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A misteriosa Praga da Dança


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        Em 1518, na região de Estrasburgo, França, centenas de pessoas começaram a dançar furiosamente por meses, sem uma causa aparente por trás. Mesmo com várias pessoas morrendo de exaustão, elas continuaram dançando dia e noite até que, do nada, os dançarinos alucinados pararam com a "festança". O mais do que estranho evento até hoje continua um mistério, com várias hipóteses tentando explicar o ocorrido. E mais: não foi um caso isolado!

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    JULHO DE 1518

         Tudo começou em julho de 1518, quando Frau Troffea saiu às ruas de Estrasburgo e começou a dançar uma espécie de 'jive'. As pessoas em volta, de início, pensaram que ela estava feliz e queria expressar, com vigor, sua felicidade para todos. Com isso, o povo local começou a rir e aplaudir a dança de Troffea. Porém, todos começaram a perceber que tinha alguma coisa muito errada quando Troffea já tinha passado 6 dias inteiros dançando, sem parar! E o mais estranho não foi isso, mas, sim, o contágio de outras 34 pessoas dentro de uma semana com a mesma explosão de dança. Depois de um mês, eram em torno de 400, entre homens, mulheres e crianças! E nada existia para estar motivando essas pessoas a dançarem, pularem e saltarem. Não havia nenhuma festividade ou show de música, ou causas de comemoração para ter iniciado tal loucura. Todas essas pessoas estavam apenas dançando como zumbis agitados e demonstravam claros sinais de sofrimento. 


Ilustração de Johann Ludwing Gottfried, de 1632, representando a Praga da Dança


          Durante o processo de aglomeração de mais e mais dançarinos, dia após dia, uma tentativa desesperada das autoridades na época, para tentar curar o bizarro evento, culminou na contratação de músicos e construção de uma imensa pista de madeira, onde eles pensaram que forçando as pessoas a liberarem com força sua vontade de dançar, a histeria teria fim. Mas isso não adiantou e até encorajou mais pessoas a se juntarem à multidão de zumbis dançarinos. Durante toda a loucura da dança, dezenas de pessoas morreram de exaustão, ataques cardíacos e inanição, já que os dançarinos raramente paravam para comer ou beber alguma coisa, e menos ainda paravam para descansar.

         No pico  da euforia, cerca de 15 pessoas estavam morrendo por dia, e foi nesse momento que as autoridades do governo começaram a ficar mais do que preocupadas e começaram a acreditar que aquilo era obra de um furioso santo, chamado Vitus, sobre a região. Com isso, foram oficialmente banidos jogos, apostas e prostituição para ver se isso acalmava o Santo. Além disso, os dançarinos supostamente amaldiçoados foram mandados para locais sagrados, para que pudessem ser abençoados; outros eram mandados para hospitais locais. Três meses depois do início do fenômeno, a massiva dança terminou como começou: do nada. Após esse período, as pessoas que não tinha morrido voltaram aos seus afazeres normais como se nada tivesse acontecido, com os sintomas da aflição gradualmente desaparecendo.


Santo Vitus foi um dos grandes responsabilizados na época

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   OUTROS EVENTOS

          Mas antes de 1518, a Praga da Dança, como ficou conhecido o fenômeno, já tinha se manifestada em outras localidades da Europa. Mais precisamente, entre o século XI e XVI, vários surtos do tipo ocorreram. No Natal de 1021, 18 pessoas se reuniram em frente a uma igreja de uma cidade Alemã, Köibigk, e começaram a dançar selvagemente. O padre dando a missa lá dentro parou e pediu para eles pararem com o ato. Não adiantando pedir para eles interromperem a loucura, ele condenou todos eles a dançarem por um ano inteiro. E isso realmente "funcionou", porque os 18 não conseguiram ganhar controle dos seus membros até o próximo Natal, continuando a dançar vigorosamente por todo esse período - provavelmente em ciclos intermitentes de dança (onde houve oportunidade de sono, alimentação, etc.) -, segundo registros da época.

