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Por que mulheres eram mais comumente acusadas de bruxaria do que homens durante a Caça às Bruxas?

Figura 1. Xilogravura retratando uma bruxa, associada a um demônio, exibida em um livro de 1720. Fonte: University of Cambridge
 

            No final de março de 1582, durante o reino de Elizabeth I na Inglaterra, 15 pessoas foram acusadas de bruxaria na pequena cidade costeira de St Osyth, em Essex (Ref.1). Após os Atos de Bruxaria de 1542 e de 1563 estabelecidos no território Inglês, punições para bruxos e bruxas variavam de 1 ano no cárcere até morte por enforcamento, dependendo da severidade do crime de feitiçaria. Do total de suspeitos em St Osyth, apenas um era homem e o restante mulheres. Seguindo investigações pelo magistrado Brian Darcy, 11 das alegadas bruxas foram julgadas no tribunal de Hilary. Após o julgamento, duas das suspeitas foram consideradas culpadas e executadas por enforcamento: Ursley Kempe e Elizabeth Bennet. Outras culpadas cumpriram pena na prisão - com uma delas, Annys Glascocke, morrendo no cárcere - ou foram eventualmente perdoadas.

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          Esse relato de caso em St Osyth é um entre vários eventos de "caça às bruxas" que marcaram os séculos XVI e XVII na Europa. E um padrão notável observado no relato levanta a óbvia pergunta: por que muito mais mulheres do que homens eram acusadas de bruxaria e ligadas a práticas demoníacas? Era uma simples questão de discriminação contra um gênero? Aliás, e por que só a partir do início da Idade Moderna na Europa começaram intensas perseguições às alegadas bruxas e bruxos? E por que as perseguições às bruxas e bruxos quase desapareceram na Europa a partir do século XVIII?


   CAÇA ÀS BRUXAS: Protestantes vs. Católicos?

          "Onde Deus constrói uma igreja o Diabo vem e faz uma capela ao lado." - Martinho Lutero (Martin Luther, 1483-1546)

           Um bruxo ou uma bruxa, por definição histórica, é uma pessoa que usa poderes sobrenaturais com malícia. No início da Idade Moderna na Europa e na América Colonial, alegados bruxos e bruxas foram acusados de crimes diversos, desde assassinatos, acidentes e doenças até desastres como fomes, inundações, secas e epidemias. Vários deles foram submetidos a torturas e julgamentos, e muitos foram executados. Confissões de bruxaria eram tipicamente extraídas com métodos de tortura.

          Os julgamentos e caça às bruxas possuem uma história peculiar na Cristandade. Na Idade Média, entre 900 e 1400 d. C., a figura de praticantes de bruxaria era bem estabelecida, porém as autoridades Cristãs eram muito relutantes em admitir que bruxas e bruxos existiam, e muito menos julgavam ou executavam alguém pelo crime de bruxaria. E isso não era por falta de demanda ou mesmo justificativa Bíblica, onde no Antigo Testamento temos a passagem do Êxodo 22:18: "A feiticeira* [bruxa] não deixarás viver." Crença em bruxaria era comum na Europa Medieval e, em 1258, o Papa Alexandre IV teve que publicar um cânone para prevenir ações processuais contra práticas de magia negra. Porém, ao redor de 1550 d.C., autoridades Cristãs reverteram completamente esse posicionamento. Bruxas e bruxos "passaram a existir" ao milhares e, para proteger a segurança e o bem-estar dos cidadãos contra perigosos feitiços, eles precisavam ser perseguidos e punidos onde quer que estivessem.

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*Apesar do texto original no Hebreu o termo "kasaph" aparecer no lugar de "feiticeira", o qual significa alguém capaz de ver o futuro, um vidente. O termo bruxa/o ou feiticeiro/a aparece em traduções para o inglês arcaico e moderno (witche ou witch) e outras línguas; no português, o termo feiticeira (no feminino) é usado na tradução.

