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Vikings: Uma Avançada Sociedade!



           Estamos navegando no meio da Europa Medieval, e embates entre nórdicos e cristãos estão em violenta ascensão. Indo para o final do século VIII, os Norsemen (´Homens do Norte´, traduzindo do inglês) iniciaram temidas campanhas na parte norte do território europeu, em uma série de violentas invasões. Em meio ao terror das pessoas sob a coberta cristã, esses Homens do Norte saquearam monastérios e cidades, ceifando inúmeras vidas ou fazendo prisioneiros. Após criarem fama, esses atacantes impiedosos ficaram conhecidos popularmente como ´Vikings´, palavra a qual possui origem do termo ´Vik´ (´parte do mar´, em uma tradução do antigo Norueguês).

           Habilidosos navegantes e exímios construtores de embarcações marítimas e fluviais, os Vikings são amplamente difundidos na nossa atual cultura pop e também muito estudados pelos historiadores. Porém, várias pessoas distorcem ou possuem a imagem errada do que os Vikings realmente eram. Mais do que "piratas sanguinários", os Vikings faziam parte de uma avançada sociedade, controlando poderosas tecnologias, complexos sistemas políticos e comerciais, e possuindo uma rica expressão cultural. E uma das provas do poderio tecnológico dos Vikings, além da área de exploração marítima,  pode ser vista nas suas imponentes Fortalezas Circulares, sendo que, nesta semana, arqueólogos reportaram a descrição da quinta encontrada desde a década de 1930.

ATUALIZAÇÃO (08/09/17): Um estudo publicado hoje confirmou que as mulheres Vikings possuíam importante presença nas guerras, incluindo como oficiais de alta patente! Na seção ´Mulheres Vikings´, neste artigo, a descoberta é detalhada.


  QUEM ERAM OS VIKINGS?

     TERRITÓRIO

           A Era Viking (780-1050 d.C.) foi marcada pela súbita entrada dos Escandinavos no cenário mundial. Deixando suas marcas por toda a Europa e além, os Vikings contribuíram na modelagem do mundo em que hoje vivemos através das suas conquistas e exploração de várias regiões antes descolonizadas, como a Islândia, Groenlândia e até partes da América do Norte, onde evidências de um estudo publicado ano passado (Ref.18) mostram que esses povos podem ter explorado o continente norte-americano muito além dos assentamentos em regiões costeiras.



           A terra natal dos Vikings englobava regiões localizadas no norte da Europa, nos países hoje conhecidos como Dinamarca, Suécia e Noruega, como pode ser visto no mapa abaixo. As características geográficas e naturais dessas regiões foram a força diretriz que moldou a sociedade e o modo de vida Viking, especialmente o fato de que as mesmas repousavam bem longe do centro e do sul europeu. Esse isolamento significou que esses povos escandinavos não foram fortemente influenciados pelas outras sociedades europeias até o ano de 790 d.C. (até as crescentes invasões nórdicas e onde considera-se o real início da Era Viking), e, consequentemente, os Vikings criaram uma identidade cultural e social bastante diferenciada. Em um exemplo mais do que claro, esses representantes escandinavos possuíam uma religião politeísta (Mitologia Nórdica), ignorando o monoteísmo Cristão até o período anterior às expansões no continente europeu.
   


          Devido ao fato de que a região escandinava possuía longas costas marítimas, muitas ilhas e diversos estreitos cursos d´água no interior das porções terrestres (sendo que nessas últimas, barreiras naturais como densas florestas e altas montanhas dificultavam o percurso por terra), os Vikings encontraram muitas vantagens em investir nas viagens entre seus assentamentos por meio de embarcações. Isso definiu duas coisas: um extraordinário desenvolvimento na tecnologia de construção de embarcações e na habilidade de velejar; e que a agricultura e criações de animais precisavam ser concentradas nas linhas de costas marítimas.

