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Por que existem tantos destros e tão poucos canhotos?


- Atualizado no dia 21 de outubro de 2021 -

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           Um notável estudo publicado em 2016 pela Universidade de Kansas (Ref.3) trouxe forte evidência de que a marcante preferência pelo uso da mão direita no gênero Homo emergiu muito antes do que se imaginava. Analisando marcas nos dentes de fósseis da arcada dentária de um indivíduo da espécie Homo habilis, os pesquisadores conseguiram mostrar que ele fazia uso majoritário da mão direita para comer. Isso sugere que a lateralização do cérebro durante os primórdios da evolução humana tenha sido estabelecida há pelo menos ~1,8 milhões de anos. Até o momento, é a única evidência da existência pré-Neandertal de uma mão dominante. Mas o que está por trás da preferência de uso da mão direita ou esquerda na nossa espécie? Quando essa preferência é estabelecida  durante o nosso desenvolvimento? Por que existem mais destros do que canhotos e quais os possíveis fatores evolutivos envolvidos?

David Frayer, professor emérito de antropologia, liderou o estudo explorando o indivíduo Homo habilis destro, através da análise de marcas deixadas nos dentes (a, b, c) causadas pela movimentação de ferramentas da esquerda para a direita durante a alimentação. O objetivo atualmente é procurar reunir mais evidências do tipo para esclarecer se essa espécie do gênero Homo também possuía grande prevalência de destros a nível populacional. Frayer et al., 2016

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      PREVALÊNCIA E ORIGEM

            Estimativas fortemente sugerem que em torno de 90% da população mundial é destra, e canhotos tendem a ser mais prevalentes no sexo masculino. Mais do que apenas uma curiosidade anatômica e motivo de preconceito durante a história humana contra os canhotos, a preferência de uso por uma ou outra mão é um tópico extensivamente explorado no meio acadêmico. Relativo ao sistema nervoso, o controle das mãos é contralateral, ou seja, a mão direita está sob controle do hemisfério esquerdo do cérebro e a mão esquerda está sob o controle do hemisfério direito. Mas a tendência tão desproporcional no H. sapiens de uso preferencial da mão direita faz disso uma marcante característica da nossa espécie (1). Entre os primatas superiores, como o chimpanzé, a relação chega a ser bem próxima de 50:50 na preferência de uso das mãos, incluindo o uso de ferramentas.

           Essa preferência destra acompanha a civilização humana há pelo menos 5 mil anos, existindo convincente evidência de que a predominância data de ~500 mil anos atrás no continente europeu e, desde 2016, já temos um indício que ela pode ter surgido em outra espécie relacionada com os nossos antepassados há quase 2 milhões de anos, como previamente mencionado. E como entre 87% e 96% da população possui a linguagem lateralizada no hemisfério esquerdo do cérebro (2), isso pode significar que exista alguma relação entre o desenvolvimento dela no gênero Homo e o peculiar monopólio destro.

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(1-2) Informação complementar no final do artigo.
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   FATORES BIOLÓGICOS

          A lateralidade é um conceito complexo, relacionado aos hemisférios direito e esquerdo do corpo, que envolve diferentes aspectos dos seres vivos, como, por exemplo, o aspecto motor. Em se tratando de comportamento motor, o uso mais frequente de um dos lados do corpo na feitura de uma tarefa é denominado como preferência lateral. Essa preferência por um dos lados pode ser definida para uma das mãos, um dos pés, um dos ouvidos, um dos olhos e um dos lados do tronco. Dessa forma, pode-se classificar uma pessoa como destra, canhota, ambidestra ou com preferência cruzada, de acordo com as diferentes dimensões corporais. 

          Destros são os indivíduos que usam, com maior frequência, o lado direito do corpo na feitura de tarefas do cotidiano. Já os canhotos apresentam uma preferência pelo lado esquerdo do corpo. Além da preferência destra e canhota, também há indivíduos que apresentam preferências neutras ou cruzadas. Os ambidestros são pessoas que não apresentam preferência lateral claramente definida (neutras), ou seja, são capazes de fazer uma tarefa com grande eficiência e segurança com ambos os lados do corpo. Ademais, alguns indivíduos podem apresentar uma preferência lateral cruzada quando a preferência entre os segmentos corporais não é a mesma, por exemplo, quando apresenta preferência lateral esquerda para uma dimensão e direita para outra.

