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Drogas e Mal de Parkinson: Hitler foi moldado por esses males?


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        Adolf Hitler (1889-1945), sem sombra de dúvidas, é um dos líderes de maior destaque na história da humanidade e um dos mais mencionados na cultura popular. Sob a sua liderança, o regime nazista - motivado por uma ideologia racista - foi o responsável por um dos maiores genocídios já registrados, o qual culminou na morte de pelo menos 6 milhões de judeus e milhões de outras pessoas que Hitler e seus seguidores consideravam inferiores. Além disso, os Nazistas foram também responsáveis pela morte de mais de 19,3 milhões de civis e prisioneiros de guerra. Apesar das atrocidades na Segunda Guerra Mundial - que se estendeu de 1939 até 1945, marcando cerca de 50 milhões a 85 milhões de mortes, maioria civis na União Soviética e China - terem sido cometidas de todos os lados, seja por parte dos Aliados seja por parte do Eixo, os líderes Nazistas, com a sua campanha de ódio racial e eventual derrota, ganharam, merecidamente, o maior peso negativo dessa terrível guerra.



         E entre os inúmeros pontos explorados por historiadores e pesquisadores diversos sobre esse sangrento período da história humana, um dos mais polêmicos e pesquisados refere-se à saúde física e mental do grande ditador Nazista. A revelação de documentos dos diários secretos do médico particular de Hitler, Theodor Gilbert Morell, entrevistas de sobreviventes próximos ao ditador e a recente publicação do livro Blitzed jogaram fogo nessas discussões, as quais englobam o abuso de drogas no Terceiro Reich e problemas neurodegenerativos do líder Nazista. Será que esses problemas podem ter sido fatores de grande importância nas decisões tomadas por Hitler durante o percurso da Segunda Guerra Mundial? Qual era a gravidade e forma desse alegado abuso de drogas?



 
   HITLER E O PARKINSONISMO

          Ao longo dos anos, diversas opiniões médicas e trabalhos investigativos surgiram a respeito do quadro de saúde de Hitler, com resultados variados indicando problemas como síndrome do intestino irritável, lesões cutâneas, disritmia cardíaca, doença da artéria coronária, sífilis, transtorno de personalidade limítrofe, vício em anfetaminas e, o mais importante, o parkinsonismo, este o qual é que mais chama o interesse dos historiadores médicos, ou, como apontam muitos autores, o próprio Mal de Parkinson. De fato, as evidências indicam que sintomas ligados ao Parkinson primeiro floresceram no Hitler em 1933.


          Em 1992, Abraham Lieberman escreveu um clássico artigo titulado de 'Adolf Hitler tinha Parkinsonismo pós-encefalítico', o qual foi publicado no periódico 'Parkinson´s Disease & Related Disorders', com base em análises de registros históricos diversos. Porém, o trabalho do pesquisador não foi conclusivo, especialmente por causa da escassez de boas referências confiáveis e inexistência de uma autópsia no cérebro do líder nazista. Os restos mortais de Hitler foram destruídos pelo seu leal exército minutos depois dele ter cometido suicídio em 30 de abril de 1945, e somente pate da sua mandíbula inferior pôde ser recuperada. De qualquer forma, Lieberman declarou em seu artigo que a doença tinha iniciado em 1933-1934 quando Hitler estava com cerca de 45 anos de idade, seus mais próximos associados estavam cientes do fato, e que, apesar dos seus médicos saberem que ele possuía um tremor na parte esquerda do corpo, ninguém diagnosticou o quadro como a doença de Parkinson.



          É dito também que Lindin, o oftalmologista de Hitler, primeiro diagnosticou a condição e Max de Crinis - um membro do Partido Nazista, um professor de psiquiatria e um especialista médico do Programa de Eutanásia da Ação T4 -, informou o fato a Heinrich Himmler, o comandante militar de maior confiança do Hitler, um dos homens mais poderosos da Alemanha Nazista e um dos principais responsáveis diretos pelo Holocausto. Inicialmente, parece que os sintomas de tremor eram intermitentes e que o líder Nazista costumava escondê-los colocando sua mão esquerda no seu bolso ou segurando algum objeto, como, por exemplo, uma bengala. À medida que a alegada doença avançava, Hitler passou a fazer menos e menos aparições públicas e só permitia ser fotografado de ângulos que não revelassem sua tremida mão esquerda. Nesse sentido, ele talvez quisesse manter seu mal o mais secreto possível, para não mostrar qualquer sinal de fraqueza ao povo alemão, e seus sintomas não eram mencionados nem para os seus companheiros e subordinados mais próximos, com exceção de Albert Speer, o Ministro de Armamento da Alemanha Nazista. Até mesmo seus biógrafos pouco mencionaram algo a respeito.


