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Placebos se mostram tão eficientes quanto potentes fármacos analgésicos


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          O efeito placebo é mais do que famoso e muito importante no campo da medicina. Bastante controverso e muitas vezes mal interpretado, o placebo geralmente tende ser excluído dos tratamentos médicos tradicionais, e relegado apenas aos procedimentos clínicos para o teste de novas drogas, como parte do controle. Mas um novo estudo publicado na Nature Communications desta semana concluiu que os profissionais de saúde deveriam começar a considerar o uso de placebo para o tratamento alternativo de dores crônicas, algo que potencialmente livraria grande parte dos pacientes dos efeitos colaterais diversos dos fármacos.

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   BREVE HISTÓRIA

          O efeito placebo possui uma longa história de uso e abuso, especialmente no campo da medicina alternativa. A noção de algo chamado 'placebo' teve início com uma incorreta tradução de São Jerônimo (347-420 d.C.) da primeira palavra da nona linha do salmo 116, onde ao invés de traduzir do Hebreu "Eu andarei diante do Senhor", ele escreveu "Eu irei agradar o Senhor". Pelo século XIII, pessoas contratadas para fazerem luto nas Vésperas do Ofício dos Defuntos frequentemente e repetidamente entoavam a nona linha, e acabaram recebendo o nome de 'placebos' para descrever o falso comportamento/leitura desses indivíduos. Já no século XIV, no Canterbury Tales, Chaucer nomeou seu cortesão bajulador de Placebo, indicando que o termo se tornou bem difundido para a descrição de comportamentos baseados em uma falsa crença.

          Os primeiros controles placebos, onde falsos procedimentos eram usados para separar os efeitos imaginativos da realidade, começaram no século XVI com os relativamente progressivos esforços Católicos para desacreditar exorcismos que eles consideravam falsos (realizados por outras vertentes metodológicas). Esses controles foram então aplicados em experimentos médicos no final do século XVIII para a desmistificação de fenômenos não cientificamente baseados, e é nessa época também que a palavra 'placebo' passou a ser usada em um contexto medicinal para descrever tratamentos inertes que resultavam em efeitos terapêuticos.

          Mas o grande interesse no efeito placebo só surgiu após a Segunda Guerra Mundial, quando os estudos clínicos controlados randomizados passaram a ser amplamente adotados. Nesse sentido, os profissionais de saúde começaram a notavelmente perceber que os pacientes melhoravam substancialmente seus sintomas, às vezes de forma dramática, com o uso de placebos.

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   EFEITO PLACEBO

          O efeito placebo é classicamente definido como uma resposta fisiológica que segue a administração de um "remédio" farmacologicamente inerte - como uma pílula de açúcar. No geral, o placebo caracteriza efeitos positivos expressados pelo corpo resultantes da antecipação do paciente de que uma intervenção - pílulas, procedimentos, injeções, etc. - irão ajudá-lo no tratamento de uma enfermidade ou de qualquer outra condição de saúde. Além disso, a interação do profissional de saúde com o paciente também atua na construção do efeito placebo, onde o corpo responde positivamente a uma boa relação entre médico e paciente independentemente de quaisquer tratamentos específicos.

          Em um clássico estudo (Ref.2), estudantes de medicina foram dados uma de duas diferentes pílulas, cada uma das quais eram ditas ou que causavam um efeito sedativo ou um efeito estimulante. Porém, ambas as pílulas continham apenas ingredientes inertes. Entre os estudantes que receberam o "sedativo", mais de dois terços reportaram sensações de leve sonolência, e aqueles que tomaram duas dessas pílulas se sentiram mais sonolentos do que aqueles que tomaram apenas uma. No outro grupo, dos "estimulantes", uma grande fração dos estudantes que tomaram uma pílula reportaram se sentirem menos cansados, e cerca de um terço deles reportaram efeitos colaterais indo de dores de cabeça e tonturas até formigamentos nas extremidades e um andar vacilante. Apenas 3 dos 56 estudantes analisados reportaram não ter sentido efeitos significativos com nenhuma das pílulas.

