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Homeopatia possui eficácia comprovada?


- Atualizado no dia 4 de julho de 2022 -

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          Efeito lunar, tabela Chinesa, astrologia, reiki e diversas outras pseudociências ainda persistem enraizadas na nossa sociedade. São práticas ou crenças criadas séculos ou mesmo milhares de anos atrás, quando a medicina era bem primitiva e grande parte da realidade corporal, química, física e biológica eram desconhecidas ou mal interpretadas. No caso das medicinas alternativas e complementares sem suporte científico, regulações relaxadas, falta de alfabetismo científico e deficiente ensino para o público em geral sobre saúde garantem a persistência de práticas que se limitam, essencialmente, ao efeito placebo. A homeopatia talvez seja o exemplo mais notável e reconhecido nesse sentido. 

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     O QUE É A HOMEOPATIA?

          A homeopatia é uma pseudociência que foi criada há mais de 200 anos na Alemanha, quando a medicina era ainda algo obscuro. Durante o regime Nazista, na década de 1930, a homeopatia foi aliás parte do programa de recuperação para estabelecer o Neue Deutsche Heilkunde (Nova Medicina Alemã), a qual suportaria a supremacia da raça Ariana, sendo enfaticamente promovida pelo Ministro Imperial da Saúde (Reichsgesundheitsamt) como uma arma ideológica contra inimigos - Judeus e Maçons, por exemplo, eram vistos como dominantes na alopatia  (Ref.47). A homeopatia ganhou grande destaque no início do século XX, mas com o avanço da medicina e da ciência, foi sofrendo um forte declínio. No início da década de 1900 existiam 20 faculdades homeopáticas de medicina nos EUA, mas nos próximos 50 anos todas desapareceram. Porém, a homeopatia e outras formas de medicina alternativa ou complementar acabaram sendo revitalizadas no final do século XX em vários países, mesmo com o refinamento cada vez maior da medicina baseada em evidência. 
 
          O método da homeopatia baseia-se na diluição e suposta 'memória da água'. A diluição pode ocorrer em diferentes solventes, especialmente a água, e idealmente realizada com forte agitação. Quando o soluto não é solúvel em nenhum líquido seguro para o consumo, ele é, então, preparado por outros meios, como a manufatura de pílulas usando outros sólidos como solvente (moendo soluto e solvente sólidos). Existem duas vias da homeopatia: a clássica e a moderna. Na clássica, a diluição é tão alta, que não sobra quase nenhuma partícula ou molécula do principio ativo na solução. Na moderna, a diluição é menor, deixando quantidades relativamente significativas do soluto na solução. Mas o que é esse soluto/princípio ativo?

Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia em 1796; como diversas outras medicinas alternativas, a homeopatia foi apenas mais um passo em direção ao desenvolvimento da real medicina; é apenas um vestígio do processo evolutivo da ciência, que deveria ter sido aposentado faz tempo

          Bem, a mais do que questionável "lógica" da homeopatia começa na suposição de que se uma substância qualquer causa os mesmos efeitos físicos de uma real doença, se diluirmos essa substância e dar a solução final para o paciente, seu próprio corpo irá reconhecer 'algo' (?) de similaridade, ajudando-o a combater os males que o afetam. Em outras palavras, é uma prática terapêutica que consiste da utilização de preparações de substâncias cujos efeitos, quando administrados em pessoas saudáveis, objetivam ocasionar manifestações (sintomas, sinais clínicos, estados patológicos) do paciente tratado. Fundamenta-se, portanto, na Lei dos Semelhantes (Similia similibus curantur) e, relativo à administração, na Lei da Dose Mínima, ou seja, a noção de que quanto menor a dose da medicação, melhor sua efetividade.. Nesse sentido, os medicamentos homeopáticos, tipicamente muito diluídos, seriam capazes de estimular uma resposta auto-regulatória de cura nos pacientes. 

          Basicamente, a homeopatia é atualmente distribuída em três principais tipos:

1. Homeopatia Individualizada: Aqui, um único medicamento homeopático é selecionado com base no 'quadro geral do paciente', incluindo suas características mentais, constitucionais e gerais.