           Depois desse incidente, esse tipo de evento deixou de ser percebido até o ano de 1374, quando dezenas de cidades medievais, que seguiam o curso do Rio Rhine, se viram tomadas por centenas até milhares de pessoas em uma compulsão furiosa pela dança. Também comendo e descansando em raras ocasiões, elas ficaram dias, e até semanas, dançando direto; algumas pessoas chegaram inclusive a ser amarradas pelas autoridades para acalmar sintomas de tremores. Dentro desse período, a epidemia da dança já tinha se espalhado por grandes áreas no nordeste da França e da Holanda, e só depois de vários meses o fenômeno teve fim. Nas regiões de Aix-la-Chapelle, Liege, Utrecht, Tongres, Cologne, e Metz, os dançarinos foram alegadamente curados com uma combinação de processionais religiosos, exorcismos e missas.

          Após esse ano, apenas alguns pequenos e poucos eventos isolados ocorreram relacionados à Praga da Dança, até chegar o ano de 1518. Após esse período, novamente, só foram relatados alguns poucos casos isolados e bem limitados, até nenhuma outra ocorrência do tipo ser registrada a partir do final do século XVII na Europa. Todos esses eventos possuem vários documentos históricos comprobatórios e foram descritos em inúmeras fontes e de diversas formas, como nas artes. Os registros históricos mais amplos e descritivos têm origem do ano de 1518.


Ilustração de Henricus Hondius the Younger (1573-1610), baseada em ilustrações feitas por Brueglhel the Elderd em 1564, de três mulheres sendo acometidas pela Praga da Dança, enquanto cada uma delas está sendo socorrida por dois homens, os quais tentam acalmá-las. Elas tinham sido testemunhadas por Brueglhel, em 1564. 


          Segundo um compreensivo registro escrito do médico Alemão Justus Friedrich Karl Hecker (1795-1850) sobre os surtos de Praga da Dança na Europa (Ref.1), “[os indivíduos afetados] eram unidos por uma alucinação comum, formando círculos de mãos dadas, parecendo perder todo o controle sobre seus sentidos, e continuavam dançando independentemente dos espectadores, por horas juntos em delírios selvagens, até o ponto em que caíam no chão em um estado de exaustão. Enquanto dançavam, eles não viam nem ouviam, sendo insensíveis às impressões externas através dos sentidos, mas eram assombrados por visões, e suas fantasias conjuravam espíritos cujos nomes eles guinchavam alto. Quando a ‘doença’ havia completamente se desenvolvido, o ataque era iniciado com convulsões epilépticas. Aqueles afetados caiam no chão sem sentido, ofegando e lutando por ar. Eles espumavam, e, de repente pulavam e começavam uma dança em meio a estranhas contorções. Exceto se prevenidos por testemunhas, eles continuavam dançando sem intermissão, até que o último respiro era dado. A fúria e extravaganza do comportamento privava tão completamente seus sentidos que muitos deles esmagavam seus cérebros contra paredes e cantos de prédios, ou os levavam a pular em rios rápidos, onde encontravam um túmulo de água. Rugidos e espumados como estavam, caíam sem vida no chão, e, por muito pouco, recuperavam de novo suas forças. Muitos deles, mesmo com toda o esforço, ainda não haviam gasto toda a violência tempestiva que rugia dentro deles, acordando com novos poderes revividos, e de novo e de novo se misturavam com a multidão de dançarinos, até que o comprimento do violento excitamento dos seus desordenados nervos era exaurido pelo grande esforço involuntário dos seus membros, e o transtorno mental era acalmado pela extrema exaustão do corpo.”

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   EXPLICAÇÕES

         Desde a época em que a Praga da Dança estourou na Europa, vários médicos, escritores, monges e padres estudaram o fenômeno e tentaram elucidar explicações para o mesmo. Essas explicações incluem possessão demoníaca, epilepsia, mordidas de tarântulas (sintomas esporádicos de tarantismo, restritos ao Sul da Itália), intoxicação por fungos e adversidades sociais. Nas últimas décadas, causas neurobiológicas têm sido o foco, incluindo intoxicação por fungos e até mesmo fatores epigenéticos. 

