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Joaninhas, besouros e até baratas encontradas no intestino de paciente durante colonoscopias!

 

          A colonoscopia é o melhor exame de imagem para o diagnóstico e para a triagem do câncer colorretal, assim como, para a avaliação de várias patologias do cólon. Esse exame visa a visualização em tempo real da mucosa do intestino grosso através do colonoscópio (instrumento flexível introduzido através do ânus e constituído de fibra óptica), assim como a remoção de pólipos/lesões e amostras diversas do tecido intestinal. Geralmente, a colonoscopia deve ser feita a partir dos 50 anos, com intervalos de 3 ou 5 anos, no entanto, se houver histórico familiar de câncer colorretal ou colite ulcerativa, a colonoscopia pode ser feita por volta dos 30 anos. Entre estranhos achados no intestino grosso durante exames de colonoscopia, insetos têm sido ocasionalmente reportados, e alguns inclusive vivos.

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           Em 2019, o caso de uma joaninha encontrada durante colonoscopia foi reportado e descrito no periódico ACG Case Reports Journal (Ref.2). A joaninha estava passeando no intestino grosso de um paciente de 59 anos. Os médicos acreditam que o paciente engoliu a joaninha (espécie Harmonia axyridis) e o fluído ingerido na noite anterior para prepará-lo para o exame (1 galão de polietileno glicol) teria ajudado a joaninha a escapar viva dos sucos e enzimas digestivas no trato gastrointestinal - particularmente na cavidade estomacal e porção inicial do intestino delgado - até o cólon. A joaninha (Coccinellidae) em questão pertencia à espécie Harmonia axyridis (Fig.1). Ingestão de insetos são raramente reportadas, mas podem ocorrer durante o sono.

Figura 1. Joaninha encontrada na colonoscopia. Ref.2

 

Figura 3. Joaninhas adultas Harmonia axyridis. Essa espécie exibe muitos padrões de cores em resposta a diferentes ambientes, devido a variantes em um único gene (o fator de transcrição pannier). Ref.3

            Em 2015, médicos encontraram besouros da espécie Ulomoides dermestoides no intestino de um paciente de 70 anos de idade. A colonoscopia revelou colite não-específica caracterizada por várias áreas cobertas com eritemas, congestão e hemorragia subepitelial na mucosa do cólon esquerdo. A colite provavelmente foi causada pelos insetos encontrados no cólon, entre larvas e adultos, incluindo alguns que pareciam estar vivos (Fig.4). Após o procedimento, o paciente informou aos médicos que ele havia consumido esses insetos como parte de uma terapia alternativa conhecida como "coleoterapia", a qual consiste em consumir besouros U. dermestoides vivos ao longo de um período de 140 dias. Essa terapia alternativa é alegada de tratar doenças de qualquer tipo, desde câncer e asma até Parkinson e depressão, porém não existe suporte científico de quaisquer benefícios nesse sentido (1). 

 

Figura 4. Um besouro adulto da espécie Ulomoides dermestoides aparentemente vivo no intestino do paciente. Ref.4

 

Figura 5. Besouro adulto U. dermestoides.


           Em 2016, no periódico Journal of Gastroenterology (Ref.5), pesquisadores também reportaram a descoberta de besouros U. dermestoides adultos mortos ocupando o cólon de uma paciente de 50 anos de idade; vários desses insetos estavam presentes desde o ceco até o cólon ascendente. Ao ser questionada, a paciente admitiu que estava ingerindo os besouros, aparentemente com propósitos terapêuticos. 

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(1) Na "coleoterapia", é alegado que quando os besouros morrem no estômago, uma enzima é secretada por esses insetos que fortalece as defesas do corpo contra várias doenças. Não existe nenhum suporte científico para essa alegação.

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           Em um relato de caso publicado em 2010 no periódico Endoscopy (Ref.6), pesquisadores reportaram a descoberta de uma barata no intestino de uma mulher de 52 anos. A paciente tinha um histórico de depressão, e enfrentava um quadro de inchaço abdominal e foi referida pelo seu médico para um exame de rastreamento de câncer colorretal. Preparação intestinal foi feita com 4 litros de polietileno glicol na noite prévia à colonoscopia. Durante o exame colonoscópico, nenhuma anormalidade patológica foi encontrada, com exceção da barata, pertencente à espécie Blattella germanica, no cólon transverso (Fig.6). A barata em questão estava na forma de ninfa e a casa da paciente sofria com infestação desses insetos. Os médicos especularam que ela pode ter ingerido acidentalmente a barata enquanto se alimentava. O inseto foi aspirado do cólon e levado para análise laboratorial.

