: dilatação térmica. Grande parte do aumento dos níveis dos oceanos vem da expansão de volume das águas (a expansão térmica da água se inicia a partir dos 4°C) em resposta ao aquecimento global. E outra: no vídeo fica sugerido que problemas no aumento dos níveis dos mares só surgiriam caso todo o gelo da Antártica fosse derretido, por exemplo. Isso seria um ENORME problema. Mas basta 8% de gelo no conjunto Groenlândia/Antártica para problemas sérios surgirem nas regiões litorâneas, como citado neste artigo.

- O professor afirma, com toda a certeza, que o aquecimento global não possui influência das atividades humanas e que os cientistas contrários a essa ideia estão apenas seguindo uma "agenda política global". Como explorado neste artigo, existem incertezas em ambos os lados de defesa, mas com as evidências pesando bem mais a favor da Teoria Antropogênica do Aquecimento Global. Quando o Felício expressa tal absoluta certeza, é um claro sinal para o mesmo não ser levado a sério. Mesmo a NASA deixa claro as limitações e falta de consenso absoluto no meio científico sobre a real extensão da interferência humana no aquecimento global.

- Felício afirma que as perdas de gelo no Ártico e na Antártica são naturais, havendo ciclos de recuperação entre as estações do ano. Pelo contrário, já está bem registrado perdas de gelo acima do normal em ambos os Polos, sendo a única causa plausível o aquecimento global. Além disso, outra evidência ainda mais forte é o derretimento acelerado das geleiras menos massivas ao redor do mundo (as quais respondem mais rápido ao aquecimento por possuírem uma superfície de contato muito maior), encontradas em regiões de alta altitude (montanhosas). Porém, ele não as cita.

- Felício faz uma séria acusação de manipulação de dados nos bancos de trabalhos acadêmicos, sem existir prova para tal. E o maior problema é que a acusação é feita de forma mais do que sugestiva.

- Mas o erro mais grosseiro e quase criminoso é quando Felício afirma que o dióxido de carbono (CO2) não consegue absorver - "enxergar" - a radiação infravermelha emitida pelo aquecimento da superfície terrestre porque, segundo o que ele afirma, esse gás teria seu primeiro pico de absorção em uma faixa associada com a temperatura de - 80°C e a segunda somente em 400°C, ambas inexistentes na superfície da Terra! Esse foi um erro mais do que gritante. O DIÓXIDO DE CARBONO É UM GÁS DE EFEITO ESTUFA NA NOSSA ATMOSFERA. Sua faixa de absorção inclui vários picos de frequência emitidos pelo aquecimento da superfície terrestre. Isso não é nem motivo de discussão. Qualquer espectrômetro de infravermelho mostra isso. Qualquer estudante avançado de graduação em Química, Geologia e diversas outras áreas, sabe disso.

           Vamos às duas moléculas dos dois gases com maior efeito estufa na nossa atmosfera: água e dióxido de carbono. A molécula de água (H2O) possui um momento dipolo permanente (polos positivos e negativos de densidade eletrônica), com um puro e forte espectro de rotação começando em cerca de 25 micrômetros (μm) e se estendendo com maior e maior absorção até as ondas mais longas, como mostrado no gráfico da figura abaixo. Ela também possui uma banda de rotação vibracional para um modo de torção ao redor de 6,3 μm, e um modo de alongamento assimétrico em 2,66 μm (esses ´modos´ são as movimentações realizadas pelos átomos ligados na molécula - no caso, três - quando energeticamente excitados). Já o dióxido de carbono (CO2), também com três átomos, possui uma forte banda em torno de 14,7 μm, a qual é muito bem definida para sua atividade de efeito estufa,  assim como um alongamento assimétrico vibracional em 4,26 μm, este o qual é menos importante. Mas como não possui um dipolo permanente, o dióxido de carbono não possui espectro rotacional em comprimentos de onda mais longos. O efeito estufa final combinado de ambas as moléculas na atmosfera, junto com outros gases estufas, será visto no Espaço como uma emissão terrestre de 217K, sendo que a temperatura dessa última estará, na verdade, em torno de 288K.


            Sério, eu tive até que voltar o vídeo nessa parte, porque é difícil de acreditar em tal baboseira dita. Apresentei o vídeo para pesquisadores no Departamento de Geologia e no Departamento de Química da UFMG, e a reação foi de igual espanto (faço graduação em Química Industrial na UFMG e passei 4 anos trabalhando como bolsista em pesquisa, possuindo fácil acesso aos pesquisadores e departamentos do campus). Mais uma vez: cuidado com as fontes de informações, pessoal, especialmente ao se pegar de um questionável canal no YouTube. E o pior é que o Felício ainda reclama por terem cortado seu financiamento de pesquisa na USP. Dica: dê uma lida em um livro básico de Espectrometria ou passe a ler mais artigos científicos na área (ou na sua própria área). Também recomendo, mais uma vez, a leitura do artigo Por que o calor vai do quente para o frio?

- Bem, continuando, Felício também não faz nenhuma menção a outro importante gás de efeito estufa: o metano (CH4). Na verdade, só faz menção ao dióxido de carbono, este o qual, apesar de ser o mais importante de longe nessa discussão em termos de emissões antropogênicas, não é o único. Bem, mas depois do escandaloso erro citado anteriormente, isso passa até batido.


2. A Grande Farsa do Aquecimento Global (The Great Global Warming Swindle, 2007)



- Primeiro de tudo, o documentário martela com absoluta certeza que as atividades humanas não possuem interferência no aquecimento global. Novamente, esses extremos de opinião em um tema tão conflitante e cheio de incertezas demostram um claro sinal de falta de seriedade e apego ao sensacionalismo.