          No caso dos fungos, o suspeito é a espécie Claviceps purpurea, a qual cresce comumente sobre grãos da família do trigo usados para a feitura de pães. Essa espécie de fungo produz a substância ergotamina, seu principal produto psicoativo e estruturalmente relacionado ao LSD-25 (ácido lisérgico dietilamida). Mas essa hipótese não se sustenta muito porque não existe relatos ligando a comida ou bebida com os episódios de dança. Além disso, apesar das substâncias psicoativas desses fungos causarem alucinações e convulsões, é improvável que seus efeitos psicóticos possam causar sintomas como 'dança' ou que esse mesmo sintoma induzido pelo psicoativo tenha afetado ao mesmo tempo tantas pessoas. Por fim, não existe registro de outras características comuns da alegada intoxicação fúngica afetando os dançarinos, como dor de cabeça, náusea, vômito, diarreia e gangrena dos dedos). Já no caso de causas epigenéticas, as evidências são menos do que especulativas.

          Em anos mais recentes, uma outra explicação, já previamente proposta, tem recebido maior apoio da comunidade científica: doença psicogênica de massa (DPM), esta a qual é caracterizada por uma rápida disseminação de sinais e sintomas de uma doença nos membros de um grupo coeso originados de um distúrbio no sistema nervoso que envolve excitação, perda ou alteração de função, mas onde as sensações físicas percebidas pelo indivíduo afetado exibidas inconscientemente não possuem correspondência com uma causa orgânica. Em outras palavras, podemos dizer que a DPM é uma forma de histeria em massa que surge disfarçada de uma doença.

         Bem, uma das primeiras pistas que temos para tentarmos resolver esse mistério é o fato de que a Praga da Dança possuía uma notável característica: dramática perda de autocontrole. Para dançar como condenados, gerando danos por todo o corpo e impedindo funções básicas de serem feitas, como comer, as pessoas com certeza estavam em um estado alterado de consciência. Mas para chegar em tal estado, precisamos de uma explicação, e essa pode estar firmada sobre três eixos principais: medo, depressão e crenças culturais. Para isso podemos citar três fatos que estavam associados durante os dois grandes fenômenos (1374 e 1518):

1. No mesmo ano em que a Praga da Dança atingiu várias regiões, uma das piores inundações do século atingiram a área. O rio Rhine teve seu nível elevado em mais de 11 metros, alagando as cidades em volta e causando enormes prejuízos;

2. Décadas antes de 1518, uma grande onda de fome, frio, alta dos preços dos alimentos e doenças diversas (como lepra, sífilis e surtos de peste bubônica), atingiu com força a região de Estraburgo;

3. Essas duas datas estão inseridas em um intervalo de séculos onde a religião era parte íntima da sociedade, e onde a população como um todo realmente acreditava em fenômenos sobrenaturais, como possessão demoníaca e outras descrições religiosas literais.  

         Juntando tudo isso, e sabendo que o estresse psicológico e dissociação estão interconectados, podemos montar um quadro que sugere uma DPM. Para ficar mais fácil visualizar essa doença, vamos dar um exemplo hipotético e dois exemplos reais recentes. No primeiro caso, imagine que em uma escola, de repente, um odor estranho comece a emergir no local. Considere também que existem grandes receios de ataques bioquímicos ou bioterrorismo na região por causa de ameaças, ataques prévios ou avisos do governo. Juntando esses dois fatos, isso pode ser suficiente para iniciar um grande pânico na escola, com várias pessoas expressando sintomas de um envenenamento, mesmo o odor não representando o cheiro de uma toxina.

         Um exemplo real para ilustrar isso é o incidente que ocorreu em setembro de 1998, onde 800 crianças no Jordão acreditavam piamente que estavam sofrendo dos efeitos colaterais da vacina do tétano-difeteria administrada em uma escola. Entre essas crianças, 122 foram admitidas em um hospital, mas para a vasta maioria delas, os sintomas nada mais do que passavam de um efeito psicológico, por causa de boatos sobre os supostos perigos das vacinas e aviso das autoridades que efeitos colaterais eram possíveis. Outro exemplo bem conhecido ocorreu em 1990, durante a Guerra do Golfo, onde os ataques de mísseis do Iraque em Israel eram muito temidos de conterem armas químicas no meio. Mesmo tal medo sendo injustificado e ser improvável que isso iria acontecer, de acordo com os dados de inteligência militar, cerca de 40% dos civis em Israel, na iminência dos ataques, começaram a reportar sintomas respiratórios.