           As bases biológicas para a preferência lateral ainda não são totalmente compreendidas, mas parece existir múltiplos fatores envolvidos, incluindo genéticos e ambientais. Ao que tudo indica, a destridade inicia seu desenvolvimento ainda no útero da mãe (3) e, apesar de não conhecidos os exatos mecanismos, parece estar intimamente relacionada com o processo de diferenciação dos hemisférios cerebrais (lateralização). Evidências científicas acumuladas nas últimas décadas fortemente indicam uma determinação poligênica para a preferência lateral. Pais destros tendem a ter mais filhos destros. Estudos com gêmeos sugerem que a genética contribua com algo em torno de 25% para a determinação da preferência lateral. Nesse cenário, é sugerido um sistema monogênico bialélico aditivo, no qual um alelo (variante genética) no locus (local genômico) favorece a determinação destra, enquanto o segundo alelo é um alelo neutro que resulta na determinação randômica da preferência lateral via assimetria flutuante (e suscetível a fatores ambientais). 

          Um estudo publicado em 2018 no periódico Brain (Ref.22) foi o primeiro a identificar regiões do genoma associadas com o desenvolvimento da preferência pela mão esquerda na população em geral e ligar seus efeitos com a arquitetura cerebral, em específico a áreas associadas com a linguagem. A conclusão veio após a análise comparativa do genoma de 721 canhotos e de 6685 destros. No total foram 4 regiões genômicas identificadas (loci rs199512, rs45608532, rs13017199, e rs3094128), três delas associadas com proteínas envolvidas na estrutura e no desenvolvimento cerebrais. Essas proteínas em particular são relacionadas com microtúbulos, as quais compõem o citoesqueleto das células. Usando imagens cerebrais detalhadas dos participantes, os pesquisadores encontraram que os efeitos dos genes identificados estavam associados com diferenças na estrutura cerebral que parecem ser estabelecidas bem cedo no desenvolvimento do indivíduo, ainda no útero. De acordo com o estudo, as regiões de linguagem no cérebro tendem a ser mais coordenadas nos indivíduos canhotos entre os dois lados cerebrais.

          Em um estudo mais recente publicado no periódico Nature Human Behaviour (Ref.24), pesquisadores realizaram uma meta-análise de associação genômica-ampla envolvendo dados genômicos de quase 1,8 milhão de indivíduos, identificando 41 loci genéticos associados com a preferência pela mão esquerda e 7 associados com a ambidestralidade, e sem significativa correlação genética entre ambos os fenótipos. Análise subsequente implicou o sistema nervoso central na etiologia da preferência lateral e reforçou mais uma vez a atuação de genes ligados aos microtúbulos. Os achados do estudo reforçaram que a preferência lateral possui determinação altamente poligênica, sugerindo uma contribuição genética total próxima de 20%.             

            Nesse último ponto, fica também evidente que a genética não é a única força motriz na determinação da preferência lateral. Fatores ambientais, intra- e pós-uterinos, incluindo fatores epigenéticos (4), são também importantes contribuintes, apesar de pouco esclarecidos. Limitada evidência sugere até mesmo que os exames de ultrassom podem influenciar na determinação da preferência lateral! Aliás, como mencionado, canhotos são mais prevalentes entre os homens (sexo masculino), algo sugestivo de influências hormonais durante o desenvolvimento uterino. Outra curiosidade é que a localização geográfica parece também atuar na determinação da preferência lateral, alterando de forma tímida a proporção entre destros e canhotos a nível populacional, algo que pode estar associado a fatores tanto culturais quanto biológicos.

           Uma robusta revisão sistemática e meta-análise publicada no periódico Laterality: Asymmetries of Body, Brain and Cognition (Ref.21), analisando mais de 62 mil mães, mostrou que amamentar o bebê por mais de 6 meses, quando comparado com fórmula, está associado com uma diminuição absoluta de 3% na prevalência de não-destros, de 13% para 10%. Nesse sentido, 22%, ou cerca de 1 em cada 5 casos de desenvolvimento não-destro entre bebês alimentados com fórmulas podem, portanto, ser atribuído a uma falta de amamentação por mais de 6 meses. Porém, amamentação acima de 9 meses não mostrou interferir na razão destro/canhoto. Ou seja, isso sugere que o período crítico de lateralização cerebral onde fatores ambientais - não somente genéticos - podem ser determinantes começa um pouco antes do 3° mês de gestação (no útero) e termina na infância antes da idade de 9 meses (pós-parto). No entanto, isso não significa que a amamentação em si é o fator causal ou primário, onde fatores associados à interação entre bebê e mãe podem ser mais importantes. 

