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O Ponto G existe?

- Atualizado no dia 6 de setembro de 2021 -

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          Nada é tão controverso na esfera científica quanto a interminável dúvida relativa à existência, ou não, do glorificado Ponto G. Será que realmente existe um local na vagina que proporciona uma suprema onda de prazer à mulher, ou será que isso tudo não passa de uma lenda? Debates apaixonados e fervorosos permeiam estudos ao longo das décadas sobre o assunto, mas ainda não temos uma resposta definitiva. O que seria o Ponto G? Quais as evidências? Por que ele é procurado? O clitóris possui apenas a função de proporcionar prazer no corpo da mulher? E, afinal, qual é o papel evolucionário do orgasmo feminino?

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   PONTO G

          O ponto G seria um uma área altamente erógena localizada na parte anterior da parede vaginal humana. Assim como o clitóris, essa área, quando estimulada, garantiria orgasmos à mulher, só que de maneira muito mais intensa do que o órgão erétil localizado na parte superior da vulva. O conceito e a criação do termo remonta do ano de 1982, em um livro sobre sexualidade bastante popular da época, escrito por Ernst Grafenberg (o 'G' do 'Ponto G' vem de 'Grafenberg'). Apesar de ser algo hoje aceito como fato pelo público geral, não se tem certeza alguma na esfera acadêmica se essa área erógena realmente existe. De qualquer forma, existem, sim, evidências anatômicas e bioquímicas da possível presença de algo que possa ser o tal Ponto G, mas estão longe de serem suficientes para dar uma palavra final. Na verdade, até essas evidências são questionadas.

          No lado dos que defendem a existência do Ponto G, está o relato de várias mulheres que dizem sentir uma maior estimulação na área suspeita de acomodar a tão questionada entidade erógena. Alguns especialistas em sexologia e ginecologistas nesse lado do debate até mesmo definem a localização do ponto, o qual estaria debaixo da 'próstata feminina' (Glândulas de Skene) (!). Já outros afirmam que a localização exata é variável, mudando de mulher para mulher.

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           E no outro lado do debate, cientistas e ginecologistas dizem não existir evidência científica suficiente comprovando ou mesmo sugerindo a existência do Ponto G. Trabalhos sistemáticos de revisão da literatura acadêmica não encontram significativa evidência, e alguns estudos clínicos favoráveis são acusados de conterem diversas falhas de metodologia. Além disso, o fato de relativamente poucas mulheres relatarem possuir tal zona super erógena, enquanto outras não sentem nada, é um indício que existe algo de errado na história. Esse lado do debate mais 'pessimista' realça o fato de que o prazer na mulher é algo mais complexo do que os processos que ocorrem no lado masculino. Estado emocional e todo um trabalho corporal na hora do ato sexual, ou seja, o ambiente fora da área vaginal, são os reais fatores que se somam ao clitóris. Assim, certas mulheres relatam sentir um estímulo e orgasmo fora do normal porque todo esse 'ambiente do prazer' foi atingido, e não uma pequena área anatômica específica no órgão sexual feminino.

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IMPORTANTE: Reforçando, o suposto Ponto G não ficaria no canal vaginal, e, sim, na parte anterior da parede vaginal. Não existem terminações nervosas em suficiente quantidade no tubo vaginal que plausivelmente produzam intenso prazer na mulher e não existe evidência anatômica para um 'orgasmo vaginal', algo inventado por Sigmund Freud em 1905 sem qualquer base científica (apesar do termo ainda continuar sendo usado em publicações acadêmicas). Freud considerava o "orgasmo vaginal" o "único real e maduro", e o 'orgasmo clitoriano' como fruto de uma "personalidade imatura" (Ref.28). Aliás, essa é outra errônea crença enraizada entre a população, sendo uma das responsáveis pela glorificação de pênis maiores (1).