 

Figura 6. Ninfa de barata-Alemã (Blattella germanica) no cólon transverso da paciente. Ref.6

 

Figura 7. Fêmea (à esquerda) e macho da Barata-Alemã adulta. As ninfas possuem uma coloração quase preta.

            Em 2014, no periódico ACG Case Reports Journal (Ref.7), médicos reportaram um paciente de 55 anos com um exame colonoscópico normal exceto pela descoberta de uma mariposa intacta mas morta entre as dobras do cólon transverso (Fig.8). A mariposa em questão tinha uma coloração esbranquiçada, provavelmente devido à ação dos ácidos estomacais (remoção de escamas sobre o corpo e as asas onde a maior parte da pigmentação é encontrada).

 

Figura 8. Mariposa da ordem Lepdoptera, com envergadura de asas de 12 mm. Ref.7

            Em 2019, médicos reportaram no periódico The American Journal of Gastroenterology (Ref.8) uma vespa da espécie Vespula vulgaris no cólon descendente de uma paciente de 52 anos, achado durante um exame de colonoscopia. O inseto estava intacto mas morto, e não foi recuperado. Os médicos especularam que a paciente havia ingerido a vespa junto com a solução padrão de polietilenoglicol usada na preparação do intestino.

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> Polietilenoglicol: É de grande importância a qualidade do preparo intestinal, etapa essencial para a visualização adequada de toda a superfície do cólon evitando que pequenas lesões sejam negligenciadas. Além disso o preparo intestinal adequado diminui o tempo de duração da colonoscopia, bem como seus custos. A solução oral de polietilenoglicol - um solvente orgânico solúvel em água - é um dos preparos colônicos mais utilizados. Trata-se de uma solução inabsorvível e iso-osmolar com o plasma, sendo segura, na medida em que não há absorção ou excreção de água e de eletrólitos. Apresenta boa eficácia e tolerância, contudo os pacientes geralmente reclamam do grande volume que precisa ser ingerido. Entre os efeitos adversos, dor abdominal e náuseas são os mais comuns. Tipicamente, duas doses são tomadas: uma na noite anterior e outra na manhã que precede o exame.

> Além da lavagem com polietileno glicol, pesquisadores também especulam que o complexo exoesqueleto de muitos insetos podem protegê-los das enzimas digestivas do trato gastrointestinal humano, preservando-os ao longo do caminho quando são engolidos inteiros. Em culturas onde o consumo de insetos diversos para alimentação é comum, presença de insetos no intestino pode ser algo relativamente frequente (2). Aliás, existe uma espécie de besouro (Regimbartia attenuata) que evoluiu justamente para escapar vivo após ser engolido por rãs! Para mais informações e vídeo: Esse besouro consegue escapar vivo pelo ânus de rãs após ser engolido

(2) Leitura recomendadaInsetos Comestíveis: Solução para um mundo mais sustentável?

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REFERÊNCIAS

  1. https://sbcp.org.br/uncategorized/exame-e-cirurgia-teste/ 
  2. Tahan et al. (2019). An Unusual Finding of a Ladybug on Screening Colonoscopy. ACG Case Reports Journal, 6(8): e00174. https://doi.org/10.14309%2Fcrj.0000000000000174
  3. Ando & Niimi (2019). Development and evolution of color patterns in ladybird beetles: A case study in Harmonia axyridis.Development, Grwth & Differentiation, Volume 61, Issue 1, Pages 73-84. https://doi.org/10.1111/dgd.1259
  4. Martínez-Rodríguez et al. (2015). “Chinese weevils” (Ulomoides dermestoides) found incidentally during colonoscopy. Endoscopy, 47(S 01): E114. https://doi.org/10.1055/s-0034-1391128
  5. Khosla et al. (2016). Gorgojos Chinos (Flour Beetle): Incidental Finding During Colonoscopy. The American Journal of Gastroenterology, 111(11), 1514–1514. https://doi.org/10.1038/ajg.2016.247  
  6. Kumar et al. (2010). An unusual finding during screening colonoscopy: A cockroach! Endoscopy, 42: E209-E210. https://doi.org/10.1055/s-0030-1255712
  7. Patel et al. (2014). Unusual Finding of an Intact Moth During Routine Colonoscopy. ACG Case Reports Journal, 1(3):p 119. https://doi.org/10.14309/crj.2014.21
  8. Raju et al. (2019). Yellow Jacket in the Colon: An Incidental Finding During Screening Colonoscopy. The American Journal of Gastroenterology 114():p S810-S811. https://doi.org/10.14309/01.ajg.0000595376.23043.d2
  9. Revista Brasileira de Coloproctologia, 28(2). https://doi.org/10.1590/S0101-98802008000200008