2. Homeopatia Clínica: Aqui, um ou mais medicamentos homeopáticos são administrados baseando-se em situações clínicas padrões ou em diagnósticos convencionais. Quando mais de um medicamento é utilizado no tratamento, este é chamado de 'combinação' ou 'medicina homeopática complexa'.

3. Isopatia: Aqui, usa-se diluições homeopáticas do próprio agente causador da doença (alergênicos ou organismos patológicos), ou de um produto dessa doença no corpo, para tratá-la. É prescrita de acordo com variações na metodologia individualizada.

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   DILUIÇÕES NA HOMEOPATIA

           Para diminuir a toxicidade das substâncias de fontes diversas utilizadas para a preparação dos medicamentos homeopáticos, intercala-se sucessivas diluições e fortes agitações na mistura. Na diluição clássica, quase nem sequer existe mais a substância na solução no final do preparo. Aí vem a história de que, por exemplo, a água 'guarda' a memória do soluto, produzindo um poderoso efeito no corpo. Isso vai contra toda a lógica científica do comportamento fundamental da matéria. Baseia-se no princípio de que um medicamento homeopático reteria sua atividade biológica depois de repetidas diluições e veemente agitação (dinamização), mesmo após diluições além do número de Avogadro. Uma concentração homeopática comum é a 12C (1 para 1024 ou 10-24), que tem cerca de 60% de probabilidade de conter pelo menos uma molécula do soluto original para cada mol deste utilizado no seu preparo! Portanto, sem rótulo nesses medicamentos homeopáticos, é impossível diferir um do outro com métodos de análise físico-química.

           Em certas diluições mais modernas, a substância ainda encontra-se um pouco acima do quase indetectável dentro da solução, podendo até - talvez, muito talvez - causar algum efeito no corpo. Mas, dizer que só porque algo causa o mesmo sintoma de uma doença no corpo, não quer dizer que aquilo vai curá-la. Não faz sentido biológico nenhum. Para vocês entenderem a loucura, é como se pegássemos extrato de Bico-de-Papagaio (uma planta venenosa), diluíssemos bastante, e déssemos para um paciente tomar, dizendo que seu problema intestinal será curado simplesmente porque a ingestão do Bico-de-Papagaio causa problemas intestinais! Não, isso não é brincadeira, isso resume fielmente a homeopatia. E como no geral as diluições são altíssimas, tanto na via clássica como na moderna, fica também escancarado a falta de plausibilidade para quaisquer significativos efeitos biológicos.

          Além disso, não só substâncias sólidas são administradas hoje em dia como soluto. Até água banhada em luz solar e raios X estão sendo oferecidas aos pacientes como se fossem efetivos medicamentos! 

Os produtos homeopáticos são sempre vendidos sob alusões com a natureza, tentando induzir ao público que são saudáveis e consoantes com o meio natural, mas isso não faz deles mais ou menos efetivos; e mais: eles não tem nada de 'natural' (1)!
   

           No geral, produtos homeopáticos são oriundos de plantas (como cebola-vermelha, arnica, beladona, urtiga-comum, hera venenosa), minerais (como o altamente tóxico trióxido de arsênio), ou animais (como abelhas moídas). Produtos homeopáticos são frequentemente feitos como bolinhas de açúcar para serem colocados sob a língua; mas existem também outras formas, como óleos, géis, gotas, cremes e comprimidos.
 
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     HOMEOPATIA É EFICAZ?

          Inúmeros estudos sérios já mostraram que, se um método homeopático funciona, é devido ao simples efeito placebo. Existem várias revisões sistemáticas e meta-análises conduzidas nas últimas décadas buscando alguma sólida evidência de suporte para a prática homeopática, mas todas sem sucesso.

