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Senhor dos Anéis e a Primeira Guerra Mundial


- Atualizado no dia 20 de fevereiro de 2023 -

          A Primeira Guerra Mundial ficou famosa pelo grande número de artistas, escritores e músicos que foram arrastados para o conflito e que fizeram parte dos cerca de 9 milhões de militares mortos (!). Muitas obras foram perdidas, mas também muitas foram ganhas, produzidas pelos sobreviventes de sorte. E entre um desses sobreviventes temos o nosso estimado J.R.R Tolkien (1892-1973), o grande filósofo, professor universitário e escritor por trás do universo do Senhor dos Anéis e da Terra Média.

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(!) Ainda assim, esse conflito não foi o mais sangrento até esse ponto na história. Outro evento na China, amplamente esquecido no Ocidente, testemunhou uma carnificina ainda maior, embora arrastado durante um período mais longo: Rebelião Taiping: O segundo maior massacre na história da humanidade  
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        Tolkien, após se graduar em Julho de 1915 em Língua Inglesa pela Universidade de Oxford, foi comissionado como um Segundo Tenente no Lancashire Fusiliers para integrar o "New Army" - o exército voluntário que sucedeu o pequeno exército profissional Britânico (ligado à Força Expedicionária Britânica, 'BEF'), este o qual tinha sofrido grandes baixas no início da guerra. Tolkien, então, foi treinado em Staffordshire por 11 meses antes de ser transferido para o 11° Batalhão com a BEF.

J. R. R. Tolkien, aos 24 anos, em seu uniforme militar, em 1916

             No meio do caminho, ele foi permitido sair e acabou se casando com o seu amor de infância, Edith Bratt, em 22 de Março de 1916. Quando retornou para o campo de batalha, na Frente Ocidental, ele desenvolveu um código de escrita especial para indicar sua movimentação para a esposa, no intuito de acalmá-la e escapar da censura contra-espionagem imposta pelo serviço postal do Exército Britânico. Importante destacar que o próprio Tolkien descreveu sua separação da esposa na época "como uma morte" porque tinha certeza que iria morrer na guerra.

         Tolkien recebeu três semanas de treino no campo de Étaples como um oficial de sinalização do Exército Britânico, após o seu Batalhão ter sido enviado para a França. Tolkien ficou responsável por manter as comunicações entre oficiais na linha de frente e entre os oficiais veteranos dirigindo a batalha dos quarteis-generais atrás da linha de frente, e acabou aprendendo a usar os telefones de campo, lâmpadas sinalizadoras, código Morse, pombos correios, entre outros. Em Julho de 1916, seu batalhão foi mandado para Somme para se juntar ao ataque britânico-frânces contra as linhas germânicas, confronto que ficou conhecido como ´Batalha de Somme´.

         Para a sorte de Tolkien, seu Batalhão foi ordenado a ficar de reserva durante o confronto, não fazendo parte da ofensiva inicial. Ao invés disso, eles foram enviados para as trincheiras uma semana depois, auxiliando os ataques em Somme. Tolkien e seus companheiros acabaram ocupando as fronteiras de linha de frente em Beaumont-Hamel, Serre e em Leipzing Salient.

O revólver que o Tolkien usou nas trincheiras, uma Webley Mk VI, arma padrão dos homens britânicos em serviço durante a Primeira Guerra Mundial; a arma do escritor, em específico, está exposta no Museu Imperial de Guerra, Londres

              As condições nas fronteiras deixaram o gerenciamento das comunicações extremamente difíceis para o Tolkien. Danos aos aparelhos, linhas de telefone completamente destruídas e a lama por todos os lados limitavam muito os recursos de envio e recebimento de mensagens. Além disso, os alemães estavam conseguindo interceptar com eficiência as comunicações na linha de frente dos exércitos britânicos e franceses, tornando os telefones e códigos Morse muito inseguros. O jeito era se virar com os métodos mais tradicionais de sinalização, os quais incluíam corredores, sinais visuais e pombos correios.

            Nas trincheiras, Tolkien contraiu uma 'febre de trincheira', doença muito comum nas péssimas condições desses locais e causada pela bactéria Bartonella quintana, esta a qual é transmitida por piolhos. No começo de novembro, Tolkien foi mandado de volta à Birmingham para se recuperar. Pouco tempo depois dele retornar para o Reino Unido, seu batalhão já tinha sido completamente dizimado. Durante esse período, Tolkien foi transferido entre vários hospitais. Aliás, seu primeiro conto da Terra Média, nomeado "Queda de Gondolin", foi escrito em um hospital. Após melhorar da doença em 1917, ele foi considerado inábil para voltar ao campo de batalha e acabou sendo colocado para servir no posto de guarnição militar até o fim da guerra.

