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Qual é o mamífero mais traficado do mundo?


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        Hoje, o mundo sofre bastante com a ação humana predatória. Poluição, desmatamento e caça excessiva estão moldando, negativamente, a superfície do nosso planeta. Uma das consequências mais divulgadas é a lista, cada vez maior, de espécies em risco de extinção. Pandas, rinocerontes, primatas e baleias figuram entre os mais conhecidos animais ameaçados de desaparecer do planeta. Mas existe um animalzinho, muito pouco conhecido, que detém o triste título de mamífero mais traficado do mundo, estando a um passo da extinção.

Um típico, e exótico, pangolim asiático/Crédito de imagem: Jefri Tarigan/AP

          Eu posso apostar uma boa
 quantia que você nunca ouviu falar
ou viu esse animal. Com o tamanho aproximado de um guaxinim e parecendo mais um pokémon do que qualquer outra coisa, o Pangolim (Ordem: Pholidota; Família: Manidae; Gênero: Manis) é o mamífero líder no comércio ilegal mundial. Sua cabeça e corpo são cobertos com uma verdadeira armadura de escamas - duras placas formadas de queratina -, dando a ele, também, a aparência de um réptil. Quando assustado, ele se contrai em uma firme bola, lembrando um tatu bem 'punk'. De hábitos noturnos, o pangolim não possui dentes, alimentando-se, principalmente, de formigas e cupins, as quais são capturadas com sua longa língua viscosa e pegajosa. Sendo encontrado em regiões da África e da Ásia, ele é tão único que, até hoje, os cientistas encontram dificuldade de encaixá-lo em um grupo dentro dos mamíferos. E, quando se é único, o ser humano costuma dar mais atenção, e quase sempre da pior maneira possível.

Dois outros tipos de pangolim (esquerda); um deles mostrando sua grande língua pegajosa (centro); e pangolins em modo de defesa contra ataques de predadores.

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         Entre 1977 e  2014, é estimado que 810 mil pangolins foram contrabandeados e comercializados pelo mundo. Segundo pesquisadores, a maioria absoluta deles foram capturados diretamente do meio selvagem, sendo raros aqueles frutos de criadouros. Mais uma vez, o mercado asiático, impregnado por crenças persistentes e sem sentido (não estou me referindo às religiões), é o responsável pelo massacre. No início, as escamas do pangolim eram muito visadas pelos chineses por supostas propriedade afrodisíacas e medicinais, e isso já causava um estrago na população desses animais. Depois, sua carne começou a virar artigo de luxo, especialmente na China e Vietnã, mas com o maior importador hoje sendo os EUA. No continente asiático, por serem tão caçados, os pangolins já são difíceis de serem encontrados. Assim como as barbatanas de tubarão, o quilo da carne dos pangolins chega a valer várias centenas de dólares. Juntando essa tola prática medicinal e a culinária, o estrago é enorme. No mapa abaixo, podemos ver os países onde existe tráfico e demanda por esses animais - podemos ver que o Brasil também está incluído - e a intensidade das importações e exportações, entre os anos de 1977 e 2014 (escala logarítmica - log10) .




             Somando-se a caça descontrolada, os pangolins ainda sofrem com a devastação do seu habitat (desmatamento e avanço urbano) e com o seu lento ciclo reprodutivo - as fêmeas, em geral, dão a luz somente a uma cria por ano. Isso faz com que a situação só piore. Na Ásia, esses animais sofreram as maiores perdas populacionais, o que fez com que o tráfico começasse, nos últimos anos, a se intensificar na África para suprir a enorme demanda ilegal. Apesar desse redirecionamento de foco, o número de pangolins contrabandeados na Ásia é ainda enorme e estimado em quase 18 mil entre os anos de 2001 e 2014. Entre as 8 espécies de pangolins no mundo, com 4 habitando o continente africano e 4 o asiático, todas elas encontram-se em grande risco de extinção, sendo o estado de conservação das mesmas variando de vulnerável para crítico.

Mais uma vez, o maldito fascínio em comer algo ameaçado de extinção; duas espécies de pangolim - Manis javanica (malaio) e Manis pentadactyla (chinês) - já estão em crítico estado de conservação

            Aproveitando-se do desconhecimento das pessoas em relação à este animal, principalmente no ocidente, o tráfico fica ainda mais fácil. Estima-se que cerca de 300 pangolins sejam capturados todos os dias. Autoridades na África, por exemplo, acham até estranho quando encontram uma carga ilegal de pangolins, não sabendo nem reconhecer direito o animal ou o objetivo econômico em contrabandeá-lo. Diversas iniciativas estão sendo tomadas para deixar o público mais ciente da sua existência. A empresa responsável pelo popular jogo Angry Birds vai até lançar uma nova versão onde o pangolim estará disponível como personagem jogável. O pior é que ainda é difícil criar um ambiente em cativeiro para ajudar a espécie se recuperar. Isso porque o pangolim não é tão estudado como deveria e possui  extrema relutância em permanecer cercado artificialmente. Apenas preparar uma comida ideal e jogá-lo em uma área específica para proteção é inútil. Além disso, sua baixa densidade populacional e lenta taxa de reprodução em meio selvagem tornam o atual nível de caça ao animal insustentável.

