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Por que as mulheres vivem mais do que os homens?


- Atualizado no dia 15 de março de 2021 -

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          Uma coisa é fato na vida: mulheres vivem mais do que os homens. E isso é verdade em praticamente todas as sociedades humanas modernas. A média da diferença de expectativas de vida é em torno de 3 anos entre os sexos, podendo variar substancialmente dependendo da localização geográfica. Isso já é sabido há décadas, e o mesmo padrão é encontrado também nos outros primatas superiores, como orangotangos, chimpanzés (1) e gorilas, e entre os mamíferos em geral. Aliás, com exceção notável entre várias espécies de aves e de alguns invertebrados, as fêmeas tendem a viver mais no Reino Animal. Mas o que explica isso?

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   FATORES COMPORTAMENTAIS?

          Claro, nossa primeira reação é argumentar: "É porque os homens cuidam menos da saúde, bebem mais, fumam mais e, em geral, trabalham com serviços que exigem mais do físico, desgastando bastante o corpo no processo". Bem, essa seria uma explicação plausível, mas, nas últimas décadas, os homens têm se equiparado com as mulheres em termos de trabalho, hábitos cotidianos e sedentarismo, e, mesmo assim, marcantes diferenças de expectativa de vida persistem. Isso sem contar os outros primatas superiores, os quais seguem o mesmo padrão de longevidade sexo-tendencioso, mesmo com os machos e fêmeas atravessando as mesmas condições ambientais em seus habitats (1). Não, o fato das mulheres viverem mais está relacionado diretamente com fatores biológicos sexo-específicos, interagindo ou não com os fatores ambientais. Os fatores sócio-culturais apenas parecem aprofundar ainda mais a diferença na expectativas de vida entre os sexos (na Rússia, por exemplo, por causa do alto número de homens alcoólatras, indivíduos do sexo masculino vivem, em média, 13 anos menos do que as mulheres!).

Em geral, as mulheres adotam um estilo de vida mais saudável, mas isso apenas aprofunda ainda mais a diferença na expectativa de vida

          Aliás, um time de pesquisadores da Dinamarca e do Reino Unido, analisando dados de mortalidade de pessoas que viveram ao longo dos últimos 250 anos encontraram que as mulheres não apenas vivem mais do que os homens mas como também resistem melhor às crises de sobrevivência, como períodos de fome e perigosas epidemias. No geral, os pesquisadores descobriram que, mesmo quando a taxa de mortalidade era muito alta para ambos os sexos, as mulheres ainda viviam mais tempo, em torno de 6 meses a quase 4 anos na média. Garotas que nasceram durante uma grande crise de fome que afetou a Ucrânia em 1933, por exemplo, viviam em média até os 10,85 anos de idade, enquanto os garotos viviam na média até os 7,3 anos. Analisando mais detalhadamente os dados, os pesquisadores mostraram que a diferença tão grande de mortalidade tinham origem já na taxa de mortalidade no primeiro ano de vida. Em outras palavras, recém-nascidos do sexo feminino são mais resistentes do que os do sexo masculino. Isso reforça ainda mais o papel biológico para explicar a maior longevidade das mulheres. O estudo foi publicado em 2019 na PNAS (Ref.10).

          Já em um estudo mais recente, publicado no periódico Canadian Medical Association Journal (Ref.17), pesquisadores analisaram os dados de quase 180 mil pessoas com idade de 50 anos ou mais de 28 países, das quais mais da metade (55%) eram mulheres. Os pesquisadores encontraram que os homens tinham 60% maior risco de mortalidade, com esse risco variando substancialmente entre os países. Fatores sócio-culturais e de estilo de vida, porém, explicaram apenas parte da diferença de risco. Diferença na prevalência de fumo e de doenças cardiovasculares entre os sexos responderam por grande parte da maior taxa de mortalidade entre os homens (22%).