            A terrível Primeira Guerra Mundial foi uma grande inspiração para Tolkien criar sua Terra Média. Ele começou a escrever as bases desse universo ainda no hospital, se recuperando da febre de trincheira. É clássico sua irritação com as pessoas que cismavam em tomar a obra dos Senhor dos Anéis como uma alegoria da Segunda Guerra Mundial, já que a data de publicação da mesma se deu uma década após o conflito, entre 1954 e 1955. Coisas como o Um Anel representando a bomba atômica, ou os Orcs sendo os alemães, ou mesmo Sauron sendo Hitler ou Stalin, foram veemente desmentidos pelo autor. Apesar dos livros não fazerem alegoria a nenhuma das Grandes Guerras, fica claro que a obra possui a Primeira Guerra Mundial como alma. O próprio autor sugere isso no prefácio da Segunda Edição do 'A Sociedade do Anel':
 


           De fato, mesmo já irritado das "acusações" da mídia e de críticos de que suas obras eram alegorias para os violentos eventos da primeira metade do século XX, Tolkien eventualmente chegou a admitir: "Um autor não pode, claro, permanecer totalmente insensibilizado pelas suas experiências [...]. O indivíduo precisa de fato ser submetido às sombras da guerra para sentir totalmente a sua opressão." (Ref.9) Essa última parte, como acima mencionado, inclusive foi introduzida na segunda edição de uma das suas obras.

           Nesse sentido, é interessante buscar evidências de inspiração entre os elementos da guerra encontrados nas histórias dos seus livros e a própria guerra que o Tolkien enfrentou. Pegue suas mochilas, suas panelas e bastante cogumelo, e vamos explorar as trincheiras da Terra Média!

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     NOVAS E ASSUSTADORAS MÁQUINAS DE COMBATE

          A Primeira Guerra Mundial marcou vários avanços tecnológicos no campo militar, e o surgimento dos tanques de guerra foi um dos principais. No Senhor dos Anéis, por exemplo, temos os Mûmakils (ou Olifantes), os quais são descritos como gigantescos e estranhos elefantes que saem destruindo tudo em seu caminho e que são difíceis de serem derrubados, assim como os tanques de guerra.

Um dos modelos de tanques de guerra usados na Primeira Guerra Mundial, e a representação do Olifante criada para as adaptações de cinema


    NAZGÛL

           Nos campos de batalha, a fumaça, a poeira e a neblina deixavam os soldados da cavalaria com baixa visibilidade, mas não seus cavalos. Além disso, os soldados usavam máscaras contra os gases tóxicos (amplamente utilizados no conflito), as quais faziam suas vozes saírem distorcidas e em assobios ruidosos. Ambas as descrições caracterizam os temíveis Nazgûl, reis que sucumbiram ao poder de Sauron e que foram consumidos pelos seus Anéis de Poder, ao ponto de se transformarem apenas em espectros. Eram nove no total, que passaram a perseguir sem descanso o Um Anel montados em seus cavalos. Esses seres malignos usavam uma manta e um capuz negros para cobrir seus rostos e corpos invisíveis aos mortais, e sempre faziam ruídos e farejavam o ar enquanto caçavam o portador do anel.

Um típico soldado da cavalaria germânica (nessa época as lanças ainda eram utilizadas), e uma visão artística do Nazgûl


     GRITO DOS NAZGÛL

           Os Nazgûl e a criatura dos 'Nazgûl alados' ficaram bem conhecidos nas histórias da Terra Média por cavalgarem as estradas e sobrevoarem os campos de batalha liberando estridentes gritos que enchiam o ar de medo, arrepiando até os mais valentes guerreiros. Isso faz paralelo com o efeito psicológico nos soldados causado pelas explosões das cápsulas de artilharia e pelo barulho feito por esses projéteis ao rasgarem os céus. Nessas horas, muitos congelavam de medo, abandonando suas armas das mãos trêmulas e buscando apenas refúgio. No extremo, esses soldados acabavam desenvolvendo um transtorno neurológico conhecido como shell shock ou neurose de guerra (!).