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          Nesse ponto da história, uma literal caça às bruxas teve início e se espalhou pelos reinos Cristãos, e a doutrina da demonologia (estudo intelectual de demônios e seus poderes) ganhou grande força entre os séculos XV e XVII. Julgamentos de bruxas e bruxos foram particularmente intensos nos territórios Germânico, Escocês e Finlandês, assim como severas leis contra bruxaria. Na Inglaterra do início do século XVII, o Rei James I foi um monarca particularmente obcecado com bruxaria e magia negra, e várias leis contra bruxaria (ou feitiçaria) foram criadas no seu reinado.

           Ao longo de 150 anos, não menos do que 80 mil pessoas foram julgadas por bruxaria na Europa, metade delas executadas. Cerca de 60% dos julgamentos ocorrerem entre 1560 e 1630, um período conhecido como a "Grande Caça"; mais da metade dentro de um raio de aproximadamente 500 km a partir de Estrasburgo, França. Por outro lado, durante a Grande Caça, países como Espanha, Itália e Portugal amplamente evitaram esses julgamentos e raríssimas execuções foram testemunhadas nesses países.

            Mas por que as autoridades Cristãs praticamente ignoraram a bruxaria na Idade Média mesmo existindo forte apelo e demanda popular nesse sentido? E por que houve um súbito interesse nesse assunto no início do século XVI, pico em meado do século XVI e declínio a partir de meado do século XVII? Seria algum evento climático, crise econômica generalizada ou algum tipo de fenômeno psicogênico (ex.: histeria em massa) (1)? E algum desses fatores explica por que um número de importantes países Europeus foram poupados?

(1) Leitura recomendada: 

           Em um notável estudo publicado em 2017 no periódico The Economic Journal (Ref.4), pesquisadores propuseram uma teoria econômica que parece explicar de forma convincente os padrões de emergência, atividade, intensidade e declínio da caça às bruxas. Para isso, eles coletaram e analisaram dados sobre mais de 43 mil pessoas julgadas por bruxaria ao longo de 21 países Europeus entre 1300 e 1850. Os resultados das análises suportaram uma clara relação: mais intensas contestações e batalhas pelo "mercado religioso" entre Protestantes e Católicos estavam fortemente associadas com atividades mais intensas de perseguição e julgamento de bruxas e bruxos.

         Segundo a teoria proposta no estudo, durante os períodos de Reforma e Contra-Reforma na Europa, competição direta entre as igrejas Católicas e Protestantes pela fé das pessoas em regiões Cristãs com intensa rivalidade entre as duas instituições explorou uma crença popular (bruxaria) para propagandas religiosas. Com as perseguições, julgamentos e condenações, autoridades Protestantes e Católicas anunciavam suas "marcas confessionais", demonstrando como podiam proteger as pessoas de um mundo infestado por manifestações Satânicas. Seria algo similar ao que os Republicanos e Democratas fazem hoje nos EUA, focando suas batalhas políticas em estados críticos durante as eleições, e usando agressivas campanhas para atrair a lealdade de potenciais eleitores indecisos. A luta no início da Europa Moderna era por Cristãos indecisos sobre qual igreja seguir em regiões sob forte atrito entre Católicos e Protestantes.

          Em um período de profundas transformações, Martinho Lutero (1483-1546), monge Alemão da ordem de Santo Agostinho, inicia um movimento de reforma da Igreja Católica. Após tornar-se doutor em Teologia, Lutero passa a questionar o poder absoluto do papa e as práticas da própria Igreja em suas cobranças de indulgências, abusos e corrupções, defendendo o sacerdócio universal de todos os cristãos, o livre acesso às Escrituras, entre outros. Essas ideias e o principal trabalho de Lutero ('95 Teses') alimentaram o movimento religioso conhecido como Reforma Protestante, na Alemanha do início do século XVI, o qual, naturalmente, entrou em forte conflito com a Igreja Católica.

          Antes da Reforma Luterana e onde o Protestantismo nunca ganhou relevância, existia pouca necessidade para os julgamentos de bruxas e bruxos, já que a contestação pelo mercado religioso era mínima. Pela maior pare da Idade Média, a Igreja Católica possuía o monopólio de influência sobre os Cristãos na Europa, especialmente entre os séculos XIV e XVI. Cruzadas e Inquisições foram suficientes para suprimir "inimigos e rebeldes da fé" e fortalecer o poder papal (2). Quando Lutero emergiu com suas ideias, a Igreja Católica viu uma nova ameaça religiosa, e, em 1520, na Dieta dos Vermes, o Papa Leão X publicou uma bula papal declarando as visões do monge Alemão como heréticas, demandando sua renúncia. Sob a recusa de Lutero, Charles V, o Imperador do Sacro Império Romano e vicariato secular da Igreja Católica na Europa, condenou de forma severa suas ideias e trabalhos, conduzindo uma campanha feroz contra o Luteranismo.