            Além disso, a localização dos povos Vikings também definiu a direção em que eles começaram a explorar as áreas fora dos seus territórios de origem. Aqueles presentes na região hoje pertencente à Suécia se voltaram para o leste, aqueles na Noruega se voltaram para o oeste e aqueles na Dinamarca voltaram a atenção para os domínios próximos do Mar do Norte.

     SOCIEDADE

            As regiões ocupadas pelos Vikings eram divididas em vários reinos independentes, os quais eram baseados em comunidades onde cada grupo conhecia seu papel e responsabilidades. A estrutura social dessas comunidades eram regidas por uma série de leis, sistema econômico e por um conjunto de crenças e valores.

           A sociedade Viking propriamente dita era composta por três principais classes, em um arranjo piramidal de poder:

1. Jarls: Ocupando o topo da pirâmide, os Jarls eram os líderes e os membros mais ricos da comunidade. Suas fortunas vinham de herança (terras) ou como recompensa em batalhas vencidas. O título ´Konungr´ (Rei) era dado ao jarl que era o chefe de uma comunidade e o seu poder variava dentro dos domínios Vikings: enquanto alguns reis controlavam pequenas ou grandes extensões territoriais, outros governavam mais pessoas do que limites específicos de terra. Mas todos os reis dependiam do suporte dos outros jarls e do resto da comunidade.

2. Karls: Ocupando o meio da pirâmide, encontramos a maioria da comunidade Viking. Os Karls detinham um amplo espectro de riquezas, sendo representados por fazendeiros, mercadores, caçadores, pescadores, construtores de navios, fabricantes de tecidos, ferreiros, entre outras ocupações. Alguns Vikings pertenciam a uma classe especial de guerreiros profissionais, apesar de que a maior parte que participava das invasões era constituída de karls, seja para se aventurarem seja para acumularem riquezas.

3. Thralls: Aqui, na parte inferior da pirâmide, temos os escravos. Possuindo poucos direitos, os thralls não podiam ter terras e eram representados, principalmente, ou por inimigos capturados ou por indivíduos que não conseguiram pagar suas dívidas. Geralmente, os Vikings tratavam bem seus escravos, porém, um thrall que quebrasse alguma regra dentro da comunidade podia ser espancado, mutilado ou mesmo morto. Além disso, um mestre que matava seu escravo por motivos diversos não era punido.


   MULHERES VIKINGS

           As mulheres Vikings eram muito independentes, especialmente porque ficavam responsáveis por tudo na propriedade familiar quando seus parceiros saíam em campanhas de invasão ou para comercializar. Atividades nesse período incluíam tomar conta das plantações e criações de animais, supervisionar os escravos, fazer o corte de animais, entre várias outras. Além disso, as mulheres podiam escolher seus maridos, decidir pelo divórcio ou mesmo comprar terras. Toda essa autonomia era algo bastante peculiar quando comparamos com outras sociedades na Europa. De qualquer forma, no geral, é sugerido que o papel da mulher na sociedade Viking, com a presença ou não do marido, era focado na criação dos filhos e na administração da casa.

            Já mencionando as crianças, estas não iam para escolas, e, sim, ajudavam em casa e nas atividades de plantio e criação de animais (esses dois últimos no caso dos filhos homens). A história Viking, assim como as leis e a religião, era passada para os mais jovens de forma oral.

           Existe também o duradouro debate sobre a atuação das mulheres Vikings nas guerras. É fato de que, já no início da Idade Média, existiam narrativas em poesias e retratos em artes sobre poderosas mulheres Vikings lutando junto com os homens. Apesar disso, em geral, a atuação de mulheres Vikings nas guerras sempre foi considerada como fruto de um fenômeno Mitológico, fomentado pelo culto às Valquírias. Só que esse pensamento mudou radicalmente com um novo estudo publicado recentemente na American Journal of Physical Anthropology (Ref.22).


