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Encontrada carta de Galileu mostrando que ele editou suas ideias hereges para enganar a Inquisição


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          De forma inesperada, a tão procurada carta do famoso físico e astrônomo Galileu Galilei foi encontrada pelo pós-doutor em História da Ciência, Salvatore Ricciardo, na biblioteca da Royal Society, em Londres. Nessa carta, é onde Galileu consolida seus argumentos contra a doutrina da Igreja de que o Sol orbita a Terra, abrindo caminho para a sua condenação por heresia em 1633.

          A carta, contendo 7 páginas, foi escrita para um amigo de Galileu em 21 de dezembro de 1613, e é assinada com um característico "G.G." do cientista. Mas a revelação mais importante após sua análise é a de que Galileu, no início da sua trágica batalha contra os dogmas das autoridades religiosas, tentou suavizar seu tom de acusações para que suas alegações científicas fossem introduzidas no campo de debates sem causar grande polêmica.

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   GALILEU GALILEI

          Nascido em Pisa, Itália, no dia 15 de fevereiro de 1564, Galileu Galilei acabou se tornando um dos mais famosos e influentes cientistas da história, frequentemente considerado a figura central da Revolução Científica do século XVII. Seu pai, Vincenzo Galilei, foi um músico bem conhecido na época e já tinha decidido desde cedo que seu filho deveria se tornar um médico. Após completar a educação básica no Monastério Camaldolese, em Vallombrosa, Galileu, em 1581, foi enviado para estudar medicina na Universidade de Pisa. No entanto, ao entrar em contato mais íntimo com o meio acadêmico, ele acabou descobrindo uma grande afinidade e talento para a matemática e gosto pela filosofia natural. Nesse sentido, o jovem Galileu acabou convencendo seu pai de que seu futuro estava nas ciências exatas.

          Após abandonar a medicina e a Universidade de Pisa, em 1585, Galileu se tornou um tutor em matemática e, posteriormente, um professor de matemática em Florença e, mais tarde, em Siena. Durante o verão de 1586, ele ensinou em Vallombrosa, e, nesse mesmo ano, escreveu seu primeiro livro científico chamado 'A Pequena Balança' (La Balancitta), o qual descrevia o método de Arquimedes (1) para encontrar as gravidades específicas de substâncias usando uma balança. O prestígio acadêmico de Galileu cresceu tanto que, em 1588, ele recebeu um importante convite para dissertar sobre as dimensões e localização do Inferno de Dante na Academia em Florença. Em 1589, Galileu foi apontado para a Cadeira de Matemáticos na Universidade de Pisa, onde ele escreveu uma série de ensaios sobre a teoria cinética a qual ele nunca publicou oficialmente. Esse livro em específico continha a importante noção de que uma pessoa pode testar hipóteses ao conduzir experimentos, além de conter o famoso exemplo do uso de um plano inclinado - simulando uma queda em menor aceleração - para o estudo de corpos em queda livre.





          Em maio de 1609, Galileu ouviu sobre a invenção de um 'óculo de alcance' por um Holandês que foi exibida em Veneza. O dispositivo em questão fazia um objeto distante parecer estar mais perto. Utilizando suas fantásticas habilidades matemáticas e técnicas, Galileu rapidamente otimizou o dispositivo e deu ao mundo o primeiro telescópio. No mesmo ano, ele se tornou a primeira pessoa a olhar para a Lua através de um telescópio e fazer sua primeira descoberta astronômica: nosso satélite natural não era liso como comumente pensado, mas montanhoso e cheio de relevos, assim como a Terra (primeira inferência de que o nosso mundo não era tão único assim). Galileu subsequentemente usou sua nova invenção para descobrir quatro das dezenas de satélites naturais circulando Júpiter, ver os anéis de Saturno, mostrar que Vênus possui fases como aquelas vistas na Lua (primeira forte evidência de que Vênus orbita ao redor do Sol, não da Terra) e analisar as manchas solares sobre a nossa estrela. Suas observações também sugeriram que a Via Láctea era formada por diversas estrelas. E todas essas descobertas foram reportadas em três livros: Mensageiro Estrelado, em 1610, Discurso sobre Corpos Flutuantes, em 1612, e Cartas sobre as Manchas Solares, em 1613.




