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Houve um hiato no aquecimento global?

> Esse artigo faz parte de uma discussão mais ampla sobre Mudanças Climáticas, Paleoclimatologia, efeito estufa atmosférico e evidências da ação humana (antropogênica) no atual processo de Aquecimento Global. Para saber mais, acesse: Aquecimento Global: Uma Problemática Verdade.

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          Liberado esta semana pelo Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP), o 10th Emissions Gap Report (Ref.1) reforçou o alerta de que não há sinais de que as emissões de gases do efeito estufa atmosférico irão atingir o ápice em um futuro próximo. Ou seja, as emissões não estão freando e atingiram um novo recorde no ano passado. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, as concentrações médias de CO2 na atmosfera subiram para 407,8 partes por milhão (ppm) em 2018, superando o estimado de 405,5 ppm em 2017 (1). As emissões mundiais vêm aumentando cerca de 1,5% ao ano na última década, e se a tendência continuar, isso pode levar a um aumento de quase 4°C na temperatura média superficial da Terra até 2100, trazendo trágicas consequências para o ecossistema terrestre.

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           Mas nesse cenário segue uma dúvida: por que existem reportes de que as temperaturas atmosféricas desaceleraram na última década, e por que houve anos de declínio nas temperaturas médias, incluindo os últimos três anos (2016, 2017 e 2018)? Ora, se houve um aumento contínuo nas concentrações de gases do efeito estufa nas últimas décadas, com consequente aumento contínuo do efeito estufa atmosférico, não era para existir um aumento contínuo nas temperaturas médias atmosféricas?

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            No tão comentado "hiato" ou "pausa" no aquecimento global aparentemente observado de 1998 até 2012 - e adereçado em um dos relatórios do IPCC -  é alegado ter ocorrido uma desaceleração no aumento da temperatura média global atmosférica em comparação com o período a partir de 1951 até o presente, mas isso não significa uma desaceleração no aquecimento global. Diversos estudos realizados sobre o fenômeno mostram que houve uma redistribuição do calor em excesso da superfície para o interior dos oceanos (2), com prováveis contribuições significativas de correntes atmosféricas, atividade solar e emissões de aerossóis de fontes diversas (Ref. 2-13). E estudos mais recentes reportam inclusive que essas redistribuições contribuíram para um robusto maior aquecimento atmosférico do Ártico, refutando inclusive a alegada desaceleração (!).

          Com ou sem a desaceleração, essas flutuações são esperadas e continuam dentro da tendência a longo prazo da taxa de rápido aquecimento global observada desde a década de 1950. Muitos na mídia e grupos contrários à Teoria Antropogênica do Aquecimento Global vêm usando essas observações para afirmarem que o aquecimento global 'parou', ou que deu uma pausa, mesmo com o crescente aumento de concentração de gases estufas, sendo que tais alegações são claramente incorretas. Tivemos diversos dos anos mais quentes do século XX e XXI desde 1998, sendo os declínios mais acentuados marcaram apenas alguns pontos específicos, como em 2000 e em 2010.

Na sequência acima, podemos ver que existem inúmeras flutuações (linhas pretas) na temperatura média global desde a década de 1880, porém, a tendência de aquecimento global (quadro geral) é contínua (linha vermelha). Houve um breve declínio na temperatura após 2016, o qual marcou o ano mais quente no registro histórico dos últimos 140 anos, e refletindo o mais forte evento do El Niño em progresso (2). Similares padrões de extremos climáticos seguiram eventos El Niños prévios, como em 1973, 1983 e 1998 (realçados pelas caixas azuis).

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(2) À medida que calor da atmosfera penetra as águas superficiais, parte dessa energia causa aquecimento direto em escalas de tempo de até 15 anos, e parte é misturada em direção às profundezas do oceano e irá apenas retornar para a superfície - alcançando equilíbrio térmico com a atmosfera - em escalas de tempo de séculos ou mais (o interior dos oceanos, portanto, se aquece bem devagar).

(3) Aliás, existem já fortes evidências científicas de que os eventos de El Niño estão ficando mais intensos devido ao processo de aquecimento global antropogênico empurrando cada vez mais energia térmica para o oceano. Para saber mais, acesse: O El Niño está ficando cada vez mais violento na Era Industrial
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          Em particular, um estudo mais recente publicado na Advances in Atmospheric Sciences (Ref.14) reforçou o papel das massas oceânicas no freio do aumento de temperatura global atmosférica. O estudo mostrou - através de um modelo qualitativo de simulação de dois sistemas acoplados (oceano-atmosfera) - que o crescente efeito estufa atmosférico com o crescente acúmulo dos gases estufas continuou aumentando o acúmulo de energia térmica no planeta, via redistribuição de energia entre a atmosfera e o oceano. O modelo mostrou que entre 1998 e 2013 as mudanças no conteúdo de calor oceânico foram relativamente maiores em múltiplas bacias oceânicas, particularmente nas camadas mais profundas do Atlântico. O armazenamento de calor nas profundezas oceânicas aumentou mais rápido do que o calor absorvido na superfície oceânica. Isso reforça o importante papel da enorme capacidade calorífera dos oceanos no clima da Terra, e corrobora um rápido aumento no conteúdo de calor detectado em observações durante o período de hiato no aquecimento global, a uma taxa em torno de 9,8 x 1021 J/ano. Ou seja, do ponto de vista da energia térmica acumulada, não houve desaceleração ou hiato no processo de aquecimento global. Isso também corrobora mais uma vez porque as temperaturas globais médias da superfície terrestre são marcadas por picos e declínios tão acentuados a curto prazo.