         Convenientemente, todas as doenças ditas 'curadas' pela homeopatia são quase inofensivas, como um resfriado, do qual o próprio corpo, se dado repouso e boa alimentação, se recuperaria em dois tempos. Na maioria dos casos é o típico 'Vai melhorar em 7 dias com a homeopatia; se você deixar somente o seu corpo dar um jeito na doença, vai demorar 1 semana para curar'.  Aí vem o povo: "Ah, mas se melhora alguma coisa, mesmo como efeito placebo, qual o mal em tomar?". Mal nenhum. Nesse ponto, a maior parte dos remédios homeopáticos não fazem nenhum efeito pior do que tomar um copo com água. E é aí também que mora o perigo: o efeito é apenas de um copo com água. Doenças sérias que deveriam estar sendo tratadas pela medicina séria acabam recebendo tratamento muito tardio porque estavam sendo "tratadas" com métodos homeopáticos. E, dependendo da doença, esse atraso pode ser fatal.

          Aliás, o governo Norte-Americano, no final de 2017 (Ref.30), publicou, através do Federal Trade Comission (FTC), a imposição de que todos os medicamentos homeopáticos de venda livre devem vir, de forma explícita, com os seguintes avisos para o consumidor:

1. Não existe evidência científica de que o produto funciona;

2. As reivindicações de efetividade do produto são baseadas apenas em "teorias" da homeopatia formuladas no século XVIII e que não são aceitas pela maior parte dos especialistas modernos de medicina.
       
         Já o governo Australiano, através do National Health and Medical Research Council (NHMRC), publicou um relatório em 2015 para o público (Ref.32) mostrando que, após uma rigorosa revisão das evidências relativas à homeopatia, não existe condições de saúde para a qual exista evidências confiáveis de que essa medicina alternativa é efetiva. O NHMRC também afirma que a homeopatia não deveria ser usada para tratar condições de saúde que são crônicas, sérias ou que podem ficar sérias, e que pessoas que escolhem a homeopatia podem estar colocando suas vidas em risco caso rejeitem ou atrasem tratamentos comprovadamente seguros e efetivos da medicina moderna.  

          Uma revisão conduzida pelo pesquisador Australiano Paul Glasziou e publicada em 2016 no periódico BMJ (Ref.20) não conseguiu mostrar efetividade nenhuma para os remédios homeopáticos. A revisão analisou 57 trabalhos de revisão sistemática, envolvendo 68 doenças e 176 estudos individuais investigando tratamentos homeopáticos. Em todos os casos, os efeitos terapêuticos observados não puderam ser diferenciados de placebo. 

         Do mesmo modo, no Reino Unido, o governo, através do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e pelo National Health Service (NHS), deixa claro que não existe evidência científica de qualidade suportando qualquer eficácia no tratamento ou prevenção de doenças a partir da homeopatia, e que qualquer melhora superficial que possa ser sentida pelo paciente limita-se ao efeito placebo. Além disso, tanto o NICE quanto o NHS afirmam que não existe plausibilidade científica alguma na suposta ação de medicamentos homeopáticos na prevenção de doenças, algo frequentemente alegado por homeopatas (Ref.33-34, 39). 

          Uma rigorosa revisão sistemática e meta-análise da literatura científica, publicada em 2017 (Ref.22), não encontrou evidência científica suficiente para rejeitar a sólida acusação de que a homeopatia não possui maior eficiência clínica do que um placebo. No geral, a qualidade do corpo de evidências encontrado foi considerada baixa e os pesquisadores recomendaram que revisões ainda mais rigorosas sejam feitas para mais firmes conclusões. Estudos clínicos randomizados, placebo-controlados e duplo-cegos mais recentes ainda persistem com a homeopatia, sendo publicados em periódicos especializados em medicina alternativa - nunca aceitos em periódicos médicos de relevância -, e continuam não encontrando real evidência de suporte para a prática homeopática (Ref.40-43).

          Aliás, o nascimento da homeopatia ignora qualquer válida metodologia científica. Hahnemann, o pai da homeopatia, ingeriu casca de Cinchona (a qual contém quinina) e experienciou sintomas similares à malária (Ref.47). Isso foi suficiente como "prova" para o princípio da similaridade! E mais: quinina - fármaco que atua contra a malária - tipicamente não provoca febre, ou seja, inexiste reprodutibilidade no "experimento" do pai da homeopatia; a febre que Hahnemann experienciou foi provavelmente causada por uma resposta imune. De fato, reações idiossincráticas à quinina são bem estabelecidas.