- Novamente, só citam um gás do efeito estufa, o dióxido de carbono, deixando o metano, e outros, de fora.

- Afirmam que o clima está sempre mudando naturalmente na história do planeta (verdade) e que o atual aquecimento global é apenas mais uma mudança dentro do limite do natural (não é verdade). Obviamente a taxa de aquecimento está anormalmente acelerada comparada, no mínimo, com o último milênio (onde temos mais detalhes climatológicos).

- Afirmam que o principal argumento do IPCC para provar que o aquecimento global atual é causado primordialmente pelo aumento de dióxido de carbono na atmosfera seria o fato da concentração desse gás estar associada às mudanças na temperatura do planeta nos ciclos glaciais-interglaciais. Isso é outra mentira. Apesar dessa associação geológica ser outra evidência para favorecer a Teoria Antropogênica do Aquecimento Global, ela não é nem mesmo considerado uma "prova", já que ainda temos muitas dúvidas sobre processos climáticos que ocorreram há dezenas ou centenas de milhares de anos.

- Afirmam que a troposfera está aquecendo menos do que a superfície terrestre, algo totalmente fora da realidade. Já existe um claro consenso científico, e provado, de que a troposfera está seguindo o ritmo de aquecimento da superfície, e, como dito, com uma tendência contrária à estratosfera, corroborando inclusive com o aquecimento global antropogênico.

- Esse erro foi grosseiro. É afirmado no documentário que as erupções vulcânicos emitiram mais dióxido de carbono que a queima de combustíveis fósseis nas últimas décadas. Pelo contrário, a produção de dióxido de carbono é cerca de 100 vezes maior, em termos de média anual, na queima de combustíveis fósseis em comparação com a atividades vulcânicas. De fato, os responsáveis pelo documentário rapidamente reconheceram o evidente erro posteriormente (entre outros).

- Outro erro grosseiro. Afirmam que a causa principal do atual aquecimento global é devido às atividades solares. Porém, como já explorado neste artigo, não existe sequer evidências concretas de que a atividade solar gera algum efeito significativo no clima do planeta de forma global. Mudanças na geometria de órbita da Terra em relação ao Sol, sim. Além disso, observações das atividades solares nas últimas décadas não corroboram com as recentes tendências de aquecimento, e vão em sentido completamente oposto quando analisamos dados de 2007 até 2010 (apesar do documentário ter sido lançado em 2007, não sendo possível o acesso a esses últimos dados). Nesse sentido, outra afirmação sem boa base científica de evidências seria a ação dos raios cósmicos afetando fortemente a formação de nuvens no planeta. Apesar dessa possibilidade existir e ser razoável em certas condições (ar límpido, por exemplo), já que as partículas energizadas dos raios cósmicos realmente contribuem em alguma extensão para a formação de nuvens ao otimizar o processo de nucleação, o fluxo desses raios não acompanha, nem de perto, a tendência do aquecimento global, como pode ser visto no gráfico ao lado.

- Afirmam que os modelos climáticos são muito complexos e incertos para terem alguma utilidade nas projeções das mudanças climáticas. Ok, os modelos climáticos atuais são bastante limitados, mas são ferramentas úteis, sim, para fazer previsões gerais sobre o clima. Isso é óbvio.

- Afirmam que o IPCC age como um ditador, eliminando aqueles pesquisadores que mostram oposição aos dados debatidos no Painel, mas sem existir evidência nenhuma de tal coisa. Aliás, isso seria um escândalo sem precedentes e obviamente já teria sido noticiado, especialmente por envolver representantes de quase 200 países e reuniões de caráter aberto.

- No documentário é citado que as temperaturas do Ótimo Período Medieval eram superiores às vistas hoje (até 2007). Porém, essas temperaturas foram obtidas apenas na região da Europa e extrapoladas para um cenário global, isso tendo sido feito há décadas atrás. Atualizações científicas foram feitas desde então com novos resultados de pesquisa. Ou seja, os dados apresentados estavam ultrapassados.

- Um dos pesquisadores entrevistados afirma que não é preciso se preocupar com as doenças tropicais migrando para regiões de baixas latitudes, porque os vetores principais das mesmas (mosquitos) já foram testemunhados agindo em tais áreas. Ora, mas e daí? Não importa se existe uma quantidade X de mosquitos em climas desfavoráveis à sua sobrevivência. Caso as temperaturas globais médias subam, mais deles irão migrar para essas áreas, causando prejuízos enormes à saúde pública, como já discutido aqui. Realmente, não fez o mínimo sentido tal afirmação.

- Outro pesquisador que aparece no filme, Dr. Carl Wunsch, do MIT, criticou amplamente os responsáveis do documentário por terem distorcido seu ponto de vista e o enganado sobre a entrevista. Afirmou, em carta aberta (Ref.93), que a produção foi anti-educacional, imoral e extremista, gerando apenas desinformações para o público, e que quando aceitou o convite para ser entrevistado foi-lhe dado a entender que a discussão seria uma espécie de balanço dos dois lados da história e análise das incertezas. Aliás, outro erro vergonhoso do documentário foi distorcer a fala de Wunsch para sugerir que o grande aumento recente do dióxido de carbono na atmosfera não era obra das atividades humanas, e, sim, do aquecimento dos oceanos.