           Pesquisadores, ao analisarem geneticamente os restos de esqueleto de um indivíduo de 30 anos de idade enterrado em um túmulo de guerreiro bem adornado com artefatos de batalha, em um local da Era Viking na cidade de Birka, Suécia, confirmaram que se tratava de uma mulher (não foi encontrado o cromossomo Y). Antes dessa confirmação, existia dúvidas quanto ao sexo do guerreiro já desde a década de 1970 - onde análises preliminares tinham sugerido o sexo feminino -, sendo controverso, em termos históricos e arqueológicos, a possibilidade de que fosse uma mulher. Além disso, o túmulo mostrava claramente que se tratava de uma oficial de guerra de alta patente, algo antes considerado ainda mais improvável para uma mulher Viking por grande parte do meio acadêmico.


            Apesar de algumas mulheres Vikings já terem sido descobertas enterradas com armas, uma guerreira dessa importância nunca tinha sido antes determinada, fato este o grande motivo para os acadêmicos terem sido relutantes em conceberem a atuação de mulheres nas guerras.


          Essa descoberta, além de abrir uma nova visão para a sociedade Viking, também chama a atenção para que historiadores e arqueólogos tomem cuidado com generalizações referentes à ordens sociais em sociedades antigas.

    LEIS

          Todos na sociedade Viking seguiam estritas leis que guiavam seus comportamentos dentro das comunidades, onde cada uma destas possuía uma assembleia conhecida como ´thing´ (uma espécie de parlamento e corte combinados). Anualmente, todos os Vikings - exceto os escravos e exilados - atendiam a essas assembleias para resolverem problemas e disputas. E como a maior parte dos Vikings não sabiam ler nem escrever até o século XII, suas leis eram transmitidas e consultadas oralmente, existindo até mesmo um indivíduo em específico cuja função era memorizar essas leis e preservá-las para futuras consultas. Dentro das things, esses oradores recitavam em alto e bom som as leis.

          Todos os Vikings respeitavam as leis, já que a honra e reputação de cada indivíduo eram tratadas como algo sagrado (além das punições serem pesadas também). Bem, e além das things, existiam outro meios de resolver disputas, onde podemos citar:

- Feuds: Se um homem era morto, sua família podia se sentir no direito de vingá-lo (sendo que isso podia levar a intermináveis ciclos de vingança).

- Duels: Algumas disputas podiam ser acertadas em duelos. Quem vencia (geralmente quando o primeiro sangue tocava o solo) estava com a razão, já que os Deuses privilegiavam o homem certo.

- Fines: Em disputas, a parte ofensora ou criminosa podia pagar uma multa para compensar seus danos, algo que deveria ser feito em público e na presença de testemunhas.

- Outlaw: Em casos de graves crimes, uma pessoa podia ser exilada, perdendo todos os seus direitos e obrigada a viver em ambiente selvagem, longe da comunidade. Os exilados podiam ser mortos por qualquer um, sem que o ato resultasse em penalidades.

      ECONOMIA

             No início da Era Viking, a economia era baseada principalmente na agricultura. Porém, à medida que as sociedades começaram a crescer mais e mais, as terras começaram a ficar cada vez mais disputadas, fazendo com que as atividades relacionadas ao plantio e criação de animais não mais suportassem todos. Assim, surgiram mercadores que viajam pelos mares e rios, negociando sapatos e bolsas de couro, peixes defumados, âmbar cinza (Perfume vomitado por baleias!), peles, esculturas cravadas em ossos (baleias e morsas), jóias e escravos. Essas mercadorias eram trocadas por bens de valores diversos, como trigo, ferro, vinho, especiarias, sedas, armas e artefatos de vidro.

Três moedas de prata Vikings datando do início do século IX, encontradas na Suécia e possivelmente feitas em Hedeby, na Dinamarca; repare que duas delas mostram figuras de barcos longos Vikings

            No começo, o comércio era feito no sistema de escambo, ou seja, na troca de produtos de valores similares. Mais tarde, as moedas entraram como meio de compra, sendo que evidências arqueológicas mais recentes indicam que o comércio Viking com moedas se estendeu à regiões tão distantes quanto a Rússia e o centro asiático.            