          Tolkien descrevendo os gritos dos Nazgûl: "Mesmo os mais valentes correriam para o chão no momento em que a ameaça escondida passasse por eles, ou apenas ficariam em pé, deixando suas armas caírem das mãos nervosas enquanto uma escuridão se apoderava das suas mentes, não pensando mais em guerra, apenas em rastejar, se esconder e na morte."

Disparos da artilharia na Batalha de Somme, em 1916, e a representação artística de um 'Nazgûl Alado'

           Existe, talvez, mais óbvio paralelo entre os Nazgûl alados e os sinistros bombardeiros de mergulho durante a Segunda Guerra Mundial, em particular com os famosos Junkers Ju 87 ("Stuka"). O Stuka foi utilizado pela força aérea Alemã (Luftwaffe) e pela Regia Aeronautica Italiana, e levava grande terror nos campos de batalha especialmente em versões trazendo instalada uma sirene de mergulho na parte superior do trem de pouso, chamada de "Trombeta de Jericó". O único propósito dessa sirene - assim como o grito dos Nazgûl - era aterrorizar quem quer que estivesse no caminho das suas bombas.

Bombardeiro de mergulho Junkers Ju 87


     SARUMAN E A SUA PÓLVORA

          A metralhadora entrou na Primeira Guerra Mundial para mudar profundamente as estratégias de batalha. Cuspindo em torno de 600 balas por minuto, as tropas de um exército não mais podiam sair correndo ao encontro da tropa inimiga em pleno campo aberto. Em posse de uma metralhadora, não é necessário que ninguém saia do lugar para dizimar um exército inteiro que se aproxime de forma totalmente exposta. O surgimento da metralhadora fez com que os soldados passassem a se abrigar nas trincheiras, ou seja, cavar e se esconder.




            Do mesmo modo que a metralhadora veio para quebrar estratégias de guerra, podemos compará-la com a "pólvora especial" criada pelo Saruman e usada pela primeira vez na Batalha de de Hornburg, onde uma grande quantidade dela foi usada para destruir as antes pensadas indestrutíveis muralhas de Hornburg, em Helm´s Deep, o qual estava sob comando do rei Théoden. A pólvora, chamada de Fogo de Orthanc, veio para destruir uma velha estratégia de guerra já usada por um longo período de tempo, ou seja,  parar os inimigos na muralha, cansá-los e forçar os mesmos a bater em retirada após a campanha fracassada.


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     SAM GAMGEE

            O fiel escudeiro de Frodo é  baseado nos soldados comuns do campo de batalha que mantinham sua coragem e otimismo mesmo quando não se havia muita esperança. Oficiais de alto escalão como o Tolkien normalmente vinham de classes sociais mais abastadas, com ou sem experiência militar. Era comum eles receberem como companhia soldados de baixo escalão para que cozinhassem, limpassem e lavassem seus uniformes, estes os quais ficaram conhecidos como batmen. Esses oficiais e esses soldados muitas vezes formavam grandes laços de amizade e frequentemente eram encontrados mortos juntos no campo de batalha.

           Os Bagginses (família do Frodo) eram de uma classe social bem mais elevada no Condado do que os Gamgees (família do Sam), e tanto o Frodo quanto o Sam acabaram formando uma forte ligação no decorrer da jornada, assim como os oficiais e seus batmen. Sam sempre se referencia ao Frodo como ´Mestre´ ou ´Sr. Frodo´, cozinha e limpa para ele, leva quase todas as bagagens de ambos, e o protege com todas as suas forças. No final, uma relação de real amor entre os dois amigos se torna expoente em meio ao caos e terror provocados pela Guerra do Anel.



           Segundo o próprio Tolkien: "Meu Sam Gamgee é, de fato, um reflexo do soldado inglês, dos soldados comuns e batmen que eu conheci na guerra de 1914, os quais eram muito mais superiores que eu."