- Os erros são tão óbvios no material do vídeo que três versões foram lançadas do documentário. A primeira foi mostrada no Channel 4, Reino Unido, em 8 de Março de 2007. A segunda versão veio poucos dias depois do seu lançamento, no dia 12 de Março, após revisões. E, em 12 de Julho, uma terceira versão foi feita, cortando diversas partes (especialmente onde aparece o Dr. Wunsch), e foi lançada no Australian ABC Channel 2, possuindo cerca de 15 minutos a menos e resultando em uma duração total de 60 minutos.


3. Uma Inconveniente Verdade (A Inconvenient Truth, 2006)



- Novamente, vemos um discurso apaixonado que fecha os olhos para as incertezas;

- Al Gore faz referência a um novo estudo científico mostrando que, pela primeira vez, ursos-polares tinham se afogado depois de nadar longas distâncias - acima de 60 milhas - para encontrar uma superfície de gelo de apoio. Porém, nenhum artigo científico foi encontrado afirmando tal coisa, com o único relacionado indicando o caso de quatro ursos-polares que foram achados afogados após uma tempestade.

- Al Gore afirma que certas ilhas habitadas no Pacífico estavam sendo inundadas por causa do aquecimento global, mas na época não existia nenhuma evidência de evacuações de emergência do suposto problema sendo feitas.

- Al Gore afirma que o aquecimento global acabaria com um processo oceânico onde a Corrente do Golfo é carregada pelo Atlântico Norte para o Oeste da Europa. Segundo o IPCC, é muito improvável que isso vá ocorrer, e que, no máximo, essa circulação oceânica poderia ficar mais lenta.

- Citando os gráficos de dióxido de carbono relacionados com os ciclos glaciais-interglaciais - já discutidos neste artigo - Al Gore afirma que a concentração desse gás acompanha perfeitamente a variação de temperatura da Terra por um período de 650 mil anos. Apesar da conexão, isso não é verdade, sendo que o dióxido de carbono responde a essa variação de temperatura e provavelmente é um agente de feedback da mesma e essencial para o equilíbrio do ciclo.

- Apesar do recuo de grande parte das geleiras no planeta sendo provavelmente uma resposta ao aquecimento global, Al Gore afirma que o desaparecimento da neve no Monte Kilimajaro estava também diretamente associado. Porém, não é cientificamente comprovado que esse desaparecimento é primordialmente estabelecido pelas mudanças climáticas antropogênicas.

- Al Gore também afirma que o Lago Chad secou devido ao aquecimento global, sendo que não existe evidência científica suficiente para tal asserção.

- Afirma que o Furação Katrina e suas consequentes devastações em New Orleans foram causadas pelo aquecimento global. Porém, não existem evidências suficientes para tal afirmação conclusiva.


       POLUIÇÃO GERADA PELA QUEIMA DE COMBUSTÍVEIS

              Ok, vamos supor que os gases de efeito estufa emitidos pelas atividades humanas não sejam o fator principal acelerando o aquecimento global nas últimas décadas. Mesmo indo contra o vasto consenso científico e não existindo outra explicação plausível no momento para esse processo climático, será inteligente deixar tudo como está? Ora, se está vindo um asteroide enorme na nossa direção, vamos ficar de braços cruzados esperando o mesmo nos atingir só porque existem pequenas incertezas sobre a colisão quase certa? Se está existindo um aquecimento global anormal no nosso planeta, temos, sim, que acionar medidas para detê-lo e considerando que os gases estufas antropogênicos OBVIAMENTE contribuem para o aquecimento geral do planeta, por questões puramente físicas, reduzir suas emissões já é uma ótima aposta.

            Além disso, temos outro problema. Na queima descontrolada de combustíveis fósseis, especialmente de carvão mineral, existe a produção não apenas de dióxido de carbono em largas quantidades, mas também de diversos poluentes ambientais e urbanos. A poluição descomunal nos centros urbanos chineses, por exemplo, já mata 4400 pessoas todos os dias no país, segundo estatísticas recentes! Lá, assim com em diversas outras regiões do mundo, é comum as pessoas andarem de máscaras de proteção e presenciar uma densa cortina de fumaça e poluentes diversos obscurecendo fortemente a vista de várias cidades. Esses poluentes incluem material particulado, dióxido de enxofre, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e ozônio (este o qual é altamente tóxico para ser respirado). Acredita-se, que, no  mundo inteiro, a poluição do ar mata mais do que a AIDS, malária, câncer de mama ou a tuberculose.

Visão comum em Pequim, China; diversas outras cidades ao redor do mundo também já estão em situação semelhante

             Inalar partículas finas e ultrafinas de poluentes no ar, liberadas por veículos, indústrias, entre outras diversas fontes, causam danos ao aparelho respiratório, aumentando os riscos de desenvolvimento de asma, câncer de pulmão e, até mesmo, pode levar à problemas cardíacos. Aerossóis orgânicos entre essas partículas contém danosas espécies reativas oxigenadas que podem causar danos em vários órgãos. E um estudo publicado em Janeiro deste ano, na Science (Ref.104), sugere que essas partículas poluidoras podem causar danos ao cérebro, acelerando o envelhecimento cognitivo e aumentando doenças relacionadas à demência, como o Alzheimer. Caso os resultados sejam confirmados, os pesquisadores responsáveis pelo estudo estimam que cerca de 21% dos casos de demência ao redor do mundo são consequência da poluição no ar!

