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A homossexualidade é biológica ou social?



            Apesar da maioria das pessoas achar que a orientação sexual é algo determinado exclusivamente pela educação e ambiente social, evidências e hipóteses científicas acumuladas ao longo dos anos faz o papel biológico ser algo cada vez mais bem aceito nas discussões sobre o tema. Com o problema da homofobia ainda fortemente presente na nossa sociedade, alimentada pelo preconceito social e dogmas religiosos, as pesquisas científicas em torno da homossexualidade e outros padrões de preferência sexual que fogem dos padrões comuns ganham cada vez mais peso e refinamento. O recente ataque de ódio contra uma boate gay nos EUA, onde 50 pessoas foram mortas e várias outras ficaram gravemente feridas, colocou ainda mais fogo nessas discussões nos últimos dias. Mas qual a origem da homossexualidade? O construtivismo social por si só explica? Ou será que os fatores biológicos possuem um papel essencial? Existirá mecanismos evolucionários por trás?

           É seguro afirmar que acima de 90% da população mundial é heterossexual, ou seja, onde os indivíduos do mesmo sexo se sentem atraídos sexualmente por indivíduos do sexo oposto. Estimativas atualizadas calculam que entre 3 e 10% da população são homossexuais, ou seja, indivíduos do mesmo sexo que sentem atração sexual exclusiva por indivíduos do mesmo sexo. Entre essas estimativas, existem também indivíduos que podem possuir comportamentos bissexuais e uma pequena quantidade populacional (provavelmente inferior a  1%) de pessoas que não possuem atração sexual alguma (assexuados). Note que eu não estou apontando ´identidades sexuais´ e, sim, ´orientações sexuais´. Dentro desse contexto, é inegável que uma parte significativa da população possui uma orientação homossexual e explicações para tal fato precisam ser encontradas, não somente por uma questão de curiosidade acadêmica, mas também como uma ferramenta de melhor entendimento da nossa sociedade, a qual poderá ajudar a enfrentar os preconceitos nela enraizados. E é interessante percebemos que entender a homossexualidade também é uma forma de entender os preceitos de toda a sexualidade humana. Ora, sabemos tão pouco sobre a orientação homossexual quanto a heterossexual. O que nos leva a gostar de uma pessoa do sexo oposto? O que nos leva a gostar de uma pessoa do mesmo sexo?

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   EVIDÊNCIAS BIOLÓGICAS

            Por enquanto, estamos só com incógnitas e nada foi discutido sobre o papel biológico nas orientações sexuais. Então, vamos primeiro para mais uma incógnita que, no final, nos apresentará nossa primeira evidência científica de interesse. É bem conhecido o fato de que vários animais também mostram relações homossexuais envolvendo machos e, mais raramente, fêmeas dentro das suas populações. Só que eles não, necessariamente, possuem uma orientação homossexual. Na verdade, os únicos seres no planeta conhecidos de terem machos com desejos sexuais exclusivos por outros machos (ou fêmeas com fêmeas) são os humanos. Entre os animais, esse comportamento só ocorre, até onde sabemos, em situações bem específicas. Entre elas, podemos citar:

