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Mulher de 80 anos com um Bebê de Pedra (Litopédio) - O que é Litopedia?


          Em um relato de caso publicado em 2001 no periódico Clinical Anatomy (Ref.1), uma mulher Sul-Africana de 80 anos de idade apresentou-se no departamento ambulatorial com severa dor abdominal. Exame de ultrassom revelou uma grande massa ecogênica no quadrante direito superior. Um exame de raio-X demonstrou o esqueleto de um feto extrauterino totalmente desenvolvido. 

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          Com base no histórico da paciente, os médicos inferiram que o feto estava dentro da mulher há pelo menos 40 anos. A paciente morreu 2 dias depois como resultado de falha renal. Por razões sócio-culturais, a família requisitou que o feto fosse removido da paciente falecida antes do enterro. Radiografia revelou um feto coberto em um manto de calcificação. O feto estava hiperflexionado com outros sinais de morte "intrauterina". Com base na análise da dentição fetal, o feto foi estimado de ter 34 semanas no momento da morte, com as epífises obscurecidas por extensiva calcificação. Em adição à calcificação subcutânea havia extensiva calcificação visceral e intracraniana. Em outras palavras, o feto, praticamente, havia se transformado em uma 'pedra' (litopédio).



          O litopédio extraído da paciente falecida possuía dimensões em torno de 20 x 20 cm. 


   LITOPEDIA ("Bebê de Pedra")

          O termo Litopedia é derivado do Antigo Grego (Lito-, líthos: pedra e -pedia, paidion: relativo a criança muito nova), e pode ser traduzido, literalmente, para "bebê de pedra", referindo-se a um feto que passou por um processo de calcificação ou de ossificação. Essa rara condição foi primeiro descrita no século X por Albucasis (936-1013 d.C.), um médico-cirurgião do al-Andalus (áreas dominadas pelas forças Islâmicas na Península Ibérica do século VIII ao século XV). Registros arqueológicos apontam que o litopédio mais antigo conhecido data de 3100 anos atrás, do Arcaico Médio, no Texas, EUA (Ref.3).

          Na era moderna da medicina, a ocorrência de litopedia é extremamente rara, estimando-se que ocorra em apenas 0,0054% de todas as gestações. Desde o mais antigo caso conhecido e descrito, em 1582 na França, cerca de 330 casos dessa condição têm sido reportados. No entanto, em lugares com limitados recursos de saúde pública, médicos podem se deparar com essa rara e confusa apresentação clínica. Casos de litopedia têm sido reportados em mulheres com uma idade variando de 30 até 100 anos, e o intervalo estimado de retenção do litopédio varia de 4 a 60 anos.

           A litopedia, basicamente, representa uma condição na qual um feto morto é retido na cavidade abdominal e calcificado em variados graus. As razões para a progressão de uma litopedia incluem uma gravidez extrauterina que escapa da detecção médica, morte fetal após 3 meses de gravidez, um feto que permaneceu estéril, e condições que favorecem a deposição de cálcio. De forma geral, a litopedia pode ser entendida como um tipo raro de gravidez ectópica, e ocorre quando o feto de uma gravidez abdominal não reconhecida morre e se calcifica, e com o processo de calcificação podendo se estender para a membrana fetal e a placenta.



          A gravidez ectópica é a principal causa de morte materna no primeiro trimestre, e ocorre em 1 a 2% das gestações. Mais de 90% ocorrem nas tubas uterinas. Gravidez abdominal refere-se à gravidez ectópica implantada na cavidade peritoneal, externamente ao útero e às tubas uterinas. A incidência estimada é de 1 por 10 mil nascimentos e 1,4% das gravidezes ectópicas.