          Diferente do que muitos pensam, o efeito placebo não é apenas fruto da imaginação ou poder sugestivo da pessoa, e, sim, algo com reais efeitos neurobiológicos e consequências terapêuticas, aliviando de fato dores, ansiedade, depressão, entre outros quadros neurológicos. Outro erro é achar que a dor amenizada com um placebo, por exemplo, não era real e, sim, 'imaginada'. Apesar dos mecanismos pelos quais o cérebro afeta a percepção de dor ainda não serem totalmente entendidos, o placebo efetivamente atua modificando a atividade neural do indivíduo de modo a gerar um efeito analgésico.

          Para ilustrar isso, em outro clássico estudo de análise do efeito placebo (Ref.2), 75% dos pacientes sofrendo de dor após uma operação cirúrgica reportaram satisfatório alívio após uma injeção de uma solução salina esterilizada (placebo). Os pesquisadores notaram que tanto aqueles que responderam ao placebo quanto aqueles que não responderam possuíam previamente a mesma intensidade de dor e, na média, respostas psicológicas similares a ela. Além disso, esse efeito placebo pôde ser bloqueado via naloxona, um antagonista competitivo de receptores opiatos, indicando uma substancial base farmacológica para o alívio de dor experienciado (reversão do mecanismo que recruta caminhos endógenos de dor agindo sobre o sistema opioide que regulam a inibição descendente do rACC através do PAG). Mas nem todos os efeitos placebos são mediados por opioides, sendo que estudos acumulados nos últimos anos mostram que outros mecanismos neurobiológicos também podem estar envolvidos, como a liberação de diferentes neurotransmissores e neuromoduladores (Ref.4).

          E é esse o motivo pelo qual o efeito placebo é tão importante de ser avaliado nos estudos clínicos para o teste de novas drogas. Em testes clínicos randomizados e duplo cegos, os pesquisadores comparam grupos de voluntários submetidos ao medicamento visado e a um placebo, procurando identificar se efeitos terapêuticos observados estão sendo oriundos da droga testada ou se o próprio corpo está lidando de forma independente com os sintomas ou mesmo com o prognóstico da doença ou condição sendo analisada.

          Medicinas alternativas sem base científica de lógica e/ou comprovada eficácia podem afetar positivamente os pacientes via efeito placebo independentemente da forma de tratamento. E é aqui que mora o perigo. Apesar do efeito placebo amenizar certos sintomas e quadros ligados ao estado neurológico do paciente, especialmente aqueles associados a dores crônicas, não existem evidências de que o placebo trate ou muito menos cure doenças como o câncer, hipertensão, diabetes, etc. Nesse sentido, praticantes de medicinas como a homeopatia (1) podem impor sérios riscos aos pacientes ao alegarem que seus métodos podem curar doenças diversas, inventando mecanismos terapêuticos distintos para suas práticas que claramente estão ligados apenas ao placebo. Mesmo a acupuntura que possui um maior suporte científico para a amenização de dores crônicas (2) parece dever grande parte dos seus efeitos ao placebo (sham acupuncture).


Para saber mais, acesse:

          Porém, apesar dos irrefutáveis efeitos terapêuticos gerados pelo placebo, este não faz parte da prática clínica por ser anti-ético um profissional de saúde prescrever um medicamento placebo - como uma pílula de açúcar - sem o paciente saber que aquilo é um placebo. Ou seja, caímos no problema da transparência entre médico e paciente. Além disso, nem todo mundo responde ao efeito placebo.

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   PÍLULAS DE AÇÚCAR E AS DORES CRÔNICAS

          De acordo com um novo estudo publicado na Nature Communications (Ref.3), em breve os médicos poderão seguramente prescrever pílulas de açúcar (placebo) para certos quadros de dores crônicas aos seus pacientes baseando-se na anatomia cerebral e na psicologia desses últimos, sem prejuízos frente ao fármacos tradicionais usados para o mesmo fim.