1. Menor disponibilidade de fêmeas para o acasalamento;

2. Competição intrassexual, onde machos dominantes impedem o acesso das fêmeas por outros machos;

3. Vínculo social, onde interações homossexuais podem aumentar os laços de união dentro do grupo;

4. Gratificação, onde a interação homossexual trará benefícios para um dos indivíduos;

           Ou seja, o comportamento ´gay´ é forçado nessas situações. Porém, existe uma exceção bem conhecida de estudos publicados a partir de 2002 (Ref.5 e 6). Nestes estudos, foi mostrado que populações de ovelhas no Oeste dos EUA possuíam cerca de 8% dos seus indivíduos machos com preferência homossexual! Diversas explicações padrões para esse comportamento foram descartadas, confirmando-se reais casos de homossexualidade entre esses animais, e em uma frequência que pode ser até maior do que na nossa espécie. Para tentar entender os mecanismos por trás disso, os pesquisadores focaram a atenção em um dos atuais grandes candidatos para as causas das diferenciações na orientação sexual humana: os hormônios sexuais andrógenos e estrógenos. Mas isso não funciona do jeito que vocês devem estar pensando. Dentro da nossa população, já foi provado que os níveis médios de testosterona ou estradiol entre as lésbicas e homossexuais não diferem dos encontrados em heterossexuais. Em outras palavras, um gay não possui menos testosterona correndo no sangue do que um homem heterossexual. Não adianta, portanto, fazer terapias hormonais para tentar reverter a orientação sexual de um indivíduo, como, infelizmente, já foi tentado antes. Esses hormônios teriam, ao invés disso, apenas significado clínico na orientação sexual durante o desenvolvimento embrionário do ser.

Ovelhas parecem ser, além de nós, as únicas exceções na natureza que apresentam um real comportamento homossexual

         Os andrógenos e estrógenos não somente possuem função de fornecer as características sexuais secundárias de cada sexo durante o desenvolvimento do feto. Eles participam na construção de várias outros sistemas no nosso corpo, como o cérebro. Assim, típicos comportamentos diferenciados vistos em meninas e meninos se devem à ação desses hormônios, onde podemos citar a maior agressividade masculina como sendo fruto direto da ação da testosterona no cérebro durante a fase gestacional.  Inúmeras diferenças psicológicas e comportamentais entre homens e mulheres inerentes desde o nascimento, inclusive certas doenças mentais, como a anorexia nervosa, a qual afeta cerca de 13 vezes mais o lado feminino, poderiam também ser citadas. Grande parte dessas diferenças podem ser explicadas pela ação dos hormônios sexuais durante a fase embrionária. E isso prova-se correto entre as ovelhas mencionadas anteriormente.

          No cérebro desses animais, existe uma parte chamada de oSDN que está relacionada com a orientação sexual. Nos machos, ela costuma ser três vezes maior e conter 4 vezes mais neurônios do que nas fêmeas. Já nas ovelhas machos homossexuais, essa mesma parte costuma ser bem menor do que o padrão! Estudos clínicos posteriores mostraram que a testosterona, entre os dias 30 e 90 da gestação, era a responsável pelo desenvolvimento dessa parte no cérebro. Quando os pesquisadores administraram testosterona em fetos que estavam se desenvolvendo durante esse período, eles mostraram que ocorria uma masculinização do oSDN nas fêmeas! Terapias hormonais, como a castração ou administração de testosterona não mais fazem efeito algum nessa parte do cérebro em ovelhas adultas, provando que apenas durante o período embrionário isso é possível. Apesar do oSDN poder não ser a única causa da diferenciação sexual, fica mais do que provado que os hormônios durante a gestação influenciam a orientação sexual. Além disso, é evidente que não podemos aplicar as teorias de construtivismo social para explicar o homossexualismo entre ovelhas. Mas será que isso pode ser extrapolado para os humanos?

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           É realmente muito difícil para os cientistas trabalharem essas ideias no desenvolvimento embrionário humano. Hoje, já é uma luta a aprovação de quaisquer pesquisas em embriões humanos, imagina acompanhar todo o período de desenvolvimento de um de forma invasiva. Para se ter certeza do papel dos hormônios sexuais em todas as etapas de crescimento do feto, seria necessário a coleta constante de líquido amniótico ou, melhor ainda, do sangue do mesmo. Só que isso, eticamente, é impossível, pois é um risco imposto à saúde dos fetos/embriões. O líquido amniótico é o melhor instrumento que os pesquisadores possuem hoje, o qual irá possuir hormônios do sangue despejados pela urina do feto, mas que possui várias limitações. A principal delas é que o líquido só pode ser coletado periodicamente e apenas de mulheres que carregam uma gravidez de alto risco (identificação de problemas genéticos, por exemplo) e, nesse caso, a população estudada fica bem restrita. Portanto, manipular os níveis hormonais durante a gestação humana é algo impensado. Assim, podemos confiar apenas em observações e hipóteses formadas a partir de amostras restritas para tentar entender as ações bioquímicas dos andrógenos e estrógenos durante o desenvolvimento embrionário. De qualquer forma, temos hoje, como base teórica, a seguinte afirmação:

       "Exposição à altas concentrações de testosterona durante um crítico momento gestacional levaria à orientação sexual atrativa ao sexo feminino. Exposição à baixas concentrações de testosterona durante esse período levaria à orientação sexual atrativa ao sexo masculino."