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> Amamentação é essencial até, no mínimo, 6 meses de idade, onde a mãe só deve usar fórmulas em casos de real necessidade e sob orientação médica. Para saber mais, acesse o artigo: Fórmula ou leite materno para o bebê?
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As crianças parecem mostrar preferência pela mão direita ou pela mão esquerda, de forma bem explícita, a partir dos 3 anos de idade, mas já podem existir bons indícios antes mesmo do nascimento

             Por fim, existe também um progressiva manifestação da preferência lateral com o avanço de idade na infância. Vários estudos mostram que o uso diferenciado das mãos é bastante plástico em termos de intensidade/frequência durante o desenvolvimento infantil. A partir dos ~3 anos de idade um dos lados (direito ou esquerdo) é marcadamente escolhido, com a força dessa preferência aumentando entre 3 e 7 anos, e de forma gradual até os 9 anos, até tornar-se definitiva. Até os 18 meses de idade, é ainda sutil a preferência lateral (quando manifestada). Entre 7 e 10 anos de idade é muito notável a lateralização. Mas, até os 4-6 anos, a criança não mostra uma clara preferência por uma das duas mãos, apenas uma maior tendência em usar uma ou outra (já indicando se são destras ou canhotas). 

         Fatores diferenciais de exploração do mundo e outros fatores ambientais durante a infância podem tornar melhor ou pior a habilidade manual com a mão não dominante entre destros e canhotos. Nesse sentido, fatores ambientais e genéticos, quanto combinados, podem também determinar raros fenótipos de destralidade, incluindo ambidestralidade e preferência cruzada.
             
1°. Preferência variável ou inexistente: De forma bastante incomum, alguns indivíduos possuem uma mista orientação das mãos, alternando a preferência entre elas dependendo da tarefa a ser realizada. Além disso, também de forma rara, temos pessoas (ambidestras) que possuem uma igual habilidade para usar tanto a direita quanto a esquerda.
 
Algumas pessoas conseguem manusear a mão direita tão bem quanto a esquerda

2°. Performance e frequência de uso nos canhotos: As pessoas com preferência pela mão esquerda possuem uma menor assimetria de uso manual do que os destros, ou seja, elas tendem a usar mais a mão não dominante do que os destros. Além disso, o potencial de melhor performance com a mão não dominante entre os canhotos parece ser maior do que entre os destros, onde pesquisas já mostraram que esses últimos apresentam uma maior ativação do hemisfério direito para realizar tarefas com a mão esquerda, o que revela uma maior exigência de esforço por parte deles nessa situação.

3°. Preferência cruzada: Antes pensava-se que as pessoas possuíam preferência lateral homogênea, ou seja, maior uso de todo um lado do corpo em detrimento do outro. Para ilustrar, uma pessoa destra teria seu pé direito também como preferido. Mas isso não é o caso para todos. Muitas pessoas são destras, mas usam o pé esquerdo para dar o primeiro passo ao andar, por exemplo.


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          EXISTEM FATORES EVOLUTIVOS QUE PODEM EXPLICAR O EXCESSO DE DESTROS?

          É notável o fato da preferência lateral pelas mãos nos humanos persistir ao longo de populações do mundo todo, sempre com uma razão em torno de 9 destros para cada 1 canhoto. Considerando que fatores genéticos estão envolvidos, fica sugerido que processos de seleção natural atuaram de forma determinante. Basicamente, têm sido propostos quatro fatores envolvidos na seleção positiva da destridade na linhagem evolutiva humana: habilidade manipulativa, gestos comunicativos, complexidade de ação organizacional e ação objetivo-direcionada.