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          No balanço das evidências e argumentações científicas, o lado vencedor, até o momento, são os do que defendem a não existência de tal estrutura erógena. Quase todos os trabalhos de revisão não encontram evidência suficiente suportando um 'ponto G', e os que alegam encontrar admitem que os dados clínicos acumulados nas últimas décadas não são da melhor qualidade. Um estudo publicado em 2017 no The Journal of Sexual Medicine (Ref.15), ao analisar em detalhes a anatomia de 13 cadáveres do sexo feminino, não encontrou nenhuma estrutura macroscópica na parede anterior da vagina que poderia estar relacionada ao ponto G, apenas estruturas da uretra e de tecido local normal. Esse estudo foi corroborado por outro publicado em junho de 2020 no periódico International Urogynecology Journal (Ref.26), o qual não encontrou evidência de nenhuma região com maior concentração de fibras nervosas e de vasos sanguíneos na parte anterior da parede vaginal, sugerindo novamente inexistência da tal 'zona erógena especial'. 

          Mais recentemente, em um estudo publicado no periódico Turkish journal of obstetrics and gynecology (Ref.27), pesquisadores analisaram 15 mulheres (pacientes com defeitos no compartimento anterior da vagina submetidas a cirurgia) com a ajuda de imagem por ressonância magnética (MRI) e investigação de tecido in vivo extraído via biópsia, e não encontraram evidência de significativa densidade neurovascular em regiões de interesse, concluindo que não existe um 'Ponto G' na parede vaginal anterior.

          Também recente, um estudo de revisão publicado no periódico Current Sexual Health Reports (Ref.28), analisando a literatura acadêmica acumulada até o momento sobre o tópico, concluiu que o termo "Ponto-G" precisa ser abandonado, porque uma área específica do tipo não existe anatomicamente ou funcionalmente. Por outro lado, o estudo de revisão sugeriu uma área não-específica e hormônio-dependente - chamada de complexo clitorouretrovaginal (CUV) -, extremamente individual em seu desenvolvimento e ação devido à influência combinada de aspectos biológicos (envolvendo diferentes partes anatômicas e funções fisiológicas dos órgãos sexuais femininos) e psicológicos (estado emocional, parceiro, etc.), a qual pode engatilhar orgasmos vaginalmente induzidos e, em casos particulares, também ejaculação feminina (!).

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         Infelizmente, independentemente do peso das evidências, muitas mulheres e homens realmente acreditam na plena existência do Ponto G e que sua ativação se daria, principalmente, com o pênis. Isso, aliado com outras crenças, é o que explica a incidência de tantas mulheres que não conseguem chegar ao orgasmo e tantas mais que chegam apenas algumas vezes durante sua inteira vivência sexual. E o pior é que a busca pelo Ponto G se baseia na premissa de ajudar as mulheres a atingir um efetivo orgasmo. Hoje, o Ponto G é apenas uma hipótese com fraca e muito limitada evidência de suporte, e o abandono do termo já é defendido por muitos especialistas.

            Virtualmente, todos os especialistas concordam que o prazer sexual para a maior parte das mulheres não vem do resultado exclusivo de uma penetração ou duração da relação sexual, como pensam muitos homens, mas, sim, de um estado emocional favorável, estímulos certos em todo o corpo - incluindo estrutura vaginal - e interação com o clitóris da mulher (região em que o pênis geralmente não alcança em sua total extensão durante a penetração, especialmente na região externa). E o clitóris é o órgão sexual que talvez mais mereça uma atenção especial, algo deixado de lado em boa parte das relações heterossexuais, onde o homem (sexo masculino) costuma investir apenas no seu próprio prazer.


O clitóris é um órgão genital externo que faz parte da vulva. Apenas sua raiz encontra-se escondida, com a glande e o corpo visíveis. A estimulação desse órgão - repleto de terminações nervosas em sua glande - é importante para o orgasmo da mulher e muitas vezes é negligenciado durante o ato sexual heterossexual


           Em um estudo publicado em agosto de 2017 no Journal of Sex & Marital Therapy (Ref.16), por exemplo, pesquisadores analisaram 1055 mulheres nos EUA com idades de 18 a 94 anos. As participantes completaram uma pesquisa confidencial na internet sobre suas experiências relacionadas ao orgasmo, prazer sexual e toque genital. Os resultados mostraram que enquanto 18,4% das mulheres reportaram que o coito sozinho já era suficiente para o orgasmo, 36,6% delas reportaram que a estimulação clitoriana era necessária para o orgasmo durante o coito, e um adicional de 36% indicaram que, apesar da estimulação do clitóris não ser 'tecnicamente' necessária, seus orgasmos eram melhores se o clitóris fosse estimulado durante o coito.

