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Albinos na África: terror e medo


- Artigo atualizado no dia 7 de julho de 2020 -

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           O continente africano passou por traumáticos eventos durante os períodos de imperialismo europeu e tráfico de escravos, os quais abriram grandes feridas no seu território. Até hoje, a África, como um todo, está longe da recuperação e alcance de um estado razoável de desenvolvimento econômico e social, com diversos países sendo inundados pela corrupção, violência, miséria, doenças e fome. Dentro desse ambiente, a educação básica deixa muitas vezes de existir e a conscientização responsável torna-se ínfima, dando espaço para as desinformações, crendices, desespero e a ganância tomarem controle da alma da sociedade. E um dos frutos desse processo todo é algo difícil de ser concebido nos dias de hoje, mas, infelizmente, uma cruel e dolorosa realidade: a caça de albinos na busca dos seus ossos e partes corporais.

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   O QUE É O ALBINISMO?

          Albinismo é um problema de saúde onde o indivíduo nasce com um defeito na produção ou distribuição de melanina no corpo, muitas vezes devido à interferência no funcionamento da tirosinase, uma enzima organometálica (nesse caso, contendo cobre) que está envolvida com a síntese da molécula de melanina. Podendo afetar todos os animais vertebrados, o albinismo é caracterizado pela falta total ou parcial de melanina no organismo, com o potencial de atingir os pelos, pele e/ou íris dos olhos.

          Como a melanina é o pigmento no nosso corpo responsável por dar cor ao nosso cabelo, pele e íris dos olhos, os seguintes sintomas acabam sendo facilmente notáveis no albinismo:

- Inexistência de coloração no cabelo, pele ou íris dos olhos;
- Pele e cabelo mais claros do que o normal;
- Manchas na pele sem coloração;
- Alguns albinos podem ter os olhos de coloração roxa ou avermelhada, dependendo da quantidade de pigmentação na região. Isso acontece porque sem melanina suficiente para cobrir a íris, os vasos sanguíneos atrás dos olhos passam a ficar mais visíveis.

            As causas do albinismo são exclusivamente genéticas, sendo um dos mais raros problemas desse tipo dentro da população global. Sua ocorrência é dada quando um de vários defeitos genéticos fazem o corpo ser incapaz de produzir ou distribuir bem a melanina pelo corpo. Esses defeitos genéticos podem ocorrer como uma falha aleatória ou serem passados através dos pais. Nesse último caso, bem mais comum, o problema se manifesta a partir de uma expressão recessiva de genes alelos, onde é necessário que ambos os pais os tenham.

Criança negra com albinismo do tipo AOC

            Os genes carregam a informação que faz você um indivíduo. Nós temos duas cópias de cromossomos autossômicos e genes: um ganho do seu pai, e o outro ganho da sua mãe. O albinismo, quando hereditário, é um "traço recessivo", o que significa que uma pessoa pode carregar o "traço" genético do albinismo sem manifestar os sintomas. Para o problema ocorrer, é necessário que ambos os traços estejam juntos no código genético. Por isso os pais podem ter um filho albino mesmo não possuindo albinismo, mas possuindo cada um deles o 'traço'. Quando nenhum dos pais possui o problema, mas carregam o defeito genético, existe 1 em 4 chances do bebê gerado manifestar o albinismo.

            A forma mais severa de albinismo é chamada de ´albinismo oculocutâneo´ (AOC). Pessoas afetados por esse tipo têm cabelos, pele e íris dos olhos brancos ou rosas. Outro tipo de albinismo é chamado 'albinismo ocular tipo 1' (AO1), sendo que este afeta somente os olhos, e geralmente a cor dos cabelos e da íris são normais. Porém, um exame irá mostrar que não existe coloração na retina (ou seja, uma exceção no espectro normal do albinismo).