          As inúmeras observações de Galileu reforçaram sua crença na teoria do astrônomo Polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) de que a Terra e todos os outros planetas orbitavam ao redor do Sol (heliocentrismo). Essa ideia era bastante polêmica na época, onde a maioria das pessoas, especialmente as instituições religiosas, acreditavam que a Terra era o centro do Universo e que tudo (geocentrismo), incluindo o Sol, girava ao redor do nosso planeta. De qualquer forma, em 1611, Galileu visitou Roma e foi tratado como uma grande celebridade na terra do Papa, mas isso porque suas crenças científicas polêmicas ainda não tinham sido feitas públicas. Também foi nomeado nesse mesmo ano um membro da Accademia dei Lincei.




          A Igreja Católica Romana, a qual era extremamente poderosa e influente na época de Galileu, fortemente suportava o modelo geocêntrico. Durante um encontro no Palácio Médici, em Florença, em dezembro de 1613, com o Grande Duke Cosimo II e sua mãe, a Grande Duquesa Christina de Lorraine, Castelli, o sucessor e amigo de Galileu na Cadeira de Matemáticos em Pisa, foi requisitado para explicar as aparentes contradições entre a teoria Copernicana e as Escrituras Sagradas. Castelli fervorosamente defendia as ideias Copernicanas, e nesse encontro ele tentou argumentar em favor dessas ideias. Achando ter tido sucesso na sua exposição argumentativa, chegou até mesmo a escrever para Galileu sobre sua suposta vitória. No entanto, Galileu sabia que Castelli não tinha conseguido transmitir exatamente o que Copérnico defendia, mas escreveu para ele uma carta-resposta ('Carta para Castelli') argumentando simpaticamente que a Bíblia tinha que ser interpretada na luz sobre o que a ciência tinha mostrado ser verdade. Após o conteúdo da carta-resposta ter vazado durante a entrega, os inimigos de Galileu fizeram questão de que uma cópia dela fosse enviada para a Inquisição. Só que após analisar o conteúdo da carta e a natureza do debate, a Inquisição não encontrou sólidas bases de heresia ali contidas. O ponto era que o corpo investigativo da Igreja Católica estava indeciso quanto às ideias de Copérnico: teria ele simplesmente promovido uma teoria matemática que permitia o cálculo facilitado das posições dos corpos celestes ou ele estava propondo uma realidade física?

          Mas essa indecisão da Inquisição rapidamente mudou. Em 1616, Galileu escreveu uma carta para a Grande Duquesa Cristina de Lorraine na qual vigorosamente atacava os seguidores de Aristóteles. No conteúdo da carta, ele argumentava fortemente a favor de uma interpretação não-literal das Escrituras Sagradas quando a interpretação literal contradizia os fatos sobre o mundo físico provados pela ciência matemática. Afirmou que os escribas tinham simplificado a Bíblia em suas descrições para que seu conteúdo pudesse ser melhor entendido pelo povo comum, e que autoridades religiosas que pensavam o contrário não tinham competência para julgar a questão. E é nessa carta onde Galileu deixa claro que para ele a teoria Copernicana não era apenas uma ferramenta de cálculo matemático, e, sim, uma realidade física. Um trecho da sua carta:

          "... Eu defendo que o Sol está localizado no centro das revoluções de órbita dos corpos celestes e não muda de lugar, e que a Terra rotaciona sobre o seu eixo e se move ao redor da posição solar. Além disso, eu confirmo essa visão não apenas refutando os argumentos de Ptolomeu e Aristóteles, mas também ao produzir vários outros argumentos para o outro lado, especialmente alguns associados aos efeitos físicos cujas causas talvez não possam ser determinadas em qualquer outro modo, e outras descobertas astronômicas; essas descobertas claramente refutam o sistema Ptolomaico, mas concordam admiravelmente com a outra posição e a confirmam."

