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O consumo do chá Kombucha é seguro e benéfico?


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          O chá Kombucha é uma bebida não-alcoólica se tornando cada vez mais popular devido às alegações de benefícios à saúde com o seu consumo, incluindo propriedades terapêuticas contra várias doenças. Mas quais as evidências científicas de suporte para essas alegações? Essa bebida é segura?

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   KOMBUCHA

          O chá Kombucha é uma bebida fermentada não-alcoólica e tradicional originária do Oriente, com história traçada desde a Antiguidade(a.C.), mas sendo incerto sua exata concepção. A popularidade dessa bebida cresceu substancialmente nos últimos anos, especialmente no Ocidente, devido a um grande número de alegações associadas ao seu potencial terapêutico contra vários problemas de saúde, incluindo efeitos anti-microbianos, anti-oxidantes, anti-cancerígenos, anti-diabéticos, colesterol alto, úlceras gástricas, melhora na imunidade, desintoxicação hepática, etc.

          A fermentação no chá Kombucha é realizada via atividade microbiana conjunta e simbiótica de fungos e bactérias. Essa fermentação - lática, acética e alcoólica - atua sobre um chá adocicado durante um período típico de 7-10 dias, gerando diversos ácidos orgânicos (maior parte acético, tartárico, málico, glucônico e glucurônico) pequenas quantidades de etanol, compostos fenólicos e dióxido de carbono. Bactérias de Ácido Acético (BAA) - compreendendo espécies do gênero Gluconacetobacter, Lactobacillus e, principalmente,  Acetobacter - e leveduras osmofílicas (espécies como Schizosaccharomyces pombe, Saccharomycodes ludwigii, Kloeckera apiculata, Saccharomyces cerevisiae, Zygosaccharomyces bailii, Torulaspora delbrueckii e Brettanomyces bruxellensis) são os microrganismos dominantes durante o processo de fermentação, com algumas cepas associadas às acetobactérias produzindo uma película polimérica celulósica (biofilme) - composta de monômeros beta-D-glicose ligados por ligações beta-1,4-glicosídicas -  que fica flutuando sobre a mistura líquida fermentada. A complexa microbiota do chá fica embebida no biofilme, e parte deste pode ser usada para iniciar a preparação de outro chá Kombucha.



          Não necessariamente associados à fermentação, existem diversos outros nutrientes (minerais, vitaminas, etc.) e metabólitos na bebida. Entre esses compostos, os polifenóis - oriundos da erva de feitura do chá - podem também estar ligados aos efeitos benéficos supostamente conferidos pelo consumo regular dessa bebida. É válido destacar que alguns tipos de polifenóis - especialmente os mais complexos - podem ser degradados pelo ambiente ácido e ação da microbiota no Kombucha, mas talvez sendo essa perda compensada pela formação de outros polifenóis derivados e compostos fenólicos com propriedades anti-oxidantes.

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   CHÁ TERAPÊUTICO?

          Apesar dos defensores e produtores do chá Kombucha alegarem que essa bebida ajuda a prevenir e tratar sérias condições de saúde, de hipertensão a cânceres, não existem evidências científicas suficientes e menos ainda conclusivas de que exista qualquer tipo de propriedades terapêuticas nesse chá.

          Evidências limitadas sugerem que esse chá pode oferecer benefícios similares aos suplementos probióticos, incluindo a promoção da boa saúde do sistema imune e prevenção a constipações. Entre os metabólitos presentes na bebida, o principal associado a efeitos terapêuticos é o ácido glucurônico. Até o momento, no entanto, estudos clínicos focando no papel dessa bebida na saúde humana são muito limitados e escassos, sendo impossível extrair qualquer conclusão. A maior parte dos estudos investigando as atividades biológicas do Kombucha têm sido feita apenas in vitro e a grande maioria preocupando-se somente com a análise qualitativa da microbiota e do ambiente químico associados à bebida.

  • (1) É válido lembrar que o suposto papel benéfico dos probiótico de alimentos fermentados e suplementos é atualmente bastante controverso. Para entender o assunto, acesse o artigo: Os probióticos funcionam?

          Benefícios menos específicos que o chá Kombucha pode oferecer e que possuem um maior suporte científico estão associados aos polifenóis nele presentes, derivados da planta na qual a bebida é baseada. Porém, praticamente qualquer outro chá não-fermentado também apresenta esses compostos, não sendo necessário a fermentação extra de bactérias e fungos. E, nesse ponto, um problema se torna realçado.