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(1) Por outro lado, um estudo publicado no periódico Primates (Ref.12) encontrou que a média de expectativa de vida de chimpanzés (Pan troglodytes) vivendo em cativeiro que atingem a fase adulta (12 anos) é de 41,5 anos para os machos e de 39,2 anos para as fêmeas. Foram analisados os dados de 1017 espécimes no Japão acumulados desde o ano de 1921. O mais velho chimpanzé em cativeiro no Japão era um macho nascido em meio selvagem que viveu um estimado de 68 anos. Mesmo considerando a expectativa de vida desde o nascimento ou a infância (com uma taxa de mortalidade alta), os machos continuavam com uma expectativa de vida significativamente maior.

> Um estudo publicado em 2020 na PNAS (Ref.13), analisando 134 populações selvagens de mamíferos e englobando 101 espécies - de carneiros a elefantes -, revelou que a expectativa de vida das fêmeas é, na média, 18,6% maior do que dos machos, e de 7,8% maior entre os humanos. Cerca de 60% das populações incluídas expressaram essa tendência de maior longevidade aparente das fêmeas adultas. No entanto, em geral, os pesquisadores não encontraram significativas diferenças nas taxas de envelhecimento entre machos e fêmeas, e que somente hábitos diferenciais - machos se expondo a mais perigos do que as fêmeas, por exemplo - não explicavam as diferenças de expectativa de vida sexo-específicas. Segundo os pesquisadores, essas diferenças de mortalidade sexo-específicas provavelmente estão associadas a complexas interações das condições ambientais locais com os custos de seleção sexual (características fisiológicas/fenotípicas diferenciais entre machos e fêmeas frente às adversidades do ambiente). Isso é reforçado pelo fato de que diferentes populações - avaliadas pelo estudo - de uma mesma espécie vivendo em diferentes ambientes mostraram substanciais variações nas diferenças de mortalidade entre machos e fêmeas.
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   SUPER GENOMA?

          O primeiro potencial fator que influenciaria no envelhecimento seria o fato de que as mulheres possuem dois cromossomos X como par sexual, enquanto o homem possui o par formado por um cromossomo Y e outro X. E o que isso tem a ver com alguma coisa? Pelo fato da mulher ter dois cromossomos sexuais idênticos, da mesma forma que acontece com todos os outros 22 pares, em caso de falhas durante as divisões celulares, todos os cromossomos do cariótipo (conjunto de cromossomos de uma espécie, sendo que os humanos possuem um total de 46, ou 23 pares) da mulher terão uma cópia de segurança, prevenindo maiores danos ao corpo. Já os homens, possuem cópia para todos os seus cromossomos, exceto para os dois do par sexual, por serem diferentes. Assim, em caso de falhas em qualquer um deles durante divisões, não existe um backup, o que pode levar a muitos problemas nas funções celulares, com consequentes danos para o corpo e diminuição da longevidade.

Nessa representação acima do conjunto de cromossomos dos dois sexos, podemos ver que a mulher possui uma cópia de cada um dos cromossomos dentre todos os 23 pares, incluindo o par sexual circulado de vermelho; já o homem possui cópia de todos exceto para os dois do par sexual, os quais  são diferentes um do outro

   BAIXA ESTATURA?

A diferença de tamanhos pode ser um dos fatores
            Saindo do nível celular, temos também dois fatores - um anatômico e o outro fisiológico - que podem dar uma boa vantagem às mulheres. Depois da segunda metade do ciclo menstrual, o coração das mulheres passa a bater em um ritmo mais acelerado, simulando o efeito de um exercício físico. Isso melhora a força e saúde cardíaca, trazendo benefícios para todo o corpo. Além disso, os homens tendem a ser mais altos e possuir maior massa corporal do que as mulheres. Quanto maior o número de células no corpo, maior é a taxa de divisões celulares, aumentando as chances do surgimento de mutações indesejadas, como os tumores. Ambos os fatores podem contribuir para explicar a grande diferença de expectativa de vida entre os sexos.


   PERFIL HORMONAL?

       TESTOSTERONA VILÃ?

