YouTube

Artigos Recentes

Por que a nossa menopausa é tão adiantada?



           Menopausa, nos humanos, é quando uma mulher para de ter os seus períodos menstruais de forma permanente, algo que geralmente tem início a partir dos 45 anos. Como o período menstrual pode deixar de ocorrer por um tempo mas depois voltar, a menopausa só é oficialmente decretada quando os ciclos menstruais somem por mais de 1 ano. Apesar de estudos em anos recentes mostrarem que a menopausa, ou algum tipo de fim da fertilidade, é observada em um grande número de espécies de animais, essas tendem a apresentá-la próximo do fim de vida das fêmeas. Porém, da forma como ocorre com a nossa espécie, ou seja, uma menopausa vários anos antes da morte natural, é apenas observada em 3 mamíferos: nós (Homo sapiens sapiens), as Orcas (Orcinus orca) e as Baleias-Pilotos-de-Aleta-Curta (Globicephala macrorhynchus). E o grande mistério: por que essas espécies cessam a ovulação tanto tempo antes de alcançarem sua natural longevidade?


Por que só as três espécies possuem uma menopausa tão adiantada?

         A menopausa, e os seus sintomas, acontecem devido ao fato dos ovários pararem de produzir os hormônios estrógenos e progesterona. No ser humano, os sintomas desse declínio hormonal são vários, incluindo mudanças de humor, calores súbitos, secura vaginal, queda de cabelo, perda óssea, problemas para dormir, e sendo que os quais podem surgir vários anos após o início da menopausa. E uma das maiores dúvidas dos cientistas é saber o motivo disso ocorrer. Por que impedir que as fêmeas cessem sua atividade reprodutiva no meio da sua trajetória de vida? Não seria mais produtivo e resultar em maiores chances de sobrevivência para a espécie ter a maior quantidade possível de crias antes de morrer? Bem, e parece que quase todas as fêmeas dos animais seguem essa lógica, ou seja, reproduzir até idades bem avançadas, incluindo aquelas que apresentam uma etapa curta de menopausa. É só pegarmos o exemplo do famoso albatroz fêmea chamado Wisdom, que segura o recorde de ave e mãe mais velha, tendo um filhote aos 60 anos de idade, e já tendo tido entre 30 e 35 outros ao longo da sua vida. E isso sem mencionar cetáceos da ordem Mysticeti, ou popularmente conhecidos como ´baleias´, que podem gerar com facilidade filhotes aos 90 anos de idade!

        Nos dias de hoje, uma mulher possui uma excelente saúde até mesmo após os 70 anos, mas, mesmo assim, tende a perder sua fertilidade a partir dos 45 anos. E mesmo quando pensamos em épocas pré-históricas, em sociedades coletoras-caçadoras, a saúde delas geralmente ia bem após os 60 anos. Para tentar explicar essa aparente falta de lógica evolutiva, temos três hipóteses:

1. Efeito Materno: Aqui, sugere-se que uma mãe que já teve um certo número de filhotes e continua sempre gerando outros filhotes, fará com que os já existentes fiquem em desvantagem, sob menor atenção da mãe. Se a fêmea para de se reproduzir em uma certa idade em que o seu corpo esteja ainda forte, ela passaria a focar um maior tempo protegendo suas crias e outras do grupo (Hipótese Materna), aumentando as chances delas alcançarem idades mais avançadas. O mesmo valeria para as "avós", estas as quais também focariam seu tempo cuidando das crias das suas crias, e acabariam até contribuindo mais por terem uma maior experiência acumulada (Hipótese da Avó). Isso aumentaria as chances de proliferação de uma espécie. Só que essas hipóteses sozinhas não conseguem explicar o porquê dessa estratégia não ser encontrada em mais animais, apenas em três mamíferos.

2. Hipótese do Conflito Reprodutivo: Nesse caso, para não haver falta de comida e recursos para as crias e as mães, um limite brusco de idade para a reprodução permitiria que os filhotes já gerados não ficassem dividindo muito os recursos de sobrevivência com outros irmãos e com a mãe durante e após a gravidez ( maior necessidade de comida para gerar o filhote e amamentá-lo). Esse tipo de estratégia já é possivelmente adotado pela maioria das espécies de animais, especialmente os insetos, na forma da metamorfose (1). Porém, ao contrário da metamorfose, uma menopausa super adiantada parece só ocorrer em apenas três espécies, e sendo que nós estamos bem distantes, em termos de parentesco, das outras duas.

3. Hipótese da Mutação Cumulativa: Aqui, teríamos que deteriorações naturais vindas com a idade seriam acumuladas no corpo, afetando negativamente os mecanismos de reprodução das fêmeas, ou seja, a menopausa viria como um subproduto da acumulação de mutações prejudiciais ao organismo. Isso explicaria a menopausa em animais com alta expectativa de vida. Porém, isso não explica muito bem o porquê dos humanos e dos dois cetáceos mencionados apresentarem uma menopausa tão adiantada. Talvez seja algo mais plausível naqueles que possuem um fim da fertilidade em idades próximas da sua expectativa de vida. 

      Como pode ser visto, as três hipóteses não conseguem explicar o porquê da menopausa ser tão escassa na natureza, apenas os seus possíveis benefícios. Além disso, a idade em que o cessamento da fertilidade ocorre também não parece, à primeira vista, compensar esses benefícios. Nos humanos, ela começa em torno dos 45 anos - e longevidade acima dos 70 anos - , nas orcas, também aos 45 anos - e longevidade que chega aos 90 anos -, e nas baleias-de-aleta-curta, aos 36 anos - e longevidade de 54 anos. Em outras palavras, a menopausa chega, em geral, décadas antes do fim natural da vida desses animais, impedindo desnecessariamente a chegada de muitos possíveis filhotes. Será, então, que existe algum tipo de comportamento em comum entre essas três espécies, não encontrado em nenhum outro? É exatamente em cima dessa suposta coincidência que os cientistas vêm trabalhando em cima, e pode ser que um estudo publicado nesta semana na Current Biology tenha vindo para respondê-la (Ref.2)!

