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Existe suporte científico e histórico para o unguento de voo das bruxas?

          A teoria demoníaca da doença foi motivo de caça a diversos homens e mulheres, entre eles: médicos, bruxas, pagãos, feiticeiros, xamãs, curandeiros, boticários e outros personagens históricos que trabalhavam com plantas e ervas consideradas de origem maligna pelo Cristianismo. Algumas plantas classificadas como psicoativas (enteógenas) estavam nesta lista de repreensões e ganharam má fama por serem vinculadas ao aspecto negativo das religiões como demoníacas, a doença ou o mal. Nesse contexto, as plantas passaram a ser consideradas como do bem ou do mal a depender de como o movimento de cristianização empunhava sua doutrina ortodoxa (Ref.1).

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Enteógenos são substâncias psicoativas que induzem alterações na percepção, humor, consciência, cognição ou comportamento para os propósitos de desenvolvimento espiritual ou atividades em contextos sagrados. Em termos arqueológicos, enteógenos eram substâncias usadas para propósitos religiosos, mágicos, xamânicos ou espirituais em várias culturas e partes do mundo.
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          Os alegados cultos praticados por bruxas e charlatãs, na Europa da Idade Média e do Renascimento, estavam intimamente ligados, em especial, ao consumo de 3 ervas da família Solanaceae: beladona (Atropa belladonna), meimendro/belenho (Hyosciamus niger) e mandrágora (Mandragora officinarum). Outras plantas historicamente menos usadas e reconhecidas pelo público, mas associadas às bruxas e à prática de feitiçaria, eram as espécies Datura stramonium, Hyosciamus albus, e Scopolia carniolica.

- Beladona: O nome do gênero dessa planta (Atropa) é derivado de Átropos, uma das 3 parcas da mitologia grega, a inflexível, cuja função era  cortar a corda ou o fio da vida. Essas parcas também eram ligadas a profecias e adivinhações. Já o termo belladona tem origem da prática comum entre as mulheres Italianas da Idade Média de pingarem nos olhos o sumo espremido das bagas pretas da planta para provocar a dilatação das pupilas (algo considerado um sinal de beleza na época). Nesse sentido, belladona (e o nome popular beladona) significa "belas mulheres". Na mitologia Grega, as mênades "com seus olhos de fogo" se entregavam aos adoradores do deus Dionísio (Baco na mitologia Romana), nas orgias, para depois despedaçá-los e comê-los. É provável que ao vinho dos bacanais fosse adicionado sumo de beladona. Representada por apenas uma espécie na Europa e particularmente reconhecida pelos seus belos frutos, seu alcance natural se estende por todo o continente Europeu, e foi também introduzida na América do Norte.

- Mandrágora:  Não apenas a espécie M. officinarum, mas também a espécie M. autumnalis, foram amplamente populares ao longo da história, sendo inclusive a Solanacea mais descrita pelos botânicos da Renascença. Com ampla distribuição na Europa, a popularidade desse gênero de planta foi o resultado da aura mística que a cercava na mente de vários ao longo dos séculos, provavelmente por causa do típico formato antropomórfico da sua raiz inspirando a imaginação das pessoas e fomentando vários mitos e rituais. A coleta da mandrágora era envolta de mistérios e crenças. Segundo a lenda, a mandrágora crescia perto dos patíbulos sobre a baba dos enforcados. Uma das crenças alegava que a planta emitia gritos quando era arrancada da terra, e era capaz de enlouquecer quem a arrancasse. Uma das maneiras de obtê-la era prender a raiz na coleira de um cão faminto e açoitar o animal. Este, ao tentar a fuga, arrancava a raiz e caía morto. Apesar de mais valiosa, a mandrágora era frequentemente substituída em rituais pela beladona, esta a qual era mais comum e mais fácil de ser obtida.

