O que é a Gigantomastia Gestacional?
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| Figura 1. Veias dilatadas na parte superior do tórax da paciente. Ref.1 |
Uma mulher grávida de 28 anos idade compareceu à sua primeira consulta pré-natal com 37 semanas de gestação, apresentando gigantomastia bilateral (1). A paciente relatou dor lombar intensa, dispneia e sensibilidade mamária acentuada. Durante a anamnese inicial, a paciente relatou que o aumento rápido e excessivo das mamas começou aos 3 meses de gestação.
- (1) Foto das mamas da paciente: acesse aqui.
Ela relatou que esta foi a primeira vez que experienciou aumento excessivo das mamas, algo que não havia ocorrido na gestação prévia. O histórico médico prévio da paciente não era significativo. O histórico cirúrgico prévio incluía apenas uma cesariana realizada com 36 semanas de gestação na Nova Guiné (África) devido ao agravamento de um quadro de pré-eclâmpsia.
A paciente relatou que o tamanho das suas mamas cresceu 5 vezes ao longo da gestação.
O exame físico revelou veias superficiais distendidas e endurecidas na parte superior do tórax (Fig.1) e alteração da curvatura da coluna vertebral. As medidas da mama direita foram: circunferência de 75 cm, distância da axila ao mamilo de 45 cm e distância do mamilo à linha média de 37 cm.
Os níveis séricos de prolactina incluíram um valor inicial de 103,3 μg/L (com um valor de referência normal para prolactina na gravidez de 36 a 372 μg/L) e um valor de 40,4 μg/L no 6º dia pós-parto (até 100 μg/L é considerado normal). Outros exames laboratoriais - contagem de leucócitos, hemoglobina, hematócrito, contagem de plaquetas, painel metabólico básico, fosfatase alcalina e estudos de coagulação - não apontaram anormalidades.
A paciente foi tratada com bromocriptina 2,5 mg duas vezes ao dia e encaminhada ao serviço de radiologia para realização de ultrassonografia mamária.
O exame de ultrassom demonstrou espessamento da pele e áreas hipoecoicas lineares (devido à dilatação dos ductos e estruturas vasculares), sem crescimento anormal - achados compatíveis com hipertrofia mamária (Fig.2).
Durante a avaliação inicial, a redução mamária não foi recomendada devido a potenciais complicações cirúrgicas.
A paciente recusou o parto vaginal. Portanto, foi realizada uma cesárea eletiva de repetição com 39 semanas, resultando no nascimento de uma menina de 3160 g.
Devido a dores persistentes no pescoço, ombros e costas, a paciente inicialmente optou por interromper a amamentação e continuar o tratamento com bromocriptina (2,5 mg duas vezes ao dia); no entanto, posteriormente, mudou de ideia e optou por amamentar e suspender a bromocriptina.
Ela foi avaliada por um cirurgião plástico 3 e 6 semanas após o parto para uma possível redução mamária bilateral. Na reavaliação realizada 6 semanas após o parto, a paciente não mais apresentava queixas ativas e decidiu adiar a cirurgia de redução mamária, porque estava amamentando seu bebê. A paciente retornou à Nova Guiné, na África.
Oito meses após o parto, a paciente realizou a cirurgia de redução mamária bilateral na Bélgica.
O caso foi descrito e reportado em 2015 no periódico Case Reports in Obstetrics and Gynecology (Ref.1).
GIGANTOMASTIA
A macromastia, particularmente em sua forma severa - a gigantomastia - é caracterizada pelo crescimento excessivo do tecido mamário, e prejudica significativamente a qualidade de vida por meio de sintomas físicos, sofrimento psicológico e limitações funcionais (Ref.4). Embora seja uma condição geralmente benigna, pode culminar em edema e congestão venosa, além de sintomas físicos que incluem dor no pescoço e nas costas devido ao peso dos seios, lordose cervical e lombar, cifose torácica, sulcos nos ombros, cefaleia crônica e redução da sensibilidade da aréola (Ref.5-6). Problemas de pele como eczema crônico, intertrigo e infecções são comuns. Psicologicamente, as pacientes podem apresentar ansiedade, depressão, irritabilidade, ansiedade sexual e diminuição da autoestima, impactando sua qualidade de vida.