            Por causa da falta de melanina, vários problemas de saúde acabam surgindo com facilidade ou estão associados. No albinismo oculocutâneo, problemas de visão sempre vêm acompanhados. No geral, podemos ter:

- Esotropia (estrabismo onde um ou ambos os olhos ficam apontados na direção do nariz);
- Sensibilidade à luz;
- Movimentos rápidos dos olhos;
- Problemas de visão, ou cegueira funcional;
- Maior vulnerabilidade aos danos causados pela radiação solar na pele, aumentando os riscos de desenvolvimento de câncer nesse órgão;

            Além disso, temos um tipo de albinismo chamado de Síndrome Hermansky-Pudlak (SHP), causado pela mudança de um único gene. Essa síndrome pode ocorrer junto a um problema de sangramento, e também concomitante com doenças pulmonares e intestinais.

             Para tratar os sintomas, dependendo do grau de gravidade do problema, podem estar envolvidos:

- Redução da exposição solar, para minimizar os danos tragos pela radiação ultravioleta (UV);
- Uso de óculos com proteção UV para diminuir os danos oculares;
- Uso de protetores solares com um alto fator de proteção;
- Pode ser recomendado o uso de óculos para corrigir problemas de visão e cirurgias para tratar outros problemas oculares associados.

            No geral, se tirarmos os problemas oculares e epiteliais da análise, assim como o SHP, os indivíduos com albinismo mostram uma saúde e capacidade física/intelectual igual aos outros indivíduos sem o problema.

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   TERROR NA ÁFRICA

            A República do Malawi, também conhecida como Malaui, é um país da África Oriental que sofre com a pobreza, corrupção e com as tumultuosas relações internacionais. Mas, além disso tudo, uma terrível prática acontece no seu território: a caça de albinos por partes dos seus corpos. Rituais de feitiçaria usam ossos de albinos para criar amuletos que prometem sorte, riqueza e proteção contra 'pessoas más'. Cabelos e unhas de pessoas com albinismo são usados para medicamentos tradicionais diversos. Os ataques aos albinos para esses fins hediondos envolvem mutilação, profunda violência e graves danos corporais. Além disso, até as covas onde albinos são enterrados acabam sendo alvos dos criminosos. Mulheres albinas também são mortas para impedir a geração de outros albinos, tidos  frequentemente como amaldiçoados.            
        


Na imagem, um menino albino em Malawi que teve sua mão direita e braço esquerdo decepados para serem vendidos.


         E esse terror está longe de parar apenas na República do Malawi. De acordo com o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), foram reportados 134 assassinatos de albinos nos últimos anos em 25 países da África até 2015. A Tanzânia enfrenta um problema ainda maior do que a República do Malawi, onde foram reportados 151 ataques a indivíduos albinos entre os anos de 2000 e 2015, dos quais 74 casos foram fatais. Já em março de 2018, a organização não-governamental Canadense Under de Same Sun (UTSS) documentou 204 mortes reportadas e 354 ataques (total de 558) em 29 países Africanos nos últimos 10 anos (Ref.20). Daqueles que sobreviveram aos ataques, a maioria ficou traumatizada e frequentemente mutilados. Segundo reforçou a UTSS, abduções e roubo de ossos em túmulos continuam sendo cada vez mais comuns. E antes concentrados mais na África Central, esses ataques começaram a se disseminar cada vez mais para o Sul Africano nos últimos anos (Ref.21).

          O mais grave é que esses números são provavelmente muito subestimados em relação ao contexto de extrema e explícita violência e abusos nessas regiões, a qual prevalece principalmente em regiões rurais e poucos policiadas. Existem também o grande medo de reportar os atos de violência, corrupção nas investigações policiais, despreparo da formação de policiais, uma falta de vontade dos setores governamentais internos de investigarem os ataques, e uma limitada capacidade de monitorar as violações. Além disso, muitos rituais de feitiçaria são realizados em áreas rurais e de forma secreta, frequentemente nem levantando suspeitas das autoridades.        
             