           A visão geral era que o Parkinsonismo de Hitler veio à luz pela primeira vez em 1945, quando um documentário tinha sido contrabandeado - fugindo da vigilância Alemã. O vídeo mostrava Hitler andando devagar e com um balançar diminuído na mão esquerda, sugerindo bradicinesia, junto com um rosto mascarado, postura travada e um certo tremor. Outras fontes que davam pistas da sua doença incluíam fotografias, testemunhos, prescrições médicas, e sua escrita de mão se degradando cada vez mais.


         Pelas evidências fica claro que Hitler dificilmente usava sua mão esquerda em ocasiões como a entrega de discursos para o público, conversas com seus oficiais em momentos de tranquilidade, ou fazendo caminhadas de forma isolada. Voltando ao trabalho de Lieberman, existia a suspeita de que o Parkinsonismo envolvido era de natureza pós-encefalítica, apesar de outros especialistas rejeitarem essa opinião e defenderem uma natureza idiopática do problema (sem causa conhecida). Para exemplificar, é relatado que Hitler sofria de crises oculogíricas, como reportado por E. Kaladier, o então Primeiro Ministro da França. Durante um encontro em Munique, em 1938, Kaladier viu "os entorpecidos olhos azuis de Hitler com uma dura tensão e súbita virada para cima." Além disso, parece existir suficientes evidências de que o líder Nazista demonstrava características de palilalia. Para exemplificar, B. Dahlerus, um empresário sueco, veio a ter contato próximo com Hitler em 1939 e observou: "Subitamente, Hitler parou e encarou o espaço vazio. Sua voz se tornou menos sólida e seu comportamento inteiro pareceu bem anormal. Suas falas eram 'Se existe uma guerra, eu construirei submarinos! Submarinos! Submarinos!... Eu construirei aviões! Aviões! Aviões!... Eu construirei aviões! Aviões! Aviões!' " Apesar disso, o próprio Lieberman deixa claro que isso poderia ser algo da habilidade oratória e retórica natural de Hitler, apesar de estranho.


          Para completar o quadro do seu suposto Parkinsonismo pós-encefalítico, existem também evidências de que Hitler sofria de disfunções autonômicas. Ele não dormia bem, suava excessivamente e tomava vários banhos por dia, e frequentemente tinha distensões e constipações abdominais. Seus problemas para dormir ele desenvolveu durante a Primeira Guerra Mundial, apesar de existirem suspeitas de que isso era devido ao consumo de metanfetamina (isso será discutido mais à frente). Somando-se a isso, Hitler tendia a perder seu temperamento para qualquer pequena provocação, algo noticiado após 1918 e com os padrões de ataques de fúria similares àqueles descritos no Parkinsonismo pós-encefalítico.

         Se essa forma da doença realmente estava afetando o Hitler, será ela a responsável pelas mudanças de personalidade observadas no líder Nazista? No trabalho de Abraham Liebermann, ele comenta: "Desconfiança dos outros entrou na rotina de vida do Hitler. Indivíduos com transtorno de personalidade limítrofe consideram-se pessoas especialmente privilegiadas, egoístas e narcisistas; eles frequentemente demonstram uma contradição em relação a um inflado conceito deles mesmos. Pacientes exibem traços de personalidade dramaticamente opostos: eles são cruéis e amáveis, sentimentais e rígidos, criativos e destrutivos."




         Interessantemente, Hitler, que era cruel e severo com os Judeus, era também extremamente amável com as crianças e com os animais. É relatado que ele teve grande dificuldade em atirar no seu cão de estimação antes de cometer suicídio. Várias autoridades sentiam que essa dicotomia em seu comportamento era um indicativo de transtorno de personalidade limítrofe. Mais tarde em vida, Hitler desenvolveu uma perversa desconfiança em relação aos seus mais próximos associados e é sugerido que o Parkinsonismo o tornou impulsivo, o que pode tê-lo levado a compulsivamente invadir a União Soviética de forma mal-calculada e na época errada.

         Porém, de acordo com outros especialistas, como o professor de psiquiatria Nassir Ghaemi, Hitler parecia ter sofrido de uma doença bipolar. Ghaemi escreveu que Hitler tinha episódios distintivamente maníacos e depressivos ao longo da sua vida e que, August Kubizek, seu mais próximo amigo da juventude adulta, descreveu fases de depressão nele através das suas memórias. Kubizek relatou que durante tais períodos Hitler era inacessível, não-comunicativo e distante, e que frequentemente ele vagava em algum lugar, sem sentido e sozinho, por dias e noites. No final, uma combinação de doença bipolar e uso de anfetaminas podem ter pintado um cenário de declínio mental de Hitler nos seus últimos anos de vida.