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          De fato, mais de 90% do calor extra gerado pelo aquecimento global é armazenado nos oceanos. Nesse ponto, é importante reforçar que, apesar das temperaturas superficiais médias variarem entre máximos e mínimos dentro de uma tendência crescente, nosso planeta como um todo está continuamente acumulando energia térmica, seja para aquecer a atmosfera seja para aquecer os oceanos. E o balanço de energia no sistema terrestre está totalmente fora do equilíbrio natural: de forma muito acelerada, nossa baixa atmosfera está se aquecendo, o oceano está acumulando cada vez mais energia térmica, as superfícies continentais estão absorvendo energia e o gelo na Terra está derretendo. Desde o início do século XX, a energia térmica sendo absorvida anualmente pelos oceanos é equivalente à energia produzida por cerca de 310 mil usinas nucleares.


   (!) REAL DESACELERAÇÃO?

           Somando ao já exposto, pesquisadores da Universidade do Alasca, em parceria com cientistas na China, mostraram em um estudo publicado este ano na Nature Change (Ref.15) que lacunas nos dados de temperatura do Ártico suportam a não existência da alegada desaceleração na taxa de aumento da temperatura média superficial que supostamente marcou o intervalo de 1998 até 2012. Recalculando as temperaturas globais médias com esses dados faltantes nesse intervalo de 14 anos, os pesquisadores encontraram que a taxa de aquecimento global atmosférico continuou a aumentar 0,112°C por década - a mesma taxa observada no último século - ao invés da taxa de 0,05°C por década reportada por algumas fontes, incluindo o IPCC. As novas estimativas apontaram também que o Ártico sofreu um aquecimento de mais de seis vezes a média global nesse período (3). Outros dois estudos mais recentes publicados no periódico Environmental Research Letters (Ref.16-17) também não encontraram evidências estatísticas justificando a observação de uma redução na tendência de aumento global da temperatura superficial média do planeta.

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(3) Leitura recomendada: Veja o gelo do Ártico afinando e desaparecendo

          Esses estudos sugerem, portanto, que a ação dos gases estufas para o aquecimento global pode estar sendo subestimada. Ou seja, mesmo com a grande quantidade de energia térmica sendo despejada nos oceanos, a taxa de aquecimento da baixa atmosfera - temperatura global média superficial do ar (SAT) - continuou alta nas últimas décadas, sem significativa redução.


   MUDANÇAS CLIMÁTICAS OU AQUECIMENTO GLOBAL?

          Para finalizar, é válido mencionar também que muitos começaram a sugerir, erroneamente, que os cientistas até pararam de usar o termo 'aquecimento global', substituindo-o por 'mudanças climáticas', por causa do suposto hiato. Pelo contrário, o termo 'mudanças climáticas' (aquecimento global e suas consequências climáticas) é o mais usado na literatura científica há décadas. Porém, após o sucesso do documentário de Al Gore, em 2007, onde o termo 'aquecimento global' foi usado exaustivamente, as pessoas e a mídia começaram a adotá-lo preferencialmente. Mas à medida que a mídia começou a reportar mais os crescentes trabalhos científicos sobre o tema, o termo 'mudanças climáticas' voltou a ser reportado com mais frequência. Não que o termo 'aquecimento global' esteja errado, mas 'mudanças climáticas'  - no atual contexto climático - é mais abrangente e engloba tanto o aquecimento acelerado quanto suas consequências. Mudanças Climáticas e Aquecimento Global também são usados para se referir a fenômenos climáticos naturais que ocorreram na história paleoclimática da Terra.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.unenvironment.org/resources/emissions-gap-report-2019
  2. http://op.niscair.res.in/index.php/IJRSP/article/view/3223
  3. http://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/10/8/084002/meta
  4. http://journals.ametsoc.org/doi/abs/10.1175/BAMS-D-14-00106.1   
  5. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2015JC010906/full
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4519735/
  7. https://www.nature.com/articles/ncomms13676
  8. https://www.ncdc.noaa.gov/news/study-global-warming-hiatus-attributed-redistribution
  9. https://climate.nasa.gov/news/2521/study-sheds-new-insights-into-global-warming-trends/
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4657026/
  11. https://link.springer.com/article/10.1007/s00704-014-1358-x
  12. http://www.globalchange.gov/news/global-warming-hiatus-never-happened-new-study
  13. http://thebulletin.org/global-warming-%E2%80%9Chiatus%E2%80%9D7639
  14. https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00376-019-8281-0
  15. https://www.nature.com/articles/s41558-017-0009-5
  16. https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aaf342
  17. https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aaf372
  18. https://climate.nasa.gov/blog/2893/nope-earth-isnt-cooling/