          Mergulhando novamente na história da homeopatia, temos a primeira derrota da homeopatia ainda no século XIX. com o famoso Julgamento do Sal de Nuremberg (“Nürnberger Kochsalzversuch"), um experimento duplo-cego placebo-controlado e bem conduzido (Ref.47). Em 1834, a homeopatia tinha se tornado muito popular na região germânica, em particular entre cidadãos da alta sociedade de Nuremberg. Consternado pela percebida irracionalidade da aristocracia e alta burguesia na sua cidade natal, Fiedrich Wilhelm von Hoven publicou um forte criticismo contra a homeopatia, e sob o pseudônimo E. F. Wahrhold. Ele foi então desafiado por Johann Jacob Reuter, um dos mais notáveis homeopatas da época, este o qual afirmou que Wahrhold experienciaria os efeitos do NaCl C30 (preparação homeopática a base de cloreto de sódio), mas apenas se experimentasse por si mesmo. Nesse sentido, a Sociedade dos Homens Amantes da Verdade levou o desafio a sério e conduziu um teste clínico duplo-cego bem rigoroso, o qual foi suportado por George Löhner, editor de um jornal: 100 frascos novos foram numerados, embaralhados e divididos em dois lotes aleatórios, onde 50 deles foram preenchidos apenas com água derretida de neve (placebo) e o restante preenchidos com o preparado de NaCl C30.

           NaCl C30 é preparado a partir de 1 grão de sal dissolvido em 100 gotas de água derretida de gelo e seguido de diluição por 29 vezes a uma razão de 1:100 em água derretida. Após preenchidos com a solução homeopática ou com o placebo, os frascos foram distribuídos aleatoriamente entre voluntários, e esses foram acompanhados por três semanas. Após esse período, os voluntários (50 de 54) reportaram qualquer efeito anômalo percebido. Do total, apenas 8 reportaram algum efeito, três dos quais no grupo de placebo, derrubando as alegações da preparação homeopática. O resultado fortemente desfavorável à homeopatia foi publicado por Löhner, mas, claro, ignorado pelos homeopatas, incluindo o próprio Hahnemann na sexta edição do seu livro sobre homeopatia publicada em 1842 sob o título Organon der Heilkunde ("Órganon da medicina").

          Falando em ignorar, sabe a história da "memória da água"? Sim, isso é invenção moderna dos homeopatas. No início da homeopatia, era alegado que uma "força vital" das substâncias orgânicas diluídas era liberada na água através de sucessivas diluições e forte agitação. Esse conceito era baseado no 'vitalismo': organismos vivos eram pensados de carregarem uma força específica intrínseca (vis vitalis), permitindo a capacidade supostamente exclusiva de síntese de compostos orgânicos (Ref.47). Esse conceito foi derrubado em 1828, quando o cientista Friedrich Wöhler conseguiu sintetizar em laboratório ureia (!). Mais uma vez, Hahnemann ignorou isso em seus trabalhos.


           Hoje, muitos homeopatas ainda se agarram à "memória da água" para justificarem a suposta eficácia terapêutica da homeopatia. Um fenômeno que pode caracterizar algo similar a uma 'memória' na água até existe em relação à rede de ligações intermoleculares de hidrogênio, porém dura imperceptíveis ~50 femtossegundos; mesmo quando as moléculas de água são confinadas, as ligações de hidrogênio se rearranjam e as energias são redistribuídas com constantes temporais na faixa de 1,3 picossegundos (Ref.50). Isso não chega perto de legitimar a homeopatia, e nem faz sentido ser usado para esse fim. Por isso também existem outros homeopatas modernos que utilizam uma série de outras explicações pseudocientíficas esdrúxulas, citando termoluminescência, matemática não-Euclideana, mecânica quântica, teoria da relatividade, gato de Schröndinger, e qualquer outro termo bonito que torne a roupagem da homeopatia com um aspecto mais científico.