           Diversos modelos de carros são antigos e a falta de regularização e fiscalização suficientes no setor automotivo e industrial só piora as coisas. Carros mais modernos rodando a diesel, por exemplo, já se mostram até mais limpos do que aqueles rodando a gasolina, mas são muito pouco difundidos. Carros elétricos já estão começando a fazer parte comum do trânsito em alguns países, porém, qual é a fonte de eletricidade sendo usada? Usinas movidas a carvão mineral e devastadoras hidrelétricas que destroem vastas áreas florestais (Os carros elétricos realmente não poluem?) ?

             E até mesmo a radioatividade entra na história. Naturalmente, existem pequenos traços de urânio e tório no carvão mineral, mas que não fazem mal ao ambiente em volta, considerando as baixíssimas concentrações em relação ao todo. Mas quando o mesmo é queimado até a fuligem e cinzas, a concentração dos dois elementos é aumentada em mais de 10 vezes a original (já que a matéria gera gás e vapor d´água quando queimada, com o resto sólido guardando as mesmas quantidades radioativas iniciais). O ambiente em volta de uma usina termoelétrica movida com este carvão, em um raio de 0.8 a 1.6 quilômetros, está sob sério risco de séria contaminação. Estudos
recentes mostraram que as pessoas que vivem próximas dessas usinas estão ingerindo
a mesma quantidade de radiação de locais próximos à uma usina nuclear. E o nível radioativo
da água de resfriamento das usinas nucleares é o mesmo ao redor das de carvão (A radioatividade do carvão mineral)! Isso sem contar que o carvão mineral geralmente possui enormes quantidades de enxofre e nitrogênio em sua estrutura, e quando queimado libera ambos os elementos oxidados na atmosfera, gerando ácidos sulfúrico e nítrico que promovem as danosas chuvas ácidas e outras formas de poluição.

Dióxido de carbono é o que menos preocupa saindo desse fumaça toda

              Um outro ponto importante que deve ser destacado é que a necessidade de substituição do petróleo como fonte de energia não é apenas desejável sob o ponto de vista ambiental.  O petróleo é uma complexa mistura de hidrocarbonetos (compostos constituídos por carbono e hidrogênio), formados quando a biomassa morta de plantas, animais e outros seres vivos foi soterrada há milhões de anos e exposta a pressões e temperaturas elevadíssimas nas camadas mais profundas do solo. Nesse sistema, a matéria orgânica sofre modificações, químicas e físicas, o que dá origem a uma massa riquíssima em carbono e hidrogênio, constituída de diferentes estruturas moleculares. Além da geração de energia, existem frações do petróleo que são de extrema importância como matéria- prima para a indústria química (a mistura complexa de hidrocarbonetos nos fornece a matéria prima para a preparação de solventes diversos, asfalto, quase todos os plásticos que conhecemos, polímeros essenciais, parafina, reagentes diversos, remédios, borrachas, óleos lubrificantes, entre outros). Ao contrário do setor energético, ainda não há alternativas economicamente viáveis para a substituição do petróleo como insumo industrial. O petróleo é um produto valioso demais para continuar sendo queimado em motores! Em menor escala, algo similar pode ser dito em relação ao carvão mineral.

              E não termina aqui. Apesar de muitos martelarem que o dióxido de carbono é ´vida´, e que o seu excesso na atmosfera é bom para todo mundo, sempre esquecem-se, ou preferem deixar de lado, outro problema sendo há muito tempo bastante discutido junto ao aquecimento global: o aumento de acidez dos oceanos. Com o aumento desse gás na atmosfera, maior é a geração de ácido carbônico nas águas oceânicas, diminuindo o pH das mesmas e trazendo graves consequências para o ecossistema ali presente. Para saber mais detalhadamente sobre esse assunto, acesse o artigo Gás Carbônico e Acidez dos Mares.



     O MEIO AMBIENTE ESTÁ PEDINDO SOCORRO

           E saindo dos danos e prejuízos diretos tragos pela queima de combustíveis fósseis e excesso de outras fontes orgânicas (biodiesel, carvão vegetal, etanol de cana, etc.), temos os danos indiretos, até mais graves. Para a extração e tratamento de petróleo, gás natural e carvão mineral muitos danos acabam sendo causados, seja nos oceanos (vazamentos, por exemplo), seja no ecossistema terrestre. Até pouco tempo atrás, no Ártico, as explorações petrolíferas na região costumavam usar violentas explosões debaixo d´água para sensibilizar os equipamentos de medição geológica na busca por locais de perfuração. As explosões geram ondas sonoras perigosas que causam prejuízos no frágil ecossistema ali. Felizmente a Shell, uma das mais atuantes nesse quesito, resolveu parar recentemente com a prática no Ártico (Explosões no Ártico).

           Voltando o carvão mineral, esse é ainda mais terrível do que parece. Na sua mineração, vastas áreas naturais são devastadas, é produzida largas quantidades de metano direto para a atmosfera e gera um grande fluxo de resíduos ácidos que contaminam rios e outros ambientes. Não é à toa que o mesmo é amplamente conhecido por ser o combustível fóssil mais sujo. Do outro lado, o gás natural, mesmo sendo o mais limpo de todos (sua combustão só gera, praticamente, água e dióxido de carbono), impõe sérios riscos por causa de uma das formas mais usadas para a  sua extração de depósitos naturais, conhecida como "Fracking". Nesse método, água, areia e substâncias diversas são injetadas sob alta pressão para a quebra de rochas e liberação do gás natural (metano em sua maior parte), este o qual é, então, coletado. No entanto, essas substâncias usadas no fracking podem contaminar as águas subterrâneas, trazendo grande preocupação ambiental. Isso sem contar que o armazenamento e transporte do gás coletado pode liberar massivas quantidades de metano, um agente estufa muito poderoso.