       CULTURA

              Além de serem exímios construtores de embarcações, os Vikings possuíam músicos, poetas e artesãos de alta qualidade, com esses últimos produzindo belas joias de ouro e prata, além de fascinantes objetos de decoração diversos, os quais geralmente carregavam símbolos da sua religião e mitologia.



             Praticamente todos os Vikings, até o final do século IX, adoravam vários deuses, estes os quais eram tidos como responsáveis por diferentes dinâmicas e aspectos do cotidiano. Existiam deuses para as colheitas, amor, família, fertilidade e para a guerra, e acredita-se que era costume oferecer oferendas aos mesmos que incluíam sacrifícios animais e humanos. As histórias tradicionais sobre esses deuses, gigantes e monstros são conhecidas como a Mitologia Nórdica (ou Viking).

Odin, o Deus da Morte, Guerra e Sabedoria
             A casa dos Deuses Nórdicos era Asgard, a qual era repleta de salões e palácios. O mais esplêndido salão era Valhalla, onde ficavam os bravos e habilidosos guerreiros. Esses respeitáveis guerreiros eram tragos para Asgard pelas Valquírias, as quais eram lindas mulheres guerreiras que cavalgavam cavalos voadores. As famosas Auroras Boreais (resultantes da interação do campo magnético da Terra com os ventos solares, produzindo coloridos rastros luminosos no céu) eram vistas pelos Vikings como um sinal de que as Valquírias estavam cavalgando pelos céus. Em Valhalla, os guerreiros treinavam para o Ragnarok, a batalha final que iria destruir o Cosmo. De dia, esses guerreiros lutavam e treinavam entre si, destruindo seus corpos com os golpes de machados e espadas. À noite, seus corpos eram curados e eles bebiam e festejavam com Odin (o chefe dos Deuses e, junto com os seus dois irmãos, criador dos nove mundos no Universo).

             Em torno do ano de 1000 d.C., os Vikings começaram a se acomodar em várias das regiões onde tinham invadido, e a maior parte deles começaram a parar de adorar os Deuses Nórdicos e passaram a adotar o Cristianismo. O abandono da religião pagã foi um processo que ocorreu de modo diferente entre os reinos escandinavos e a Islândia: na Noruega, na Suécia e na Dinamarca, ao contrário da Islândia - onde a conversão ocorreu de forma pacífica, permitindo o culto doméstico aos deuses pagãos no início sem punição -, esse processo foi imposto por seus respectivos monarcas, alguns dos quais usaram de violência para tal. Quem teve grande papel de importância na conversão dos Vikings para o Cristianismo foi o Rei da Noruega Olaf Tryggvason, entre os anos de 995 e 1000, esse o qual usou métodos brutos de conversão em muitos casos - destruindo templos pagãos e matando aqueles que resistiam. Aliás, Leif Erikson foi um dos convertidos por Olaf. No geral, esses processos de conversão originaram-se principalmente de considerações políticas, não apenas religiosas.

   INVASÕES VIKINGS

          De acordo com as Crônicas Anglo-Saxônicas, o ano de 787 d.C. marcou o primeiro ataque Viking na Inglaterra. Três embarcações conduzidas por Vikings partindo da região hoje da Dinamarca, aportaram no sul do país. Quando um oficial foi abordá-los, achando que se tratava de comerciantes, os Vikings o mataram. Já no ano de 793 d.C., o monastério na ilha sagrada de Lindisfarne, na costa inglesa, foi atacado, e esse período marcava o início de regulares ataques nas costas britânicas e irlandesas pelos Vikings, todos concentrados em monastérios onde ricas reservas de ouro e prata eram encontradas.


           Essas invasões também começaram a atingir os territórios da França, Espanha e Itália, instaurando terror por toda a Europa. Mas nem sempre os Vikings se davam bem, onde em 844, em Cordoba, na Espanha, um governante de lá conseguiu capturar centenas dos agressores, enforcando-os pouco tempo depois. Porém, esses incidentes não amedrontavam os Vikings, e suas invasões se estenderam para a Escócia, Gales, e continuaram cada vez mais fundo na Europa, atingindo até mesmo a Ásia Central, através de cursos fluviais.

