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Por que a vontade sexual desaparece após o orgasmo masculino?

 

          Seguindo tipicamente estimulação peniana e ejaculação, machos da nossa espécie (Homo sapiens) experienciam um orgasmo. Em humanos, ejaculação e orgasmo podem ser percebidos como um evento único, apesar de não serem o mesmo processo biológico. Somando-se a isso, existe evidência de que alguns homens podem ter uma ejaculação sem ter um orgasmo, e alguns homens que podem ter um orgasmo sem uma ejaculação. De qualquer forma, após o orgasmo/ejaculação existe uma fase inibitória: o período refratário  pós-ejaculatório (PRPE), caracterizado por um estado de atividade e desejo sexuais reduzidos. Esse estado é induzido por vários fenômenos, como inibição da ereção, inibição de orgasmo ou ejaculação, e redução (ou supressão) do excitamento. Além desses efeitos, existem outros relativamente menos comuns no estado pós-orgasmo, como hipersensibilidade genital e depressão.

Figura 1. Relação entre o período refratário pós-ejaculatório e o ciclo de resposta sexual em humanos. A duração da PERP - intervalo pós-ejaculatório - pode variar de 5 minutos até 24 horas, dependendo da idade e do indivíduo; indivíduos jovens tipicamente possuem uma PERT curta, e uma média de 19 minutos já foi reportada em um grupo de homens com idade média de 26 anos. Muitos homens reportam hipersensibilidade genital, e até desconforto, caso estimulação seja continuada durante o PERP. Ref.2

           E embora o fenômeno seja popularmente associado apenas aos humanos, o PRPE é altamente conservado entre várias espécies de animais e é expresso como uma redução geral na atividade sexual e também inibição da função erétil em outros primatas. De fato, muitos estudos têm sido conduzido em roedores relativos ao fenômeno; seguindo a ejaculação, o rato macho da linhagem Long-Evans (espécie Rattus norvegicus) entra em um período refratário, onde é incapaz de resposta a estímulos sexuais por vários minutos (Ref.3). O intervalo temporal do PERP é variável entre e em indivíduos, e é afetado por vários fatores, como idade ou a apresentação a um novo parceiro sexual.


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          É pensado que o PERP permite a substituição do esperma e do fluido seminal, funcionando como um sistema de feedback negativo: inibindo ejaculações muito frequentes ou consecutivas, uma adequada contagem de espermatozoides necessária para efetiva fertilização é mantida. É estimado que humanos produzem espermatozoides a uma taxa de aproximadamente 12,5 milhões por hora, e, portanto, uma ejaculação contendo ~200-400 milhões de espermatozoides levaria aproximadamente 16-32 horas para ser recuperada. Mesmo uma PERP de curta duração em homens jovens poderia ser suficiente para ajudar a prevenir novo engajamento sexual por várias horas ou mesmo ao longo do dia. Acredita-se que um ejaculado humano contendo ~60 milhões de espermatozoides é suficiente para uma gravidez efetiva, mas existem registros de gravidezes com quantidades tão baixas quanto ~20 milhões (Ref.2).

          Ainda é incerto qual processo em específico engatilha o PERP, se o orgasmo ou a ejaculação. Já foi proposto que a sinalização para o PERP pode ser gerada por barorreceptores dentro da vesículas seminais, cuja pressão interior reduz rapidamente durante a ejaculação, ou por quimiorreceptores dentro da uretra que podem sentir algum componente químico do sêmen. Apesar da falta de evidência clínica de qualidade suportando esses supostos mecanismos, um estudo piloto publicado em 2022 (Ref.4) trouxe evidência limitada de que o status cheio ou vazio das vesículas seminais interfere no desejo sexual. 

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> As vesículas seminais são glândulas extraperitoniais do sistema reprodutor masculino que secretam fluido contendo várias substâncias, incluindo enzimas; esse fluido é adicionado ao ejaculado, permitindo função intacta dos espermatozoides.

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          No estudo, os pesquisadores usaram imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) para analisar 6 homens jovens (idade entre 20 e 30 anos) e visando analisar a atividade cerebral dos participantes após um período de 3-5 dias de abstinência sexual (vesículas seminais cheias e distendidas) e após [14-15 horas] masturbação (vesículas seminais com um volume bem menor). Em resposta a imagens com conteúdo sexual explícito, significativamente maior ativação foi detectada em áreas cerebrais envolvidas em preparação motora (excitamento) e no desejo sexual ligado a estímulo visual nos participantes sob abstenção de ejaculação comparado com aqueles que haviam ejaculado. Isso talvez aponte que o rápido esvaziamento da vesícula pode ter um robusto "efeito gatilho" no cérebro de redução do desejo sexual típico do PERP.