   
 

          Aliás, em 2016, a ONU emitiu um alerta afirmando que 10 mil albinos em Malawi estavam sob ameaça de morte. Desde novembro de 2014 até 2016, 19 albinos foram mortos e houve mais de 100 casos reportados de desaparecimento ou tentativa de sequestro. Na Tanzânia, são cerca de 30 mil albinos, os quais também vivem sob constante medo. 

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"Milhares de albinos não mais são capazes de se mover nas ruas e estradas com medo dos caçadores... provavelmente a grande maioria da população total de albinos... não são mais capazes de se deslocarem livremente para trabalhar, estudar ou cultivar em campos de plantação... suas vidas estão a um fio."

- Federação Internacional da Cruz Vermelha e das Sociedades do Vermelho Crescente, 2009, pp. 5-6.
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          Apesar do albinismo poder afetar qualquer comunidade, independentemente da religião ou tradições cotidianas - por causa da sua origem genética - muitos no continente africano, especialmente na África Sub-ariana, realmente acreditam que os ossos ou partes sem pigmentação dos albinos traz sorte, riqueza e saúde, e pagam muito por elas. Um esqueleto completo de um albino chega a valer 75 mil dólares na Tanzânia, uma verdadeira fortuna nesse país. Essas terríveis crenças são alimentadas pela pobreza nesses países - onde muitos criminosos ajudam a fomentar as crenças e superstições para conseguir uma boa fonte de renda - e falta do conhecimento científico do porquê da existência de albinos dentro da população africana, algo que fortalece o aspecto sobrenatural em torno do problema. Muitos curandeiros também usam as partes corporais dos albinos para sua "medicina", no mínimo, demoníaca. Familiares chegam a sequestrar e vender seus parentes albinos, e até bebês albinos são mortos.

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"Ser hipervisível em um contexto onde a maioria não entende o albinismo mas acredita em superstições negativas sobre a condição causou grande ansiedade na minha mente. [...] nunca nos meus mais profundos medos eu imaginei que as coisas poderiam se tornar piores. Que uma escala quase pan-Africana de violência seria deflagrada contra pessoas com albinismo."

- Ikponwosa Ero, uma pessoa com albinismo citado pelas Nações Unidas em um painel sobre Direitos Humanos (International Bar Association, 2017, p.7)
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        Fomenta essa caça o fato de muito mais crenças negativas do que positivas estarem associadas às pessoas albinas. Na Tanzânia, o albinismo é visto como resultado de uma maldição, ou como um presságio de desastre. Na Namíbia, pessoas com albinismo são consideradas como canibais e contagiosos. Pessoas albinas são também vistas como 'fantasmas' ou 'demônios', e cujo sacrifício agrada aos Deuses. Mesmo algumas poucas crenças 'positivas' acabam expondo os indivíduos com albinismo à exploração e à violência, como acreditar que eles possuem poderes especiais capazes de predizer o futuro. Em Zimbabwe, assim como em outros países na região, acredita-se que ter sexo com indivíduos com albinismo traz a cura do HIV/AIDS, fomentando violentos estupros (Ref.23). Mães são frequentemente culpadas pela condição de albinismo no filho/a (por exemplo, como fruto de um relacionamento com um homem branco, ou a vingança dos seus ancestrais). Nesse sentido, muitas mães são abandonadas, deixadas para criarem sozinhas a criança. Existe também um mito bastante disseminado sobre a morte de pessoas albinas:

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"Quando eu era mais jovem, me disseram que eu não iria morrer. Eles disseram que eu ia desaparecer porque pessoas como eu... não são como outras pessoas e não morrem. Eu passei toda a minha infância esperando desaparecer."  

- Peter Ogik, citado pelas Nações Unidas, International Bar Association, 2017, p.17
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           No caso das crianças albinas - as quais compreendem dois terços dos assassinatos documentados e quase todos os ataques de mutilação desde 2011 - temos relatos como: 

- Uma mulher albina de 28 anos de idade, Mariamu, que foi traída por um vizinho e perdeu ambos os braços e seu bebê [acreditando ser um albino também] ainda não-nascido em um ataque;

- O bebê Yohana que foi levado enquanto os atacantes cortavam o rosto da sua mãe; o corpo desmembrado do bebê foi encontrado dois dias depois;

- Pendo, um albino de 15 anos de idade, foi atacado por três homens com machetes enquanto estava comendo com sua família e perdeu seu braço direito.