            Uma outra forte suspeita recai sobre a tão famosa testosterona, o principal hormônio sexual dos homens. E, nesse caso, existem até notáveis evidências históricas (Ref.14-15). Na Corte Imperial da Dinastia Chosun, instalada no antigo território unificado das duas Coreias entre os séculos XVI e XIX, os eunucos (castrados antes mesmo da puberdade) viviam, em média, por 70 anos. Em comparação com os outros homens da corte, incluindo os reis, todos com muitas mordomias e vidas saudáveis, a média de idade não ultrapassava os 50 anos! E esse fenômeno não é observado apenas nos eunucos. Alguns dos eunucos chegavam aos 100-109 anos, em uma frequência pelo menos 130 vezes maior a nível populacional do que aquela vista nas sociedades contemporâneas. Outros animais machos que também têm os seus testículos retirados (local onde se produz a testosterona) tendem a viver mais do que os outros. 

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          Nos EUA, durante a metade inicial do século XX, era comum a castração de homens com problemas mentais, considerados "geneticamente não-adequados", como parte de movimentos eugênicos. Homens castrados mentalmente incapazes, na média, tinham uma longevidade 6 anos maior do que a média entre os outros pacientes psiquiátricos não-castrados. Caso considerados apenas aqueles que eram castrados antes bem novos, ainda na adolescência, a média de longevidade era quase 12 anos maior (Ref.14). 

          Curiosamente, se o castramento ocorre em idades mais avançadas, nenhum efeito de longevidade passa a ser observado; pelo contrário, maior risco de doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde estão associados com a depleção de testosterona em homens de meia-idade e idosos (Ref.14).

          Um estudo randomizado Mendeliano mais recente, publicado como preprint (ainda não revisado por pares) na medRxiv (Ref.16), também encontrou que a testosterona, de fato, parece reduzir a a longevidade ao longo da vida do indivíduo. No estudo, foram analisados os dados clínicos e genéticos de mais de 167 mil homens e mais de 194 mil mulheres obtidos do UK Biobank.

          Estudos experimentais sugerem que a testosterona pode aumentar o volume da placa coronária e a coagulação, e também promover danos na função endotelial. A testosterona também aumenta a vulnerabilidade a cânceres hormônio-relacionados, incluindo câncer de próstata - um dos tipos mais comuns entre os homens -, câncer de mama e câncer endometrial. Além disso, a testosterona é cada vez mais estabelecida como um supressor imune - potencialmente aumentando os riscos de câncer e de infecções diversas - e também pode induzir comportamentos impulsivos.
            
          Como a testosterona é um grande promovedor de libido, a seleção natural Darwiniana provavelmente manteve seus altos níveis nos machos de várias espécies mesmo em detrimento à saúde devido aos benefícios em termos reprodutivos.


    ESTRÓGENOS PROTETORES?

          Ainda falando em hormônios, temos um último e convincente fator para explicar o sangue Highlander das mulheres. Bem, como é óbvio, elas possuem muito pouca testosterona , o que por si só já evitaria danos à saúde, e, em substituição, possuem altas quantidades de estrógenos, uma classe dos hormônios sexuais femininos responsáveis pelas características secundárias das mulheres. Os três principais estrógenos são o estradiol, estriol e a estrona. A estrona apenas fica em quantidades maiores quando a mulher se encontra na menopausa e, portanto, ela não é muito interessante nessa análise. Já os outros dois são o que mais estão presentes durante a maior parte da sua vida, especialmente o estradiol (e é o que possui maior efeito estrogênico), já que o estriol é majoritário apenas durante os períodos de gravidez.

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         As moléculas de estradiol e de estriol funcionam como antioxidantes naturais, combatendo o excesso dos danosos radicais livres, os quais são espécies moleculares muito danosas ao nosso corpo. Esses dois hormônios são muito parecidos com a testosterona, mas são menos oxidados do que esta última. A ausência do grupo carbonila nas moléculas de ambos confere um menor estado de oxidação às mesmas, além das hidroxilas adicionais facilitarem reações extras nessas moléculas (acúmulo maior de densidade eletrônica em cima do oxigênio, atraindo ainda mais grupos reativos eletrófilos, como os radicais livres), sendo que elas ficam suscetíveis a serem atacadas pelos radicais livres ao invés destes atacarem nossas células. Estudos em animais já mostraram que quando os hormônios estrógenos são retirados do corpo das fêmeas (em uma analogia ao castramento), estas passam a ficarem mais doentes devido ao maior número de danos celulares, os quais estariam sendo prevenidos, em parte, pelas moléculas de estriol e estradiol.