          Quando um feto morto por gravidez ectópica é muito grande e está em avançado estágio de desenvolvimento para ser reabsorvido pelo corpo da mãe, o sistema imune o trata como um corpo estranho. Isso induz a deposição e infiltração de substâncias ricas em cálcio (sais inorgânicos e orgânicos de cálcio) sobre o feto, este o qual terá seu corpo, eventualmente, transformado em uma estrutura rígida e calcificada caso tempo suficiente seja permitido. Nesse sentido, para a formação dessa estrutura, é necessário que quatro condições sejam atendidas: 

- sobrevivência do feto por mais de 3 meses, porque se a morte ocorre quando os ossos estão ainda cartilaginosos, absorção do corpo fetal será rápida e completa;

- esterilidade do feto, ou, caso contrário, o feto é destruído no processo de supuração após um abscesso ser formado, geralmente devido a infecções com a bactéria Escherichia coli;

- falha na detecção médica do feto morto e retido na cavidade abdominal;

- presença de condições favoráveis para a deposição de cálcio (Ca).

          De um ponto de vista bioquímico, o litopédio possui uma carapaça consistente em sua maior parte de constituintes inorgânicos, e, nos tecidos internos existe uma significativa depleção de potássio (K) e de cloro (Cl), significativo enriquecimento de magnésio (Mg), fósforo (P) e sódio (Na), e enorme enriquecimento de Ca (compatível com a calcificação dos tecidos). No cérebro e no fígado, ainda é possível identificar a persistência de algumas isoenzimas.

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          Essa estranha entidade ocorre com um curso clínico não-previsível. A maioria dos casos de litopedia podem permanecer assintomáticos por um longo período de tempo, ou se apresentar com persistentes ou recorrentes sintomas obstrutivos e de dor abdominal dos sistemas urinário e intestinal. A condição também pode se manifestar com complicações como abscessos pélvicos, desproporção cefalopélvica em gravidezes futuras (diâmetro da cintura pélvica menor do que o diâmetro cefálico do feto no momento do parto), extrusão de partes fetais através da parede abdominal, reto ou formação de fístula na vagina, infertilidade tubal, e malignância litopedia-induzida.

               Radiografia abdominal é útil para sugerir ou confirmar um diagnóstico de litopedia. Tomografia computacional (CT) e imagem por ressonância magnética (MRI) são capazes de alcançar um diagnóstico conclusivo, permitindo também uma caracterização mais detalhada da massa, ajudando no diagnóstico de aderência da massa, definindo o envolvimento de estruturas adjacentes, e estimando a idade gestacional do feto ao se medir o comprimento femoral. O tratamento deve ser individualizado, levando-se em conta vários fatores associados (idade da paciente, comorbidades, sintomas, etc.), e geralmente feito pela via cirúrgica (tipicamente via cirurgia laparotômica).

          Para evitar o desenvolvimento de um litopédio ou identificá-lo de forma precoce, todas as mulheres em idade reprodutiva com dor abdominal, sangramento vaginal ou anormalidades menstruais devem ser testadas para gravidez. Uma vez que a gravidez é estabelecida, a localização da gravidez (intrauterina ou extrauterina) é tipicamente feita por exame de ultrassom. A escassez de recursos e atenção médica explica o porquê da maioria dos casos pós-século XX de litopedia serem reportados em países mais pobres, geralmente subdesenvolvidos.

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        No Brasil, existem pelo menos três casos reportados na literatura acadêmica. O último foi um caso descrito em 2019 no Rio de Janeiro, de uma idosa de 71 anos com sintomas clínicos de obstrução intestinal, e da qual foi extraído um litopédio com cerca de 20 cm de diâmetro (Ref.8).


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/1098-2353(200101)14:1%3C52::AID-CA1009%3E3.0.CO;2-H
  2. Santoro, G., Laganà, A. S., Sturlese, E., Giacobbe, V., Retto, A., & Palmara, V. (2014). Developmental and Clinical Overview of Lithopaidion. Gynecologic and Obstetric Investigation, 78(4), 213–223.
  3. https://www.ajog.org/article/0002-9378(93)90148-C/pdf
  4. https://jmedicalcasereports.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13256-019-2264-8
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7546282/
  6. https://journalgurus.com/admin-panel/index.php/tjog/article/view/23
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3979976/
  8. https://www.scielo.br/j/rbgo/a/KvJkZhYMB8CHLYTmcHr9yPG/abstract/