- Hipótese da habilidade manipulativa: Aqui a preferência pelos destros emergiu da especialização de ambas as mãos para diferentes tarefas (precisão vs. força de pegada) e o subsequente de linguagem gestual destro-enviesada na mão direita (precisão da pegada). Como resultado, a dominância para a linguagem (primeiro gestual e depois vocal) se tornou localizada no hemisfério esquerdo e eventualmente fortaleceu a assimetria na preferência entre ambas as mãos. Porém, contrário à hipótese, a linguagem é esquerdo-lateralizada em 70% dos canhotos em humanos (ex.: com dominância hemisférica direita para a coordenação das mãos), e, como já mencionado, chimpanzés selvagens não possuem significativa preferência pelas mãos, mesmo engajados com comunicação gestual. É improvável, portanto, que o ancestral comum entre humanos e chimpanzés tinha preferência pela mão direita ou esquerda, e a comunicação gestual pode não ser uma completa explicação para o fenômeno.

- Hipótese da Luta: Aqui, sugere-se que a seleção contra canhotos ocorre porque esse traço está associado com traços negativos (ex.: maior suscetibilidade a doenças) (!), mas que é mantida em cerca de 10% da população humana por causa da co-ocorrência de benefícios potencialmente compensatórios. Nesse último caso, é proposto uma vantagem em lutas corporais devido ao "efeito surpresa" (!), ou seja, o oponente destro teria forte desvantagem contra o adversário canhoto por não estar acostumado a lutar contra alguém usando o lado esquerdo do corpo para golpear. Em um cenário pré-histórico, onde combate físico intra-populacional era mais intenso e potencialmente letal, teríamos um fator importante de seleção. Porém, essa hipótese enfrenta forte criticismo, especialmente devido à falta de evidência direta ou convincente de suporte.

- Hipótese do Uso de Ferramentas: Humanos são excepcionais produtores e usuários de ferramentas dentro do Reino Animal, um traço que evoluiu através da transferência social dessas habilidades. Para manter a habilidade de fabricação de ferramentas em uma população, essa habilidade precisa ser transferida para novas gerações, portanto tornando a eficiência de aprendizado dessa habilidade um potencial fator para a adaptação de um indivíduo e, ao mesmo tempo, para a velocidade da sua transmissão em uma população. Imitação (ex.: a cópia de comportamentos para um objetivo ou um produto final) reduz erros e aumenta a fidelidade de cópia em comparação com a mera cópia do produto final (ex.: emulação). Nesse sentido, a cópia dos comportamentos  de outros indivíduos seria uma estratégia crucial para os produtores de ferramenta de pedra no Paleolítico desenvolverem e aperfeiçoarem os artefatos com o fim de produzir machados ou raspadores. Mesmo no período moderno, pré- e pós-industrial, o aprendizado visando a manufatura de ferramentas é essencial em grande extensão para a sobrevivência e para o acúmulo de críticos aspectos culturais e de conhecimento. Com base nesse contexto, é plausível propor que a preferência por uma das mãos a nível populacional facilita o aprendizado por imitação no sentido de favorecer a transmissão do uso de ferramentas.

          Um estudo publicado no periódico Journal of Human Evolution (Ref.23) trouxe importante evidência corroborando estudos experimentais prévios e suportando a hipótese do uso de ferramentas. No estudo, os pesquisadores expuseram 134 voluntários a gravações de pessoas destras e canhotas ensinando a produzir nós em uma corda. Todas as medidas de performance analisadas (tempo até a correta realização da tarefa, número de tentativas necessárias e correta imitação) eram favorecidas quando existia congruência entre aluno e professor em termos de preferência pelas mãos, otimizando significativamente a velocidade e a acuracidade da imitação em vários graus de dificuldade da tarefa proposta. 

          Porém, enquanto que uma melhor performance de imitação (cópia direta de sequências de movimentos realizada por outros indivíduos) potencialmente explicar a assimetria de uso das mãos, ao facilitar o aprendizado por imitação, a hipótese do uso de ferramentas não explica o porquê da mão direita ter sido favorecida em detrimento dos canhotos. Pode ter sido pura chance (ex.: deriva genética) ou por causa da contribuição das outras hipóteses.

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         (!) EXISTEM DOENÇAS RELACIONADAS COM A PREFERÊNCIA DE USO ENTRE AS MÃOS?