Os estrógenos funcionam também como antioxidantes no corpo, combatendo os maléficos radicais livres; a testosterona possui maior oxidação devido ao grupo carbonila (vermelho), diferente do estradiol e estriol, os quais possuem, em substituição, um grupo hidroxila (verde) mais reativo, além do estriol possuir um extra em sua molécula

          Reforçando o aparente papel protetor dos estrógenos, um estudo publicado no periódico Clinical Endocrinology (Ref.11), analisando 2913 homens com idades de 70 a 89 anos mostrou que quanto maior os níveis de estradiol circulantes no sangue, maior o comprimento do telômero visto nas células-brancas (células de defesa, como os leucócitos). Essa observação se manteve consistente mesmo após a análise de outros co-fatores causativos, como idade cronológica, estilo de vida e condições médicas. O telômero fica localizado no final dos cromossomos e protege o DNA de danos, e  está fortemente associado com a idade biológica dos seres vivos (2). Aliás, homens tendem a ter telômeros mais curtos do que as mulheres, o que pode explicar a menor longevidade masculina e associação desse fenômeno com os hormônios sexuais.


   METABOLISMO

          Experimentos laboratoriais com modelos de organismos diversos têm mostrado um papel crucial da dieta e do metabolismo na determinação da longevidade, com expressivas extensões da expectativa de vida observadas ou via restrição dietária ou via redução da atividade da insulina/IIS e de outros caminhos metabólicos (como a sinalização TOR). Variações genéticas e perfis hormonais diferenciais entre homens e mulheres afetam significativamente os processos metabólicos, o que pode ser traduzido em diferentes longevidades (Ref.15).
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    E A APOSENTADORIA AQUI NO BRASIL?

           Um fato curioso disso tudo, válido de ser citado para finalizar o assunto, é a previdência social brasileira. Hoje, existe uma discussão sobre se é justo manter a grande diferença de idade entre os homens e mulheres para a aposentadoria. Aqui no país, as mulheres possuem uma expectativa de vida, média, 7 anos maior do que a dos homens (cerca de 77 anos para elas e 69 anos para eles), dando mais razões às críticas. O justo argumento utilizado nas décadas de 1980 e 1990 era o de que as mulheres estavam trabalhando tanto fora de casa quanto dentro, com a aposentadoria adiantada servindo para compensar essa exaustiva jornada. Mas, hoje, com o emparelhamento de funções cada vez maior entre os dois sexos, esse argumento está se enfraquecendo. No entanto, ainda hoje persiste a questão dos salários, que, em geral, tendem a ser menores para as mulheres independentemente da escolaridade (comparando os mesmos cargos/funções ocupados por homens), além da maior dificuldade de ascensão na carreira (glass ceiling)  (3). A aposentadoria, portanto, acaba remunerando menos, fazendo sentido ela começar mais cedo para as mulheres sob esse ponto de vista, até que a luta pela igualdade sócio-econômica entre os gêneros alcance finalmente seu objetivo.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.karger.com/Article/FullText/381472
  2. http://lkyspp.nus.edu.sg/ips/wp-content/uploads/sites/2/2014/04/Forum_Why-women-live-longer-than-men_280314.pdf
  3. www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211507000395
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211507000395
  5. http://www.bbc.com/future/story/20150928-tall-vs-small-which-is-it-better-to-be
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12586217
  7. http://sageke.sciencemag.org/cgi/content/full/2005/23/pe17
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982212007129
  9. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3969277/
  10. http://www.pnas.org/content/early/2018/01/03/1701535115
  11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cen.13918
  12. https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10329-019-00755-8
  13. https://www.pnas.org/content/117/15/8546
  14. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3969277/
  15. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1521690X13000821
  16. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.06.18.20134775v1
  17. https://www.cmaj.ca/content/193/11/E361