           Mas independentemente do gatilho ser a ejaculação em si, a orquestra de eventos neurobiológicos produzindo a PERP parece ser complexa, envolvendo um número de neurotransmissores, hormônios e áreas no cérebro e/ou medula espinhal, e até o momento não foi esclarecida (Ref.1-2). Aliás, até pouco tempo atrás, várias linhas de evidência sugeriam que o hormônio prolactina era crucial no estabelecimento da PERP. Esse hormônio possui centenas de efeitos fisiológicos em ambos os sexos, e seus níveis aumentam ao redor do tempo de ejaculação em humanos e ratos. Além disso, níveis anormalmente altos de prolactina circulante são associados com redução no desejo sexual, anorgasmia (1) e disfunções ejaculatórias, e sua inibição reverte disfunções sexuais. Porém, um estudo publicado em 2021 no periódico Communications Biology (Ref.5) trouxe forte evidência refutando a hipótese de que a prolactina está envolvida com a PERP.

(1) Leitura recomendada: Camisinha apertada pode dificultar o orgasmo masculino?

           Mais recentemente, em um estudo publicado na Science (Ref.6), pesquisadores podem ter identificado a área no cérebro crucialmente associada com o fenômeno da PERP. Após acasalamento efetivo, camundongos macho e fêmea tipicamente perdem interesse em comportamento sexual (2), este o qual gradualmente retorna ao longo de vários dias a semanas. No estudo, os pesquisadores encontraram que neurônios expressando o receptor de estrógeno 2 (Esr2) em uma região cerebral chamada de núcleo do leito da estria terminal codifica a experiência da ejaculação - ou seja, esses neurônios são seletivamente ativados pela ejaculação. Essa ativação causa persistente aumento no limite mínimo de estimulação para desejo sexual nos roedores, com o efeito durando dias. Em ambos os sexos, ativação desses neurônios suprime subsequente apetite por atividade sexual, enquanto inativação dos neurônios restaura essa motivação. É incerto, porém, se esse mesmo mecanismo neural espelha o intervalo pós-ejaculatório em outros mamíferos, incluindo humanos.

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(2) É ainda questão de debate acadêmico se o fenômeno da PERP é experienciado nas fêmeas. Evidências limitadas sugerem que sim, e, aliás, o fenômeno de ejaculação feminina é real (caso a PERP seja engatilhada pela ejaculação e não pelo orgasmo). Fica a sugestão de leitura: Ejaculação feminina existe?

> Um estudo experimental de 2021 envolvendo ratos da linhagem Long Evans trouxe a primeira observação científica de ejaculações consecutivas (n = 2) com curtíssimo intervalo pós-ejaculatório (16 e ~19 segundos) em dois espécimes (Ref.3). O anômalo fenômeno observado pode suportar alegações anedóticas de homens que experienciam múltiplas ejaculações com ausência de períodos refratários ou intervalo pós-ejaculatório muito curto. Em um estudo publicado também em 2021 (Ref.7), 97 homens cisgêneros recrutados auto-reportaram orgasmos múltiplos (2 a 30 orgasmos consecutivos, a maioria entre 2 e 4), acompanhados sempre de ejaculação e contínua rigidez erétil. Porém, os múltiplos orgasmos reportados nesse estudo eram separados por um número de minutos e onde mais estimulação era necessária para alcançar o próximo orgasmo. É incerto se múltiplos orgasmos separados por poucos segundos é realmente possível em humanos do sexo masculino.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Levin, R. J. (2009). Revisiting Post-Ejaculation Refractory Time—What We Know and What We Do Not Know in Males and in Females. The Journal of Sexual Medicine, 6(9), 2376–2389. https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2009.01350.x 
  2. Seizert, C. A. (2018). The neurobiology of the male sexual refractory period. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 92, 350–377. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2018.06.011
  3. Mainwaring et al. (2021). The Rare Phenomenon of Consecutive Ejaculations in Male Rats. Sexes 2(2), 183-188. https://doi.org/10.3390/sexes2020016
  4. Birkhäuser et al. (2022). Distended Seminal Vesicles Are Involved in Specific Cerebral Sexual Arousal: A Pilot Study Using Functional Brain Imaging in Young Healthy Men. European Urology Open Science, Volume 42, Pages 10-16. https://doi.org/10.1016/j.euros.2022.05.008
  5. Valente et al. (2021) No evidence for prolactin’s involvement in the post-ejaculatory refractory period. Commun Biol 4, 10. https://doi.org/10.1038/s42003-020-01570-4
  6. Zhou et al. (2023). Hyperexcited limbic neurons represent sexual satiety and reduce mating motivation. Science, Vol. 379, Issue 6634, pp. 820-825. https://doi.org/10.1126/science.abl4038
  7. Griffin-Mathieu et al. (2021). Exploring Male Multiple Orgasm in a Large Online Sample: Refining Our Understanding. The Journal of Sexual Medicine, 18(9), 1652–1661. https://doi.org/10.1016/j.jsxm.2021.06.017