(2) Leitura recomendada: 

          Em domínios garantidos pela Igreja Católica, como a Espanha, Itália e Portugal, a criminalização do Protestantismo e do não-Catolicismo em geral, foram reforçadas pelos governantes e suportadas pelos cidadãos, onde virtualmente todos eram Católicos leais. Campanhas de inquisição nesses países foram efetivas em caçar não-Católicos - incluindo Protestantes, Judeus e Muçulmanos -, compelindo conversões ao Catolicismo e executando aqueles resistentes. E, de fato, nesses territórios a caça às Bruxas não foi testemunhada ou foi pouco notável.

          Por outro lado, em outras partes da Europa, estratégias tradicionais de perseguição e de exclusão da Igreja Católica não foram efetivas, porque a lealdade Católica era mais fraca e parcial. Em países como a Alemanha, Suíça e a França, as ideias e trabalhos de Lutero foram amplamente disseminados. Vários príncipes Germânicos se tornaram Luteranos e, em 1555, a situação se tornou ainda mais problemática quando o tratado Paz de Augsburgo descriminalizou o Luteranismo no Sacro Império Romano. Situação similar também ocorreu na França na primeira metade do século XVI, com tolerância religiosa em relação ao Protestantismo sendo fortalecida com o Edito de Nantes, em 1598. Na Alemanha e na França, o Luteranismo foi, na prática, legitimado e permitido como uma religião Cristã.

          Guerras e violentas confrontações confessionais se seguiram entre Católicos e Protestantes. Intensas competições comerciais com produtos, obras e serviços religiosos também marcaram esse período, como redução no preço de "dízimos bíblicos", construção de escolas e aumento de canonizações e beatificações. E nos territórios em conflito, emergiram também agressivas campanhas de caça às bruxas conduzidas tanto por Protestantes quanto por Católicos, e com ambos prometendo e vendendo melhor proteção contra o diabolismo. Todo o processo de acusação, investigação, julgamento e condenação das bruxas e bruxos era prolongado e acompanhado de abundante "publicidade religiosa", espetáculo e grande público.

           As execuções daqueles condenados por bruxaria atraíam centenas, às vezes milhares, de observadores e notícias de tais eventos se espalhavam para comunidades vizinhas. E quando as execuções por queima ou enforcamento não eram impactantes o suficiente, as acusações contra as bruxas e/ou os bruxos eram lidas publicamente durante esses eventos, ou mesmo sermões eram realizados antes da execução. E para a Igreja Católica, a caça às bruxas também servia como uma alternativa à perseguição dos heréticos (competidores religiosos).

          "A multidão era grande, e todos se juntavam no vasto espaço e gritavam alto o Nome Sagrado; e a infortunada mulher ecoava seus gritos, chamando 'Jesus! Jesus! em meio às chamas" - relato de um padre do século XVI sobre a queima de uma bruxa (Stacpoole-Kenny, 1911, p. 216).

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          Em linha com a teoria econômica proposta, o fenômeno da caça às bruxas:

- ascendeu no início do século XVI, quando o Protestantismo primeiro penetrou no mercado religioso Europeu;

- intensificou em meados do século XVI quando a legitimação do Protestantismo em grande parte da Cristandade, e a Paz de Augsburgo em particular, inflamaram a contestação confessional.

- foi dramaticamente mais intenso em campos de batalha confessionais, como a Alemanha, França e Suíça, e muito menos intenso ou pouco significativo em países onde a Reforma teve pouca influência, como a Espanha, Itália e Portugal (Fig.2). 

- declinou em meados do século XVII, quando a Paz de Vestfália trouxe trégua religiosa na Europa com o fim da Guerra dos 30 anos e outras guerras entre Católicos e Protestantes na Europa continental, dramaticamente reduzindo a contestação confessional no mercado religioso.