          Você deve estar pensando "Mas é lógico que os sexo masculino é exposto a mais testosterona do que o sexo feminino". Sim, os cromossomos sexuais XY ( homens) e XX ( mulher) comandam a maior ou menor exposição MÉDIA da testosterona no feto. Mas como eu realcei, essa é uma diferença média, existindo flutuações em certos estágios de crescimento. Ou seja, em determinados períodos, uma maior ou menor concentração de testosterona pode determinar traços importantes no corpo dos fetos. E é aí onde as menores ou maiores taxas relativas desse andrógeno serão decisivas. Para provar com exatidão isso, seria necessário experimentos proibidos pela ética, mas a teoria por trás é bem plausível de ser verdade também para uma possível determinação da orientação sexual. Além disso, pode ser que altas concentrações de estrógenos poderiam ser também fatores importantes nesse processo, já que a testosterona também é aromatizada em estradiol, por exemplo. Bem, desviando dos detalhes bioquímicos, temos algumas evidências de que os hormônios podem ter papel importante na orientação sexual:

1. Grávidas com hiperlasia andrógena congenital, onde o feto é exposto a altos níveis de testosterona, dão à luz a meninas que possuem os genitais mais masculinizados ( grande clitóris, por exemplo) e que também, interessantemente, mostram ter uma tendência bem grande ( entre 30 e 40%) de terem uma orientação homossexual. Porém, essa última observação deve ser tratada com cuidado, porque outros fatores podem estar jogando junto. Como exemplo, podemos citar que como a região genital feminina não é tão bem desenvolvida nessas garotas, elas podem ter, futuramente, dificuldade com o sexo envolvendo a penetração. Isso pode afastá-las de procurarem relacionamentos heterossexuais, mascarando alguns números. (Ref.5 e 11)

2. A exstrofia cloacal é uma malformação no trato genital-urinário que faz com que, entre outros efeitos colaterais, os indivíduos machos naçam sem o pênis. Mas como eles nascem com os testículos normais, é assumido que os hormônios andrógenos atuem de forma normal durante a gestação entre os indivíduos afetados. Antigamente, os indivíduos com essa má formação eram criados como garotas e submetidos à cirurgias de vaginoplastia ( para criar uma espécie de ´vagina artificial`). Estudos posteriores mostraram que apesar da forte pressão social contrária, cerca de metade dessas ´garotas XY´ continuavam com sua orientação sexual heterossexual, ou seja, continuavam atraídas por outras garotas, possivelmente por causa da ação normal dos andrógenos durante a fase gestacional. (Ref.5)

3. A Emissões Otoacústicas ( OAE, na sigla em inglês) são ruídos produzidos pela cóclea, dentro do ouvido, propagadas pelo ouvido médio e que alcaçam o ouvido externo. Elas são mais frequentes no sexo feminino, tanto em animais quanto em humanos. Mas quando fêmeas entre animais são tratadas com hormônios andrógenos durante o desenvolvimento embrionário, elas tendem a ter menos OAE. Nesse sentido, já foi mostrado que as lésbicas possuem significativamente menos desses ruídos do que as mulheres heterossexuais. Caso os resultados dos testes clínicos em animais possam ser extrapolados para os humanos, isso pode indicar um papel dos hormônios sexuais na orientação sexual. (Ref.5 e 14)