           Já na produção de combustível "verde", áreas e mais áreas são devastadas para a produção de matéria-prima vegetal para fomentar o setor de biocombustíveis. Apesar desses serem mais limpos, em termos de combustão, e uma fonte sustentável de energia, grandes extensões de áreas geralmente pertencendo a importantes massas florestais ou de outras vegetações essenciais são destruídas para as plantações. O nosso Cerrado, por exemplo, sofre bastante com as plantações de soja e cana-de-açúcar para a produção de combustíveis. Além disso, com o desvio de grãos e outras fontes alimentares para a produção de biocombustíveis, o preço dos alimentos pode subir significativamente caso a demanda pelos biocombustíveis aumente muito.

           E enquanto existem debates e mais debates sobre o papel humano no aquecimento global, nosso papel como destruidores do meio ambiente está sendo deixado de lado. Fica a impressão que o único problema que o nosso ecossistema enfrenta é  o excesso de efeito estufa. Aliás, já vi até alguns dizendo que dá para destruir mais o meio ambiente porque as atividades humanas são improváveis de estarem contribuindo para as mudanças climáticas. Estamos mutilando florestas, poluindo rios e oceanos, extinguindo diversas espécies e criando lixões de todos os tipos por todos os lados. Não existe desculpas para isso, apenas descaso.

           Atividades ilegais, incluindo pescas indevidas, caças e derrubadas de árvores já causam profundo impacto negativo em dois terços dos 57 Patrimônios da Mundo monitorados pela IUCN (União pela Conservação da Natureza), colocando alguns dos mais preciosos e únicos ecossistemas e espécies em risco. E olha que esses são locais no planeta com o maior peso de proteção pelas agências internacionais. Cerca de 58% das espécies de árvores existentes encontram-se exclusivamente em um país, ou seja, só podem ser encontradas em um ou outro local apenas. Com o ritmo de desmatamento hoje, especialmente no Brasil (país com a maior biodiversidade de árvores no mundo), grande parte delas podem ficar ameaçadas de extinção em um futuro próximo. Hoje, 300 espécies já são consideradas seriamente ameaçadas, por terem menos do que 50 exemplares na natureza. E com o desmatamento, as florestas, por exemplo, têm a sua capacidade de controlar o microclima em suas extensões reduzida, prejudicando todo o ecossistema ali.

Ativistas tentando proteger a derrubada de árvores na Floresta de Bialowieza, uma importante área de biodiversidade na Europa

            Um estudo liberado ano passado pela Living Planet, realizado pela Zoological Socienty of London (ZSL) e pela WWF (Ref.105), sugere que houve um declínio populacional de 60% dos animais vertebrados em ambiente selvagem no planeta desde 1970! Para chegar a essa terrível conclusão, o estudo coletou dados de 3700 espécies de vertebrados (aves, répteis, mamíferos e peixes) para extrapolar dados para o resto do mundo. Em termos de habitat, aqueles animais em lagos, rios e terrenos úmidos (como o Pantanal) são os que tiveram maiores perdas. E hoje, estudos mais recentes mostram que 30% dos vertebrados estão em forte declínio populacional e de alcance territorial (Ref.106). Sim, estamos vivendo a 6° extinção em massa da história do planeta, e dessa vez causada pelo ser humano. O número de espécies que foram extintas no último século teria levado entre 800 e 10 mil anos para desaparecerem, dependendo do grupo de animais analisados (Ref.107). Em média, estamos lidando com a extinção de 2 espécies de vertebrados sendo extintas por ano.

            Bangladesh, outrora conhecido como lar dos tigres, hoje, provavelmente, não segura nem 100 deles em seu território. Matamos, direta e indiretamente, mais de 100 milhões de tubarões todos os anos, levando diversos deles à beira da extinção (O covarde mercado de barbatanas). Um recente estudo preocupante, publicado no periódico Fish & Fisheries (Ref.), mostra que o desperdício de peixes pescados no mar é enorme, devido à práticas antiquadas e falhas de pescaria. Na média da última década, os pesquisadores estimaram que a indústria pesqueira desperdiça cerca de 10% dos peixes que são capturados, ao jogá-los de volta para o mar (após estarem mortos). Em números, essa quantidade representa em torno de 10 milhões de toneladas de bons peixes desperdiçados e mortos anualmente, quantidade suficiente para encher 4,5 mil piscinas olímpicas.

A fauna está em grave colapso

           Estamos massacrando cruelmente os elefantes (Marfim e o Massacre dos Elefantes) e os rinocerontes (Rinocerontes no precipício da extinção) por motivos revoltantes e supérfluos. Pangolins estão sendo exterminados para virarem sopa de luxo (Qual é o animal mais traficado do mundo?). Levamos o número de vaquitas a 30 indivíduos no planeta inteiro e será difícil evitar a extinção dessa espécie (Vaquita). Estamos promovendo um festival de horrores no vergonhoso mercado de animais exóticos de estimação, ao exigirmos que espécies selvagens se tornem escravas domésticas (Animais exóticos de estimação: o lado sombrio da história), gerando danos ambientais inestimáveis, incluindo reduções populacionais, invasões de habitat e extremo sofrimento.