          Para chegar nessa conclusão, pesquisadores da Universidade de Northwestern, EUA, analisaram 63 pacientes com dores crônicas em uma série de testes clínicos randomizados. Durante esses testes, diferentes grupos foram formados, onde alguns recebiam o placebo e outros não, incluindo um teste inicial em que 40 participantes receberam placebo e outros 20 não receberam nenhum tratamento. Duas pausas foram dadas após a administração do placebo e dos fármacos para acompanhar o desenvolvimento do quadro de dor seguindo a descontinuidade do tratamento e para "rebootar" os pacientes para a nova batelada de testes. No final, todos se submeteram ao placebo, ao não-tratamento e ao tratamento via fármacos. Isso garantiu que o efeito analgésico observado do placebo fosse isolado e não pudesse ser explicado pela história natural do paciente ou pela mera exposição aos procedimentos do estudo. Tanto os pacientes que não responderam ao placebo quanto aqueles que responderam tiveram seus cérebros e comportamento psicológico analisados.

          Os resultados das análises mostraram que ~50% dos pacientes responderam ao placebo tão bem quanto ao medicamento - exibindo uma redução de dor em torno de 33% - e que esses possuíam uma anatomia cerebral e traços psicológicos similares. Imagens de ressonância magnética mostraram que o lado direito da parte emocional do cérebro desses pacientes era maior do que a parte da esquerda, e que eles tinham uma maior área sensorial cortical do que aqueles que não responderam ao placebo. Esses padrões neurais estavam presentes antes da exposição às pílulas e a maior parte deles permaneceram estáveis durante os períodos de pausa e de tratamento. Além disso, esses padrões razoavelmente acompanharam a intensidade da resposta ao placebo. Já em termos psicológicos, esses pacientes eram emocionalmente auto-cientes, sensíveis a situações dolorosas e bem alertas ao ambiente ao redor.


          Outro achado muito importante feito pelos pesquisadores é que o cérebro dos pacientes que respondem ao placebo já está meio que programado para responder ao placebo, não sendo necessário enganá-los quanto à natureza do 'remédio'. Em outras palavras, os médicos podem dizer aos pacientes que estão dando um placebo a eles e que isso ajudará no alívio das dores, porque a psicologia e biologia desses pacientes já os colocam em um estado cognitivo onde a simples menção de que algo irá aliviar as dores de fato trará significativos efeitos analgésicos, independentemente do tratamento. Isso termina por remover a barreira ética impedindo as prescrições de placebos.

          Conhecendo os perfis anatômicos e psicológicos dos pacientes, os médicos podem melhor decidir quando um fármaco será realmente necessário, ou se apenas uma pílula de açúcar dará conta do recado.

          Entre as vantagens no uso de placebos para os pacientes que respondem ao seu efeito, e o conhecimento prévio de quais pacientes melhor vão responder a esse efeito, estão:

- Muitos medicamentos voltados para o alívio de dores possuem efeitos adversos ou viciantes, especialmente se o uso é a longo prazo.

- Eliminação do efeito placebo dos testes de drogas analgésicas, tornando os estudos clínicos mais fáceis de serem organizados e realizados.

- Redução dos custos de saúde. Com a administração de 'pílulas de açúcar', os pacientes e o governo gastarão drasticamente menos nos tratamentos médicos.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://nccih.nih.gov/health/placebo 
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK11141/ 
  3. https://www.nih.gov/news-events/nih-research-matters/placebo-effect-depression-treatment
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2832199/
  5. https://www.nature.com/articles/s41467-018-05859-1
  6. https://news.northwestern.edu/stories/2018/september/sugar-pills-relieve-pain-for-chronic-pain-patients/