          Nos países da África Sub-Sariana, as crianças com albinismo são vistas como "outros", com o contexto de extrema violência tornando esses indivíduos e suas famílias sempre vigilantes e em estado de tensão. As crianças são os principais alvos de mutilação e de assassinato, em parte e em alguns casos, porque acredita-se que a potência do feitiço é aumentada tanto pela inocência da criança e se a vítima grita muito durante a amputação. Essas tradições e superstições malignas são potencializadas pela pobreza extrema da região Sub-Sariana, onde muitos veem um lucro fácil e alto na venda de partes do corpo de albinos visando medicinas tradicionais e rituais de feitiçaria. Mesmo membros familiares estão muitas vezes associados com o rapto e com os ataques de parentes com albinos.

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"Eu estava fora uma noite procurando algo para comer quando eu fui cercado por um grupo de homens... Eles queriam cortar minha cabeça para realizar feitiçaria... Eu acredito que meu primo era um daqueles homens, apesar dele negar até hoje e nunca foi investigado [pela polícia]."

- Merumba,2017.
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           Além da barbárica e desumana caça, os albinos também sofrem grande preconceito e desrespeito dentro desses países, o que dificulta ainda mais ações que visam protegê-los. No geral, eles são vistos como indivíduos amaldiçoados, principalmente por causa do contraste da suas cores super pálidas com a dos seus pais, geralmente, negros e com pele bem escura.  Como a educação é muito falha nesses países, poucos sabem que a condição do albinismo é causada por fatores biológicos e que eles são tão normais quanto qualquer um dentro das comunidades. Mesmo entre os albinos, são poucos os que sabem da origem biológica da sua falta de pigmentação. Mulheres que dão a luz à bebês albinos também costumam ser perseguidas e mulheres albinas são constantemente vítimas de pesada violência sexual.


Uma garota negra albina vítima de um curandeiro que arrancou o seu braço para usá-lo em suas medicinas repulsivas; infelizmente, ela é uma das poucas que escapam com vida de tais ataques


         Além das mutilações e assassinatos, outras formas de violência física e não-física são ainda mais comuns, como a raspagem humilhante de cabelos das crianças com albinismo e os ataques verbais e exclusão social praticados contra esses indivíduos.Termos ofensivos como isishawa (uma palavra Zulu para uma pessoa amaldiçoada), inkawu (uma palavra Nguni para "babuíno branco"), Bature Ntuda (na Nigéria, significando "homem branco falso"), e gomblé ou gombolé ("macaco vermelho") são comuns. Grande parte das crianças mesmo em escolas não sabem o porquê da pele em seus corpos ser pálida, e com muitas acreditando que uma "camada negra externa" da pele foi arrancada de alguma forma ou que o branqueamento foi resultado de feitiçaria. 

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"Minha infância é uma história muito triste... Antes de mim, meus pais tiveram outro bebê com albinismo. Eles viam o bebê como uma maldição, e frequentemente se recusavam a alimentá-lo. Acabou morrendo de fome. Quando eu nasci em seguida, minha mãe se recusou a me amamentar. Nos seus olhos, eu era uma criatura e uma maldição: não humano."

- Merumba, 2017.
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     ALBINISMO NA ÁFRICA

             No mundo todo é estimado que existam cerca de 1 albino para cada 17 mil habitantes. Porém, na África sub-Sariana, o número de albinos é relativamente bastante elevado.

           Os albinos perseguidos na África são aqueles que carregam o tipo OCA (Albinismo Oculocutâneo), onde a pele, olhos e cabelos são atingidos por uma significativa redução ou total falta de melanina. Vários genes são associados com a manifestação do OCA, apesar das formas OCA1 e OCA2 serem as mais comuns - entre 5 tipos no total. O OCA1 é causada pela redução ou completa falta de atividade da tirosinase, enzima codificada pelo gene TYR. Já o OCA2 é causado por uma redução ou completa falta de atividade da proteína P - um canal de íons cloreto que ajuda a regular o pH da organela melanossoma, onde a tirosinase está ativa.