Figura 2. Distribuição geográfica das batalhas confessionais entre diferentes grupos religiosos e >43 mil julgamentos de bruxas e bruxos analisados no período de 1300-1850. Após um grande pico no período de Contra-Reforma, as atividades de julgamento retornaram aos níveis pré-1555 no início do século XVIII, quase desaparecendo. Ref.4

           Na ilha Britânica, conflitos ocorreram entre Anglicanos e Presbiterianos, ambas variedades do Protestantismo lutando pelo mercado religioso na Inglaterra e na Escócia. Nesses dois países, agressivas campanhas de caça às bruxas também foram promovidas. Na América do Norte, no final do século XVII, tivemos também os famosos julgamentos de Salem, em Massachusetts (3). Na colônia Britânica (EUA), havia intensa competição religiosa entre ministros Puritanos, com os julgamentos de bruxas e bruxas servindo de publicidade para a capacidade dos competidores de suprimir as alegadas ameaças satânicas. 

(3) Leitura recomendada:


   MULHERES E BRUXAS

          Mas se a caça às bruxas foi um efeito colateral de brigas religiosas entre Católicos e Protestantes, por que essa caça era tão enviesada contra mulheres? Nos séculos XVI e XVII, ao longo da Europa continental, ilhas Britânicas e Nova Inglaterra (EUA), 70 a 80% daqueles julgados por bruxaria eram do sexo feminino. Historicamente, esse viés é atribuído a questões misóginas - de fato, amplamente evidentes em textos demonológicos - e/ou fatores de crise econômica. Nesse último caso, é argumentado que muitos pedintes começaram a se proliferar nessa época, e aquelas pessoas com melhor status financeiro que recusavam doações colocavam a culpa de infortúnios em práticas maléficas de vingança. Mulheres seriam mais prováveis do que homens de acabarem pedindo esmola para sobreviver, especialmente à medida que envelheciam, e, portanto, acabavam sendo as principais suspeitas - pelo menos é o que a hipótese alega.

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> Uma das mais famosas e poderosas mulheres acusadas de bruxaria no início do século XVII: Qual é a verdade sobre Elizabeth Báthory, a "Condessa Sanguinária"?

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           Um recente estudo publicado no periódico Gender & History (Ref.8), trouxe uma nova hipótese para explicar - pelo menos parcialmente - esse viés, e com foco de análise no período inicial da Inglaterra Moderna. A hipótese é baseada em ideologias de gênero, especificamente na distribuição de serviços e profissões na época da caça às bruxas dependendo do gênero do indivíduo (homem ou mulher). A autora da hipótese, Dra. Phillippa Carter, uma historiadora da Universidade de Cambridge, investigou em específico os relatos de caso em um manuscrito pertencente ao médico e astrólogo Richard Napier (1559-1634) (Fig.3). Ao longo de uma carreira de quatro décadas, Napier ganhou notável reputação como um "médico do corpo e da alma" e manteve anotações sobre 1714 suspeitos de bruxaria. Muitos procuravam Napier com preocupações de terem sido enfeitiçados por um vizinho ou outra pessoa próxima na comunidade, buscando confirmação pelas estrelas ou amuletos para protegê-los do mal. De um total de 960 suspeitos bem caracterizados, 855 eram mulheres e apenas 105 eram homens.

Figura 3. Retrado de Richard Napier (1630), no Museu de Ashmolean, Iglaterra. 

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> A maioria dos acusadores também eram mulheres. De um total de 802 acusadores nos registros de Napier, 500 eram mulheres e 232 eram homens - e o gênero de 70 não pode ser identificado.

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           A maioria das ocupações (profissões, trabalho) dos acusados de bruxaria envolviam cuidado de enfermos e de crianças, preparação de alimentos, produção de laticínios (ex.: queijo e manteiga) ou cuidado dos animais de criação. Essas ocupações eram tipicamente preenchidas por mulheres; no Norte Europeu, atividades de ordenha e produção de laticínios eram consideradas trabalhos exclusivamente femininos. Nessa época, processos naturais de degradação e de putrefação, além de toxicidade em geral, eram vistos como formas de "corrupção", que poderiam ocorrer naturalmente mas também emergir como parte de uma feitiçaria.