            Os guerreiros Vikings lutavam a pé, vestindo malhas de metal sobre ´jaquetas´ de couro. Cada um deles geralmente tinha uma espada, a qual era bastante valorizada e passada de pai para filho, sendo que as mesmas geralmente recebiam nomes. Porém, como eram armas custosas, acabavam sendo mais usadas pela elite, enquanto o resto dos guerreiros na população normalmente preferiam machados e lanças, os quais eram mais em conta. E, junto com a espada, uma das armas favoritas era o machado de batalha, o qual desferia pesados danos com sua grande e curvada lâmina e longo cabo de pegada. Os Vikings também usavam arcos e flechas, e escudos circulares feitos com peças de madeira ligadas por barras de ferro.



            Os guerreiros Vikings mais temidos e violentos eram os berserkers, estes os quais possuíam tal enorme bravura que pareciam estar na pele de ursos ou lobos (a palavra ´berserker´ significa ´casaco/pele de urso´, mas pode também somente fazer referência a um estilo de combate praticado pelos Vikings, baseado em pura selvageria). Os berserkers acreditavam que eram fortemente protegidos por Odin, e iam para as batalhas sem medo da morte ou lesões - inclusive registros de monges na época diziam que esses guerreiros nem mesmo sentiam dor das feridas. Antes de uma batalha, os berserkers acionavam uma fúria louca e iam com tudo para a morte ou para a vitória. A existência dos berserkers é confirmada em obras artísticas e histórias contadas em sagas.


           Os Vikings também contavam com uma grande vantagem: suas famosas, sofisticadas e temidas longas embarcações. Longas, velozes e finas, essas embarcações mediam mais de 37 metros de comprimento e podiam carregar até 100 guerreiros. Como eram leves, os Vikings podiam levá-las até bem próximo das costas e até carregá-las por longas distâncias por terra. Isso permitia uma alta flexibilidade e surpresa nos ataques - além de facilitar enormemente retiradas estratégicas. Por serem capazes de navegar tranquilamente em águas rasas, podiam também ser usadas com grande eficiência em rios.



Aqui, temos o Gokstad, o qual media 23 metros de comprimento, e era grande suficiente para carregar 32 remadores

          As grandes velas quadradas eram feitas com pedaços de tecidos de lã ou pano de linho, normalmente sendo tingidas de um vermelho-sangue e tratadas com gordura animal para fazê-las mais resistentes à água. Junto com as cabeças de dragões nas extremidades dessas embarcações, as velas vermelho-sangue causavam grande temor nos inimigos. Os Vikings também acreditavam que as cabeças de dragões serviam para afastar os espíritos malignos e monstros no mar.

      INVASÕES E OCUPAÇÕES

            No início, as invasões Vikings eram rápidas e almejavam apenas o saque de riquezas. Mais tarde, várias invasões na Inglaterra, Escócia, Irlanda e outras partes da Europa Ocidental começaram a visar a ocupação dos territórios conquistados. Ao invés de voltarem para as terras natais com os saques, os Vikings começaram a construir moradias nos locais conquistados, com os líderes das invasões se tornando os novos governantes. Passavam o inverno nas novas moradias e atacavam regiões ao redor no verão. Na Irlanda, esses invasores estabeleceriam a cidade de Dublin, e Vikings vindos da Suécia comandaram as cidades de Kiev e Novgorod - eventualmente formando um reino onde hoje encontra-se a Rússia.