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           Portanto, tentar resumir toda a principal experiência sexual da mulher em um único ponto é ingênuo e pode trazer prejuízos para o bem-estar de um casal, especialmente da mulher. Em todas as mulheres saudáveis, o orgasmo é possível, dada uma efetiva estimulação que não necessariamente depende da penetração vaginal, pelo contrário, pode depender em grande parte de uma estrutura de alcance frequentemente limitado para o pênis durante o coito. Muitas vezes, detalhes pequenos que podem ser facilmente consertados acabam sendo ignorados durante a busca por um tesouro inexistente.


           



    CLITÓRIS: APENAS PRAZER?

          O clitóris é o órgão sexual feminino externo e é composto de corpos eréteis. A porção distal da vagina, o clitóris e a uretra foram uma entidade integrada sui generis, e todos esses componentes compartilham um suprimento vascular e nervoso, respondendo como uma única unidade funcional durante a estimulação sexual. A glande do clitóris possui uma densa rede de receptores, frequentemente inervados com vários nervos ao mesmo tempo, e atuam de forma importante para a estimulação sexual da mulher.

          Apesar da penetração peniana não ser a melhor ferramenta para a estimulação das partes externas do clitóris, o pênis consegue estimular estruturas periuretrais e clitorianas mais internas, e também em limitada extensão as partes externas durante o coito, levando a um excitamento sexual no cérebro e, portanto, iniciando as mudanças na excitação genital.

          Um recente estudo de revisão publicado no periódico Clinical Anatomy (Ref.19) listou várias evidências indicando que o clitóris nas mulheres possui importante função reprodutiva, não apenas ligada ao prazer.

          O autor do estudo, Roy J. Levin, mostrou que a estimulação do clitóris ativa o cérebro de forma a causar uma combinação de mudanças no trato reprodutivo que o torna otimizado para receber e processar o esperma e facilitar uma possível fertilização do óvulo. Isso inclui melhorar o fluxo sanguíneo vaginal, aumentar a lubrificação vaginal, aumentar o nível de oxigenação e temperatura vaginais, e, mais importante, levar a uma mudança na posição do cérvix, a entrada ao útero. Essa última mudança em específico traz o cérvix para longe do reservatório de sêmen e previne este de atravessar o útero muito rapidamente, permitindo, portanto, tempo para os espermatozoides se tornarem móveis e ativos para a fertilização do óvulo.

          De acordo Levin, o frequente e repetido mantra de que a única função do clitóris é proporcionar prazer sexual é obsoleta. Esse órgão possui tanto funções procriativas (reprodutivas) quanto recreativas (prazer). Remoção do clitóris (clitoridectomia) - uma mutilação ignorante que é ainda realizada em alguns países e culturas para diminuir o desejo sexual de mulheres não-casadas ou tratar condições mentais - cria não apenas uma debilidade sexual mas também possivelmente uma debilidade reprodutiva. É estimado que até 200 milhões de mulheres ao redor do mundo - principalmente em regiões Africanas e do Oriente Médio - já passaram por esse procedimento, geralmente feito antes da puberdade e sem consentimento ou anestesia.

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   ORGASMO FEMININO E EVOLUÇÃO

          O orgasmo nos homens ocorre com uma frequência muito maior durante as relações sexuais do que o orgasmo nas mulheres, e isso provavelmente reflete os diferentes tipos de estimulação física requeridos para esse processo. Nos homens, os orgasmos estão sob forte pressão seletiva já que acompanham concomitantemente a ejaculação e, portanto, contribuem para o sucesso reprodutivo do homem. Em contraste, o orgasmo nas mulheres é altamente variável e está sob pouca pressão seletiva já que não é uma necessidade reprodutiva. Além disso, é difícil definir com precisão o que é o orgasmo feminino,o qual, como já explorado, parece envolver um complexo conjunto de fatores, não apenas estimulação física de algumas partes.

