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Por que as mulheres vivem mais do que os homens?


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          Uma coisa é fato na vida: mulheres vivem mais do que os homens. E isso é verdade em praticamente todas as sociedades humanas modernas. A média da diferença de expectativas de vida é em torno de 3 anos entre os sexos, podendo variar substancialmente dependendo da localização geográfica. Isso já é sabido há décadas, e o mesmo padrão é encontrado também nos outros primatas superiores, como orangotangos, chimpanzés e gorilas. Mas o que explica isso?


   FATORES COMPORTAMENTAIS?

          Claro, nossa primeira reação é argumentar: "É porque os homens cuidam menos da saúde, bebem mais, fumam mais e, em geral, trabalham com serviços que exigem mais do físico, desgastando bastante o corpo no processo". Bem, essa seria uma explicação plausível, mas, nas últimas décadas, os homens têm se equiparado com as mulheres em termos de trabalho, hábitos cotidianos e sedentarismo, e, mesmo assim, as diferenças de expectativa de vida continuam as mesmas. Isso sem contar os outros primatas superiores, os quais seguem o mesmo padrão de longevidade sexo-tendencioso, mesmo com os machos e fêmeas enfrentando as mesmas condições ambientais em seus habitats. Não, o fato das mulheres viverem mais está relacionado diretamente com fatores biológicos que provavelmente emergiram no ancestral comum dos hominídeos. Os fatores sócio-culturais apenas parecem aprofundar ainda mais a diferença na expectativas de vida entre os sexos (na Rússia, por exemplo, por causa do alto número de homens alcoólatras, indivíduos do sexo masculino vivem, em média, 13 anos menos do que as mulheres!).

Em geral, as mulheres adotam um estilo de vida mais saudável, mas isso apenas aprofunda ainda mais a diferença na expectativa de vida

          Aliás, um time de pesquisadores da Dinamarca e do Reino Unido, analisando dados de mortalidade de pessoas que viveram ao longo dos últimos 250 anos encontraram que as mulheres não apenas vivem mais do que os homens mas como também resistem melhor às crises de sobrevivência, como períodos de fome e perigosas epidemias. No geral, os pesquisadores descobriram que, mesmo quando a taxa de mortalidade era muito alta para ambos os sexos, as mulheres ainda viviam mais tempo, em torno de 6 meses a quase 4 anos na média. Garotas que nasceram durante uma grande crise de fome que afetou a Ucrânia em 1933, por exemplo, viviam em média até os 10,85 anos de idade, enquanto os garotos viviam na média até os 7,3 anos. Analisando mais detalhadamente os dados, os pesquisadores mostraram que a diferença tão grande de mortalidade tinham origem já na taxa de mortalidade no primeiro ano de vida. Em outras palavras, recém-nascidos do sexo feminino são mais resistentes do que os do sexo masculino. Isso reforça ainda mais o papel biológico para explicar a maior longevidade das mulheres. O estudo foi publicado recentemente na PNAS (Ref.10).

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SUPER GENOMA?

          O primeiro potencial fator que influenciaria no envelhecimento seria o fato de que as mulheres possuem dois cromossomos X como par sexual, enquanto o homem possui o par formado por um cromossomo Y e outro X. E o que isso tem a ver com alguma coisa? Pelo fato da mulher ter dois cromossomos sexuais idênticos, da mesma forma que acontece com todos os outros 22 pares, em caso de falhas durante as divisões celulares, todos os cromossomos do cariótipo (conjunto de cromossomos de uma espécie, sendo que os humanos possuem um total de 46, ou 23 pares) da mulher terão uma cópia de segurança, prevenindo maiores danos ao corpo. Já os homens, possuem cópia para todos os seus cromossomos, exceto para os dois do par sexual, por serem diferentes. Assim, em caso de falhas em qualquer um deles durante divisões, não existe um backup, o que pode levar a muitos problemas nas funções celulares, com consequentes danos para o corpo e diminuição da longevidade.

Nessa representação acima do conjunto de cromossomos dos dois sexos, podemos ver que a mulher possui uma cópia de cada um dos cromossomos dentre todos os 23 pares, incluindo o par sexual circulado de vermelho; já o homem possui cópia de todos exceto para os dois do par sexual, os quais  são diferentes um do outro

   BAIXA ESTATURA?

A diferença de tamanhos pode ser um dos fatores
            Saindo do nível celular, temos também dois fatores - um anatômico e o outro fisiológico - que podem dar uma boa vantagem às mulheres. Depois da segunda metade do ciclo menstrual, o coração das mulheres passa a bater em um ritmo mais acelerado, simulando o efeito de um exercício físico. Isso melhora a força e saúde cardíaca, trazendo benefícios para todo o corpo. Além disso, os homens tendem a ser mais altos e possuir maior massa corporal do que as mulheres. Quanto maior o número de células no corpo, maior é a taxa de divisões celulares, aumentando as chances do surgimento de mutações indesejadas, como os tumores (1). Ambos os fatores podem contribuir para explicar a grande diferença de expectativa de vida entre os sexos.


   PERFIL HORMONAL?

       TESTOSTERONA VILÃ?

             Uma outra forte suspeita recai sobre a tão famosa testosterona, o hormônio que dá todas as características secundárias masculinas. E, para esse caso, existem até comprovações históricas. Na Dinastia Chosun, instalada no antigo território unificado das duas Coreias, lá pelo século 19, foi comprovado que os eunucos (castrados antes mesmo da puberdade) viviam, em média, por 70 anos. Em comparação com os outros homens da corte, incluindo os reis, todos com muitas mordomias e vidas saudáveis, a média de idade não ultrapassava os 50 anos! E isso não acontece apenas com esses eunucos. Os  animais que também têm os seus testículos retirados (local onde se produz a testosterona) tendem a viver mais do que os outros. Existe também os relatos de que os pacientes mentais de clínicas que eram castrados antes dos 15 anos, também passavam a viver mais do que os outros pacientes. Curiosamente, se o castramento ocorresse em idades mais avançadas, nenhum efeito de longevidade era observado.