- Meimendro: Originalmente encontrada apenas na Península Balcânica, a H. niger se espalhou através da Europa já a partir da Idade do Ferro, e agora é encontrada ao redor do mundo crescendo como erva daninha em solos perturbados e áreas de lixão. É alegado que plantas do gênero Hyoscyamus eram queimadas e que a fumaça inalada levava as profetizas do Oráculo de Delfos a entrarem em transe, momento quando as profecias eram produzidas.  

            Essas ervas - popularmente conhecidas como "plantas de feitiçaria" -  possuem um espectro de compostos bioativos similares e, além de alegadamente entrarem em rituais de bruxaria visando profecias e adivinhações, a narrativa conta que essas três solenáceas eram usadas para a preparação de unguentos com os quais as bruxas se untavam e eram capazes de fazê-las "voarem". O unguento em específico associado a uma "fórmula de voo" era passado em certas partes do corpo, principalmente as mais cabeludas, e esfregado sobre o cabo de uma vassoura, e esta colocada entre as pernas das bruxas como se fosse um instrumento de voo (em contato com as mucosas vaginal e anal o unguento seria absorvido mais rapidamente pelo organismo). Aqui entrariam os efeitos psicoativos das misturas de ervas.

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            Os efeitos alucinantes e a sensação de voar causados por essas ervas podem ser plausivelmente explicados pela presença dos alcaloides tropânicos escopolamina, atropina e hiosciamina no "unguento do voo". A atropina é o principal componente da A. belladona. Aliás, as plantas solenáceas são a única fonte de alcaloides escopolamina e hiosciamina, assim como da mistura racêmica dos enantiômeros L e R desse último, a mencionada atropina. Esses alcaloides possuem efeitos psicoativos alucinógenos - bloqueando ação colinérgica no sistema nervoso central e periférico através de efeitos sobre receptores muscarinas (!) -, caracterizados por um estado de embriaguez, seguido de um sono profundo acompanhado de amnésia. Causam também delírios e provavelmente a sensação de levitação, fato que talvez explicasse as viagens pelos céus que podem ter sido reportadas por "bruxas" (pessoas diversas usando essas plantas de forma recreativa ou em contextos ritualísticos).  

 

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(!)  O extrato de beladona quando pingado no olho causa midríase (dilatação da pupila). A moda dos colírios de beladona usados para dilatar as pupilas marcou em especial a cidade de Veneza, no século XVI. A atropina exerce efeito em neurônios parassimpáticos da íris. Normalmente, esses neurônios liberam acetilcolina no músculo esfíncter da íris, ativando receptores muscarínicos que fazem a musculatura contrair, contraindo também a pupila. Essa reação pode ser bloqueada via aplicação de um antagonista muscarínico, como a atropina. Atropina é usada até hoje na oftalmologia para dilatar a pupila de pacientes para uma melhor visualização da retina. Ref.9
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           A crença de que as plantas da família Solanaceae e seus efeitos intoxicantes eram usados por bruxas para criar unguentos no intuito de ajudá-las a voar para Sabás - ou Sabbaths, reunião de bruxas para o encontro com o demônio - ou transformá-las em animais existe desde pelo menos o século XIV. Essa crença foi amplamente disseminada na Europa, e especialmente prevalente entre os povos Eslávicos do Sul. Porém, esse tipo de crença nunca foi unânime ao longo da história e é controversa entre os historiadores (Ref.3-4). Várias pessoas acreditavam que os tais unguentos de feitiçaria eram meios fraudulentos para enganar os outros (Ref.3). Alguns historiadores consideram esses unguentos como meras fantasias ou como um tipo de estratégia usada pela Igreja Católica e eventualmente pelos Protestantes/seculares para perseguir indivíduos diversos (Ref.4).

          Muitos acusados de bruxaria na Idade Média admitiam que produziam unguentos de voo, porém o faziam sob tortura, o que pode caracterizar as confissões como tentativas desesperadas de escapar da dor. Essas confissões (e os questionamentos levando a elas) eram também enviesadas pela visão Cristã na época obcecada com bruxas e adoração ao demônio, significando que mesmo aqueles indivíduos usando unguentos podem ter confessado usá-los de forma ou com fins destoantes da realidade, ou incluído mais ingredientes repugnantes no sentido de fazer os interrogadores acreditarem em suas palavras (existe evidência histórica nesse último ponto) (Ref.3).