             Nesse sentido, o trabalho das mulheres acabava se tornando a primeira linha de defesa contra a corrupção, e isso as colocavam em risco de serem tachadas como bruxas quando seus esforços falhavam. Se uma criança sob os cuidados de uma mulher ficava doente ou se a comida preparada por uma mulher de alguma forma estragasse, essas mulheres eram culpadas e podiam ser acusadas de bruxaria, de usar magia demoníaca para causar mal a outras pessoas. Em contraste, ocupações dos homens frequentemente envolviam trabalho com materiais resistentes ou inorgânicos, como ferro, fogo ou pedra (ex.: ferreiros), largamente imunes a "corrupções", previsíveis e pouco associados com enfermidades. E ferro e fogo eram usados para cauterizar feridas, purificar metais e limpar casas de pragas, ou seja, ligados a uma ideia de "anticorrupção".

             Além de lidar com materiais orgânicos imprevisíveis e volúveis, mulheres frequentemente trabalhavam em vários serviços, geralmente mantendo contato com vários membros da comunidade - passando por casas, padarias, poços, feiras - ao invés de ficarem fixas e "isoladas" em campos ou em oficinas. Cuidavam de crianças; compravam, preparavam, vendiam e entregavam alimentos envolvendo receptores e fornecedores diversos; tratavam inválidos; limpavam utensílios e roupas em grupo; entre outros. O intenso contato social e as atividades comunitárias aumentavam as chances das mulheres se envolverem em mal entendidos ou acidentes que frequentemente levantavam suspeitas de bruxaria. Várias acusações emergiam pelo simples fato do acusado estar presente no momento ou lugar de um infortúnio - em um mundo pré-científico onde correlação implicava em causação.

            Entre as acusações registradas nas anotações de Napier, 130 casos traziam maiores detalhes sobre o trabalho dos suspeitos. Seis tipos de trabalho eram mais comuns nessa lista estrita de casos: serviços alimentares, serviços de saúde, cuidado de crianças, tarefas domésticas, criação de animais, e produção de laticínios. Novamente, ocupações regularmente ou quase sempre exclusivas do domínio das mulheres.

             Laticínios eram simbolicamente ligados às mulheres ("produtoras de leite"). De 17 casos de laticínios estragados associados a práticas de bruxaria, 16 envolviam apenas mulheres. Vinte e cinco acusações eram resultantes de episódios agudos de mal-estar após alimentação. Curandeiras eram alvos frequentes de acusações nas comunidades (Fig.4). Por exemplo, um dos acusadores reclamou de "uma grande ferida nas suas partes privadas", alegando ter sido vítima dos feitiços de uma curandeira. 

Figura 4. Página do livro de anotações de Napier descrevendo o caso de uma mulher e do seu marido que suspeitavam de bruxaria praticada por uma curandeira [Reporte feito no dia 30 de abril de 1618]. Ref.9 

            E e em uma época de alta mortalidade infantil - onde 1 a cada 5 morriam antes do 1° aniversário -, a perda de uma criança para uma doença frequentemente motivava alegações de bruxaria - que muitas vezes recaíam nas 'enfermeiras' e cuidadoras. Pais e mães ficavam sempre muito apreensivos com a saúde de bebês e de crianças muito novas, e muito desconfiados de qualquer um "suspeito" próximo dos seus filhos. Voltando às anotações de Napier (lista completa), mais de 13% das acusações de bruxaria envolvia uma vítima com idade inferior a 12 anos. Problemas durante e após o parto também era um forte motivo para acusações (Fig.5).  

Figura 5. Página do livro de anotações de Napier descrevendo o caso de uma jovem mulher de 24 anos, Sybil Fisher, sofrendo problemas de saúde no pós-parto e que suspeitava de bruxaria feita por uma parteira [reporte feito no dia 1 de agosto de 1603]. Ref.9

          Perdas de caprinos e de gado eram também uma causa comum de acusação. Apenas um pouco mais da metade dos trabalhadores nessa área eram mulheres, e essa paridade espelhava os acusadores (28 homens e 28 mulheres) mas não os suspeitos (15 homens e 91 mulheres). Isso provavelmente era devido ao fato de que as mulheres cuidavam de enfermidades tanto em humanos quanto em outros animais. Se um animal adoecia de forma estranha, isso podia ser interpretado como abuso maléfico das habilidades de cura das mulheres.