         De qualquer forma, quando Hitler perdeu a guerra, seu suposto Parkinsonismo - ou Mal de Parkinson - estava provavelmente no estágio 2 ou 3, o que limitou sua mobilidade. Sua assinatura ao longo do tempo - entre 1919-1945 - mostrou um gradual declínio ao ponto de ilegibilidade, com o último exemplo sendo datado de apenas 1 dias antes dele cometer suicídio.

         Apesar das evidências sugerirem que os sintomas de Parkinsonismo estavam se agravando de forma progressiva, durante várias semanas após a famosa tentativa de assassinato do Hitler em 20 de julho de 1944 - na qual a explosão de uma bomba foi levada adiante por Claus Schenk Graf von Stauffenberg da resistência Alemã -, e onde Hitler sofreu apenas pequenos ferimentos (incluindo a ruptura da membrana timpânica), seus tremores melhoraram. Dr. Morell até mesmo usou esse estranho fenômeno para explicar que os tremores eram psicogênicos, mas a real razão para essa transitória melhora ainda permanece um mistério.

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   HITLER E AS DROGAS

          Durante a Segunda Guerra Mundial, no Wehrmacht Alemão, metanfetamina era indiscriminadamente distribuída entre as tropas. Anfetaminas eram consideradas poderosas drogas que reduziam a fatiga, aumentavam o comportamento agressivo e diminuíam a empatia humana, promovendo condutas desumanas e violentas questionáveis. Eram vistas como o "Soro do Super Soldado", mas que não se importavam com o bom coração do Steve Rogers.

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          Oficiais Nazistas utilizavam drogas de alta-performance, como hidroocloreto de metanfetamina (crystal meth) e cocaína. Unidades militares Alemãs e aviadores frequentemente usavam Pervitin para melhorar a eficiência operacional. E drogas como a Pervitin e estimulantes metabólicos eram testados em estudantes, recrutas militares e, eventualmente, em campos de concentração. Ainda existem muitas dúvidas sobre o assunto, precisamente em como as drogas eram testadas, prescritas, distribuídas e usados entre os combatentes Alemães. E, Hitler, apesar da imagem de vegetariano e não-fumante, também pareceu ter se tornado cada vez mais dependente de vitaminas, dessas drogas e de diversas outras substâncias de suplementação.

          Quando documentos dos diários secretos do médico particular de Hitler, Theodor Gilbert Morell, vieram à tona, algo se projetou: o líder Nazista parecia estar mergulhado na influência de várias drogas. Basicamente, tudo indica que o corpo de Hitler era uma verdadeira câmara de pílulas. Ele estava usando 28 diferentes medicamentos - além de outras dezenas de suplementos - e tomava 20 injeções por dia! Dr. Morell dava ao seu paciente múltiplas injeções de atropina, cafeína, estricnina, testosterona, estradiol, corticosteroides, metanfetamina e cocaína, frequentemente em combinações, para criar uma versão "estimulada" dele mesmo. Cocaína tópica, glicose, numerosas vitaminas e 'tônicos' complementavam a festa. Esse bizarro protocolo médico teria sido usado para incendiar seus discursos e aumentar sua imponência frente aos oficiais. Para acalmar o 'monstro' Nazista, mais injeções eram dadas, com barbitrutatos, eukodol (oxicodona) e morfina, ou, caso contrário, dormir se tornava impossível. E esse ciclo de 'estimulação-pacificação' parece ter se mantido por um bom tempo. O que é incerto é se Hitler cegamente aceitava esse tratamento não-ortodoxo ou se o demandava.


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   DOENÇAS E DROGAS MOLDARAM AS AÇÕES DE HITLER?

         Parkinson/Parkinsonismo, ansiedade, insônia, possível colapso nervoso e neuropatia autonômica, possível pequeno infarto do miocárdio em julho de 1941, dor crônica, progressiva piora de julgamento e habilidades sociais sugerindo disfunções cognitivas, exacerbados ou em parte causados pelo abuso de drogas, podem ter acompanhado a trajetória de Hitler e corrompido suas ações. Porém, alguns especialistas discordam desse cenário, taxando-o apenas como uma busca de justificativa para as ações falhas e/ou cruéis do líder Nazista, diminuindo-as e relativizando-as.