         Bem, estudos de cultos de possessão em centenas de culturas modernas, do Haiti ao Ártico, já mostraram que as pessoas são mais propensas a experimentarem estados de dissociação da consciência (entrar em 'transe') se aquelas envolvidas em tais rituais realmente acreditarem na possibilidade de uma possessão demoníaca. Voltando para a Praga da Dança, o desespero, depressão e medo que se seguiu depois dos desastres ambientais e consequentes efeitos negativos na economia nas regiões onde o fenômeno teve grandes proporções, provavelmente foram ligados à influências demoníacas, dentro do sistema de crença 'Céu e Inferno'. Além disso, registros históricos mostram que, em 1374, os dançarinos na Praga da Dança acreditavam que Satã tinha liberado uma irresistível dança para, provavelmente, continuar as punições. No século XV e XVI, existem registros escritos por clérigos, teólogos e pastores ligando danças incontroláveis com julgamentos divinos e o ato da dança com o pecado (Ref.2). Com isso, muitos pediam por uma intervenção divina, incluindo a busca por locais sagrados para a submeter seus corpos a um exorcismo.

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IMPORTANTE: Ainda na primeira metade do século XVI, o notório médico Paracelso (1493-1541) foi talvez o primeiro a descartar uma causa "demoníaca" ou "divina" do fenômeno da Praga da Dança, defendendo uma causa psiquiátrica e tratamento pelas mãos de um médico, e não de um sacerdote. Como tratamento, Paracelso advogava um período de descanso forçado, isolamento e privação, além de tratamento farmacológico, incluindo a administração de aurum potibile (o ouro bebível dos alquimistas), aqua vitae ("água da vida", um nome arcaico para uma solução aquosa concentrada de etanol) e essentia opii (tintura de ópio).
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          Nesse último caso, em 1518, como já mencionado, as autoridades estavam convencidas de que um santo furioso tinha lançado neles uma maldição e em momentos de lucidez, é relatado que os dançarinos também imploravam por uma intervenção de padres. E pistas históricas também associavam o santo Vitus com maldições de dança antes mesmo da Praga estourar (Ref.4). Ou seja, as fortes crenças religiosas podem ter disparado uma doença psicogênica de massa no meio da angústia e desespero da época. Fenômenos celestes estranhos para a época, como o cometa de 1492, podem ter reforçado as expectativas apocalípticas e inquietação civil. De fato, revoltas camponesas estouraram ao longo da região, como a maior revolta ocorrendo entre 1500 e 1503.

            Para os episódios da Praga da Dança terem desaparecido completamente décadas mais tarde, é válido pensar que as agressivas Reformas na época, que visavam suprimir a adoração aos Santos, podem ter influenciado o drástico declínio do fenômeno.

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 CONCLUSÃO

          Apesar da doença psicogênica de massa (DPM) ser bem aceita como explicação por muitos médicos historiadores, ainda continua sendo apenas uma hipótese, potencialmente anacrônica. Nesse último ponto, é incerto, por exemplo, se esses eventos podem ser realmente considerados análogos com os surtos mais modernos de DPM. A verdade é que esse estranho fenômeno é até hoje considerado um dos maiores mistérios de saúde pública sem resolução. Alguns especialistas afirmam que é improvável que os episódios da Praga da Dança tenham sido causados por um ou outro fator específico, mas, sim, por vários fatores combinados com um pano de fundo cultural-religioso, engatilhado por circunstâncias sociais adversas, e variando de região para região, de época para época. É proposto inclusive por arqueólogos que comportamentos ritualísticos estavam envolvidos. De qualquer forma, mas uma coisa é certa: na época, a loucura da dança coletiva deve ter sido realmente assustadora, especialmente quando consideramos o contexto religioso medieval na Europa.


 REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. Lanska, D. J. (2017). The Dancing Manias: Psychogenic Illness as a Social Phenomenon. Frontiers of Neurology and Neuroscience, 132–141
  2. https://www.euppublishing.com/doi/full/10.3366/drs.2017.0199
  3. http://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-319-22994-2_7
  4. http://history.msu.edu/hst425/files/2013/04/waller_spin1.pdf
  5. http://ergotism.info/en/john_waller_2009_07.htm
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1525505015006885
  7. http://www.oxfordhandbooks.com/view/10.1093/oxfordhb/9780199917495.001.0001/oxfordhb-9780199917495-e-44
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC543940/
  9. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0033350697000346
  10. http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(09)60386-X/abstract
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0160932708000379
  12. http://history-world.org/Dancing%20In%20The%20Middle%20Ages.htm