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O Ponto G existe?

- Artigo atualizado no dia 6 de abril de 2018 -

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          Nada é tão controverso na esfera científica quanto a interminável dúvida relativa à existência, ou não, do glorificado Ponto G. Será que realmente existe um local na vagina que proporciona uma suprema onda de prazer à mulher, ou será que isso tudo não passa de uma lenda? Debates apaixonados e fervorosos permeiam estudos ao longo das décadas sobre o assunto, mas ainda não temos uma resposta definitiva. O que seria o Ponto G? Quais as evidências? Por que ele é procurado?

          O ponto G, idealmente, seria um uma área altamente erógena localizada na parte anterior da parede vaginal humana. Assim como o clitóris, essa área, quando estimulada, garantiria orgasmos à mulher, só que de maneira muito mais intensa do que o órgão erétil localizado na parte superior da vulva. O conceito e a criação do termo remonta do ano de 1982, em um livro sobre sexualidade bastante popular da época, escrito por Ernst Grafenberg (o 'G' do 'Ponto G' vem de 'Grafenberg'). Apesar de ser algo hoje aceito como verdade pelo público geral, não se tem certeza alguma na esfera acadêmica se essa área erógena realmente existe. De qualquer forma, existem, sim, evidências anatômicas e bioquímicas da possível presença de algo que possa ser o tal Ponto G, mas estão longe de serem suficientes para dar uma palavra final. Na verdade, até essas evidências são questionadas.

          No lado dos que defendem a existência do Ponto G, está o relato de várias mulheres que dizem sentir uma maior estimulação na área suspeita de acomodar a tão questionada entidade erógena. Alguns cientistas e ginecologistas nesse lado do debate até mesmo definem a localização do ponto, o qual estaria debaixo da 'próstata feminina' (Glândulas de Skene). Já outros afirmam que a localização é variável, mudando de mulher para mulher.

           E no outro lado do debate, cientistas e ginecologistas dizem não haver provas científicas suficientes para atestar a existência do Ponto G. Trabalhos sistemáticos de revisão não encontram evidências suficientes, e estudos clínicos individuais são acusados de conterem diversas falhas de metodologia. Além disso, o fato de relativamente poucas mulheres relatarem possuir tal zona super erógena, enquanto outras não sentem nada, é um indício que existe algo de errado na história. Esse lado do debate mais 'pessimista' realça o fato de que o prazer na mulher é algo mais complexo do que os processos que ocorrem no lado masculino. Estado emocional e todo um trabalho corporal na hora do ato sexual, ou seja, o ambiente fora da área vaginal, são os reais fatores que se somam ao clitóris. Assim, certas mulheres relatam sentir um estímulo e orgasmo fora do normal porque todo esse 'ambiente do prazer' foi atingido, e não uma pequena área anatômica específica no órgão sexual feminino.

          No balanço das afirmações científicas, o lado vencedor, até o momento, são os do que defendem a não existência de tal estrutura erógena. Quase todos os trabalhos de revisão não encontram evidências suficientes, e os que encontram admitem que os dados acumulados nas últimas décadas clínicos não são da melhor qualidade. Aliás, um estudo publicado no início de 2017 no The Journal of Sexual Medicine (Ref.15), ao analisar em detalhes a anatomia de 13 cadáveres femininos, não encontrou nenhuma estrutura macroscópica na parede anterior da vagina que poderia estar relacionada ao ponto G, apenas estruturas da uretra e de tecido local normal.

         O grande problema disso tudo é que muitas mulheres e homens realmente acreditam na plena existência do Ponto G e que sua ativação se daria, principalmente, com o pênis. Isso, aliado com outras crenças, é o que explica a incidência de tantas mulheres que não conseguem chegar ao orgasmo e tantas mais que chegam apenas algumas vezes durante sua inteira vivência sexual. E o pior é que a busca pelo Ponto G se baseia na premissa de ajudar as mulheres a atingirem melhor os tão complexos orgasmos femininos. Hoje, o Ponto G é apenas uma hipótese.

            Virtualmente, todos os especialistas concordam que o prazer sexual para a maior parte das mulheres não vem do resultado de uma penetração ou duração da relação sexual, como pensa muitos homens, mas, sim, de um estado emocional favorável, estímulos certos em todo o corpo e interação com o clitóris da mulher (região em que o pênis geralmente não alcança durante a penetração, nem mesmo as partes mais internas desse órgão erétil). E este último órgão é o que mais merece uma atenção especial, algo esquecido na maioria das relações heterossexuais, onde o homem costuma sempre pensar apenas no seu próprio prazer.

O clitóris é um órgão genital externo que faz parte da vulva. Apenas sua raiz encontra-se escondida, com a glande e o corpo visíveis. A estimulação desse órgão - repleto de terminações nervosas em sua glande - é importante para o orgasmo da mulher e muitas vezes é negligenciado durante o ato sexual heterossexual

           Em um estudo publicado em agosto de 2017 no Journal of Sex & Marital Therapy (Ref.16), por exemplo, pesquisadores analisaram 1055 mulheres nos EUA com idades de 18 a 94 anos. As participantes completaram uma pesquisa confidencial na internet sobre suas experiências relacionadas ao orgasmo, prazer sexual e toque genital. Os resultados mostraram que enquanto 18,4% das mulheres reportaram que o coito sozinho já era suficiente para o orgasmo, 36,6% delas reportaram que a estimulação clitoriana era necessária para o orgasmo durante o coito, e um adicional de 36% indicaram que, apesar da estimulação do clitóris não ser 'tecnicamente' necessária, seus orgasmos eram melhores se seus clitóris fossem estimulados durante o coito.

           Portanto, tentar resumir toda a principal experiência sexual da mulher em um único ponto é ingênuo e pode trazer prejuízos para o bem-estar de um casal, especialmente da mulher. Em todas as mulheres saudáveis, o orgasmo é possível, dada uma efetiva estimulação que não necessariamente depende da penetração vaginal, pelo contrário, depende em grande parte de uma estrutura inalcançável pelo pênis durante o coito. Muitas vezes, detalhes pequenos que podem ser facilmente consertados acabam sendo ignorados durante a busca por um tesouro inexistente.


IMPORTANTE: O suposto Ponto G não ficaria no canal vaginal, e, sim, na parte anterior da parede vaginal. Não existem terminações nervosas na vagina que provocam prazer na mulher e não existem evidências anatômicas para um 'orgasmo vaginal', algo inventado por Freud em 1905 sem qualquer base científica. Aliás, essa é outra crença infundada entre a população, sendo uma das responsáveis por glorificar pênis maiores (1).


           



Artigo relacionado: Ejaculação feminina existe?

(1) Artigo recomendado: Técnicas de aumento peniano: fato ou ilusão?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://link.springer.com/article/10.1007/s00192-012-1831-y
  2.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/j.1743-6109.2011.02623.x
  3.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1002/ca.22471/
  4.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25727497
  5.  http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1002/ca.22524
  6.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25740385
  7.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22240236
  8.  http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1471-0528.13310/full
  9. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1471-0528.12707/full 
  10. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20092462
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11518892
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17352286
  13. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1002/smrj.61
  14. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20092462
  15. http://www.jsm.jsexmed.org/article/S1743-6095(16)30962-6/fulltext
  16. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0092623X.2017.1346530
  17. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3175415/
  18. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ca.22471