Algumas mulheres afetadas pela gigantomastia relatam dificuldades respiratórias, possivelmente explicadas pela restrição da complacência da parede torácica gerada pelo volume excessivo das mamas, o que aumenta o esforço respiratório. A condição pode potencialmente causar hipertensão pulmonar (Ref.7).
A etiologia da gigantomastia é ainda desconhecida, mas pode estar relacionada com o estado gestacional ou predisposição genética, levando a excessos hormonais e hipersensibilidade das glândulas mamárias. O rápido e súbito desenvolvimento mamário pode ocorrer de forma bilateral ou unilateral. Embora não exista uma definição universalmente aceita para a condição, é tipicamente definida como um aumento mamário requerendo a redução de 1500 g por mama (Ref.8-9).
A gigantomastia é uma condição rara e a manifestação bilateral é a mais comum. Dependendo do contexto de manifestação, pode ser classificada em:
- gigantomastia juvenil;
- gigantomastia gestacional;
- gigantomastia idiopática;
- e gigantomastia induzida por medicamentos (estrogênio, neotetasona, ciclosporina, penicilamina e busilamina).
O fato de que a maioria dos casos descritos na literatura médica envolve grávidas ou adolescentes dá suporte à ideia de que a gigantomastia é tipicamente o resultado de hipersensibilidade do tecido mamário a níveis fisiológicos de hormônios circulantes (ex.: prolactina) ou a níveis hormonais excessivos. Na gigantomastia juvenil (2), maior expressão do receptor estrogênico alfa (ERα) - aumentando a sensibilidade do tecido mamário a estrógenos e à enzima aromatase - parece ser um fator contribuinte importante para a condição (Ref.10). A condição pode afetar paciente tão novos quanto 10 anos de idade (Ref.11).
- (2) Foto de uma paciente adulta com gigantomastia juvenil: acesse aqui.
A gigantomastia gestacional - ou seja, gigantomastia relacionada à gravidez - é uma condição muito rara, com incidência relatada de 1 em 28000 a 100000 gravidezes. Geralmente ocorre no primeiro ou segundo trimestre, mas também pode ser observada, com menor frequência, no terceiro trimestre e no período pós-parto. Quando ocorre em uma gestação, a probabilidade de recorrência da gigantomastia em gestações subsequentes aumenta. Está associada ao aumento da colagenização no tecido mamário e à fibrose estromal, e, histologicamente, observa-se tensão na pele da mama, edema, eritema, ulceração, necrose, dilatação dos vasos venosos e aumento do complexo aréolo-mamilar devido ao crescimento excessivo do tecido mamário. A condição pode também causar angiomatose dérmica difusa - caracterizada por proliferação vascular dérmica em resposta à hipoxia (Ref.13). Em alguns casos, pode causar graves infecções e sangramentos.
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> O exuberante crescimento bilateral das mamas pode ocorrer em doenças malignas como o linfoma não-Hodgkin, devendo por conseguinte ser considerado no diagnóstico diferencial desta hipertrofia. Ref.15
> Outra possível causa de gigantomastia é a hiperplasia estromal pseudoangiomatosa, uma proliferação benigna e muito rara do tecido conjuntivo da mama. Ref.16-17
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Em termos de tratamento, a cirurgia é indicada para dor refratária, ulceração, infecção ou hemorragia. A mamoplastia redutora alivia o peso, mas acarreta risco de recorrência em gestações futuras. A mastectomia total elimina a recorrência e pode salvar vidas em casos de necrose avançada ou sangramento. O momento ideal durante a gravidez exige um equilíbrio multidisciplinar entre o benefício materno e o risco fetal; situações de emergência se sobrepõem às preocupações relacionadas à idade gestacional. Apesar de a mama regredir após a gestação, raramente volta ao estado original; portanto, a redução da mama através de mastectomia ou mamoplastia geralmente é necessária. Além disso, é grande o risco de recorrências em gestações futuras.
A mamoplastia redutora continua sendo o tratamento padrão, visando aliviar os sintomas, preservando a função e a estética das mamas. Uma técnica efetiva nesse sentido é a técnica da mamoplastia redutora com pedículo inferior areolado (PIA). A cirurgia definitiva precoce melhora a dor, a postura e a mobilidade; a intervenção tardia aumenta as complicações da ferida e a mortalidade.
