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Cortar o glúten da dieta traz benefícios?

                                          
- Artigo atualizado no dia 22 de maio de 2018 -

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         Uma dieta da moda hoje é a alimentação livre de glúten, esta a qual é considerada por muitos como a "proteína do mal". Com promessas milagrosas de emagrecimento e benefícios à saúde, e usada por modelos e celebridades, a dieta glúten-free atraiu milhões de pessoas, levando à ascensão de um bilionário comércio de alimentos sem glúten e à demonização dessa proteína baseada muito mais em achismos do que em evidências científicas. Aliás, evidências arqueológicas mostram que o ser humano já consumia uma dieta com substancial quantidade de glúten há cerca de 14 mil anos (1), com o pão de trigo representando um alimento mais do que tradicional há milhares de anos, fazendo inclusive parte íntima da religião Cristã.


O glúten é a associação de duas proteínas (Gliadina e Glutenina) em uma única estrutura proteica; a gliadina é a causa mais comum da intolerância ao glúten nos indivíduos com a doença celíaca. Encontra-se presente naturalmente no endosperma da semente de cereais da família das gramíneas (Poaceae), subfamília Pooideae, principalmente das espécies da tribo Triticeae, como o trigo e o centeio

        Se você não possui a doença celíaca (2), na qual existe uma intolerância à digestão do glúten, não é necessário você cortar os alimentos contendo esta proteína da sua dieta. Além dela não fazer mal algum para os indivíduos normais, você ainda perde muitos nutrientes de diversas fontes, principalmente cereais que contêm essa proteína, como o trigo, aveia, centeio e cevada. Além disso, muitos alimentos que contém glúten costumam ser fortificados com minerais e vitaminas extras, como as farinhas de trigo. E não existe ligação alguma entre a não ingestão do glúten e o emagrecimento, mas pode haver um resultado inicial na 'dieta glúten-free' porque você estará cortando massas processadas baseadas no trigo e outros produtos de alto valor calórico. Porém, muitas pessoas distorcem a dieta, e acabam comendo muitas outras porcarias que estão livres apenas do glúten, na ilusão de uma alimentação saudável. E outro prejuízo em fazer a dieta livre de glúten: os produtos livres dessa proteína tendem a ser mais caros na média.

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         Existe também a possibilidade da pessoa ser alérgica ao trigo e, recentemente, outro quadro clínico parece ter sido descoberto: Sensibilidade ao Glúten Não Associada à Doença Celíaca (NCGS, na sigla em inglês). Nessa última, irritações intestinais em alguns indivíduos podem estar associadas ao glúten sem, necessariamente, existir a doença celíaca. Apesar de existir controvérsias sobre a real existência dessa síndrome, com alguns estudos dizendo ser tudo fruto de um efeito placebo ou de um nocebo (2), as evidências contrárias são relativamente fortes. Inclusive, é estimado que a maior parte dos quadros de intolerância ao glúten sejam devido ao NCGS, algo antes ignorado pelos pesquisadores. De qualquer forma, tanto a alergia ao trigo (a qual não está relacionada ao glúten) quanto a NCGS afetam uma pequena parcela da população e não deve, nunca, ser tomada como uma regra geral.

        Aliás, nos últimos anos alguns pesquisadores começaram a sugerir que o culpado por trás da NCGS parece nem mesmo ser o trigo ou o glúten, mas sim o consumo de carboidratos conhecidos como FODMAPs. Os FODMAPs reúnem oligo-, di-, e monossacarídeos e polióis de baixa fermentabilidade, os quais são carboidratos de cadeia curta não-digestíveis ou de baixa absorção no trato intestinal humano. Esses macronutrientes - encontrados em alimentos diversos, como cebolas, legumes, iogurtes, leite e maças - desencadeariam sintomas da síndrome do intestino irritável em uma pequena parcela da população, e deveriam ser consumidos em baixa quantidade nesses casos. Uma dieta glúten-free, por exemplo, acaba trazendo uma diminuição na ingestão dos FODMAPs, o que explicaria o alívio intestinal experienciado por algumas pessoas que optam por essa dieta. Porém, isso ainda é apenas uma hipótese.

         Para exemplificar essa confusão, um estudo recente, publicado no periódico Gastroenterology (Ref.14), analisou 59 pessoas que eram aderentes de uma dieta glúten-free por supostamente terem problemas gastrointestinais com essa proteína. Esses voluntários foram divididos de forma aleatória em três grupos: o primeiro iria consumir diariamente e por uma semana uma barra de cereais contendo glúten isolado; o segundo iria consumir barras com um FODMAP isolado (no caso, fructano); e o terceiro iria consumir uma barra sem nenhum dos dois macronutrientes suspeitos (placebo). Após analisar os sintomas deflagrados via testes de sangue e auto-reportes, os pesquisadores redistribuíram os participantes entre os três grupos até que todos tivessem ingerido todas as três barras e tivessem os possíveis sintomas associados analisados. O resultado foi que dos 59 participantes, 24 tiveram os mais expressivos sintomas de intolerância com as barras de fructano, 22 responderam mais às barras de placebo e apenas 13 às barras de glúten.

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         Portanto, se você não possui a doença celíaca ou reações alérgicas associadas, não tenha medo de comer uma saudável aveia (3) ou um centeio. O comum 'Não contém glúten' nas embalagens é um alerta apenas para os portadores de enfermidades específicas. É o mesmo que demonizar o amendoim só porque algumas pessoas possuem alergia a esse alimento. E a lógica do emagrecimento é simples: consuma menos calorias do que você gasta por dia, prestando atenção no que você come. Não existe fórmula mágica.