           

           Aqui no Brasil, restou 12% da nossa Mata Atlântica e vários outros biomas estão em perigo.
Indo para o Norte, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgou no final de 2016 que o desmatamento na Amazônia voltou a crescer e foi o maior desde 2011. Entre agosto de 2015 e julho de 2016, houve um crescimento de 29% da derrubada de árvores na floresta amazônica, em um total devastado de 7989 quilômetros quadrados de mata. Para se ter uma ideia, a área equivale a mais de 5 municípios médios de São Paulo. Desde 1988, é estimado que 421871 quilômetros quadrados de floresta da Amazônia Legal foram devastados no Brasil. No Pará, uma proposta de lei recentemente foi enviada para ser aprovada e que prevê a transformação de 27% da Floresta Nacional do Jamanxim em área que permite uma maior exploração humana (Ref.108). E olha que o projeto anterior rejeitado previa uma redução de 37%, tudo fomentado pela forte bancada ruralista no Congresso. E se aprovada, será um prato cheio para os ocupantes ilegais e agropecuaristas.

           E todos esses exemplos acima refletem a destruição direta. Nosso crescente super consumo gera resíduos de todos os tipos que poluem o ambiente, causando gigantescos danos ambientais indiretos. Como exemplo, podemos citar que o nosso planeta está se transformando, literalmente, em uma grande lixeira de plástico. Produzimos, desde o século 19, um acumulado estimado de 8,3 bilhões de toneladas de plástico. Desse total, até 2015, 6,3 bilhões de toneladas foram geradas, onde apenas 9% foram recicladas, 12% incineradas (contribuindo com a poluição e gases estufa) e 79% foram jogadas no meio ambiente sem tratamento algum. Se a tendência continuar, até 2050 espera-se que 12 bilhões toneladas de resíduo plástico estará poluindo a natureza.



           O oceano, infelizmente, já possui trilhões de pedaços de plástico misturados em suas águas. Esses pedaços vêm de diversas fontes de poluição, fomentados pelo descarte inadequado de brinquedos, sacolas, redes de pesca, materiais industriais, entre outros. Cerca de 8 milhões de toneladas deles são estimados de serem jogados nos mares todos os anos, em um total já estimado de 110 milhões de toneladas atualmente presentes (Plástico e a poluição oceânica). Gerando prejuízo em toda a cadeia alimentar, estamos fornecendo esse veneno por causa de uma produção absurda de produtos feitos com um material que demora centenas de anos para se decompor, mas sendo que temos uma média de vida que mal ultrapassa os 70 anos. Um dos vários estragos que os plásticos podem trazer para a vida nos oceanos é mostrado no triste vídeo abaixo.

         


       EXEMPLO CLARO DO QUE ACONTECE QUANDO APENAS UM PROBLEMA É ANALISADO EM DETRIMENTO DOS OUTROS:

          Recentemente, um time de pesquisa internacional, liderado por um membro da Universidade do Arizona, mostrou que a construção de centenas de barragens de hidrelétrica na Bacia do Rio Amazonas irá causar um massivo dano ambiental no ecossistema amazônico, o maior berçário de biodiversidade do mundo.

          O Rio Amazonas e suas ramificações é o maior e mais complexo sistema fluvial da Terra, cobrindo cerca de 6,1 milhões de quilômetros quadrados e englobando nove países. É a mais importante bacia do mundo, fomentando a vida de uma infinidade de espécies, muitas delas endêmicas na região. As 428 barragens atualmente propostas de serem construídas nesse sistema vivo trará grandes danos por não estarem levando em conta todo o quadro da bacia e, sim, apenas consequências locais. Um terço das 428 barragens já foram construídas ou estão em fase de construção.

          Com a desculpa de mais energia sustentável (do ponto de vista apenas energético), os projetos das barragens foram aprovados, mas os reais impactos ecológicos no sistema fluvial como um todo não foram levantados. Os pesquisadores, ao analisarem o DEVI (Índice de Vulnerabilidade Ambiental das Barragens, traduzindo da sigla em inglês), - o qual vai de 1 a 100, onde este último valor representa o máximo de vulnerabilidade ambiental - mostraram que o valor encontrado foi de 80, ou seja, um fator de risco ambiental muito elevado e que provavelmente levará à devastação de várias espécies. Os dados foram recentemente publicados na Nature (Ref.126).

           A comunidade científica urge que um melhor planejamento ambiental seja feito antes que a completa construção das barragens propostas seja levada adiante, ou o ecossistema amazônico poderá sofrer profundos e irreparáveis danos em um futuro próximo, os quais se somarão com o grave desmatamento já ocorrendo na região.

           Mais uma vez, ações políticas de grande impacto estão sendo executadas sem embasamento científico de mínima qualidade. E ainda usando o aquecimento global para acobertarem o vandalismo.      
     
       
            Analisando o quadro geral, os esforços internacionais estão pecando em dois sentidos: escolha de ações e limitado senso de proteção ambiental.

        ESCOLHA DE AÇÕES

             No primeiro caso, grande parte das ações sendo fomentadas e colocadas em prática envolvem um corte relativamente drástico das emissões de gases estufa através da redução da produção industrial e substituições de veículos e estações de produção elétrica por alternativas que não queimem combustíveis orgânicos, como carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, entre outros. Essa é uma ação que impõe grandes custos para as nações, especialmente as menos desenvolvidas, além de requisitarem longas décadas de mudanças infraestruturais de grande impacto. E isso acaba gerando várias críticas, especialmente dos céticos, e baixa atenção/esforços das nações em busca de reduzir os gases estufa na atmosfera. Aliás, os EUA até acionaram a saída do Acordo de Paris justamente sob essa desculpa. Apesar de ser necessário reduzir a queima de combustíveis fósseis por causa da poluição e das metas fixadas pelo Acordo (impedir que a temperatura média global aumente 1,5°C nas próximas décadas), seria melhor investir mais em soluções para deixar essas fontes menos poluentes, reduzi-las mais em países desenvolvidos, deixá-las razoavelmente abundantes em economias mais pobres (e implantar ações substitutivas nestas gradativamente) e voltar o foco global imediato para ações muito mais impactantes, efetivas e práticas na escala individual.