4. A razão de medida entre os dedos das mãos, especialmente entre o segundo e o quarto dedo, é algo considerado como sendo influenciado pela ação da testosterona durante o desenvolvimento do feto. Essa hipótese é quase como certa e foi obtida através da observação anatômica de mulheres masculinizadas e em manipulações hormonais de animais. Essa razão diminui à medida que mais testosterona e menos estrógenos são expostos ao feto e já foi mostrado que as lésbicas tendem a ter uma razão entre os dedos ´2´ e ´4´ menores (Ref.21, 17 e 18). Além disso, um estudo deste ano, feito na China, mostrou que os homens homossexuais da etnia Han, em Yunnan, tinham uma razão maior entre o 2/4 do que os heterossexuais, e que essa razão entre os homossexuais e bissexuais era praticamente a mesma. (Ref.46)

A razão entre o segundo e quarto dedos é uma das relações mais bem documentadas sobre a ação hormonal na fase embrionária e a orientação sexual

 5. Algumas estruturas no cérebro que possivelmente são orientadas em sua formação pela ação dos hormônios durante a fase embrionária já mostraram ser diferenciadas em tamanho e/ou densidade de neurônios entre heterossexuais e homossexuais, como o Núcleo Suprachiasmático, INAH3 e a Comissura Anterior.

6. A Dismorfia de Gênero, a qual caracteriza um desconforto do homem ou da mulher em ter imagens/comportamentos sociais típicos do seu sexo ( vestimentas, brincadeiras, aparência, etc.), possui como principal suspeito de causa a ação desregulada de hormônios sexuais durante o desenvolvimento embrionário. Os transexuais são um exemplo bem conhecido dessa dismorfia. Caracterização à parte, estudos já mostraram uma forte relação entre esse desconforto de gênero na e a orientação sexual. Em particular, um trabalho científico publicado em março de 2012 mostrou que a orientação homossexual era entre 8 a 15 vezes maior em idade adulta. ( Ref.5)

7. Muitos homens homossexuais possuem certos comportamentos inerentes e outras características feminizadas ( como a voz), podendo indicar influências hormonais durante a gestação. O mesmo é observado em mulheres homossexuais, onde algumas apresentam um comportamento mais masculinizado. Neste último caso, existem estudos recentes que mostram uma maior orientação homossexual entre essas mulheres, seja devido à hiperplasia andrógena ou não. (Ref.5)

8. Homens e mulheres homossexuais tendem a ser mais destros ou ambidestros ( boa habilidade com as duas mãos) do que os heterossexuais. Além disso, homens homossexuais parecem ter uma tendência maior em ter uma grau forte de preferência pela sua mão dominante, tanto entre destros quanto em canhotos. Como existem várias evidências de um forte papel genético envolvendo vários genes e também possíveis fatores hormonais durante o desenvolvimento fetal para definir a preferência de uso das mãos (Por que existem tantos destros e tão poucos canhotos?), isso pode mostrar mais uma ligação biológica com a orientação sexual. (Ref.5, 27 e 47)

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           Claro, neste ponto eu tenho que admitir que tudo isso, apesar das fortes evidências, não pode ser julgado como real fato por causa de limitações éticas/tecnológicas. Mas não paramos apenas no fator ´hormonal´. Para complementar a teoria biológica por trás da orientação sexual, temos que ir para outra área bastante promissora e também cheia de evidências: a genética. Sim, a presença de genes específicos pode ser crucial para despertar as preferências sexuais de cada um. No meio científico, as descobertas nesse campo foram positivas, especialmente para explicar o padrão homossexual nos homens, sendo daí que o termo ´o gene gay´ foi criado. Como ainda estamos caminhando no código genético que constrói os nossos cromossomos, não é possível ainda dizer com certeza os genes que poderiam estar envolvidos na orientação sexual. Estudos em ratos já deram pistas de quais podem ser, mas nada ainda de concreto. Porém, diversos estudos epidemiológicos já identificaram padrões dentro da população, os quais são indícios da ação genética nessa questão. Entre eles, podemos citar:

1. Já foi mostrado que se um garoto é gay, as chances dos seus irmãos serem também gays é entre 20 e 25%, comparado com 4-6% no de probabilidade dentro da população em geral. (Ref.5)

2. Outros estudos indicam que entre gêmeos dizigóticos, ou seja, que nasceram no mesmo útero mas de células embrionárias diferentes, as chances de ambos serem homossexuais é em torno 15%. Já quando os gêmeos são monozigóticos, ou seja, criados dentro do mesmo útero e de uma única célula ( partilham o mesmo material genético) as chances deles serem homossexuais aumenta para cerca de 65%! Esses resultados, combinados, sugerem que em um padrão de vida típico da parte ocidental do mundo, a orientação sexual possui, no mínimo, cerca de 50-60% de contribuição do fator genético. (Ref.5) Porém, outros estudos criticaram as escolhas dos gêmeos, os quais podem representar números que não correspondem à realidade populacional ( número pequeno de voluntários analisados). Para clarificar isso, um estudo na Suécia, envolvendo toda a população de gêmeos do país (7600), monozigóticos e dizigóticos, mostrou que para os homens, os fatores genéticos contribuíam entre 34 e 39% da orientação sexual dos homens, o ambiente familiar compartilhado não parecia influenciar em nada e os fatores ambientais específicos para cada gêmeo ( sociais e biológicos, como os hormonais) contribuíam entre 61 e 66%. Já para as mulheres, os fatores genéticos contribuiam com entre 18 e 19, o ambiente familiar compartilhado com entre 16 e 17, e os fatores ambientais específicos com entre 64 e 66% (Ref.32). Fica claro, nesses estudos, que os fatores biológicos, inclusive genéticos, possuem uma real importância.

Estudos em gêmeos sobre a orientação sexual controlada pela genética são os que mais rendem pistas promissoras

 3. Estudos iniciados em 1993 mostram claras evidências da presença constante de alelos na região distal Xq28 no cromossomo X  de homens homossexuais. Depois de vários trabalhos posteriores também encontrarem resultados similares, um estudo de 2012, envolvendo 409 pares de irmãos gays deixou ainda mais claro a existência do Xq28 ( responsável pelo termo ´gene gay´ já usado desde a década de 90). Apesar de parecer quase certo que os genes relacionados ao Xq28 possuem forte conexão com a orientação sexual dos homens, nada parecido ainda foi encontrado que ligasse o homossexualismo nas mulheres (Ref.36).

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        Sim, neste ponto, fica a dúvida: se os achados biológicos estão longe de serem uniformes em todos os casos de homossexualidade dentro da população humana, não pode ser apenas uma grande coincidência todos esses fatores hormonais e genéticos encontrados? E é aqui que entramos com a terceira teoria cada vez mais forte na comunidade científica: os fatores epigenéticos! Para entender os que são os fatores epigenéticos, vamos pegar um exemplo que todos devem estar cansados de ouvir durante a leitura deste artigo: as células embrionárias. Ora, você já parou para pensar como uma única célula (´célula-ovo´ ou ´zigoto´) formada pela junção do espermatozoide com o óvulo consegue dar origem a diversos tipos de células no nosso corpo, formando tecidos e órgãos? Como isso pode acontecer se todas partilham o mesmo material genético? Ah, aqui é que entra o famoso conceito de ´ativação de genes´. Por exemplo, quando a zigoto começa a se dividir em novas células, sinalizadores começam a ser disparados com o objetivo de diferenciá-las em um coração ou um pulmão. Esses sinalizadores desligam ou ligam certos genes no matéria genético de uma porção ou outra de células embrionárias, fazendo cada célula alvo trabalhar tanto para produzir o pulmão quanto para produzir o coração. Assim, dois irmãos gêmeos podem ter o mesmo material genético, mas sinalizadores diversos desligariam ou ativaram certos genes relacionados ao homossexualismo, caso esses indivíduos carreguem eles. Portanto, o homossexualismo continuaria tendo causas biológicas, mas não obrigatórias, podendo ser ativadas antes ou depois do nascimento, a qualquer momento, sem que a pessoa tenha controle sobre isso.