            Apesar do AOC2 ser encontrado em todas as populações, algumas delas possuem uma relativa alta incidência do problema. No mundo, a incidência do AOC2 é próximo de 1 em cada 36 mil pessoas, mas é especialmente comum em indivíduos de origem africana. Altas taxas de AOC2 são vistas entre várias tribos e países na África: 1 em cada 1100 em Ibo, na Nigéria; 1 em cada 7900 entre os Bamilekes, em Camarão; 1 em cada 3900 na África do Sul; e 1 em cada 1400 na Tanzânia; 1 em cada 1760 na Namíbia; 1 em cada 1950 em Swaziland: 1 em cada 4720 na Zimbabué (1 em 4720) e 1 em 1307 na Botswana. Dezenas de milhares de pessoas com albinismo são estimadas existirem na África sub-Saariana. Mas no geral, a prevalência de albinismo varia muito ao longo da África, indo próximo de 1 em cada 1 mil habitantes até 1 em cada 15 mil.

          A principal mutação genética entre os AOC2 na Tanzânia é uma deleção específica do exon 7 do gene ligado à AOC2, respondendo por 77% dos alelos mutantes, e parece ter sido derivada de um ancestral africano que viveu entre 2000 e 5000 anos atrás.


Existe uma grande prevalência de albinismo na África, por mais contra intuitivo que isso possa parecer

         Enfim, existem duas recentes possíveis explicações para essa alta incidência do AOC2 nas comunidades africanas (Ref.3):

1. Lepra: Na África, encontramos uma alta prevalência histórica também de lepra (também conhecida como Hanseníase), uma doença que atinge o sistema nervoso, pele e mucosas das vias aéreas superiores, e sendo causada pela bactéria Mycobacterum leprae. Interessantemente, a M. leprae possui um gene, 38L, de função desconhecida que divide uma significativa sequência homóloga com um gene relacionado com o AOC2, sendo especulado que o mesmo estaria associado com a manifestação da hipopigmentação (redução na pigmentação). Portanto, uma pessoa portando o traço genético do albinismo tipo AOC2, mas sem manifestar o problema (heterozigoto), pode ganhar alguma proteção contra a lepra, onde mutações envolvendo sequências genéticas parecidas entre o indivíduo e a bactéria podem conferir ao primeiro algum tipo de resistência.

2. Tuberculose: Seguindo o mesmo raciocínio anterior, na África sub-Sariana, é alta também a prevalência de tuberculose, sendo que a sua bactéria causadora, a Mycobacterium tuberculosis, contém um gene - relacionado com um proteína transportadora de arsênio na membrana plasmática - que é também similar à sequências genéticas presentes na AOC2. Portanto, de alguma forma, pessoas portadoras do traço genético do AOC2, mesmo sem manifestar o albinismo, também podem ganhar alguma resistência a essa doença.

          Em ambas as hipóteses acima, as quais podem se complementar ou não, o processo evolutivo teria selecionado mais as pessoas com as proteções genéticas contra a tuberculose e a lepra, levando a um maior número de pessoas com os genes relacionados com o albinismo e maior chance de uma pai e uma mãe os terem e gerarem um filho albino. Fatores de proteção contra a lepra parecem ser os mais prováveis de estarem relacionados à grande presença do albinismo em vários países africanos.

         Por causa dessa alta prevalência de albinos na África, aliado às crenças infundadas, esse grupo de indivíduos acaba tendo bastante exposição dentro da sociedade africana e alvos mais fáceis dos criminosos em várias regiões.