          Essa carta imediatamente deflagrou um explosivo debate em Roma. O Papa Paul V, então, ordenou que a Congregação Sagrada do Índex decidisse sobre a teoria Copernicana. Os cardinais da Inquisição se reuniram no dia 24 de fevereiro de 1616 e analisaram as evidências e argumentos trazidos por especialistas em teologia. No final dos debates, os ensinamentos de Copérnico foram condenados. Galileu foi proibido de defender as visões Copernicanas, mas se livrou de ser condenado como um herege - alguém que se opõe às doutrinas da Igreja - porque a questão sobre Copérnico estava nublada anteriormente aos olhos da Inquisição, e porque Galileu tinha tentado razoavelmente argumentar que o modelo heliocêntrico proposto por Copérnico não era de fato incompatível com a Bíblia.




          Galileu continuou seus estudos astronômicos e ficou cada vez mais convencido de que a Terra girava ao redor do Sol assim como todos os outros planetas no Sistema Solar, ou seja, nosso planeta era apenas mais um corpo cuja trajetória estava sendo fortemente influenciada pelo Sol. Maffeo Barberini, o qual era um admirador de Galileu, foi eleito como o Papa Urbano VIII e convidou Galileu para uma audiência papal em seis ocasiões. Isso levou o cientista a acreditar que a defesa da sua teoria Copernicana não mais seria um problema para a Igreja Católica, levando-o a iniciar a produção do seu famoso livro 'Dialogio'. Porém, devido a problemas de saúde, Galileu demorou 6 anos para completá-lo, e a situação mudou muito em Roma durante esse período. O resultado foi uma grande resistência contra a publicação do livro em 1630. Mas eventualmente Galileu recebeu a permissão de Florença, não Roma, para publicá-lo sob o título 'Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo: Ptolemaico e Copernicano'.

          Quando o polêmico livro foi publicado, a Inquisição rapidamente e furiosamente baniu sua venda e ordenou que Galileu se apresentasse em Roma diante dos seus membros, sob a acusação de que ele havia quebrado a imposição Católica de 1616. Após ser considerado culpado por heresia e ser obrigado a rejeitar publicamente o heliocentrismo, Galileu famosamente pronunciou as seguintes palavras apócrifas para si mesmo: "Epur si muove" ('E ainda assim ela se move', em uma tradução interpretativa). Sua sentença foi a prisão perpétua em 1633, mas como Galileu estava com uma idade avançada e com a saúde debilitada, acabou sendo permitido que ele cumprisse sua pena de forma domiciliar.

          Durante seu tempo de prisão, ele escreveu a importante obra 'Discursos e Demonstrações Matemáticas a respeito das duas novas Ciências', a qual foi contrabandeada para fora da Itália e levada para Leyden, na Holanda, onde foi publicada. Na obra, Galileu dissertou seu mais rigoroso trabalho matemático, o qual englobava problemas sobre o ímpeto, momento e centro de gravidade, e onde também foram desenvolvidas as suas mais famosas e duradouras ideias matemáticas, como o movimento dos objetos sobre um plano inclinado, a aceleração de corpos em queda livre e o movimento do pêndulo.


           Em 8 de janeiro de 1642, na cidade de Arcetri (próximo de Florença) Galileu acabou falecendo. Seu desejo em vida era de ser enterrado junto ao seu pai e dentro da tumba onde estavam seus familiares, na Basílica de Santa Croce, mas seus parentes acabaram não concedendo o pedido ao perceberem que isso traria forte oposição da Igreja. Contudo, em 1737, contra a vontade de vários membros da Igreja, autoridades civis esconderam o corpo de Galileu e o colocaram nesse local em uma tumba bem ornamentada e separada.