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        (!O FARDO DO ANEL

            Durante a Primeira Guerra Mundial, um termo ficou muito conhecido no campo de batalha: Shell Shock, também conhecido como 'neurose de guerra'. Esse termo era usado para nomear um amplo espectro de sintomas associados ao Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT ou PTSD na sigla em inglês), ou seja, abrangendo sintomas físicos, psíquicos e emocionais. No início, shell shock ("cápsulas de artilharia", um cilindro metálico de munição, feito de metal, onde o projétil e uma carga explosiva eram colocados) foi um termo usado porque pensava-se que o barulho das explosões das cápsulas de artilharia era o responsável pelo quadro de sintomas neuropsiquiátricos (1). Alguns propunham inclusive que danos biológicos eram causados no cérebro pelas ondas de choque das explosões, engatilhando os sintomas (2). Porém, logo se percebeu que diversas observações clínicas e fatores aparentes de gatilho não corroboravam essa ideia. Ainda não se sabe ao certo os mecanismos específicos responsáveis pela condição específica descrita na época [Shell Shock], mas uma combinação de fatores associados ao "inferno de guerra" provavelmente explica a etiologia do problema.

Armas e Cápsulas de artilharia da Primeira Guerra Mundial

            Os soldados com essa condição neuropsiquiátrica possuíam sintomas diversos, como:

1. Desordens funcionais: sofriam de uma combinação de sintomas motores e somato-sensoriais, estes os quais incluíam, principalmente, pernas ou braços paralisados, combinados com sensações de dormência ou estranheza na área corporal afetada. Entre outros sintomas comuns podemos incluir movimentos involuntários como tremores e tiques nervosos.

2. Desordens Sensoriais: sofriam "blackouts" funcionais nas suas funções sensoriais, como surdez, cegueira, falta de paladar e perda de olfato. As perdas sensoriais eram temporárias e os casos de surdez e cegueira eram os mais comuns.

3. Disfunções Autonômicas: além de dores, os sistema nervoso autônomo do corpo podia ser afetado, incluindo a parte cardiorrespiratória, gastrointestinal e até mesmo o trato urinário. Entre os sintomas, podemos citar as palpitações, respiração ofegante, náuseas e incontinências urinárias.

4. Sintomas Psicológicos: dificuldade para dormir, frequentes pesadelos,  irritabilidade, maior sensibilidade à ruídos, ansiedade, depressão, exaustão, alucinações, histeria, estado de confusão, entre outros.

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(1) Essa noção pode ser exemplificada com um relato médico de 1916 da Primeira Guerra Mundial, descrevendo um paciente de 25 anos de idade, do 14° Batalhão de Reserva R.F.A (Ref.15): "O paciente foi para a França em augusto de 1914 com a Força Expedicionária original [...]. Durante o recuo de Mons, em Cambrai, no dia 27 de agosto eles foram quase capturados - uma infantaria Germânica os cercou e estava a apenas ~275 metros de distância. Eles recuaram de forma cuidadosa, viajando às vezes todo o dia e noite. Era evidente que a tensão mental era considerável. Em Ypres, abril de 1915, a forte explosão de uma cápsula de artilharia levantou o paciente e o arremessou contra a roda do obus. Ele ficou confuso e semi-consciente por um curto período de tempo, mas na tentativa de alertar seus companheiros a procurarem abrigo descobriu que não conseguia falar. Fraqueza dos membros se desenvolveu mais tarde e ele foi enviado de hospital para hospital até alcançar Le Touquet, próximo de Boulogne. Lá éter foi administrado e, à medida que reganhava consciência, sua capacidade de fala retornou. Ele foi enviado para Licester, Inglaterra, em maio, e acabou desenvolvendo tremor, o qual piorou progressivamente. Desde então até 2 meses atrás, ele melhorou em tal extensão que agora era capaz de barbear o rosto. Ele perdeu peso, suas pernas estavam fracas e ele não conseguia ficar de pé. Ele tinha dificuldade de comer e de beber [...]."

(2) É interessante mencionar que, embora os termos PTSD e lesão cerebral traumática (LCT) sejam categorizados como distintos diagnósticos, a fronteira entre essas duas condições é às vezes difícil de distinguir. É comumente assumido que o PTSD resulta primariamente de estresse psicológico, enquanto a LCT resulta de danos identificáveis no cérebro - uma distinção baseada na antiquada polaridade entre "mente" e "cérebro". Nesse contexto, especialistas alertam que o PTSD não deve ser sempre encarado como algo puramente psicológico (Ref.17).
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            O espectro e a severidade desses sintomas variavam de indivíduo para indivíduo e até mesmo durante o percurso temporal da Primeira Guerra Mundial, onde, a partir dos anos finais, os casos de shell shock passaram a ficar cada vez menos frequentes (mesmo com os disparos de artilharia continuando intensos, ou seja, mais um motivo para desbancar a ideia que a condição era causada particularmente por esses barulhos). Manifestações como ansiedade e depressão eram comuns apenas nos dois primeiros anos de guerra. E a condição podia afetar homens de qualquer patente, idade ou nível de experiência. Em um relato histórico do combatente Britânico Norman Dillon, do Tank Corps, ele descreve um oficial sênior enfrentando o shell shock (Ref.16):