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      CÂNCER DE PELE: MAIS UM INIMIGO

            Alguns grupos humanitários estimam que cerca de 90% dos albinos com câncer de pele morram da doença em países africanos. Apesar de todo câncer de pele ser tratável em seu início de desenvolvimento, muitos indivíduos albinos na África não conseguem um tratamento a tempo ou não são conscientizados a fazê-lo. E como grande parte do território africano é inundado de radiação solar e considerando o fato que existam dezenas de milhares de albinos no continente, a questão se torna um grave problema de saúde pública que se soma à caça e ao preconceito.

            Negros albinos na África sub-Sariana possuem um risco estimado 1000 vezes superior de desenvolver células escamosas de carcinoma - ligadas ao câncer de pele - do que outros indivíduos negros onde vivem. Uma das funções da melanina é em proteger as células epiteliais dos danos causados pelo UV na radiação solar, e sua deficiência ou falta aumenta bastante os riscos de ocorrerem danos graves no material genético - como no gene de supressão-tumoral p53 - que resultem no surgimento de um câncer. Além disso, outros danos inflamatórios gerados pelo UV geram grande quantidade de espécies reativas oxigenadas (O que são os radicais livres?), as quais também contribuem para danos no DNA. Os negros com albinismo são particularmente vulneráveis, onde o câncer se desenvolve de maneira agressiva e geralmente de forma recorrente, já que a alta quantidade de melanina entre os negros não-albinos impediu que outros sistemas de proteção fossem desenvolvidos com maior robustez.



 
            E como em boa parte da África a educação e conscientização da população é precária, muitos desconhecem medidas de proteção básica que precisam ser adotadas pelos albinos. Uso de protetores solares, roupas de manga comprida, grandes chapéus e óculos de proteção contra o UV são essenciais em ambientes com possível exposição solar. Além disso, as pessoas com albinismo precisam ficar mais atentas com sintomas iniciais de um câncer na pele, para buscarem tratamento médico o mais rápido possível. Mas a realidade é outra: em média, os negros albinos demoram entre 9 e 12 meses para procurarem um tratamento após notarem anormalidades na pele.

             Porém, tais medidas não dependem muitas vezes das campanhas de conscientização ou maior nível educacional. Em países tão pobres como a Tanzânia, onde cerca de 80% da população vive com menos de $1,5 por dia, fica difícil comprar bons protetores solares que chegam a custar de $15 a $20. O mesmo pode ser dito da dificuldade em se conseguir um atendimento médico. Além disso, é estimado que cerca de 40% dos albinos negros com câncer de pele que conseguem iniciar um tratamento médico acabam desistindo de completá-lo ou devido aos custos ou por causa da distância que precisam viajar para alcançarem os centros de saúde (escassos em grande parte da África, especialmente nas zonas rurais).

             Outro grave problema é o terrível estigma que persegue os albinos na África. Muitos pais, pensando que seu filho albino foi amaldiçoado, acabam o abandonando pelas ruas. Sem recursos ou mesmo vestimentas mínimas, os albinos abandonados ou são mortos por caçadores ou ficam sob grande exposição solar, danificando gravemente a pele. Ainda existem os pais que forçam seus filhos albinos a ficarem expostos no Sol para que eles adquiram alguma coloração e deixem de chamar tanto a atenção ou os "envergonhem" menos. Suas peles, dessa forma, sofrem queimaduras que as deixam um pouco mais escuras, algo que alegra os pais irresponsáveis mas que impõe sérios riscos de desenvolvimento de câncer de pele.

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     O QUE ESTÁ SENDO FEITO?

             Para tentar resolver a trágica situação, diversas campanhas de organizações internacionais de direitos humanos se empenham em conscientizar as pessoas e pressionar os governos a adotarem medidas que ajudem a aumentar a segurança para a comunidade albina. A ONU também declarou o dia 13 de Junho como o Dia Internacional da Consciência Albina para ajudar na causa.