             Muitas opções práticas individuais sendo promovidas pelos governos incluem medidas como lavar as roupas em água fria, reciclar e trocar as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes. Apesar dessas ações gerarem uma boa ajuda para reduzir as emissões individuais de dióxido de carbono, elas possuem apenas um impacto moderado. Um estudo recente, publicado na Environmental Research Letters (Ref.120), mostrou que outras opções são muito mais impactantes, e nenhuma delas está sendo promovida com ênfase quase alguma pelos governos ao redor do mundo. Entre elas, a mais poderosa é o incentivo para que as pessoas tenham menos filhos! No gráfico abaixo, podemos ver que essa medida de planejamento familiar é, de longe, a melhor de todas em termos de mudanças individuais de estilo de vida. Outras de fácil alcance são a adoção de uma dieta vegetariana (ou pelo menos com bastante redução de carnes), livrar-se do carro e evitar viagens aéreas.


            Ao escolher não comer nenhuma carne, uma pessoa deixa de produzir 820 kg de dióxido de carbono (CO2) anualmente (aqui também pode ser incluído bastante metano se a carne for de ruminantes). Abrir mão de uma viagem transatlântica completa de voo todo ano pode cortar as emissões de CO2 em 1600 kg. Livrar-se do carro pode reduzir as emissões em 2,4 toneladas (nesse caso, maior uso e melhoria dos meios de transporte público, por exemplo). E ao escolher ter 1 filho a menos é possível diminuir as emissões em 58,6 toneladas de CO2! E estamos falando de ações individuais. Imagine o tamanho conjunto de reduções caso essas práticas estivessem sendo perseguidas com mais ênfase. Isso sem contar que tendo menos filhos os problemas de falta de abastecimento alimentar podem ser parcialmente resolvidos no futuro, além de diminuir o impacto ambiental negativo pela sociedade humana. E o melhor: quase todas elas apenas precisam de força de vontade e maiores campanhas de conscientização para serem alcançadas, e um grupo alvo preferencial é a nova geração, especialmente os adolescentes.

            Além disso, vale também a pena investir mais em outras alternativas - algumas simples, outras complexas - para diminuir as emissões de gases de efeito estufa e até aumentar a retirada de dióxido de carbono da atmosfera:

Redução do desmatamento, reflorestamento e melhor aproveitamento de terras: Com mais vegetação, maior é a fixação de carbono (além de contribuir para a preservação do meio ambiente). E estratégias simples podem render excelentes resultados. Em Uganda, por exemplo, um estudo (Ref.123) mostrou que um projeto de dois anos que pagou um total de US$20 mil para 180 pessoas em 60 vilas do país para que elas não cortassem as árvores em seus territórios valeu o dinheiro investido. Ao atrasar as emissões de carbono que viriam com o desmatamento promovido pelos habitantes dali, os benefícios para a sociedade valeram o dobro do custo! Ao invés das pessoas conseguirem o dinheiro com a venda de árvores derrubadas, elas o obtinham protegendo as mesmas. Apesar dessa solução já estar recebendo bilhões de dólares nas últimas duas décadas autorizados por países individuais, é provável que a mesma só funcionará em regiões muito pobres do globo, especialmente na África, mas já é um ótimo passo.

Por que pagar para destruir, se podemos pagar para proteger?

Incentivo ao plantio de plantas nos centros urbanos: Aumenta a fixação de carbono (além de contribuir para um ar mais limpo, espaço visual mais agradável e maior biodiversidade). Na cidade de Greater Manchester, Inglaterra, por exemplo, um projeto verde foi criado visando plantar 3 milhões de árvores nos próximos 25 anos! Será uma árvore para cada cidadão na cidade. O plano foi chamado de ´Cidade das Árvores´. Já uma lei criada em 2008 em New York, EUA, garante o abatimento US$48,43 no imposto por metro quadrado de área verde (plantas) no telhado dos prédios e residências em geral. Ela começa a entrar em vigor a partir de 2018, mas vários prédios e casas já estão começando a adotar a ideia.



             O "telhado verde" é um projeto presente em vários países, divulgado por várias organizações ambientais e traz vários benefícios. Além de aumentar a biodiversidade (plantas e animais a elas associados), os telhados verdes diminuem a absorção de calor por radiação solar, contribuindo para uma refrigeração nos centros urbanos (amenizam as ´ilhas de calor´); ajudam a filtrar os poluentes do ar; aumentam a umidade local, tornando o clima mais agradável, especialmente em cidades muito quentes e/ou climas gerais secos. Todas essas ações também diminuem o uso de ar condicionado - ajudando na economia de eletricidade e, consequentemente, reduzindo as emissões de CO2 - e na produção de calor sendo emitido para a atmosfera na forma de infravermelho.

Geoengenharia: Aqui entramos em uma área mais complexa e tecnológica, onde ações seriam feitas para modificar o albedo da atmosfera. Uma das opções seria a massiva injeção de compostos de enxofre na forma de aerossóis na atmosfera para aumentar a reflexão solar da mesma e gerar um significativo resfriamento.