            Na década seguinte ao ano de 830 d.C., os Vikings começaram a chegar nas costas da Inglaterra em pequenos exércitos de 30 embarcações. Sob o comando de líderes como Ragnar Lodbrok - lendário rei na Dinamarca que supostamente reinou entre os séculos VIII e IX -  e seus filhos Bjorn, o Bravo, e Ivar, o Sem-Ossos, eles começaram a ocupar regiões no norte e no leste da Inglaterra, demandando ´Danegeld´ dos ingleses (dinheiro em troca de não sofrerem ataques). Em 865, os domínios britânicos foram invadidos por um enorme exército Viking vindo da Dinamarca e distribuído em 350 embarcações. Esse ataque veio com o objetivo de conquista e, em um período de 1 ano, os Vikings passaram a controlar a cidade de Jorvik (hoje conhecida como York), a qual se tornou a capital dos invasores. Nos próximos séculos, outras grandes áreas inglesas foram dominadas por Vikings.


             Em uma região do Reino Frankish, hoje parte da França, um líder Viking conhecido como Rollo tinha lançado repetidos ataques nos assentamentos ao longo do Rio Seine. Em 911, Rollo veio a entrar em acordo com o rei de Frankish, Charles, o Simples, e recebeu deste um território conhecido como mais tarde como Normandia. Em troca, Rollo concordou em parar os ataques, se tornou um Cristão e reconheceu Charles como seu superior. Cerca de 150 anos mais tarde, o Duke William da Normandia, um descendente de Rollo, invadiria os domínios britânicos e se tornaria o rei da Inglaterra.


             Não é preciso dizer que essas ocupações tiveram grande impacto no curso da história da Europa e do mundo. A partir daí ocorreram várias trocas culturais entre os escandinavos e o resto europeu, gerando diversas novas tradições e mudanças políticas e econômicas. E, acima de tudo, as conquistas e ocupações são mais uma prova de quão avançada e organizada era a sociedade Viking, já que os europeus no continente encontravam grande dificuldade em detê-los e muitas vezes cediam aos ataques e domínios subsequentes.

   GATILHO PARA AS INVASÕES

             Os historiadores ainda debatem bastante sobre os motivos que levaram os Vikings a se tornarem violentos saqueadores no final do século VIII. Entre as hipóteses, temos:

- Necessidade: Comunidades Vikings localizadas em áreas pouco produtivas e muito frias talvez tenham visto nas invasões uma forma de salvarem seu povo da fome, à medida que testemunhavam o crescimento populacional cada vez maior.

- Conhecimento de outros territórios: Mercadores que viajavam longas distâncias podem ter começado a dar reportes sobre novos territórios descobertos e suas abundantes riquezas. Isso pode ter fomentado a cobiça dos Vikings, especialmente em áreas estrangeiras onde os governos estavam enfraquecidos.

- Avanço militar: No século VIII, os Vikings viram suas tecnologias de guerra sendo aprimoradas cada vez mais, incluindo suas embarcações longas, armas, armaduras e estratégias de combate. Isso pode ter sido o incentivo e segurança que precisavam para iniciar ataques em terras estrangeiras.

- Cobiça e glória: Alguns historiadores acreditam que as invasões Vikings poderiam ser um meio para os jarls conseguirem riqueza fácil e aumentarem sua influência e poder. Outros historiadores também acreditam que o desejo de aventuras e glórias pode ter sido um componente adicional nesse sentido.


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   FORTIFICAÇÕES CIRCULARES

            Juntando-se aos grandes avanços da sociedade Viking, existe um que pegou os arqueólogos e outros estudiosos de surpresa: raras classes de monumentos conhecidas como Fortalezas Circulares do tipo Trelleborg. Ainda um certo enigma na arqueologia, as evidências acumuladas são claras quanto ao papel dessas fortificações, as quais provavelmente faziam parte de um sistema de poder militar na Era Viking, próximo do século X. As descobertas de tais construções iniciaram-se na década de  1930.



           Compreendendo massivos arranjos de paus e elaboradas escavações, com cerca de 140 a 250 metros de diâmetro, e englobando também traços de largas edificações e outras construções de madeira, essas fortalezas circulares são mais do que notáveis nesse período na Europa. Todas foram projetadas em planos geométricos similares e sob medidas meticulosamente acuradas. Construídas em um curto período de tempo ao redor de 975-980 d.C., no reino do Rei Harald ´Bluetooth´ Gormsson , esse sistema de Fortalezas requereu uma enorme concentração de força de trabalho e organização, algo que desafia enormemente a errada concepção das pessoas e até mesmo especialistas do estado de avanço da sociedade Viking.