          Apesar de aproximadamente 90% das mulheres reportarem orgasmo a partir de alguma forma de estimulação sexual, a maioria das mulheres não experienciam orgasmos de forma rotineira (ou nunca) apenas com relações sexuais. E cerca de 10% das mulheres reportam nunca terem tido orgasmo. Em contraste, quase 100% dos homens rotineiramente experienciam orgasmo com as relações sexuais, e é possível que todos os machos entre os mamíferos experienciam orgasmo durante a ejaculação.

           Estudos já mostraram que uma menor distância entre o clitóris de uma mulher e o seu meato uretral (<2,5 cm) aumenta sua probabilidade de ter um orgasmo durante o coito, provavelmente por aumentar o contato pênis-clitóris durante os contínuos movimentos de penetração (Ref.23). Menores níveis de andrógenos no ambiente uterino está associado com uma menor distância entre o meato vaginal e o clitóris, essa a qual pode variar de 1,6 cm a 4,5 cm.

          As mulheres atingem o orgasmo a partir de estimulação direta do clitóris, estimulação clitoriana indireta, estimulação vaginal ou estimulação das áreas internas ao redor da vagina. Algumas mulheres experienciam orgasmo apenas do coito, outras precisam de estimulação conjunta das partes externas do clitórias para alcançar o orgasmo durante o coito, e algumas mulheres nunca experienciam orgasmo durante o coito. Alguns autores argumentam, aliás, que todo orgasmo na mulher envolve a estimulação direta ou indireta do clitóris, independentemente se a relação sexual envolver apenas a penetração.

           De qualquer forma, a excitação sexual já é recompensatória por si só, e muitas mulheres reportam que se sentem satisfeitas mesmo se o orgasmo não ocorre em todas as relações sexuais, em oposição ao reportado pelos homens. Isso aprofunda o mistério evolucionário em relação ao papel evolucionário do orgasmo feminino, e talvez sua função seja o mesmo do orgasmo no homem e da excitação sexual em geral: uma recompensa a mais para o ato sexual e consequente passagem de genes para a próxima geração. Nesse mesmo sentido, é possível que as contrações cervicouterinas do orgasmo contribuam para o transporte de esperma após a ejaculação intravaginal. O orgasmo também aumenta a liberação de prolactina pituitária, o que pode melhorar as condições uterinas para a implantação e gravidez.

           Existe também a hipótese errônea de que o orgasmo feminino poderia ser apenas um fenômeno evolucionário vestigial do orgasmo masculino, sem função prática. A base da diferenciação sexual funcional das gônadas, genitais (e cérebro) nos mamíferos ocorre como resultado da ação de andrógenos e estrógenos no desenvolvimento fetal. Sem a ação dos hormônios esteroides, o feto se desenvolvem com o fenótipo de uma fêmea. Seria, portanto, impossível que qualquer coisa nas fêmeas de mamíferos represente um fenótipo ou função 'vestigial', já que elas representam o desenvolvimento fetal padrão. Nos homens, sim, temos um óbvio 'vestígio': os mamilos.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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  2.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/j.1743-6109.2011.02623.x
  3.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1002/ca.22471/
  4.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25727497
  5.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1002/ca.22524
  6.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25740385
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  9. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1471-0528.12707/full 
  10. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20092462
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11518892
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  14. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20092462
  15. http://www.jsm.jsexmed.org/article/S1743-6095(16)30962-6/fulltext
  16. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0092623X.2017.1346530
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  18. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ca.22471
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  21. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23574740
  22. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23006745
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  25. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23006745
  26. https://link.springer.com/article/10.1007/s00192-020-04379-1
  27. Sivaslıoğlu et al. (2021). Searching for radiologic and histologic evidence on live vaginal tissue: Does the G-spot exist?. Turkish journal of obstetrics and gynecology, 18(1), 1–6. https://doi.org/10.4274/tjod.galenos.2021.31697
  28. Mollaioli et al. (2021). Do We Still Believe There Is a G-spot?. Current Sexual Health Reports 13, 97–105. https://doi.org/10.1007/s11930-021-00311-w