Captura de dióxido de carbono: Uma das estratégias para resolver o problema é armazenar o excesso de gás carbônico, tirando-o da atmosfera. Mas alcançar isso enfrenta  várias dificuldades, e várias propostas não se mostram muito eficientes.

            Ano passado (Ref.121), pesquisadores confirmaram que injetar gás carbônico no basalto faz com que o gás seja transformado no mineral ankerite em menos de 2 anos! Neste estado sólido, fica garantido que ele muito dificilmente irá voltar para a atmosfera. E como o basalto é encontrado no mundo inteiro, essa pode ser uma excelente ferramenta para combater o perigoso avanço do aquecimento global promovido pelo excesso de gases estufas.

Aqui podemos ver os nódulos de carbonato formados na rocha que recebeu uma injeção de gás carbônico.

            Existem também pesquisas querendo aproveitar o dióxido de carbono para a síntese de combustíveis, em uma espécie de reciclagem. Seria uma forma parcial de captura.

Mineração do solo oceânico: Esse é um assunto polêmico, porque pode envolver impactos ambientais sérios. Caso feito de forma responsável e mínima, obedecendo rigidamente todos os parâmetros de proteção ambiental, poderíamos diminuir a devastação traga pela mineração nos continentes e ainda suprir o mercado com valiosas matérias-primas para o setor de energia limpa. Recentemente, por exemplo, cientistas britânicos descobriram uma vasta riqueza mineral ao explorarem uma montanha submersa no Oceano Atlântico (Ref.122). Com a ajuda de robôs exploradores, diversos raros minerais contendo valiosos metais para a indústria tecnológica foram identificados, a cerca de 1000 metros de profundidade, repousando calmamente a um distância de 500 km das Ilhas Canários.



          Entre os metais de maior importância encontrados estava o telúrio, elemento muito raro na superfície terrestre. Amostras retiradas da montanha marinha revelaram concentrações do mesmo 50 mil vezes maiores do que nos depósitos terrestres! Apenas na área, os pesquisadores estimam que exista cerca de 2670 toneladas de telúrio, o que representa 1/12 do estoque mundial!

         O telúrio é utilizado, principalmente, para a feitura de painéis solares avançados que visam a produção de energia elétrica. A eficiência desses painéis especiais é tão alta que a quantidade encontrada submersa do elemento seria suficiente para abastecer 65% da demanda de eletricidade no Reino Unido caso fosse utilizada na construção de células solares.

         Além do precioso telúrio, as rochas encontradas na montanha possuíam boas quantidades também de ´terras raras´, as quais contém elementos de essencial uso em turbinas de vento e aparelhos eletrônicos.

Usinas nucleares: Outro tópico polêmico, já que envolve radioatividade, seus acidentes e os problemas relativos aos resíduos radioativos. Independentemente disso, a energia nuclear (no caso, por fissão nuclear) é uma alternativa de energia limpa em todos os aspectos, exceto no quesito radioativo e durante a construção das usinas. Mas com mais investimentos em segurança e infraestrutura, essas usinas podem se tornar grandes ajudantes no combate à destruição ambiental e aquecimento global ao serem mais disseminadas e aceitas pela população. O ideal, e solução de todos os nossos problemas seria alcançar a tão sonhada fusão nuclear controlada e eficiente. Até lá, é fazer o melhor com o que temos. Hoje, são 31 países que utilizam a energia nuclear, especialmente na Europa, América do Norte, Índia, China e Japão, sendo a mesma responsável pela produção global de aproximadamente 11% da eletricidade consumida. Nos EUA, quase 20% da eletricidade é gerada pelas usinas nucleares, na França o número já está em torno de 75% e, no Brasil, temos apenas próximo de 3% do total. Existem projetos (Ref.118) que querem, até 2050, a energia nuclear respondendo por 25% da produção mundial de eletricidade, apesar da proposta sofrer bastante resistência desde o acidente em Fukushima, Japão, em 2010.



      PROTEÇÃO AMBIENTAL

            Como já discutido, o aquecimento global é apenas um dos problemas que estamos enfrentando no nosso planeta. O esforço político global deveria ser voltado para proteger o meio ambiente como um todo, estabelecendo metas para a conservação da fauna, flora e todo o bioma terrestre. Com isso em foco, teremos uma real esperança de vida futura para a Terra e a resolução do problema relacionado às mudanças climáticas viria como uma consequência. E como listado acima, dá para unir perfeitamente a preservação ambiental com a redução do efeito estufa.

           Fazer igual ao Donald Trump e achar que o único problema da interferência humana no meio ambiente são as discussões sobre mudança climática e sair do Acordo de Paris por razões simplesmente econômicas é pura ignorância. É preciso, sim, parar com queima descontrolada de combustíveis, parar com o massacre das nossas florestas e encontrar soluções mais amigáveis para o meio ambiente, incluindo nossa saúde. É lutar contra a destruição que estamos fazendo em nosso planeta. O problema aqui não é uma questão apenas de efeito estufa. E nesse último quesito, não importa de quem é a culpa majoritária do aquecimento global, precisamos detê-lo com tudo o que temos à disposição. E se combatê-lo significa reduzir os danos ambientais, estamos com o melhor dos dois mundos nas mãos.

           Do que adianta ter um clima agradável, se este estará governando um ambiente inóspito no futuro? Como disse o Jon Snow em um recente episódio da sétima temporada de Game of Thrones na HBO, estamos discutindo como crianças sobre um ponto isolado enquanto um problema monstro está vindo do Norte.    


Artigos Recomendados:


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