           Nesse sentido, as Fortalezas Circulares provavelmente estavam associadas com as tentativas de Bluetooth em fortalecer seu poder na Dinamarca. Essas construções, junto com outros pontos estratégicos de defesa, entravam, portanto, com a função de submeter reis de menor poder e chefes locais ao seu comando. Esse complexo e poderoso sistema de poder militar também teria o objetivo de controlar possíveis revoltas populares.

           Infelizmente, não existem registros contemporâneos diretos dessas Fortalezas, sendo as mesmas descritas por estudos arqueológicos. Como eram construções caras de serem mantidas e menos importantes com o fim da guerra civil, isso explica seus curtos períodos de existência e falta de documentos históricos detalhados. O que parece claro era que os Vikings parecem ter tido a inspiração em levantar esse projeto a partir de observações de construções militares dos inimigos durante as invasões.

            Até recentemente eram conhecidas quatro Fortalezas Circulares, com todas seguindo a construção de Trelleborg, próxima de Slagelse, no oeste da Zealand: Aggersborg, no norte de Limfjord; Fyrkat, próximo de Hobro; e Nonnebakken, em Odense. Existe também um local descoberto em  Borgeby, na Skâne, mas as evidências apontam que a construção ali não seguia o padrão de uma Fortaleza Circular. Aggersborg era a maior delas - com 242 metros de diâmetro -, enquanto Trelleborg é, de longe, a mais bem preservada e a única com defesas externas. Agora, a partir de escavações e análises iniciadas em 2014, uma nova Fortaleza circular foi descoberta e marca um ponto chave em reforçar o quanto a sociedade Viking era avançada.



    BORGRING

           Apesar de todas as evidências levarem à conclusão de que essas Fortalezas Circulares faziam parte de um sofisticado arranjo militar no reino Viking da Dinamarca, suas localizações, até há alguns anos, eram consideradas um tanto erráticas. Enquanto pesquisas recentes mostravam efetivas estratégias militares do tipo sendo organizadas na Inglaterra Anglo-Saxônica, na Europa Central e na região do Mar Báltico, as disposições de defesa militar no reino dinamarquês não pareciam seguir padrões muito lógicos, podendo, inclusive, ser os vestígios de um projeto que falhou ou apenas construções simbólicas exaltando o poder do rei Harald.

            Em um exemplo, a distância entre Fyrt e Aggersborg é de apenas 52 km, enquanto a distância entre outros locais podem superar os 100 km. Comparando com construções militares do mesmo período, como as burhs inglesas, estas tinham uma distância entre si de 30 km, servindo como poderosos sistemas de defesa para as populações em volta. Além disso, locais fortemente povoados, como no sul da Zealand e no leste de Jutland, não parecem conter tais fortalezas. Nesse sentido, pesquisadores começaram a sugerir que outras Fortalezas Circulares podem ainda estar para serem descobertas, preenchendo as falhas de localização. E foi isso que um time de arqueólogos reportou esta semana na Antiquity (Ref.1)

           Combinando um mapeamento de alta-resolução (LIDAR), pesquisas geofísicas e pequenas escavações estratégicas, os pesquisadores revelaram mais uma Fortaleza Circular no padrão de Trelleborg, após mais de seis décadas com nenhum novo achado. Nomeada de Borgring, e encontrada no local de mesmo nome, no sul de Copenhagen, na Dinamarca, essa construção vem para preencher um importante buraco de distribuição militar estratégica ao longo do reino da Dinamarca. E quando também considerados outros pontos de defesa, como em Jelling, e cidades de Aarhus, Ribe e Hedeby, a introdução de Borgring garante uma distância constante entre 50 e 70 km entre esses pontos de investimento militar. Reunindo tudo isso, os pesquisadores concluíram que o sistema de Fortalezas Circulares era um efetivo sistema regional de defesa militar, de similar complexidade com aqueles vistos em outras partes da Europa.