Um zigoto, depois de 3 dias, com 8 células formadas após sucessivas divisões; para construir os diferentes tecidos do corpo com o mesmo material genético, fatores epigenéticos entram em ação

          Os fatores epigenéticos viriam para tapar os buracos na estrada hormonal e/ou genética da orientação sexual. Além disso, diversos outras observações clínicas de padrões biológicos aparentemente desconexos poderiam ser ligados, ou não, pela epigenética. Entre eles, podemos citar:

1. Um dos fatores, atualmente, mais confiáveis relacionados com a homossexualidade em homens é a intrigantes relação entre gays e irmãos mais velhos, algo comprovado, estatisticamente, por vários estudos. Para cada irmão nascido de uma mesma mãe, as chances do próximo ser homossexual aumentam em 33%! Baseando-se em uma teoria de autoimunidade, para cada gravidez, o corpo da mulher vai acumulando anticorpos que poderiam estar atacando uma ou mais proteínas expressas no cérebro masculino, modificando sua orientação sexual. (Ref. 5 e 43)

2. Fracas evidências relacionam aumento do estresse, em certas situações, com a maior incidência de homossexuais entre homens. (Ref.5)

3. Gays e mulheres heterossexuais possuem, na média, um igual tamanho proporcional entre os dois lados do hemisfério direito do cérebro. Lésbicas e homens heterossexuais possuem, em média, um hemisfério direito um pouco maior do que o esquerdo (Ref.42).

4. Homens gays parecem ter, na média, pênis um pouco mais longos e mais grossos do que os bissexuais e heterossexuais (Ref.41).

5. O cérebro dos gays respondem diferentemente à fluoxetina, uma tipo de serotonina no corpo. (Ref.39)

6. A resposta de piscar os olhos após um barulho alto em lésbicas e mulheres bissexuais é semelhante à encontrada em homens. (Ref.44)

7. O cérebro de gays e homens heterossexuais respondem diferentemente à dois hormônios sexuais putativos: o AND, encontrado nas secreções sudoríparas das axilas de homens, e o EST, encontrado na urina das mulheres. (Ref.8 e 9)

8. Uma região no cérebro chamada amígdala é mais ativa em homens homossexuais do que em heterossexuais quando ambos os grupos são expostos à uma material sexual de excitação. (Ref.45)


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   HIPÓTESES PARA A EVOLUÇÃO DAS ORIENTAÇÕES SEXUAIS

         Como podemos ver no quadro geral, não podemos fechar os olhos para a enorme quantidade de evidências biológicas por trás das orientações sexuais. A grande maioria dos cientistas dão como certo a atuação biológica nessa questão, de forma exclusiva ou concomitante com os fatores sociais. Mas caso exista realmente fatores biológicos majoritários ou exclusivos por trás da homossexualidade, como explicar a prevalência dessa orientação sexual dentro da nossa espécie? Sim, porque uma preferência pelo mesmo sexo diminui bastante o índice de reprodução dentro de uma população, algo contra qualquer lógica evolutiva, um paradoxo para ser mais exato. Para explicar isso, hipóteses interessantes foram formuladas. Entre elas vale a pena citar três:

1. Ao estudar as parentes femininas de um grupo de irmãos homossexuais, um trabalho científico de 2009 descobriu que elas eram muito mais férteis do que a média da população mundial. E se os supostos ´genes gays´ forem uma consequência genética das mulheres muito férteis? Ou seja, essas mulheres seriam mantidas através da seleção natural, por fornecerem muitos descendentes, mas um ´efeito colateral´ seria a grande chance de gerarem filhos homens homossexuais. Desse modo, vale a pena gerar homens homossexuais, porque a grande quantidade de filhos e filhas compensaria. Outros estudos também encontraram uma relação parecida e dão suporte a essa ideia. Porém, isso não explica a prevalência do homossexualismo nas mulheres. ( Ref.3, 4 e 35)