Figura 6. Página do livro de anotações de Napier descrevendo o caso de um homem, o pastor John Johnson, de 58 anos de idade, acusando uma pastora de bruxaria. Ele descreveu inchaço nos joelhos, e problemas nas costas e na coxa, que o impediam de se levantar e dificultavam a movimentação, além de dores estomacais. Havia também perdido uma vaca. Apontou que a acusada (Agnes Watts) cuidou das suas ovelhas dois anos antes. [Reporte feito no dia 11 de julho de 1632]. Ref.9

           Aliás, enfermidades em humanos e outros animais causadas por doenças ou intoxicações alimentares frequentemente provocavam sintomas físicos e comportamentais que evocavam 'estranheza', como paralisias, tremores, instabilidades mentais, agonias e deficiências, alimentando a sugestão de forças sobrenaturais atuando sobre os indivíduos. 

            Médicos, cirurgiões e veterinários homens também cuidavam diretamente de doentes - e frequentemente perdiam os pacientes -, mas tipicamente essas figuras eram respeitadas. Porém, trabalhadores de saúde de menor reputação ou status - e tipicamente cargos ocupados e associados às mulheres - acabavam sendo culpados e eram alvos preferenciais de suspeitas de bruxaria como fator causal de mortes ou agravamento de quadros.

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          "Todo Halloween nós somos lembrados do estereótipo associando mulheres à bruxaria," disse a Dra. Carter em entrevista, comentando sobre o estudo (Ref.10). "Historicamente, os riscos intrínsecos ao 'trabalho das mulheres' pode explicar parcialmente essa associação."


   "BRUXAS" MODERNAS

          Além da Europa e da América do Norte, vários episódios de caça às bruxas também ocorreram em outras partes do mundo e ainda persistem em países diversos, especialmente aqueles subdesenvolvidos ou em desenvolvimento na África e na Ásia. Aliás, a crença em bruxaria ainda é muito presente e prevalente ao redor do mundo, inclusive aqui no Brasil (4). E as mulheres continuam sendo alvos preferenciais de acusações de bruxaria. 

(4) Leitura recomendada:

           Na Índia, a mais antiga evidência de caça às bruxas pode ser encontrada nos julgamentos de Santhal, em 1792 (Ref.11). A região de Chhotanagpur era majoritariamente populada pela população Adivasi, chamada de 'Santhals'. Bruxas e bruxos eram temidos e pensados de estarem engajados em atividades antissociais. Portanto, segundo os Adivasi, a cura para as doenças e outros infortúnios era a eliminação dessas pessoas que praticavam magia das trevas (Ref.11). No século XIX, cerca de mil mulheres foram assassinadas como bruxas nas planícies centrais do território Indiano (Ref.12). Ainda hoje na Índia, muitas pessoas, a maioria em vilas, acreditam que bruxaria e magia das trevas são efetivas. Enquanto pessoas podem buscar conselhos de médicos-bruxos para problemas de saúde, financeiros e conjugais, outras pessoas, especialmente mulheres, são acusadas de bruxaria e atacadas, ocasionalmente assassinadas. O forte sistema patriarcal e o sistema de castas na Índia fomentam forte violência contra mulheres de baixo status social, e aspectos negativos ligados a práticas de bruxaria são tipicamente associados às mulheres Dalit ou estas são tachadas de bruxas para justificar perseguições e ataques diversos (agressões sexuais, roubo de propriedade, banimentos e humilhações). A vasta maioria das mulheres Dalit na Índia são pobres, sem terras e sem acesso a serviços sociais e de saúde básicos.