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   EFEITO PLACEBO

           Efeito placebo é, basicamente, quando o cérebro acha que o organismo doente vai melhorar porque está supostamente recebendo um tratamento eficaz - mas sem necessariamente possuir real eficácia - e acaba aliviando SINTOMAS associados. Mas se o medicamento não estiver surtindo real efeito terapêutico contra a doença, esta continuará avançando, independentemente da  melhora sintomática. E isso é muito perigoso dependendo da doença. Por isso todos os medicamentos passam por testes clínicos controlados, onde também se investiga se estão produzindo efeito placebo ou real efeito terapêutico. Em especial, para o tratamento de dores crônicas e agudas, o efeito placebo pode atuar de forma tão eficiente quanto medicamentos analgésicos em grande parte dos pacientes (1). Mas placebo não deixa de ser placebo apenas porque ganhou o nome de 'homeopatia'. Os homeopatas acabam usando efeitos terapêuticos do placebo, especialmente em casos envolvendo alívio de dores, para justificarem a suposta eficiência da homeopatia e extrapolar para um amplo espectro de doenças, incluindo sérias condições crônicas como a diabetes, cânceres e problemas cardiovasculares.



   HOMEOPATIA É SEGURA?

          Apesar da aparente fachada de segurança e propagandas de "natural", frequentemente não existe mínima fiscalização e controle sobre os produtos homeopáticos, mesmo com a quantidade deles no mercado tendo crescido assustadoramente nos últimos anos. Isso significa que muitas soluções espalhadas por aí podem não ser tão inofensivas quanto parecem. Não existe nenhum medicamento homeopático aprovado pelo FDA (Agência de Drogas e Alimentos dos EUA) tanto em termos de segurança quanto em termos de efetividade, e a agência reguladora Norte-Americana alerta os consumidores para o fato de que muitas formulações homeopáticas ditas 'altamente diluídas' já foram encontradas no mercado contendo quantidades significativas de ingredientes ativos e potencialmente tóxicos (Ref.37).

         
Cuidado para não sair confiando na segurança de qualquer produto homeopático!

            Outro grave problema são possíveis erros, mesmo que pequenos, na preparação de medicamentos homeopáticos. Isso porque muitos ingredientes de produtos homeopáticos são altamente tóxicos, e incluem até mesmo metais pesados como o mercúrio. Diluição insuficiente ou inadequada pode resultar em efeitos adversos, alguns deles sérios. Isso é agravado pela falta de processos padronizados de produção para os produtos homeopáticos

          Para citar um exemplo, reportado em 2017 no periódico JAMA (Ref.25) uma criança muito nova foi levada às pressas para o hospital depois de sofrer convulsão por cerca de 25 minutos. A causa? Um tablete homeopático para mastigação que ela estava usando, o qual se descobriu ter, como ingrediente ativo, uma planta altamente tóxica da espécie Atropa belladona (beladona). E esse não foi um único caso isolado. Nos últimos 6 anos, 400 casos do tipo nos EUA, envolvendo crianças e bebês foram reportados ao FDA (Agência de Drogas e Alimentos norte-americana), incluindo 10 mortes. Por causa disso, a agência em 2010 e em 2016 emitiu alertas para a população sobre os riscos em usar tabletes e géis homeopáticos para tratar crianças, recomendando que esses produtos sejam descartados pelos pais caso os tenham em posse. (Ref.26).

          Aliás, beladona é um componente bastante usado em formulações homeopáticas - remontando provavelmente o primitivo uso dessa planta na medicina antiga e medieval (2) - e associada a vários efeitos adversos graves reportados na literatura acadêmica. Essa planta possui os alcaloides tropânicos escopolamina, atropina e hiosciamina, os quais bloqueiam a ação colinérgica no sistema nervoso central e periférico através de efeitos sobre receptores muscarinas.


           Em 2014, no periódico American Journal of Therapeutics (Ref.44), foi reportado o caso de um bebê de 20 dias de idade do sexo masculino que desenvolveu febre e persistente confusão por 20 minutos. O bebê nasceu após 38 semanas de gestação normal e sem complicações no parto, e estava bem e saudável até 2 horas antes da admissão hospitalar quando, 30 minutos após a administração de um produto homeopático a base de beladona (os pais acharam que o filho estava com cólicas), ele desenvolveu convulsão tônica-clônica. O paciente foi diagnosticado com síndrome tóxica anticolinérgica, mas conseguiu se recuperar bem.