           Em Janeiro de 2015, a Tanzânia, por exemplo, baniu curandeiros e prendeu mais de 200 praticantes de medicina tradicional que cometeram crimes contra albinos. Somando-se a isso, 17 pessoas foram condenadas à pena de morte nesse ano por terem matado albinos. Em Malawi, o presidente Peter Mutharika anunciou, em Março de de 2015, um plano para aumentar o alerta das forças de segurança no país para os crimes praticados contra albinos e também reforçar as punições legais contra os criminosos. Ele também direcionou o Ministro de Assuntos Internos, o inspetor geral de polícia e todos os escritórios de segurança a "fornecer o máximo de proteção aos nossos irmãos e irmãs com albinismo".

            Porém, os esforços ainda não estão surtindo o efeito esperado. Assim como acontece com a caça pelo marfim dos elefantes e chifres dos rinocerontes, o alto valor de mercado pelas partes corpóreas dos albinos acaba encorajando criminosos de todas as partes. Em Malawi, a Associação de Pessoas com Albinismo reportou que os casos de ataques a albinos aumentaram a partir de 2016, e países onde o problema é bem menos intenso, como Burundi, Moçambique e Zâmbia, também tiveram mais denúncias de tais atos, segundo a UTSS.


Em Segerema,  na Tanzânia, a cerca de 60 km de Mwanza, um monumento foi erguido no meio da cidade. É uma estátua de metal, em tamanho realista, retratando um pai negro (pigmentado) segurando seu filho com albinismo sobre os seus ombros, enquanto a mãe negra, também pigmentada, coloca um chapéu de proteção por cima da sua cabeça para protegê-lo do Sol. O objetivo da obra é em ajudar a combater o preconceito contra os albinos no país

            Outro problema é que as campanhas governamentais nesses países, como na Tanzânia, tendem a focar nas áreas urbanas, sendo que nas regiões rurais é onde os albinos enfrentam os maiores riscos. Esse foco acaba sendo moldado pelo pouco poder financeiro disponível para alcançar vilas e comunidades rurais.

          Para proteger seus filhos, muitos pais que ignoram as crenças perdem grande parte do dia de trabalho para vigiar ou escoltar suas crianças para a escola, prejudicando todo o grupo familiar. Outros tiram a criança da escola para melhor protegê-la. Existem reportes de crianças escondidas em casa, mandadas para escolas e campos especiais em regiões distantes, busca de asilo em estações de polícia ou envio dos filhos para parentes em partes mais seguras do país. E a tensa vigilância não termina na morte: 

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"Meu pai gastou várias noites dormindo no túmulo da minha irmã. Ele queria garantir que ninguém viria levar seu corpo porque as pessoas acham que ganham poderes das partes corporais de pessoas com albinismo."

- Peter Ogik, citado pelas Nações Unidas, International Bar Association, 2017, p.46.
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          Aliás, a resposta inicial do governo da Tanzânia a esses ataques e violência contra crianças com albinismo incluiu justamente um política de movê-las das suas famílias para campos e escolas especiais para protegê-las. Porém, essa segregação forçada, apesar de resultar em menos ataques, veio com um preço: maior pobreza para essas crianças, superpopulações nesses centros, suporte inadequado de habitação e incidências de abusos infantis. Algumas famílias inclusive abandonaram suas crianças nesses campos.

         Nesse sentido, em meio às ineficientes estratégias de apoio governamental, guias específicos de segurança têm sido produzidos para pessoas com albinismo em vários países Africanos, incluindo os conselhos de: sempre estar vigilantes tanto para estranhos quanto para familiares, não viajar sozinho, variar o tempo de viagem, e não aceitar caronas. E, contrário aos conselhos tradicionais de segurança, pessoas com albinismo são aconselhadas a lutar e a gritar durante uma tentativa de abdução para aumentar suas chances de sobrevivência. Piora a situação o fato de que a maioria das pessoas com albinismo nessas situações não possuírem emprego, devido ao forte preconceito e dificuldade de escolarização. Muitas vezes professores nas escolas são preconceituosos, e acabam fomentando mitos ao invés de esclarecê-los com o ensino de ciência básica e genética. Por isso um dos principais alvos de conscientização das organizações internacionais de direitos humanos é a melhor instrução dos profissionais de educação na África Sub-Sariana, especialmente porque eles são pessoas muito influentes e respeitadas nas comunidades.