        Na obra 'Was Hitler Ill? A Final Diagnosis', desenvolvida por Hans-Joachim Neumann e Henrik  Eberle, os autores afirmam que a "guerra não foi travada e os Judeus exterminados porque Hitler era doente, mas porque a maioiria dos Alemães compartilhavam suas convicções, fizeram dele o Führer e seguiram ele." Bem, não fica claro se os autores estariam corroborando o ponto de vista de Daniel Goldhagen ao generalizarem o comprometimento Alemão com a "exterminação anti-semitista", mas, de qualquer forma, deixam claro que repudiam a ideia de um Hitler "manipulado pelas drogas e problemas de saúde".

         Em uma linha contrária, segundo conjectura Norman Ohler, autor de um famoso livro sobre abuso de estimulantes e cultura das drogas no Terceiro Reich, algumas decisões de Hitler foram feitas sob efeito de cocaína e outras fortes drogas, culminando em prejuízos estratégicos - como a Operação Barbarossa contra a União Soviética, Dunkirk e a Crimea - e outros impactantes desvios de conduta. O livro, titulado ´Blitzed´, e o qual já é um best-seller, se baseia em arquivos históricos encontrados por Ohler em Berlim, incluindo os diários de Morell. E Ian Kershaw, historiador britânico considerado uma das maiores autoridades em Alemanha Nazista, chegou a elogiar a obra, apesar de Kershaw ser enfático ao dizer que jogar a culpa das ações de Hitler nas drogas e doenças é minimizar erroneamente os complexos desenvolvimentos que levaram ao massacre em massa de Judeus durante a Segunda Guerra Mundial e ao percurso geral dessa guerra.




         E Ohler vai além, ao desmerecer o papel do Parkinsonismo/Parkinson nos sintomas expressos por Hitler, ligando-os às drogas em abuso, e dizer que o sucesso militar inicial do Terceiro Reich foi fomentado pelas drogas, mas que essas mesmas drogas com o crescente consumo e efeitos colaterais adversos o conduziram ao declínio. Críticos argumentam que isso é ignorar demais diversos pontos da campanha política e militar Nazista, como a expansão territorial (espaço vital), Holocausto e anti-Semitismo. Além disso, Ohler estaria ignorando que os norte-americanos e os britânicos também conduziram pesados programas de anfetaminas com o objetivo militar de estimular os soldados

         Existe também especulações de que quando Hitler foi vítima de um ataque de gás mostarda em 14 de outubro de 1918, enquanto servia como um mensageiro para a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, ele acabou passando por mudanças psicológicas ao longo de um breve tratamento em um hospital de Pasewalk, cerca de 150 km ao norte de Berlim. Hitler teria recebido cuidados no departamento de neurologia e psiquiatria, e ele relata que chegou a experienciar um período de cegueira (apesar disso poder sido um exagero). Traumas físicos ou uma hipnótica terapia que ele supostamente enfrentou para curar sua cegueira histérica teriam sido fortes fatores para uma "mudança de personalidade". Nos últimos dias da Primeira Guerra Mundial, é alegado que Hitler teria desenvolvido uma personalidade carismática de liderança e um fervoroso anti-Semitismo, supostamente demonstrando características que ele nunca teve antes.

         Porém, essa última especulação é bastante criticada, já que as evidências são escassas e fracas, especialmente se tratando do suposto tratamento hipnótico de sucesso oferecido por Edmund Forster onde teria sido sugerido a Hitler que ele era uma espécie de 'Jesus ou Mohammed' destinado a trazer glória à derrotada Alemanha, para que sua cegueira histérica fosse curada com a força de vontade em acreditar que ele era uma pessoa extraordinária.

        Somando-se a isso, temos algumas fortes inconsistências. Ok, considerando o progresso do provável Parkinsonismo, em 1940 Hitler significativamente encurtou suas aparições públicas para apenas 7 discursos nesse ano e apenas para ocasiões militares especiais. Sua visibilidade pública se tornou ainda mais aparente ao decorrer de 1943, onde apenas 2 discursos públicos e delegando outros para cobrirem os eventos restantes. Bem, após a tentativa de assassinato em julho de 1944 ele sumiu das vistas do público. E aqui fica a questão: estaria sua doença o afastando do público e do seu tão poderoso e cativante discurso às massas, prejudicando o avanço militar da Alemanha Nazista? Isso é sugestivo, mas não teria sido mais óbvio voltar para as transmissões de rádio caso o contato direto com as massas era o empecilho? Ao invés disso, nos últimos anos da sua vida ele deu apenas 5 discursos no rádio. Poderia ser a preocupação cada vez maior com os esforços de guerra o real motivo desses sumiços? Aliás, Hitler chegou a assegurar para Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda, que ele retornaria a encarar o público após um sucesso militar, o que reforça um medo da reação negativa do povo Alemão em vista das sucessivas derrotas militares do país caminhando para o fim da guerra.