         Diversas evidências científicas derivadas de técnicas de visualização da atividade cerebral e padrões de comportamento mostram que destros e canhotos possuem diferenças neuroanatômicas e psicológicas entre si em significativo grau. Portanto, nada mais do que natural que algumas doenças neurológicas possam ter maior ou menor incidência dependendo da preferência lateral. Epilepsia, transtorno do espectro autista, transtorno bipolar, esquizofrenia são exemplos (Ref.24-25). Porém, os estudos são inconclusivos até o momento, apesar de recentes revisões sistemáticas da literatura científica sugerirem um maior risco de desenvolvimento de autismo e de esquizofrenia nos canhotos. De fato, evidência mais recente suporta uma relação entre indivíduos canhotos e maior enriquecimento genético associado à manifestação da esquizofrenia, incluindo envolvimento dos genes YWHAH, MAPT e ANO10 (Ref.26). Existe também limitada evidência indicando uma maior tendência de manifestação precoce de Alzheimer em indivíduos canhotos (Ref.27).

         Além do campo neurológico, uma observação curiosa, apontada por um estudo publicado em 2016 (Ref.7), mostrou que os destros possuem uma maior pressão arterial sistólica no seu braço direito do que no esquerdo, onde essa diferenciação não era espelhada nos canhotos de forma significativa. Já no caso da pressão arterial diastólica o padrão se invertia. Os pesquisadores envolvidos no estudo pediram, portanto, que as aferições da pressão arterial sejam feitas no braço não dominante das pessoas, caso essas observações forem confirmadas.

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          EXISTE DIFERENÇAS NA INTELIGÊNCIA OU NA HABILIDADE ESPACIAL ENTRE OS DESTROS E CANHOTOS?

          Não existe evidência indicando qualquer diferença perceptível no nível de inteligência entre destros e canhotos. Estudos já chegaram a sugerir uma maior dificuldade de aprendizado nos canhotos, mas outros não corroboram similar conclusão. É alegado também uma maior prevalência de gênios entre canhotos, algo também sem suporte científico. No geral, habilidades cognitivas, verbais e espaciais não parecem diferir de forma significativa com variações na preferência lateral.          

O presidente norte-americano Barack Obama e o Físico Albert Einstein são dois famosos canhotos

             (!) Nesse sentido, é válido também mencionar que os canhotos podem apresentar substancial vantagem em um amplo número de esportes, como o boxe e a esgrima. Em muitos casos, a maior vantagem também parece emergir, independentemente do esporte, quando um oponente destro se depara com um canhoto. Nesse caso, o fator surpresa (o movimento a partir do lado esquerdo do corpo) pode acabar prejudicando o adversário destro - acostumado a treinar com e a observar outros indivíduos destros (grande maioria na população) -, enquanto oponentes canhotos não sofrem esse mesmo prejuízo. 

           Porém, um estudo publicado na Biology Letters (Ref.17), analisando os 100 melhores jogadores em seis esportes ao longo de múltiplas temporadas e os dados dos jogos de atuação, concluiu que essa vantagem dos canhotos só é verdade para esportes de tempo constrito. Nesse grupo, o qual inclui esportes como baseball, cricket e tênis de mesa, o tempo de contato entre a bola e a raquete ou o taco é cerca de metade daquele encontrado em esportes como squash, badminton e tênis. Em outras palavras, os jogadores teriam menos tempo para compensarem os diferentes estilos de jogo dos canhotos.

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   EMOÇÕES E CONTROLE MOTOR

         De acordo com um estudo clínico realizado por pesquisadores da Cornell University, EUA, e publicado em 2018 na Philosophical Transactions of the Royal Society B (Ref.20), ser destro ou canhoto parece ser, de fato, um fator crucial que precisa ser levado em conta no tratamento de problemas mentais (depressão, distúrbios bipolares, ansiedade etc.).

          Desde a década de 1970, centenas de estudos acumularam evidências sugerindo que cada hemisfério do cérebro abriga um grupo/tipo específico de emoções. Emoções ligadas com aproximação e envolvimento com o mundo - como felicidade, orgulho e raiva - seriam encontradas no lado esquerdo do cérebro, enquanto emoções associadas com repúdio - como nojo e medo - estariam no lado direito. Porém, esses estudos quase sempre envolviam pessoas destras, devido ao fato destas representarem a maior parte da população mundial. Esse fator limitante pode ter nos dado uma noção completamente equivocada de como funciona a dinâmica emocional no cérebro.