Tratamento farmacológico, quando necessário ou adequado, inclui principalmente o uso de bromocriptina. Esse medicamento é um agonista da dopamina (receptor) utilizado para tratar múltiplas condições, incluindo aquelas associadas ao excesso de prolactina, como hiperprolactinemia.
Tratamentos endócrinos ou nutricionais também podem ser considerados, visto que muitos pacientes apresentam obesidade associada.
O aborto terapêutico raramente é escolhido como opção terapêutica, mas pode reverter o estímulo hormonal e o aumento das mamas.
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REFERÊNCIAS
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- Alhindi et al. (2023). A Systematic Literature Review of the Clinical Presentation, Management, and Outcome of Gestational Gigantomastia in the 21st Century. Aesthetic Plastic Surgery 47, 10–29. https://doi.org/10.1007/s00266-022-03003-5
- https://revista.acm.org.br/arquivos/article/view/1661
- Johow et al. (2025). A Systematic Review and Meta-analysis Comparing Inferior Pedicle and Superomedial Pedicle Techniques in Reduction Mammaplasty for Gigantomastia: Postoperative Complications, Aesthetic Outcomes and Quality of Life. Aesthetic Plastic Surgery. https://doi.org/10.1007/s00266-025-05432-4
- Junior et al. (2015). Gigantomastia gestacional: como abordar essa situação clínica. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 30(1). https://doi.org/10.5935/2177-1235.2015RBCP0129
- Melero-Fernández & Martínez-Martínez et al. (2025). Gigantomastia: Advancing a Preference Score System to Enhance Care Quality and Life Standards. Aesthetic Plastic Surgery 49, 4256–4264. https://doi.org/10.1007/s00266-025-04831-x
- Castillo et al. (2022). Gigantomastia as a Cause of Pulmonary Hypertension. Archives of Plastic Surgery, 49(03): 369-372. https://doi.org/10.1055/s-0042-1748651
- Türkan et al. (2016). Gestational Gigantomastia. The Journal of Breast Health, 12(2):86–87. https://doi.org/10.5152/tjbh.2016.2852
- Sanli et al. (2024). Unilateral gestational gigantomastia in the third trimester. Journal of Medicine, Surgery, and Public Health, Volume 2, 100083. https://doi.org/10.1016/j.glmedi.2024.100083
- Santen et al. (2024). Role of ERα and Aromatase in Juvenile Gigantomastia, The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Volume 109, Issue 7, Pages 1765–1772. https://doi.org/10.1210/clinem/dgae019
- Nunzio et al. (2026). Juvenile Gigantomastia: a Case Report. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology, Volume 39, Issue 2, Page 335. https://doi.org/10.1016/j.jpag.2026.01.248
- Okere et al. (2023). A multi-disciplinary approach to gestational gigantomastia management: a case report. ASJ, Vol. 3. https://doi.org/10.21037/asj-23-13
- Briones et al. (2023). Diffuse dermal angiomatosis associated with gestational gigantomastia. JAAD Case Reports, Volume 31, Pages 49-52. https://doi.org/10.1016/j.jdcr.2022.11.010
- https://sajhealthsci.com/bilateral-breast-necrosis-secondary-to-gestational-gigantomastia/
- Filho et al. (2002). Hipertrofia Maciça das Mamas na Gravidez: Relato de Caso. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 24(6). https://doi.org/10.1590/S0100-72032002000600009
- Woo et al. (2023). Pseudoangiomatous Stromal Hyperplasia of the Breast in a Female Adolescent Presenting as Bilateral Gigantomastia. Journal of Breast Cancer, 26(4):391–396. https://doi.org/10.4048/jbc.2023.26.e21
- Moore et al. (2025). Gestational gigantomastia with pseudoangiomatous stromal hyperplasia – a case report of rare entities, Journal of Surgical Case Reports, Volume 2025, Issue 1, rjae835. https://doi.org/10.1093/jscr/rjae835
- Junior et al. (2015). Gigantomastia gestacional: como abordar essa situação clínica. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 30(1). https://doi.org/10.5935/2177-1235.2015RBCP0129