2. Um estudo de 2015 meio que mudou os paradigmas sobre a questão (Ref.37). Apesar de ser um senso comum tanto no meio popular quanto no meio científico de que o homossexualismo sempre fez parte da sociedade humana, inclusive em tempos pré-históricos, não existem evidências suficientes para atestar essa crença, apenas extrapolações em cima de pinturas em cavernas e coisas do tipo. Além disso, certos grupos humanos na atualidade, especialmente tribos mais primitivas, parecem não possuir casos de homossexualismo entre seus indivíduos, pelo menos segundo alguns trabalhos na área. Considerando isso, os pesquisadores envolvidos nesse estudo formularam uma hipótese que relaciona a prevalência do homossexualismo como algo mais moderno (pós-Neolítico) e ligado à estratificação social. Assim que sociedades mais complexas começaram a ser criadas, diversas classes econômicas e de poder começaram a surgir. Especialmente no passado, mulheres que mantinham relações sexuais com homens de classes mais altas tinham maior longevidade por causa da maior segurança e recursos, além de terem mais filhos que cresciam saudáveis. Como as classes mais pobres eram as mais populosas, poderia ser vantajoso ter homens sexuais no meio delas que forçassem as mulheres nessas classes menos avantajadas a terem relações sexuais com homens de classes superiores, aumentando as chances de um maior número de filhos sobreviverem até a idade adulta/adolescente (sexualmente ativos). Por isso, até hoje, uma parte significativa dos homens é homossexual, como herança biológica desse processo evolutivo. De qualquer forma, isso é apenas uma especulação, sem provas convincentes, e, somando-se a isso, novamente não explica a presença também significativa de mulheres homossexuais.

Será possível as classes sociais terem participação evolutiva na orientação sexual?
 
3. Uma hipótese interessante foi levantada há alguns anos atrás. Nela, indivíduos homossexuais, apesar de trazerem um problema evolutivo por dificultarem a procriação da espécie, teriam outra função dentro da população: defender seus semelhantes, garantindo uma maior prosperidade ao grupo! Por exemplo, um homem ou uma mulher homossexual teria maiores tendências de altruísmo e instinto protetor. Assim, ao invés de formarem uma família com filhos e protegê-la, eles protegeriam outras famílias e seus filhos. Isso aumentaria a segurança dentro da população e aumentaria as chances de sobrevivência dos indivíduos, com consequente aumento da fecundidade, a qual compensaria a perda de fecundidade entre os homossexuais. Apesar de ser uma teoria que faz sentido, estudos não conseguem mostrar diferenças entre homossexuais e heterossexuais atuais quanto às tendências de maior altruísmo e proteção ao mais próximo, seja criança ou adulto. Pode ser também que em um passado mais distante ( minha opinião) não ter filhos gerasse maior empatia pelo filho dos outros casais mais do que hoje em dia, por causa das fortes diferenças culturais e sistema de sociedade. Se essa hipótese for algo real, isso explicaria perfeitamente o homossexualismo em homens e mulheres. (Ref.19)

Homossexualismo como fator de proteção extra dentro do grupo?