          É difícil encontrar prova histórica e/ou arqueológica para o uso de unguento para rituais e feitiçarias usadas por alegadas bruxas. Identificação de plantas a partir de livros antigos é frequentemente difícil e informação antes do século XIV sobre o tópico era amplamente não registrada, já  que aqueles usando tais unguentos teriam sido pobres e analfabetos. Além disso, a Igreja também classificou os alucinógenos como heréticos e por um bom período de tempo procurou suprimir o conhecimento sobre o uso dessas substâncias. Além disso, mesmo com o uso de tortura, poucos transcritos de tribunais de bruxas mencionavam ingredientes botânicos nos alegados unguentos de voo, apenas referenciando que essas preparações eram malignas e fornecidas pelo demônio.

           De qualquer forma, unguentos e outras preparações baseadas em plantas da família Solanacea, especialmente os gêneros Hyoscyamus, Mandragora e Atropa, têm sido usados desde a Grécia Antiga, para fins desde recreativos e medicinais até para assassinatos. É sugerido inclusive que, já na Antiguidade, o vinho (e possivelmente outras bebidas alcoólicas) era misturado com extratos dessas plantas para compensar a diluição excessiva dessa bebida; o gênero Hyoscyamus era usado amplamente na Europa para reforçar os efeitos psicoativos da cerveja e, na região Balcânica, para fortalecer o vinho (junto com a A. belladonna). E essa tradição de fortificar bebidas alcoólicas com essas plantas é ainda observada em menor extensão nos dias de hoje (Ref.5). Os gêneros Atropa e Hyoscyamus provavelmente representaram o intoxicante das pessoas mais humildes que não conseguiam pagar pelo preço de prazeres mais custosos. E como eram tóxicas, existem registros de vários casos de severa intoxicação entre indivíduos usando essas plantas para fins recreativos.

           Registros como o Papiro de Ebers com escrita hieroglífica, deixado pelos antigos egípcios, indicam que a Hyosciamus niger - popularmente conhecida como meimendro ou belenho - era usada em poções medicamentosas cerca de 1500 anos a.C para aliviar a dor e induzir estado de total inconsciência. Na Grécia, o belenho era utilizado nas manifestações de loucura, para proferir adivinhações e em envenenamentos. 

          Aliás, tanto a H. niger quanto a A. belladonna foram usadas como letais armas de assassinato desde a Antiguidade. Na Europa Antiga, a beladona era o veneno de escolha para táticas militares e para assassinatos diversos no Império Romano. Os Escoceses usaram essa planta ao redor do ano de 1000 d.C. para envenenar pães e vinhos antes de enviá-los para o exército Dinamarquês (Viking) invasor, levando à vitória que mais tarde seria imortalizada na obra Macbeth, de Shakespeare. Beladona e meimendro são apontados como a causa de vários assassinatos entre a elite da sociedade Francesa durante a década de 1670.

           Talvez o uso mais estranho do meimendro como ferramenta de guerra foi feito pelos Vikings, para produzir a famosa raiva e loucura que caracterizava o "modo Berserker" entre os guerreiros de elite na sociedade Nórdica (!).

(!) Leitura recomendada: Vikings: A Era Subestimada da Sociedade Nórdica

          Nos banquetes da nobreza Europeia do século XV, beladona e meimendro eram adicionados secretamente na bebida de uma pessoa alvo e, então, os comportamentos estranhos do indivíduo intoxicado viravam motivo de divertimento e de zoação entre os convidados.