             Se as pessoas nos países africanos afetados soubessem que seus ancestrais já carregavam os genes relacionados com o albinismo, assim como muitas pessoas atualmente o carregam, talvez o preconceito contra os albinos diminuiriam e as crenças seriam enfraquecidas. Na Tanzânia, por exemplo, cerca de 1 em cada 19 pessoas carregam tais mutações. Em outras palavras, são altas as chances de muitos dos próprios caçadores criminosos carregarem os genes relacionados ao albinismo. A maior proteção proteção policial precisa também estar unida com uma maior educação básica para a população, tanto nas escolas quanto para o público geral.


O ativista albino Alfred Kapole tem esperança de que a próxima geração de albinos terá um futuro mais seguro na África

             Em relação ao câncer de pele, alguns governos no continente começaram a prestar mais atenção ao problema. Em 2015, o governo no Quênia se comprometeu a investir cerca de $1,5 milhões para providenciar produtos de proteção solar para mais de 3 mil pessoas com albinismo e uma companhia em Senegal já produziu 5 mil protetores solares com preço acessível a serem distribuídos.

            Mas não basta apenas a distribuição ou disponibilidade de mais produtos de proteção solar. Muitos albinos acreditam que remédios tradicionais de curandeiros já são o suficiente para se protegerem do Sol - misturas de extratos de óleo e outras partes de plantas - ou tratarem cânceres de pele em progressão. Ou seja, voltamos ao problema da educação e combate às desinformações/crenças.

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     TRISTE E DESAFIADORA REALIDADE

            Acumulando problemas de saúde, forte preconceito e sangrenta perseguição, os albinos na África acabam enfrentando degradantes pressões psicológicas e grandes desafios sociais. Esses indivíduos tendem a se auto marginalizar da sociedade para serem menos notados, ter um estado emocional instável e desenvolverem personalidades menos assertivas. E mesmo tendo amigos próximos, os albinos africanos, no geral, se sentem rejeitados e mal vistos pela sociedade como um todo.

           Esses prejuízos fazem os indivíduos albinos abandonarem cedo a escola, terem dificuldade em formarem uma família e terem poucas oportunidades de emprego. E aqueles empregos mais disponíveis e menos valorizados que sobram, geralmente envolvem o trabalho pesado no campo e sob forte exposição solar, o que facilita ainda mais os danos na pele.      

            Depois de conhecer esses horrores, alimentados apenas por crenças infundadas e puro preconceito, fica quase impossível acreditar que qualquer tipo de política irá salvar os rinocerontes (Rinocerontes no precipício da extinção) e elefantes (Marfim e o massacre dos elefantes), ambos na mesma situação (marfim e chifres usados para a medicina alternativa sem valia, especialmente chinesa). Sem nem mesmo humanos têm suas vidas minimamente respeitadas, imagine outros animais.

            Os Artigos 2 e 3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, afirma que todas as pessoas têm direitos iguais, protegendo-as de quaisquer ameaças sociais derivadas de questões ligadas à cor da pele, etnia e outras características físicas gerais. Infelizmente, boa parte da nossa sociedade ainda está travada no título da declaração e não consegue avançar a leitura.

           É realmente difícil tentar digerir o mundo...

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IMPORTANTE: Dentro da comunidade de indivíduos com albinismo, existe um contínuo debate sobre o uso do termo 'albino', com muitas pessoas preferindo o termo 'pessoa com albinismo', dando ênfase ao indivíduo humano (pessoa) antes da condição. No artigo, ambos os termos foram utilizados para facilitar a leitura.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://medlineplus.gov/ency/article/001479.htm 
  2. http://ijmas.com/upcomingissue/09.01.2016.pdf 
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0306987712004264 
  4. https://academic.oup.com/inthealth/article/7/4/223/2458905/Albinism-in-Africa-a-medical-and-social-emergency 
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