           A explicação exata para essas observações ainda não existe, mas supõe-se que a testosterona, quando começa a agir no corpo do adolescente, aumenta a atividade da próstata de uma forma que leva ao surgimento facilitado de tumores na região (um dos tipos de câncer mais comuns entre os homens). Ela também pode agir otimizando as funções cardíacas nessa faixa de idade, mas, ao mesmo tempo, pode acabar causando danos ao músculo cardíaco no processo.


    ESTRÓGENOS PROTETORES?

          Ainda falando em hormônios, temos um último e convincente fator para explicar o sangue Highlander das mulheres. Bem, como é óbvio, elas possuem muito pouca testosterona , o que já evitaria danos desnecessários à saúde, e, em substituição, possuem altas quantidades de estrógenos, uma classe dos hormônios sexuais femininos responsáveis pelas características secundárias delas. Os três principais estrógenos são o estradiol, estriol e a estrona. A estrona apenas fica em quantidades maiores quando a mulher se encontra na menopausa e, portanto, ela não é muito interessante nessa análise. Já os outros dois são o que mais estão presentes durante a maior parte da sua vida, especialmente o estradiol (e é o que possui maior efeito estrogênico), já que o estriol é majoritário apenas durante os períodos de gravidez.

         De qualquer forma, as moléculas desses últimos funcionam como antioxidadntes naturais, combatendo os terríveis radicais livres, os quais são espécies moleculares muito danosas ao nosso corpo. Estradiol e estriol são muito parecidos com a testosterona, mas são menos oxidados do que esta última. A ausência do grupo carbonila nas moléculas de ambos confere um menor estado de oxidação às mesmas, além das hidroxilas adicionais facilitarem reações extras nessas moléculas (acúmulo maior de densidade eletrônica em cima do oxigênio, atraindo ainda mais grupos reativos eletrófilos, como os radicais livres), sendo que elas ficam suscetíveis a serem atacadas pelos radicais livres ao invés destes atacarem nossas células. Estudos em animais já mostraram que quando os hormônios estrógenos são retirados do corpo das fêmeas (em uma analogia ao castramento), estas passam a ficarem mais doentes devido ao maior número de danos celulares, os quais estariam sendo prevenidos, em parte, pelas moléculas de estriol e estradiol.

Os estrógenos funcionam também como antioxidantes no corpo, combatendo os maléficos radicais livres; a testosterona possui maior oxidação devido ao grupo carbonila (vermelho), diferente do estradiol e estriol, os quais possuem, em substituição, um grupo hidroxila (verde) mais reativo, além do estriol possuir um extra em sua molécula

          Reforçando o aparente papel protetor dos estrógenos, um estudo publicado no periódico Clinical Endocrinology (Ref.), analisando 2913 homens com idades de 70 a 89 anos mostrou que quanto maior os níveis de estradiol circulantes no sangue, maior o comprimento do telômero visto nas células-brancas (células de defesa, como os leucócitos). Essa observação se manteve consistente mesmo após a análise de outros co-fatores causativos, como idade cronológica, estilo de vida e condições médicas. O telômero fica localizado no final dos cromossomos e protege o DNA de danos, e  está fortemente associado com a idade biológica dos seres vivos (3). Aliás, homens tendem a ter telômeros mais curtos do que as mulheres, o que pode explicar a menor longevidade masculina e associação desse fenômeno com os hormônios sexuais.



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    E A APOSENTADORIA AQUI NO BRASIL?

           Um fato curioso disso tudo, válido de ser citado para finalizar o assunto, é a previdência social brasileira. Hoje, existe uma discussão sobre se é justo manter a grande diferença de idade entre os homens e mulheres para a aposentadoria. Aqui no país, as mulheres possuem uma expectativa de vida, média, 7 anos maior do que a dos homens (cerca de 77 anos para elas e 69 anos para eles), dando mais razões às críticas. O justo argumento utilizado nas décadas de 1980 e 1990 era o de que as mulheres estavam trabalhando tanto fora de casa quanto dentro, com a aposentadoria adiantada servindo para compensar essa exaustiva jornada. Mas, hoje, com o emparelhamento de funções cada vez maior entre os dois sexos, esse argumento está se enfraquecendo e, no futuro, ele tenderá a perder total força. No entanto, ainda hoje persiste a questão dos salários, estes os quais, em geral, tendem a ser menores para as mulheres independentemente da escolaridade (comparando os mesmos cargos ocupados por homens), além da maior dificuldade de ascensão na carreira (glass ceiling(1). A aposentadoria, portanto, acaba remunerando menos, fazendo sentido ela começar mais cedo para as mulheres sob esse ponto de vista, até que a luta pela igualdade sócio-econômica entre os gêneros alcance finalmente seu objetivo.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.karger.com/Article/FullText/381472
  2. http://lkyspp.nus.edu.sg/ips/wp-content/uploads/sites/2/2014/04/Forum_Why-women-live-longer-than-men_280314.pdf
  3. www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211507000395
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211507000395
  5. http://www.bbc.com/future/story/20150928-tall-vs-small-which-is-it-better-to-be
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12586217
  7. http://sageke.sciencemag.org/cgi/content/full/2005/23/pe17
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982212007129
  9. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3969277/
  10. http://www.pnas.org/content/early/2018/01/03/1701535115
  11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cen.13918