          Existem reportes na literatura médica de efeitos adversos, como irritações estomacais, disfunções hepáticas, acidose lática, intoxicações, infecções e reações alérgicas, em consumidores do chá Kombucha (Ref.7-9). Como essa bebida é geralmente preparada de forma caseira e sob condições de não-esterilização, são substanciais os riscos de contaminação. Mesmo a simbiose dos fungos e bactérias característicos dessa bebida agindo fortemente para repelir microrganismos invasores, contaminações com patógenos mais persistentes pode ocorrer, como a espécie Bacillus anthracis. Além disso, quando vasilhas de cerâmica não apropriadas são usadas para a fermentação, um envenenamento por chumbo pode ocorrer - os vários ácidos orgânicos produzidos no chá podem atuar liberando chumbo e outros metais do material de revestimento desses recipientes. Nesse sentido, é preciso tomar muito cuidado na hora da preparação dessa bebida.

          No ano passado, por exemplo, um caso foi reportado no BMJ Case Reports (Ref.10) de uma mulher no Reino Unido que desenvolveu um quadro respiratório associado com uma severa acidose lática metabólica. A paciente disse que estava consumindo chá Kombucha, este o qual está ligado a quadros de acidose lática. Nenhuma outra causa da acidose foi encontrada, exceto o chá. Após tratamento e interrupção do consumo do chá, a paciente teve uma completa recuperação.

          No geral, o FDA (Agência de Drogas e Alimentos dos EUA) considera o chá Kombucha seguro para o consumo humano, desde que preparado de forma adequada e cuidadosa. Porém, especialistas contra-indicam seu consumo para grávidas, mulheres lactantes, indivíduos com o sistema imune comprometido e para crianças muito novas, devido ao risco de intoxicações que não deve ser ignorado e às atividades biológicas diversas ainda não muito bem esclarecidas associadas ao chá (Ref.11).

          Além de usar utensílios sanitizado para a preparação do chá, e certificar-se que a cultura microbiana inicial seja segura, é importante conservar o chá preparado em um ambiente de refrigeração, para dificultar o crescimento de patógenos indesejados no filtrado final. Outra importante medida é impedir a super-produção de ácidos durante a fermentação, parando o processo quando o pH atingir valor em torno de 4,2. O consumo de ácidos orgânicos em excesso, como o acético e o lático, estão ligados com os casos de intoxicações e acidoses que podem ocorrer com o consumo desse chá. Nesse sentido, a aquisição comercial desse chá via produtores certificados e confiáveis talvez valha mais a pena do que a produção caseira.

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   CONCLUSÃO

          Até o momento, não existem evidências científicas mínimas para a recomendação desse chá para o tratamento ou prevenção de doenças e para a promoção da saúde. Investigações clínicas e mais avaliações in vivo são necessárias para melhor esclarecer essa questão. Substancial suporte científico existe em limitada extensão para possíveis benefícios associados aos polifenóis, porém esses compostos estão presentes em qualquer outro chá não-fermentado. Em outras palavras, visto que existe um maior risco de reações adversas com o consumo do chá Kombucha, o mais prudente seria dar uma maior preferência ao consumo de chás não-fermentados - e de preferência sem adição de açúcar -, pelo menos até se conhecer melhor o papel dessa bebida na saúde humana.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0740002017306937
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26796581
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29508944
  4. https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/consumer-health/expert-answers/kombucha-tea/faq-20058126
  5. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19476337.2017.1410499
  6. https://link.springer.com/referenceworkentry/10.1007%2F978-3-319-25001-4_12
  7. https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00039742.htm
  8. https://www.karger.com/Article/Pdf/71667
  9. http://food-safety.guru/wp-content/uploads/2014/06/JEH11-13_Special_Report_Kombucha-Brewing.pdf
  10. http://casereports.bmj.com/content/2017/bcr-2017-221702.abstract
  11. http://fsi.colostate.edu/kombucha/
  12. https://www.hindawi.com/journals/jchem/2015/591869/
  13. http://msue.anr.msu.edu/news/kombucha_tea_origin_ingredients_and_precautions
  14. https://www.foodprotection.org/publications/food-protection-trends/archive/2018-09-safety-aspects-and-guidance-for-consumerson-the-safe-preparation-handling-and-storage-of-kom/