          Mais recente, no periódico The American Journal of Emergency Medicine (Ref.51), uma paciente desenvolveu glaucoma agudo de ângulo fechado após usar um colírio homeopático a base de beladona. A pressão intraocular no olho esquerdo afetado estava muito mais elevada (51 mmHg) quando comparado ao olho direito (11 mmHg). Agentes anticolinérgicos são uma possível causa desse tipo de séria complicação ocular, a qual pode causar cegueira se não tratada a tempo. Outros efeitos oculares associados à beladona incluem cicloplegia (paralisia do músculo ciliar do olho) e midríase (dilatação da pupila sem causa fisiológica). 

           Outro relato de caso também recente, publicado no periódico Clinical Toxicology (Ref.44), descreveu um paciente de 53 anos de idade sem condições pré-existentes e sem uso permanente de medicação que se apresentou ao departamento de emergência de um hospital com síndrome anticolinérgica incluindo confusão, ansiedade, e disartria (fraqueza nos músculos de fala) após ingestão de uma solução homeopática contendo extrato de beladona, supostamente em uma diluição D4. Análise de cromatografia líquida acoplada com espectrometria de massa revelou uma concentração de aproximadamente 3 mg/mL de sulfato de atropina na solução homeopática e uma concentração de 5,7 ng/mL no sangue, provando uma overdose de 600 vezes de atropina devido a um erro na diluição homeopática.

          Por fim, apesar de não ser um dano direto, substituir um tratamento convencional efetivo com um homeopático pode resultar em trágicas consequências dependendo da gravidade da doença visada (!). Usar preferencialmente medicinas alternativas sem suporte científico pode também atrasar perigosamente a busca por um tratamento efetivo (ex.: desistir da homeopatia apenas quando o quadro e os sintomas estiverem agravados). 

            A homeopatia é obsoleta como uma opção terapêutica, não difere de um placebo, viola leis fundamentais da natureza em relação à sua alegada "lógica científica", e pode ainda representar risco à saúde em certas circunstâncias (Ref.46-48).

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(!) ALERTA: Certos produtos homeopáticos (chamados de "imunizações homeopáticas") tem sido promovidos por alguns como substitutos para imunizantes (vacinas) convencionais. NÃO existe suporte científico para esse tipo de produto, MUITO MENOS para este servir como substituto às vacinas (Ref.48).
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   ÉTICA NOS ESTUDOS DE HOMEOPATIA

           Um recente estudo de corte transversal e meta-análise explorando o nível de viés em testes clínicos envolvendo homeopatia foi publicado recentemente no periódico BMJ (Ref.53) e trouxe mais um sério alerta. 

           No estudo, os pesquisadores investigaram testes clínicos sobre homeopatia que haviam sido registrados ou não-registrados até abril de 2019, e publicados ou não-publicados até abril de 2021. Eles encontraram que desde 2002, quase 38% dos estudos clínicos registrados permaneciam sem publicação, enquanto que 53% dos testes clínicos randomizados publicados não haviam sido registrados. No geral, 30% dos testes clínicos controlados publicados nos últimos 5 anos não haviam sido registrados. E aqueles sem registro tendiam a reportar maiores efeitos terapêuticos.

          Os pesquisadores também encontraram que os estudos clínicos eram mais prováveis de serem registrados após eles terem sido iniciados (retrospectivamente) do que antes de serem iniciados (registro prospectivo). Além disso, 25% dos resultados primários publicados (principais efeitos terapêuticos investigados) não eram os mesmos daqueles originalmente registrados.

          Somados, os achados fortemente sugerem uma falta de adequada metodologia científica e de padrões éticos no campo da homeopatia, além de um alto risco de viés nos reportes de resultados clínicos. Aliás, padrões internacionais de pesquisa demandam que testes clínicos randomizados sejam registrados antes de serem publicados, algo amplamente ignorado pelos periódicos (científicos?) que publicam estudos associados à homeopatia. 

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   HOMEOPATIA NÃO É FITOTERAPIA!