        No estudo, os pesquisadores reuniram dados acumulados por 43 anos de observação de duas populações de orcas. As fêmeas dessa espécie são as que chegam o mais cedo na menopausa em comparação com a sua expectativa de vida, sendo que 95% da fecundidade das mesmas é perdida aos 39 anos, e cessada completamente aos 45, mas, como já dito, podem viver até os 90 anos. Os resultados do estudo mostraram que cessando a capacidade reprodutiva nessa idade aumentam-se as chances de sobrevivência dos filhotes, aliando quatro fatores: hipótese materna, hipótese da avó, hipótese do conflito reprodutivo e dispersão demográfica diferenciada em termos de acasalamento. 

Um conjunto de características comportamentais quase único dentro dos grupos de orcas explicaria uma menopausa tão adiantada nesses mamíferos

          Existem três modelos de acasalamento nos mamíferos: o caso ´típico de mamíferos´, onde o acasalamento é local ( dentro do mesmo grupo) e somente os machos dispersam; o caso dos ´primatas´, onde o acasalamento é local e somente fêmeas dispersam; e o caso das ´baleias´, onde o acasalamento não é local e nenhum dos sexos dispersam. As orcas se encaixam no modelo das ´baleias´ (2), em que ambos, machos e fêmeas, permanecem no mesmo grupo pela maior parte do tempo, mas saem para se acasalar. Assim, quando uma jovem fêmea orca chega em um grupo, já existem outras fêmeas mais velhas cuidando dos seus e de outros filhotes, incluindo mães e avós, por estarem mais ligadas e familiarizadas com eles (relação que foi mostrada ser proporcional à idade no estudo sendo aqui discutido, até o limite da menopausa). Essas jovens fêmeas, como têm pouca familiaridade com os filhotes e adolescentes do novo grupo, ficam mais preocupadas em gerar e assegurar o bem-estar das suas próprias crias, captando recursos mais para si (investe mais apenas na sua reprodutividade). Já as mais velhas, se continuassem sendo capazes de gerar filhotes, ficariam sobrecarregadas, aumentando demais seus gastos de recursos e atenção, prejudicando seus filhotes. Somente na lactação, por exemplo, uma orca precisa se alimentar 42% a mais do que o normal. E durante os meses de verão, as orcas se alimentam, quase exclusivamente, de salmão, sendo que um mesmo salmão é divido dentro do grupo (esses animais compartilham o alimento dentro do grupo). Variações anuais de salmão é um importante fator para determinar o sucesso reprodutivo e mortalidade desses animais  A competição reprodutiva ficaria injusta demais entre as fêmeas jovens e velhas, além de arriscar a segurança do alimentar do grupo, fazendo sentido existir um limitador natural de fertilidade nesse caso. Somando-se a isso, as fêmeas mais velhas das orcas acabam sendo importantes também para passarem conhecimento de sobrevivência aos mais novos, como, por exemplo, orientações de como caçar salmões.

          Enquanto esses comportamentos individuais são visto em outras espécies de mamíferos que vivem em grupos de complexa organização social, eles aparecem em conjunto nas orcas. Muitos cetáceos seguem o modelo ´baleia´ de acasalamento e fortes laços dentro dos grupos, mas não se é visto o comportamento de compartilhamento de recursos entre eles. Já certos elefantes (Elephas maximus e Loxodonta africana) possuem elefantes mais velhas sendo capazes de gerar filhos até o fim das suas vidas e cuidam/orientam bem os filhotes do bando, porém, assim como a maior parte dos vertebrados, não possuem os padrões demográficos de acasalamento das orcas. Em outras palavras, é um conjuntos de características comportamentais específicas necessárias para atingir a menopausa. E as baleias-de-aleta-curta parecem seguir os mesmos passos sociais das orcas, segundo os pesquisadores.

       E no caso do humanos? Bem, considerando o nosso passado, nós seguimos o modelo ´primata´ de acasalamento, onde as fêmeas no período fértil saem dos grupos para se acasalar. Isso segue algo parecido com as orcas. Mas e por que os outros primatas não possuem uma menopausa surgindo tão cedo quanto nos humanos? Isso pode ser explicado porque nós somos os únicos entre nossos parentes mais próximos a terem sociedades onde os recursos são compartilhados, algo que pode fazer a menopausa ser vantajosa para a nossa espécie, por diminuir a competição reprodutiva entre as fêmeas. No final, ainda restam dúvidas evolutivas em torno da menopausa, mas não dúvidas de que estamos cada vez mais perto de respondê-las.

                                                                         #####
      
(1) Entenda mais sobre o assunto no artigo Qual é a ciência biológica por trás dos Pokémons?

(2) Apesar das Orcas serem popularmente conhecidas como ´Baleias-Assassinas´, especialmente em territórios de língua inglesa, esses cetáceos não pertecem a uma família de típicas baleias, como as baleias de barbatana, e, sim, fazem parte da falmília dos golfinhos (Delphinidae).

Artigo Complementar: Terapia de Reposição Hormonal na Menopausa

Artigos Recomendados:

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS:
  1. https://www.nia.nih.gov/health/publication/menopause
  2. http://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(16)31462-2
  3. http://ocean.si.edu/blog/menopausal-moms-mammal-mystery
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2553520/
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25183990
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2644688/
                                                                           Anúncio