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          Na medicina, o uso era extenso, mas o talvez o mais notável era a "esponja soporífica", uma esponja que era impregnada com uma mistura de Hyoscyamus, Mandragora, Solanum nigrum L., Papaver somniferum L., e Cicuta virosa L. A esponja impregnada era então segurada contra o rosto de um paciente para colocá-lo para dormir antes de uma cirurgia. Com o uso crescente de preparações a base de ópio para esse fim no século XI, no entanto, o uso da mistura a base de solenáceas passou a declinar devido aos seus perigosos efeitos colaterais. A escopolamina e a atropina dessas plantas, porém, continuam sendo usadas nos anestésicos modernos, sendo especialmente úteis na redução de secreções salivares e bronquiais.

          Relevante mencionar que aos frutos da mandrágora, também chamados de maçã do amor, creditava-se a fecundidade. A ideia de que a mandrágora tornava fecundas as mulheres estéreis se espalhou de tal forma, que os charlatães da Idade Média procuravam preparar qualquer coisa para uso das supersticiosas.

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> Ainda hoje, beladona é usada em remédios fitoterápicos tradicionais e preparações homeopáticas, com um número de casos de severa intoxicação acidental, em especial a síndrome central anticolinérgica (Ref.6).
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           No contexto de amplo uso dessas plantas no período medieval, e espectro de efeitos intoxicantes e psicoativos, é provável que associação com magia e 'coisas demoníacas' começou a ficar cada vez mais forte, unindo isso com a obsessão da Igreja em perseguir o demônio e bruxarias. Nesse sentido, muitos usando essas plantas de forma medicinal, recreativa ou mesmo para assassinatos eram classificados e condenados como bruxas - e naturalmente fomentando várias lendas e mitos, como talvez o caso dos "unguentos de voo".

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 Válido mencionar que a família Solanacea engloba também muitos cultivares importantes para a alimentação humana, como a batata e o tomate. Apenas uma parcela dessa família é constituída de plantas ricas em alcaloides que as tornam muito venenosas, incluindo um pequeno subgrupo tóxico e também alucinogênico (explorado neste artigo). Hoje o uso recreativo das "plantas de feitiçaria" para efeitos psicoativos é raro, provavelmente devido à disponibilidade e amplo conhecimento de outras drogas muito menos tóxicas para o mesmo fim (Ref.7).  
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Leitura recomendadaUso recreativo de Trombeta de Anjo é seguro?


REFERÊNCIAS
  1. Bittencourt, Miguel Colaço (2016). REIA- Revista de Estudos e Investigações Antropológicas, ano 3, volume 3(2):162-197.
  2. Sabrina T. Martinez, Márcia R. Almeida, Angelo C. Pinto. Beladona, Meimendro e Mandrágora: As 3 Ervas das Bruxas da Idade Média. Universidade Federal do Rio de Janeiro. https://i-flora.iq.ufrj.br/hist_interessantes/ervas_bruxas.pdf
  3. Fatur, K. (2020). “Hexing Herbs” in Ethnobotanical Perspective: A Historical Review of the Uses of Anticholinergic Solanaceae Plants in Europe. Economic Botany. https://doi.org/10.1007/s12231-020-09498-w
  4. The Pomegranate 22.2 (2020) 259–261. https://doi.org/10.1558/pome.20502
  5. Fatur et al. (2022). Pipes and Potions: Testing the Efficacy of European Folk Preparation Methods for Anticholinergic Solanaceae Plants. Plants, 11(1), 126. https://doi.org/10.3390/plants11010126
  6. Berdai et al. (2012). Atropa Belladonna intoxication: a case report. Pan African Medical Journal, 11:72.  http://www.panafrican-med-journal.com/content/article/11/72/full/ 
  7. Fatur & Kreft (2021). Nixing the nightshades: Traditional knowledge of intoxicating members of the Solanaceae among hallucinogenic plant and mushroom users in Slovenia. PLoS ONE 16(2): e0247688. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0247688
  8. Martinez et al. (2009). Alucinógenos naturais: um voo da Europa Medieval ao Brasil. Química Nova, 32 (9). https://doi.org/10.1590/S0100-40422009000900047
  9. https://www.sciencedirect.com/topics/neuroscience/atropa-belladonna