          Apenas em 31 de outubro de 1992, 350 anos após a morte de Galileu, o Papa João Paulo II adereçou a questão em nome da Igreja Católica, admitindo que erros foram feitos pelos conselheiros teólogos no caso da condenação. João Paulo declarou o caso de Galileu fechado, mas ele não admitiu que a Igreja estava errada na acusação de heresia contra a visão de que a Terra girava ao redor do Sol.

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   CARTA REVELADA

          Várias cópias da carta de 1613 de Galileu para Castelli foram feitas, e duas versões diferentes existem: uma enviada para a Inquisição em Roma e a outra com uma linguagem menos inflamatória. Mas devido ao fato da carta original ter sido considerada perdida, era incerto até o momento se as autoridades religiosas tinham inflamado o conteúdo da carta para reforçar o caso de heresia - algo que até mesmo Galileu reclamou aos amigos de ter ocorrido - ou se Galileu escreveu a versão mais pesada, mas decidiu posteriormente suavizar suas próprias palavras. 

          Agora, em posse da carta original (Ref.5), os historiadores mostraram que o último caso parece ser verdade, ou seja, o próprio Galileu moderou sua carta. A carta é pavimentada com pontuações apagadas e correções, e com análises de escrita mostrando que essa revisão foi de fato feita por Galileu. Ele, então, compartilhou uma cópia dessa versão revisada com um amigo, afirmando ser a original, e urgentemente pediu que essa fosse enviada para o Vaticano.

          Essa carta estava em posse da Royal Society, em Londres, Reino Unido, há pelo menos 250 anos, mas acabou passando despercebida pelos historiadores. Ela foi encontrada na biblioteca da instituição pelo pós-doutor em história da ciência pela Universidade de Bergamo, Itália, Salvatore Ricciardo, o qual estava lá no dia 2 de agosto por outros propósitos. Junto com seu supervisor acadêmico, Franco Giudice, e da historiadora de ciência Michele Camerota da Universidade de Cagliari, Ricciardo descreveu em detalhes a carta em um artigo que será publicado em breve no periódico Notes and Records (Ref.6), pertencente à Royal Society.




          Das duas versões da carta enviada à Castelli, uma está guardada nos Arquivos Secretos do Vaticano. Essa versão foi enviada para a Inquisição em Roma no dia 7 de fevereiro de 1615, por um monge Dominicano chamado Niccolò Lorini. Historiadores sabem que Castelli então retornou a carta de Galileu feita em 1613 para ele, e que em 16 de fevereiro de 1615 Galileu escreveu para seu amigo Piero Dino, um clérigo em Roma, sugerindo que a versão que Lorini tinha enviado para a Inquisição podia ter sido adulterada para demonizá-lo frente à Igreja. Então, Galileu afirmou aos colegas que a versão mais suavizada - agora quase certo que ele mesmo a produziu - era a correta, e pediu para que Dini a passasse para os teólogos do Vaticano.

          Na carta revelada por Ricciardo, fica claro que as palavras contidas na carta 'inflamada' em posse de Lorini eram oriundas do texto original, o qual mostra também várias correções para a produção da sua forma final, aquela enviada para Dini. Em um exemplo, Galileu se refere a certas propostas na Bíblia como "falsas se o indivíduo tomar o sentido literal das palavras", mas na carta é notável que ele mudou a palavra 'falsas' para o termo 'parecem diferentes da verdade'. Em outra seção, ele mudou sua referência às Escrituras "escondendo" seus mais básicos dogmas, para o termo menos impactante "velando". Isso reforça que Galileu moderou seu próprio texto para tentar escapar da Inquisição mas introduzindo ao mesmo tempo a verdade científica.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2564400/ 
  2. https://plato.stanford.edu/entries/galileo/  
  3. http://abyss.uoregon.edu/~js/glossary/galileo.html 
  4. https://www.nature.com/articles/d41586-018-06769-4
  5. http://rsnr.royalsocietypublishing.org/