          De acordo com os pesquisadores do novo estudo, as pessoas canhotas teriam esses dois grupos de emoções invertidos no cérebro em relação às pessoas destras. Os autores também sugerem que a localização do sistema neural para emoções dependem se a pessoa é destra, canhota ou algo no meio termo (ambidestros). Nesse sentido, emoções como determinação e vivacidade estariam no lado direito do cérebro dos canhotos.

          Essa nova proposta foi batizada de 'Hipótese do Escudo e Espada', a qual afirma que o modo como nós realizamos ações com as mãos determina como as emoções são organizadas no cérebro. Fazendo uma analogia com os antigos guerreiros, o indivíduo geralmente empunha a espada para atacar (ato de envolver) com a mão dominante e o escudo para defender (ato de evitar) com a mão não-dominante. Em outras palavras, nosso cérebro seguiria esses padrões de ações para organizar as emoções em cada um dos seus hemisférios (nos destros, como já dito, o hemisfério direito controla a mão não-dominante e o hemisfério esquerdo controla a mão dominante). Essa relação teria evoluído na nossa espécie como um reaproveitamento de circuitos neurais usados para as atividades motoras do dia-a-dia.

          No estudo clínico, os pesquisadores estimularam eletricamente voluntários adultos saudáveis tanto no hemisfério esquerdo quanto no hemisfério direito, e observaram como eles realizavam atividades pré-programadas. Como previsto, emoções relacionadas com as atividades eram exaltadas dependendo do hemisfério estimulado e de como variava o controle motor das mãos dos participantes (destros, canhotos, ambidestros).

          Caso essa hipótese se comprove com mais estudos clínicos futuros, várias seriam as implicações no campo da neurologia, especialmente para um tratamento ganhando cada vez mais espaço para o tratamento de problemas como ansiedade e depressão, a chamada 'terapia neural'. Essa terapia envolve uma moderada estimulação elétrica ou magnética no lado esquerdo ou direito do cérebro, visando estimular emoções e sensações específicas. Se levarmos em conta a Hipótese da Espada e Escudo, pessoas canhotas e ambidestras - principalmente as canhotas - podem estar sofrendo mais prejuízos do que benefícios, já que as estimulações elétricas estariam visando os locais errados do cérebro.


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     CONSIDERAÇÕES FINAIS

           Os estudos sobre a preferência lateral e sua associação com as funções neurológicas do cérebro humano vêm sendo conduzidos há 150 anos, mas nosso conhecimento sobre esse tema ainda é muito limitado. Um melhor entendimento sobre a questão pode marcar importantes avanços no campo da neurociência e ajudar a quebrar barreiras de intolerância.

           Infelizmente, o fato das pessoas canhotas serem minoria fez, ao longo da história, com que várias associações negativas fossem criadas contra esses indivíduos. Adjetivos preconceituosos como 'desajeitado', 'estúpido' e 'aberração' já foram muito usados contra os canhotos, com a maioria desses últimos sendo forçada a usar mais a mão direita para se igualar às pessoas "normais". Até mesmo argumentos religiosos de ódio já foram proferidos contra os canhotos, como taxações que envolviam 'bruxaria' e 'possessões demoníacas'.

           A própria palavra 'direita' (ou 'right', no inglês, por exemplo) estão associadas a algo 'certo', 'direito', 'conforme as boas normas'. E como muitos objetos do dia a dia foram sempre, historicamente, mais voltados para o uso de pessoas destras (as tesouras são um dos exemplos mais clássicos ainda hoje), comportamentos "desajeitados" acabavam surgindo com frequência entre os canhotos ao usá-los, causando ainda mais estranheza dentro da população. A escrita, então, chamava ainda mais a atenção, devido ao sentido tradicional da esquerda para a direita já bem estabelecido pelo domínio destro, algo que faz com que os canhotos tenham uma forma diferenciada para escrever, mas não ´errada´.