          Muita gente confunde 'tratamento homeopático' com 'tratamento fitoterápico'. A Fitoterapia não tem nada a ver com homeopatia. Usar as plantas medicinais para tratar certas doenças e sintomas, como o chá de boldo (para dor de barriga, por exemplo), é Fitoterapia. Usar os princípios ativos, e outras substâncias, das plantas, por via farmacêutica, para combater doenças, constitui a base de preparação de medicamentos fitoterápicos, os quais são também diferentes da Fitoterapia tradicional (uso de chás caseiros e afins). Em ambas as situações, existe base científica de suporte e são medicamentos parecidos com aqueles da medicina tradicional (alopatia). Mas é bom deixar claro que a eficácia da Fitoterapia é, no geral, bastante limitada, frente aos medicamentos alopáticos.

            Alguns estão se aproveitando da confusão popular com a Fitoterapia, e vendendo medicamentos que são, em sua maioria, apenas água (ou seja, homeopáticos), apenas porque muitos contêm traços ínfimos ou virtualmente inexistentes de extratos oriundos de plantas. Isso fica explícito com as propagandas de medicamentos homeopáticos onde quase sempre existe a presença em destaque de plantas. Homeopatia não tem nada a ver com plantas medicinais, ou seria Fitoterapia, algo completamente diferente.                                                                            

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    HOMEOPATIA E SAÚDE PÚBLICA

           O absurdo é que, mesmo com falta de evidências científicas de real eficácia, a homeopatia  é considerada uma terapia séria em vários países. Aqui no Brasil, por exemplo, a homeopatia é tida como especialidade médica desde 1980, sendo reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. E mais: ela é também incluída no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2006! Em alguns países desenvolvidos, como Reino Unido, Itália, França, Suíça e Alemanha, onde ela também faz parte do sistema de saúde pública, existem diversos órgãos internos de saúde travando batalhas para tornar isso ilegal. Os  governos estão pagando por uma medicina mais do que questionável e que pode dar mais prejuízos para os cofres públicos quando a doença visada piorar e o paciente precisar de tratamentos bem caros, e realmente efetivos, para se recuperar. A OMS (Organização Mundial da Saúde) condena a homeopatia para tratamento de doenças graves como diarreia infantil, tuberculose, Aids, gripe, malária, câncer, etc., por causa da falta de eficácia clínica comprovada.

           E é preciso tomar cuidado, porque mesmo doenças de menor gravidade podem ser letais dependendo do indivíduo acometido. Um bom conselho? Não torre seu dinheiro sem necessidade com a multimilionária indústria homeopática, ainda mais arriscando sua saúde. Se você está doente, procure um tratamento comprovado e que realmente funcione. Isso aqui não é um debate ideológico, e, sim, uma questão de saúde pública. Não acredite em um homeopata só porque ele está vestindo de branco e falando bonito. O nosso governo está cheio de políticos trajados em ternos e falando bonito, mas arrancando pelas costas o seu suado dinheiro. Aliás, como podemos ver no vídeo abaixo, medicinas alternativas de todos os tipos estão cada vez mais mamando nas tetas do governo e sem possuírem evidência científica de eficácia.


           


   CONCLUSÃO

          A homeopatia foi desenvolvida há quase 200 anos e é baseada no "princípio da similaridade". Ainda muito popular no campo da medicina alternativa, não possui suporte científico de eficácia e seu alegado mecanismo de cura não possui coerência com o atual conhecimento científico acumulado. É reportado que até 9,2% dos adultos na maioria dos países ocidentais têm consumido medicamentos homeopáticos durantes os últimos 12 meses. O valor global de mercado dos produtos homeopáticos alcançou US$5,5 bilhões em 2018, com a maioria das vendas na América do Norte e na Europa. Com baixos custos de produção e altos lucros, é grande o interesse econômico na promoção da prática homeopática, independentemente da aprovação da ciência.
          
                                                                         ######


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1874503/
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  5. http://www.csicop.org/si/show/homeopathy_a_critique_of_current_clinical_research
  6. http://jme.bmj.com/content/36/3/130
  7. http://thorax.bmj.com/content/58/4/317.short 
  8. Does meta-analysis solve the issue of efficacy of homeopathy?
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