            Além disso, usando as técnicas combinadas de análise arqueológica acima mencionadas, outras Fortalezas Circulares podem ainda serem reveladas, aumentando ainda mais a confiança no avançado sistema militar Viking. E Borgring apresenta uma característica única: durou muito mais do que um máximo de duas décadas como visto nas outras construções do tipo. Analisando os anéis dos troncos de árvores usados na sua construção, os pesquisadores mostraram que essa Fortaleza Circular foi erguida na década ou de 970 ou de 980, mas sua manutenção continuou por cerca mais de uma geração. Somando-se a isso, parece que ela foi fortemente atacada, com dois dos portões mostrando sinais de violentas queimaduras.

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       CONCLUSÃO

           As Fortalezas Circulares estão entre um dos objetos de estudo de maior interesse na arqueologia. Quando foram primeiro descobertas na década de 1930, as pessoas simplesmente não conseguiam acreditar que os Vikings, em seus próprios países, tinham construído essas estruturas. Muitos achavam que exércitos estrangeiros eram os responsáveis pelas construções. Mas à medida que mais foram sendo encontradas, os pesquisadores descobriram que, de fato, um rei Viking e seus guerreiros foram os envolvidos diretos. E essas estruturas incrustadas dentro de um complexo sistema de defesa chama, mais uma vez, a atenção do público para um alerta: os Vikings eram guerreiros, obviamente, mas eles eram guerreiros inseridos dentro de uma sociedade muito bem organizada.


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REFERÊNCIAS 
  1. https://www.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/borgring-the-discovery-of-a-viking-age-ring-fortress/53F7E590702E0511A0B487D6C15E2686
  2. http://www.sciencemag.org/news/2017/08/thousand-year-old-viking-fortress-reveals-technologically-advanced-society
  3. https://www.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/borgring-the-discovery-of-a-viking-age-ring-fortress/53F7E590702E0511A0B487D6C15E2686/core-reader
  4. http://en.natmus.dk/museums/trelleborg/trelleborgs-history/
  5. https://www.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/who-was-in-harold-bluetooths-army-strontium-isotope-investigation-of-the-cemetery-at-the-viking-age-fortress-at-trelleborg-denmark/EC869F4BE5A4B8C6F5125A1071687549
  6. http://www.forskningsdatabasen.dk/en/catalog/2278210011
  7. https://academic.oup.com/ehr/article-abstract/131/552/1110/2327329
  8. http://pure.au.dk/portal/en/publications/making-place-for-a-viking-fortress(b25d202a-67c4-49ca-87e2-9a5b35f46acb).html
  9. http://www.dandebat.dk/eng-dk-historie19.htm
  10. http://www.open.edu/openlearn/history-the-arts/history/vikings-just-misunderstood#
  11. https://www.oup.com.au/__data/assets/pdf_file/0027/58077/IH8-SB-CH7-The-Vikings.pdf
  12. http://www.au.dk/en/summeruniversity/courses/viking-age-scandinavia/
  13. http://www.su.se/english/research/research-news/who-were-the-first-vikings-1.263008
  14. http://www.bbc.co.uk/schools/primaryhistory/vikings/vikings_at_sea/
  15. http://www.bbc.com/news/magazine-26431858
  16. http://blogs.nottingham.ac.uk/wordsonwords/2014/03/11/the-viking-berserker/
  17. http://en.natmus.dk/historical-knowledge/denmark/prehistoric-period-until-1050-ad/the-viking-age/weapons/
  18. http://www.bbc.com/news/magazine-35935725
  19. http://en.natmus.dk/historical-knowledge/denmark/prehistoric-period-until-1050-ad/the-viking-age/weapons/berserkers/
  20. http://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair/article/viewFile/436/377
  21. http://www.uio.no/studier/emner/hf/iakh/HIS1110/h11/undervisningsmateriale/HIS1110s%C3%A6remne_Sverre_Bagge.pdf
  22. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.23308/full