Figura 7. Basanti, à esquerda, com seus filhos, foi acusada de bruxaria e sobreviveu a uma perseguição por moradores de uma vila, em Jalpiguri, Índia. Perseguições a bruxas são comuns e às vezes letais nas plantações de "chá" de Jalpaiguri. Em 2003, nessa região, cinco mulheres foram amarradas, torturadas e mortas após serem falsamente acusadas de bruxaria pela morte de um homem que sofreu de uma doença estomacal. Mulheres pobres e marginalizadas são frequentemente culpadas por doenças e outros infortúnios em áreas rurais da Índia, incluindo acusações de bruxaria. Ref.13-14

           Em comunidades rurais no Nepal, outro país no sul da Ásia, bruxaria é também uma crença comum e as pessoas acreditam que sua influência causa mortes prematuras, divórcios, desemprego, acidentes automobilísticos e desastres diversos, como inundações, secas, epidemias e terremotos (Ref.15). Mulheres são frequentemente tachadas como bruxas nessas regiões, comumente mulheres inocentes, idosas, extremamente pobres, viúvas e solteiras. Essas mulheres são vítimas de extrema violência e humilhações. Na linguagem Nepalesa, bruxas são chamadas de Boksi, e crenças populares alegam que essas bruxas aprendem feitiçaria com as mães e que essa "ocupação" é passada via hereditariedade.

           Exemplos atuais de crenças em bruxaria e forte viés dessas crenças contra mulheres suportam que, historicamente, violência e preconceito de gênero combinados com divisões de trabalho baseadas em ideologias de gênero são culpados pelas perseguições preferenciais de mulheres como bruxas ao longo da história e o persistente estereótipo associado, justificando termos populares como "caça às bruxas" e "dia das bruxas".


REFERÊNCIAS

  1. Durrant, J. (2021). A Witch-Hunting Magistrate? Brian Darcy and the St Osyth Witchcraft Cases of 1582*. The English Historical Review, Volume 136, Issue 578, February 2021, Pages 26–54. https://doi.org/10.1093/ehr/ceaa344 
  2. Zamora, N. S. (2022). <<You shall not suffer a witch to live>> (Exodus 22 :18). An Analysis on the Legality of the Witch-Hunts in 16 e 17 cenntury England and Scotland with a Gender Perspective. Universitat Pompeu Fabra, Barcelona; 217983.
  3. Willumsen, L. H. (2021). "A WITCHCRAFT TRIANGLE: Transmitting witchcraft ideas across early modern Europe". [Chapter 16] Folklore, Magic, and Witchcraft Cultural Exchanges from the Twelfth to Eighteenth Century.
  4. Leeson & Russ (2017). Witch Trials. The Economic Journal 128, 2066–2105. https://doi.org/10.1111/ecoj.12498
  5.  Barbosa, L. M. Ribeiro (2011). Estado e educação em Martinho Lutero: a origem do direito à educação. Cadernos de Pesquisa, 41(144). https://doi.org/10.1590/S0100-15742011000300012
  6. Whitney, E. (1995). The Witch “She”/The Historian “He”: Gender and the Historiography of the European Witch-Hunts. Journal of Women’s History, 7(3), 77–101. https://doi.org/10.1353/jowh.2010.0511
  7. https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9781315861234-17/discourse-damned-art-william-perkins
  8. Carter, P. (2023). Work, Gender and Witchcraft in Early Modern England. Gender & History. https://doi.org/10.1111/1468-0424.12717
  9. https://casebooks.lib.cam.ac.uk/
  10. https://www.cam.ac.uk/stories/witchcraft-work-women
  11. Mathur, Anirudh, Witch Trials (2022). http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.4281820
  12. Yadav, T. (2020). Witch Hunting: A Form of Violence against Dalit Women in India. CASTE: A Global Journal on Social Exclusion, Vol. 1, No.2, pp. 169-182. https://www.jstor.org/stable/48643572 
  13. https://msutoday.msu.edu/news/2012/witch-hunts-targeted-by-grassroots-women
  14. Chakravarty & Chaudhuri (2012). Strategic Framing Work(s): How Microcredit Loans Facilitate Anti-Witch-Hunt Movements. Mobilization: An International Quarterly, 17 (2): 175–194. https://doi.org/10.17813/maiq.17.2.f54x1h0622750028
  15. Gurung, R. K. (2016). Accusations of witchcraft in Nepal: Problems and impact on women. Asian Journal of Women’s Studies, 22(1), 65–74. https://doi.org/10.1080/12259276.2015.1133166