             Até uma solução ser achada, este maravilhoso animal está com os dias contados. E, assim como os tubarões, tudo por um prato de comida desnecessário e uma medicina furada. Denuncie sempre que vir esses animais ameaçados de extinção sendo traficados ou vendidos.


CURIOSIDADE: O nome 'pangolim' é derivado da palavra Malaia - Malásia - 'penggulung', que significa 'enrolador' e representa o comportamento desses animais quando ameaçados, ou seja, se enrolam em forma de bola.



ATUALIZAÇÃO (01/10/16): Este ano foi realizado das maiores apreensões de pangolins da história, onde 4 mil desses animais congelados foram pegos pela polícia da Indonésia na posse de traficantes. O volume total pesava 5 toneladas e os animais mortos foram reunidos na vala da foto abaixo e queimados. Os animais maiores encontrados vivos (os traficantes estavam alimentando eles para ficarem maiores para lucrarem mais no comércio dos mesmos) foram soltos na natureza. (Ref.4)



ATUALIZAÇÃO (20/10/16): E no último encontro do CITIES (Convenção Internacional de Espécies Ameaçaadas da Flora e Fauna Selvagem), o qual se estendeu do dia 24 de Setembro até o último dia 5 de Outubro, gerou grandes benefícios futuros para vários animais, mas os campeões na aquisição de ajuda ambiental foram os Elefantes, Pangolins e Papagaios-Cinzas-Africanos.

Os Elefantes enfrentam um gigantesco declínio populacional por causa da caça incessante pelo marfim dos seus chifres, onde caçadores os matam para arrancá-los. Pelos acordos, foi banido os mercados de marfim domésticos e legalizados, locais onde muitos caçadores poderiam estar lavando aos montes marfins ilegais. Também foi rejeitada a proposta de legalizar as vendas de marfim sob qualquer circunstância. (Saiba mais em: Marfim e o massacre dos elefantes)

Já em relação aos Pangolins, os acordos na CITIES baniram toda forma de comércio desses animais, independente da espécie.

Os Papagaios-Cinzas-Africanos são muito traficados por serem bastante apreciados como animais de estimação, algo que está destruindo a população desses animais em meio selvagem. Todo tipo de comércio com a espécie foi banido.

O encontro reuniu 152 representantes de governos, mais de 3500 pessoas e foi o maior até agora. Muitos disseram que o encontro foi um grande virar de maré para a causa ambiental. (Ref.5)


ATUALIZAÇÃO (12/06/17): O Google também resolveu ajudar nas campanhas de conservação dos pangolins. Neste Dia dos Namorados, seu sistema de buscas está representando pela figura animada - e na forma de jogo - de dois pangolins, em uma tentativa de chamar a atenção do público para a triste situação desses animais. Para saber mais, acesse: https://www.google.com/doodles/valentines-day-2017-day-1

ATUALIZAÇÃO (28/06/18): Pesquisadores da Universidade de Portsmouth e da  ZSL (Zoologial Society of London), com o suporte das forças de Fronteira do Reino Unido, desenvolveram um método para revelar possíveis impressões digitais nas escamas de pangolins apreendidos. O método usa um adesivo gelatinoso para levantar impressões digitais impregnadas na superfície das  escamas desses animais, como é feito nas investigações forenses tradicionais. Identificando as impressões digitais, é possível apontar com acuracidade um ou mais responsáveis pelo tráfico entre pessoas de interesse suspeitas de terem manipulado o animal.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS 
  1. http://www.worldwildlife.org/species/pangolin
  2. https://www.fws.gov/international/animals/pangolins.html
  3. http://www.traffic.org/home/2013/7/15/world-experts-all-pangolin-species-at-risk-from-illegal-trad.html
  4. http://www.bbc.com/earth/story/20161006-pangolins-are-the-worlds-most-trafficked-mammal
  5. http://www.nature.com/news/pangolins-and-parrots-among-winners-at-largest-ever-meeting-on-wildlife-trade-1.20775 
  6. http://www.pangolinsg.org/pangolins/
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2351989416300798
  8. http://uopnews.port.ac.uk/2018/06/28/off-the-scale-can-forensics-save-the-worlds-most-trafficked-mammal/