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Guerra na Ucrânia abre perigoso novo e forte argumento de apoio à nuclearização militar


Talvez a crise e atual status de guerra no leste Europeu, nas fronteiras e território Ucranianos, tenha seu exato início com a transferência em 1954 da Crimeia pela República Federal Socialista Russa para a República Federal Socialista Ucraniana com o objetivo de comemorar o aniversário de 300 anos da unificação Ucrânia-Rússia. Como essas duas repúblicas estavam dentro da União Soviética, o evento foi essencialmente simbólico. Porém, com o colapso em 1991 da União Soviética, a nova e independente Ucrânia tornou o presente geoestratégico em significativo ressentimento por parte da nova Rússia. 

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Por outro lado, assim como a Rússia não é mais URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a Ucrânia também não o é. A Crimeia foi um acordo dentro da URSS.

Independentemente disso, tensões foram amenizadas porque a partir de 1991, a Ucrânia passou a ser governada por um líder pró-Russo, Viktor Yanukovyc, cujas ambições estiveram alinhadas com os interesses Russos. A situação bruscamente mudou com a 'Revolução da Dignidade', popularmente conhecida como a 'Revolução Maidan', onde uma série de protestos emergiram ao longo do país durante 2013-2014, seguindo a recusa de Yanukovyc de se juntar politicamente com um acordo de livre comércio com a União Europeia (algo que beneficiaria muito a economia e a população Ucranianas). Nisso, o governo pró-Russo caiu, e foi substituído na vontade popular por um governo pró-Ocidental, liderado por Volodymyr Zelensky, atual presidente da Ucrânia.

Seguindo esses eventos, a Rússia ocupou e anexou a Crimeia, em 18 de março de 2014, deflagrando condenação internacional e deterioração da relação bilateral Ucraniana-Russa. Um interminável conflito civil - com separatistas apoiados pela Rússia - teve início em duas regiões no leste da Ucrânia (Donetsk e Luhansk; ou região de Donbas).

A nova e tensa situação se agravou com a crescente proximidade da Ucrânia com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), engatilhando no governo Russo o anseio por uma nova Cortina de Ferro no leste Europeu para defender/fortalecer seus territórios, valiosas reservas de recursos naturais e potenciais novos territórios sob forte influência Russa (ex.: Belarus) ou compartilhando forte raiz histórica com os Russos (ex.: Ucrânia). Essa tensão culminou, ao longo de 8 anos, no atual cenário de guerra declarada pela Rússia contra a Ucrânia, após relativo súbito avanço de >150 mil tropas e pesado armamento e veículos militares nas fronteiras Ucranianas; ofensiva militar por parte dos Russos seguiu o reconhecimento unilateral pelo governo Russo da independência de Donbas sob liderança dos separatistas pró-Rússia.

Em discurso televisivo pré-invasão, o presidente Russo, Vladmir Putin, afirmou que iria "desmilitarizar e desnazificar" a Ucrânia, deixando também claro que não reconhece o território Ucraniano como algo separado da Rússia. O governo Ucraniano tem pedido ajuda de outros países e prometeu resistir ao "avanço imperialista". A Organização das Nações Unidas (ONU), novamente, se mostra impotente.

Mísseis balísticos e de cruzeiro foram disparados em várias bases militares Ucranianas, acompanhando bombardeio em várias importantes cidades, incluindo a capital Kiev. Tropas Russas se movem para áreas ao Norte de Kiev e de múltiplos pontos nas fronteiras, e ataques avançam não apenas da Rússia (e Crimeia), mas também de Belarus. A invasão é por terra, mar e ar, em massiva escala.

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E um discurso televisivo dado hoje pelo Putin trouxe talvez a mais perigosa mensagem em meio ao conflito. Alertando contra interferência externa no seu avanço sobre a Ucrânia, Putin lembrou que a Rússia "permanece um dos mais poderosos estados nucleares" e com "uma certa vantagem em várias armas avançadas" (Ref.4).

Segundo estima cientistas do Bulletin (Ref.5), a Rússia hoje possui aproximadamente 4477 ogivas nucleares, incluindo 1588 ogivas estratégicas empregadas em mísseis balísticos e pesadas bases de bombardeiro. De acordo com o Ministério de Defesa da Rússia, cerca de 89,1% das armas nucleares do país estão modernizadas. Uma corrida armamentista nessa área tem sido fortemente fomentada nos últimos anos, e acompanhada por outros países como China e EUA.

Para agravar a situação, temos outro ponto importante na história da Ucrânia. Em 1991, como herança Soviética, os Ucranianos tinham sob controle o terceiro maior estoque de armas nucleares no mundo: ~5 mil armas nucleares, incluindo mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) com 10 ogivas nucleares de alta potência (1). Em meio ao contexto do Acordo de Não-Proliferação Nuclear, mas relutante no início, a Ucrânia concordou em entregar todo o seu estoque nuclear para a Rússia em troca de garantia internacional de segurança no sentido de preservar sua soberania (via Protocolo de Lisboa, assinado em 1992). Assim, em 5 de dezembro de 1994, líderes dos EUA, Reino Unido e da Federação Russa se encontraram em Budapeste, Hungria, para a assinatura do assim chamado Memorando de Budapeste, concluindo o acordo de transferência das armas nucleares e garantindo (pelo menos no papel) a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras Ucranianas (Ref.). Mesmo assim, internamente, houve contínuo medo na Ucrânia de que a Rússia um dia poderia aproveitar do novo status desnuclearizado e invadir.

De fato, isso ocorreu.

Esse cenário traz um forte novo argumento para várias nações ao redor do mundo fomentar, reiniciar ou iniciar programas nucleares para fins militares, potencialmente criando um ambiente futuro muito instável e perigoso. Isso é especialmente válido para países em zonas de disputa territorial com potências nucleares. Bolhas de tensão nuclear como aquela envolvendo a Índia, Paquistão e China em torno do território de Kashmir podem ficar cada vez mais comuns (2). Ficou escancarado que tratados assinados de desnuclearização não valem mais do que folhas de papel rabiscadas com tinta. Nos últimos três anos, o Relógio do Apocalipse persiste marcando 100 segundos para a meia-noite, o mais próximo que já esteve na história do "apocalipse" (3). Os ponteiros estão a ponto de se movimentarem de novo.  

> Para mais informações:


REFERÊNCIAS

  1. Hunter, Robert (2022). The Ukraine Crisis: Why and What Now? Global Politics and Strategy, Volume 64, Pages 7-28. https://doi.org/10.1080/00396338.2022.2032953 
  2. Chowdhury, Abhiroop (2022). Why Russia is so eager to control Ukraine? JGU Digital Archive (Jindal Global University). http://dspace.jgu.edu.in:8080/jspui/handle/10739/5424
  3. https://www.bbc.com/news/live/world-europe-60454795
  4. https://www.nytimes.com/live/2022/02/24/world/russia-attacks-ukraine#putin-nuclear-war-ukraine
  5. https://thebulletin.org/premium/2022-02/nuclear-notebook-how-many-nuclear-weapons-does-russia-have-in-2022/
  6. https://thebulletin.org/2022/02/in-a-historic-moment-the-west-cannot-look-away-from-ukraine/
  7. https://www.belfercenter.org/publication/budapest-memorandum-25-between-past-and-future