         Outro ponto a ser lembrado era que Hitler estava ficando preocupado com a sua própria mortalidade e que talvez nem tivesse conhecimento de alguma doença neurodegenerativa. Após seu 50° aniversário, em 1939, é relatado que Hitler fazia questão de dizer que cada ano que se passava o lembrava que a velhice e debilidades logo chegariam, e que temia não conseguir alcançar o sonho Alemão ainda em vida. "Em poucos anos, eu estarei fisicamente, e, talvez, mentalmente não mais apto para o cargo." Seria, por exemplo, a apressada invasão da União Soviética, em 1941 - enquanto travava uma disputa com a Inglaterra -, e a errada escolha de suspender ações no crucial ponto de cerco no norte da França em 1940, uma impulsividade e uma grave indecisão, respectivamente, causados por uma doença cerebral e abuso de drogas, ou simplesmente uma pressa ciente e fomentada pelo medo da mortalidade ou mesmo uma aposta militar fracassada?

         Próximo do final da guerra, após uma série de derrotas militares, incluindo a Batalha do Bulge, no Fronte Ocidental, e o firme avanço dos Soviéticos pelo Leste, Hitler se encontrou com os líderes regionais do Partido Nazista em Fevereiro de 1945. Nos 6 meses de isolação até esse momento, a aparência de Hitler era de alguém que tinha envelhecido várias décadas. Em preparação para o encontro, Goebbels chegou a avisar os oficiais antecipadamente para que não comentassem sobre a aparência do líder Nazista. Hitler discursou sobre os "tempos de glória" do Partido Nazista, mas naquele momento e com aquela aparência "zumbificada" era difícil reerguer o ânimo e confiança dos ali presentes. De qualquer forma, os oficiais continuaram fiéis aos comandos do seu Führer até o fim. Nesse ponto, será que possíveis doenças e loucuras tragas pelas drogas tiveram grande impacto na piora de saúde e força de Hitler? Talvez. Teria isso importado para a trajetória final da guerra? Provavelmente não.

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   CONCLUSÃO

         Apesar do Terceiro Reich não ser explicado apenas usando a figura e ações de Hitler, o líder Nazista continua exercendo grande fascínio entre historiadores e, principalmente, entre o grande público. Porém, especulações sobre sua personalidade e saúde mental devem ser encaradas com cuidado, especialmente relacionando os rumos da guerra. Muitas fontes são suspeitas e os registros de qualidade escassos.

         Mesmo em um cenário de debilidade mental, além do Parkinsonismo ou abuso de drogas, outros fatores podem ter atuado para, no mínimo, exacerbar os problemas. Muitos ditadores, como Robespierre, Stalin e Hitler, compartilhavam difíceis e traumáticas infâncias, algo que obviamente impacta negativamente a saúde mental de um indivíduo. "Crianças destinadas dever passar por um longo período de escuridão, um período cheio de perigos, obstáculos e humilhação." Além disso, o próprio período de guerra e grande poder na mão de um única pessoa é um fator mais do que importante para influenciar a personalidade e o estado mental de um indivíduo.

        Hitler cresceu com um pai violento que maltratava ele e a sua mãe, esta a qual morreu de câncer de mama e trouxe uma profunda tristeza para o futuro líder Nazista. Mais tarde, o povo Alemão viu nele a figura de um vingador do humilhante Tratado de Versailles (1919) - quando a Alemanha teve que aceitar a culpa por ter começado a guerra, perdendo vários territórios e bastante poder econômico. Hitler seria o meio para a reabilitação e vitória Alemã. Hitler imaginava que ele tinha sido convocado para a missão de salvar a raça Ariana pura da corrupção e, com isso, salvando a Alemanha dos corruptos comunistas e Judeus. Ele acreditava que ele era 'O Escolhido' em uma cruzada contra o mal, e merecedor da onipotência.

         Quem era Hitler? Um louco, um criminoso, a encarnação do Mal? Drogas e doenças o corromperam? Ou ele apenas foi um produto da complexa ascensão Alemã? Dificilmente saberemos com certeza as repostas para essas perguntas, mas apesar de ser válido especular sobre eventos históricos, é também importante a prudência no esboço de conclusões baseadas em fracas estruturas de sustentação. Figuras históricas podem ser injustamente perdoadas e erros do passado podem ser camuflados e destinados a ressurgirem no futuro.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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