          E esse preconceito foi tão enraizado que gera visível impacto ainda hoje, incluindo a persistente visão de que o uso preferencial da mão esquerda é algo errado. Aliás, dependendo da cultura, canhotos são inclusive associados a "más vibrações". Muitos pais insistem em forçar seus filhos canhotos a usarem a mão direita para escreverem ou lidarem com objetos diversos. Na China, por exemplo, apenas 3,5% dos estudantes usam sua mão esquerda para escrever, e, como a proporção de preferência é sempre em torno de 9:1 em todo o mundo, isso mostra que no país muitos pais forçam seus filhos a escreverem com a direita, independentemente se são canhotos ou não.

           NÃO FORCE SEU FILHO CANHOTO A USAR A MÃO DIREITA. Apesar de não ser totalmente compreendido os fatores biológicos e ambientais envolvidos, a preferência lateral NÃO é uma escolha ou algo que deve ser modificado. Quem é canhoto sente-se mais confortável e é mais habilidoso com a mão esquerda - e frequentemente com todo o lado esquerdo do corpo. Forçá-lo irá apenas trazer desconforto, tristeza e vai limitar seu potencial motor, podendo até deixá-lo sempre receoso ao realizar qualquer tarefa, já que o indivíduo pode sentir vergonha ao "descuidar-se" e usar sua mão de preferência da frente das pessoas. 

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(1) Assim como existe um mito de que a assimetria cerebral seja algo exclusivo dos humanos, sendo que diversos vertebrados e até mesmo alguns invertebrados a possuem, pode ser que a altíssima prevalência de preferência/orientação em uma mão ou outra possa não ser exclusiva de humanos e estar sendo subestimada. Papagaios, por exemplo, parecem preferir usar o pé esquerdo para segurar o alimentos em uma proporção populacional na maioria das espécies dessas aves em um grau parecido ou até mesmo superior do que os humanos. E em agosto de 2015 um estudo mostrou fortes evidências de que existe uma preferência também muito alta pela mão esquerda em algumas espécies de cangurus bípedes (Ref.13).

Algumas espécies de cangurus parecem possuir uma prevalência muito alta de canhotos dentro das suas populações 

             Já mais recentemente, um estudo publicado na Current Biology (Ref.18) mostrou que a maioria das baleias-azuis possuem também uma preferência pelo lado direito. A única exceção, porém, é quando elas emergem das profundezas do mar em direção à superfície para se alimentar de Krills. Nesse momento, todas as baleias-azuis fazem um giro de 360° para a esquerda. Como o lado esquerdo do cérebro - responsável pelo controle motor e a habilidade de planejar e coordenar ações - está conectado com o olho direito, talvez esse movimento deixe esse olho mais voltado para as presas, facilitando o curso de ação. É a primeira vez que um lado preferencial é visto entre animais dependente de uma ação específica.

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ATUALIZAÇÃO (23/01/18): Em um estudo publicado no periódico Animal Behavior (Ref.21), pesquisadores mostraram que existe uma preferência pelo lado esquerdo ou direito do corpo entre os gatos que é determinada pelo sexo. No estudo, as fêmeas mostraram uma maior preferência no uso da pata direita  para subir degraus e manipular objetos, enquanto os machos mostraram uma preferência pela pata esquerda, no geral. Isso sugere um importante papel de hormônios sexuais na determinação dessas preferências, pelo menos no caso de gatos e possivelmente outros felinos.
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(2) Isso também é válido para os canhotos também na maioria das vezes (entre 60 e 73%), onde o controle da linguagem nesses indivíduos também se encontra no hemisfério esquerdo. Uma minoria, contudo, possui a linguagem no lado direito ou distribuída entre os dois hemisférios.

(3) Bebês ainda no útero parecem preferir chupar o dedo da mão direita - e realizar outros movimentos assimétricos com o braço - em uma proporção de 9:1, coincidindo com a prevalência geral de destros no mundo.

(4) Isso é melhor explicado no artigo A Homossexualidade é biológica ou social? . Aliás, nesse artigo, é também mostrado que existem evidências de associação entre a preferência das mãos e a orientação sexual. Isso é até mais um argumento a favor da importância dos fatores genéticos ou ambientais (em termos embrionários) para determinar se a pessoa será destra, ambidestra ou canhota.


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 REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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