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4. Outro estudo de 2015 formulou uma hipótese evolutiva baseada em dados clínicos de 996 mulheres gêmeas, compreendendo 242 dizigóticos e 256 monozigóticos, e mais 1555 mulheres sem a sua irmã gêmea (Ref.28). Segundo as análises, foi confirmado, como antes previsto, que existe um possível forte fator genético envolvido na orientação sexual e que mulheres masculinizadas tendiam a ter mais parceiros sexuais. Ou seja, do ponto de vista evolutivo, ter mais mulheres masculinizadas aumentam as chances de procriação, devido ao maior número de parceiros sexuais. Isso ocorre devido ao fato de que, caso um parceiro tenha problemas de fertilidade, continuar com ele irá reduzir as chances de gravidez e, portanto, irá diminuir a natalidade populacional. Caso a troca de parceiros seja mais frequente, as chances de um acasalamento bem sucedido aumentam bastante. E onde o homossexualismo entra nisso? Ora, já discutimos isso na parte hormonal: mulheres masculinizadas possuem uma tendência maior a ter uma orientação homossexual. Aliás, o estudo neste quarto exemplo também mostra ser real essa tendência no grupo analisado. Outros estudos nessa mesma direção encontram resultados parecidos para homens homossexuais. No caso dos homens, uma hipótese sem evidências significativas por enquanto propõe que certos genes que controlam a produção de andrógenos durante o desenvolvimento embrionário podem estar em diferentes graus de ativação no código genético. Eles existiriam para limitar a produção de testosterona e impedir que comportamentos muito agressivos fossem gerados nos indivíduos machos, algo que fariam eles serem mais atrativos e tolerados pelas fêmeas. Porém, caso esses genes estivessem totalmente, ou em grande parte, desativados, a produção de testosterona seria mínima, podendo gerar indivíduos homossexuais. Em outras palavras, a orientação sexual seria um efeito colateral de um processo de beneficiamento nas relações heterossexuais.  (Ref.30, 31 e 38)

           Note que nas hipóteses acima expostas, não existe um lugar para os bissexuais. Pode ser que essa orientação sexual seja apenas uma flutuação no meio do caminho, algo que saiu ´errado´ nos planos evolutivos. Ou talvez possa ser que eles também se encaixem em algum papel durante a evolução. Tocando nesse assunto, existe também uma certa dúvida de classificação: será a orientação um discreto ou um contínuo dentro da sociedade? Em outras palavras, será que existem apenas heterossexuais, bissexuais e homossexuais ( espalhamento discreto)? Ou será que existem vários graus que passam entre os extremos do heterossexualismo e homossexualismo? É incerto dizer, e talvez seria algo mais bem explicado pelo construtivismo social. De qualquer forma, a questão evolutiva pode ser resolvida com algo ainda mais simples, porém sem graça: um subproduto sem importância no percurso evolutivo. Assim como a presença de mamilos nos homens não possui funcionalidade aparente, sendo apenas um enfeite evolucionário, a orientação sexual além da homossexualidade seria apenas um enfeite sem utilidade. Poderíamos até colocar isso como uma quinta hipótese.

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    CONCLUSÃO

       No final, fica mais do que óbvio dizer que é uma imprudência pensar na questão da orientação sexual como algo apenas causado pelo ambiente social e livre escolha das pessoas. Um pai castigar seu filho e tentar impor a ele uma orientação sexual será, além de uma provável perda de tempo, um sofrimento inútil para ambos os lados, especialmente no castigado injustamente. É muito provável que a homossexualidade é algo que foge do controle do querer, a não ser quando você tenta escondê-la devido à pressão social (mas ela continuará lá). Você pode estar culpando seu filho por algo que você mesmo passou a ele por via genética, da mesma forma que a cor do cabelo e feições faciais. Além de não fazer sentido algum julgar alguém pela sua orientação sexual, a homossexualidade pode ter sido uma ferramenta importante para a evolução da nossa espécie e por causa de visões muitas vezes religiosas e ignorantes, lançamos violência ao cerne da nossa própria estrutura social.

            Se pela ética é completamente errado o preconceito sexual considerando o mesmo como fruto exclusivo do construtivismo social, imagina se fatores biológicos forem tão ou mais importantes do que o social. Imagina se for um fator exclusivo, como grande parte da comunidade científica hoje tende a acreditar. Tratar a homossexualidade como um pecado ou coisas do tipo é algo cada vez mais ilógico. E como disse o próprio Papa Francisco:"Os gays não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade. Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?" Muitos se dizem religiosos, mas atiram a primeira pedra sem nem ao menos pensar por um segundo antes. O preconceito sexual não é ´Deus´ falando, apenas o ódio. Com religião, ou não, um humano é um humano, e amor é amor.


Artigo relacionado: Casamento gay é algo a ser discutido?

Artigo complementar: Homossexualidade: criminalização, casamento e filhos

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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  2. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21333673/
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