(1) A doença celíaca é uma desordem autoimune, onde anticorpos produzidos após uma sensibilização do corpo pelas proteínas do glúten começam a atacar o próprio organismo. Normalmente, os efeitos mais comuns são sentidos no sistema digestivo, mas podem ocorrer por todo o corpo. No intestino, essa reação autoimune acaba prejudicando as paredes desse órgão, diminuindo a  a absorção de nutrientes, algo que pode comprometer bastante a saúde do indivíduo. Essa desordem tende, ligeiramente, a afetar mais as mulheres do que os homens, e é determinada, basicamente, por fatores genéticos.

(2) A aveia só costuma possuir glúten porque é processada junto ao trigo e outros grãos nas indústrias. Sua proteína é a avenina e, caso seja bem purificada ou tratada separadamente durante seu tratamento industrial, ela passará a não ter mais o glúten, ficando segura para o consumo de indivíduos com a doença celíaca ou outras sensibilidades associadas.

(3) O efeito nocebo surge quando apenas a ideia de consumir ou receber algo prejudicial ou benéfico é suficiente para desencadear sintomas diversos no indivíduo, ou seja, não é preciso nem a utilização de um placebo para efeitos fisiológicos de importância surgirem.


ATUALIZAÇÃO (25/06/16): Um estudo de revisão publicado em maio deste ano fez um alerta quanto às deficiências nutricionais associadas a um regime que exclui o glúten. Entre os macro e micro nutrientes que mais sofrem uma diminuição de consumo, quando analisada uma dieta tradicional da maior parte da população, estão as fibras, vitamina D, vitamina B12 e ácido fólico (o trigo, por exemplo, é normalmente enriquecido com ácido fólico), ferro, zinco, manganês e cálcio. Além disso, as pessoas em uma dieta livre de glúten tendem a consumir mais alimentos com gorduras hidrogenadas e de alto índice/carga glicêmica. Como dito no texto acima, é preciso tomar um maior cuidado com a dieta quando se é submetido a esse tipo de restrição alimentar. (Ref.10)

ATUALIZAÇÃO (14/02/17): E mais um importante aviso para as pessoas que escolhem uma dieta 'Glúten Free'. Um estudo realizado na Universidade de Illinois (Ref. 11), em Chicago, EUA, mostrou que as pessoas consumindo apenas alimentos livres de glúten estão sob um maior risco de serem expostos a uma maior quantidade de arsênio e mercúrio, dois tóxicos metais que podem levar ao desenvolvimento de problemas cardíacos, câncer e danos neurológicos.

Isso é consequência da maior quantidade de outros alimentos consumidos para compensar a retirada daqueles que contêm glúten. Em especial, essa dieta restritiva leva ao aumento do consumo de arroz (incluindo os alimentos embalados ´glúten-free´ que tendem a ser ricos em farinha de arroz em substituição à farinha de trigo). O arroz é bem conhecido de ser um bioacumulador, incluindo mercúrio e, principalmente, arsênio ( Entenda mais sobre o assunto no artigo Arroz Venenoso).

No estudo, mostrou-se que pessoas submetidas à dieta glúten-free tinham a concentração de arsênio no sangue quase duas vezes maior e, de mercúrio, 70% maior.

Só nos EUA, em 2015, 1 em cada 4 pessoas reportaram que tinham abandonado o consumo de alimentos com glúten, um aumento de 67% em relação ao ano de 2013, e algo que preocupa os especialistas. Portanto, é preciso ficar bem alerta no que se está consumindo quando se está nessa dieta, para não ter a saúde prejudicada.

ATUALIZAÇÃO (04/05/17): Mais um estudo confirmou algo que a comunidade médica inteira já sabe, mas que foi distorcido pelos programas de dieta e pelas desinformações populares ao longo dos anos: o consumo de alimentos com glúten só é prejudicial para quem possui a doença celíaca ou algum tipo de alergia relacionada. Para a grande maioria da população, ingerir glúten não mostra prejuízo nenhum, e muitos alimentos que o contém, na verdade, trazem benefícios para o corpo.

No caso desse novo estudo, conduzido por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Columbia, Hospital Geral de Massachusetts e Escola de Medicina de Harvard, e publicado no Britsh Medical Journal (BMJ) (Ref.12), mais de 100 mil homens e mulheres foram analisados em relação ao consumo de uma dieta contendo glúten. Os resultados mostraram que se a pessoa não possui a doença celíaca, o consumo de glúten não está associado com o aumento de riscos de doenças cardíacas.

Os pesquisadores envolvidos reforçaram que a ingestão de glúten por pessoas que não possuem alergia à essa proteína não faz mal à saúde cardíaca e que, pelo contrário, retirar diversos alimentos integrais (certos grãos e cereais, por exemplo) que contêm glúten pode causar danos, já que os mesmos mostram efeitos de proteção contra doenças cardíacas. Eles também lembraram que afirmações populares e da indústria alimentícia de que o glúten é prejudicial não possuem fundamento científico, e que a única coisa que fazem é gerar maiores lucros para os produtores de alimentos ´livres de glúten/glúten free´. Na conclusão, deixaram claro que uma dieta livre de glúten não deveria ser encorajada para pessoas sem a doença celíaca.

Publicação do estudo: BMJ


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3746085/
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-277X.2007.00763.x/abstract
  3. http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/
  4. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3847748/
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0261561414002180
  7. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/apt.12730/full
  8. journals.sbmu.ac.ir/ghfbb/index.php/ghfbb/article/download/382/310
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4476872/
  10. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0261561416300887
  11. https://news.uic.edu/gluten-free-diet-may-increase-risk-of-arsenic-mercury-exposure
  12. http://www.bmj.com/content/357/bmj.j1892
  13. http://www.sciencemag.org/news/2018/05/what-s-really-behind-gluten-sensitivity 
  14.  https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(17)36302-3/abstract
  15. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3966170/ 
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5390324/