"Um dia nós estávamos indo para um ataque ou algo do tipo, eu esqueci onde era, no Somme ou algum outro lugar. Eu me deparei com um major que estava sentando em uma pilha de sacos de areia e com o olhar longe do fronte. Ele parecia perfeitamente bem. Eu perguntei, 'Você está ferido, senhor?' Ele disse, 'Não, não estou sofrendo de nada do tipo, mas não consigo me mover; eu simplesmente não consigo me mover'. Ele estava esgotado e não conseguia andar. Ele não estava com medo, não estava gritando ou tentando fugir, ele apenas tinha emperrado e teve que ser carregado para um local afastado dali. Aparentemente, ele foi levado para um hospital. Isso costumava ser chamado de shell shock; em outras palavras, era fatiga de guerra."
           
Fotos de soldados alegadamente sofrendo com shell shock.

          Historiadores de Guerra estimam que 40% dos soldados Britânicos feridos em batalha, aproximadamente 670 mil soldados, sofreram com a shell shock. Relatos médicos da época estimavam que, até dezembro de 1914, 7-10% dos oficiais e 3-4% dos não oficiais sofriam de shell shock, e que, ao longo da Primeira Guerra, 1/7 dos oficiais e 1/3 dos não oficiais medicamente liberados do exército sofriam com a condição. Em relatório oficial de pós-guerra, o exército Britânico alegou que aproximadamente 80 mil homens, ou 1,6% dos soldados, receberam tratamento médico para shell shock. Todos esses números, porém, são subestimados porque excluem os soldados que recusavam tratamento médico, aqueles não-diagnosticados ou erroneamente diagnosticados, e aqueles que manifestaram sintomas após liberação do exército (Ref.11).

          Durante a guerra, o Exército Britânico criou resistência em reconhecer o shell shock como uma doença e mesmo a comunidade médica estava dividida, resultando em tratamento inadequado dos afetados e estigmatização dos soldados sofrendo de histeria, neurose e outros quadros afins (ex.: uma "desculpa" para não enfrentar o combate ou "falta de fibra"). Aliás, havia inclusive uma percepção comum de que apenas mulheres podiam sofrer de 'histeria', e, nos dias iniciais da Primeira Guerra, psiquiatras estavam inclusive otimistas que a grande guerra atuaria como uma cura para a insanidade: patriotismo e união sob um propósito comum forneceria uma perspectiva positiva para curar cidadãos da melancolia (Ref.17). A realidade pós-1918, porém, dava pouco espaço para negacionismo ou otimismo: a guerra criou uma epidemia de distúrbios psiquiátricos, em uma escala para a qual ninguém estava preparado.

          Na França, a mais dramática representação do shell shock era a camptocormia, uma doença postural caracterizada por flexão anormal da coluna toracolombar que surge na posição ereta, aumenta durante a caminhada e desaparece na posição supina. A anormal postura era assumida de ser fruto de um transtorno psicogênico descrito como uma reação de conversão durante a Primeira Guerra Mundial em recrutas militares e soldados que eram incapazes de suportar o estresse de combate e a desagradável vida militar, talvez engatilhado pela postura inclina quando andavam pelas trincheiras. 

          Em termos de opções terapêuticas, em 1916, o Dr. Clovis Vincent, pioneiro de neurocirurgia na França, desenvolveu um método chamado torpillage (um termo criado pelos próprios soldados com o significado de 'torpedo-elétrico'), uma forma "persuasiva" de psicoterapia usando correntes elétricas farádicas e galvânicas, para tratar soldados com camptocormia e neuroses "intratáveis". Eletroterapia era popular por algum tempo durante a guerra em vários países, apesar de algumas formas terem sido banidas pelas autoridades.

          Tendo provavelmente presenciado muitos sofrendo dessa condição no hospital e nas trincheiras, Tolkien pode ter inspirado as consequências no Frodo de segurar o fardo do Um Anel nos sintomas gerados pela shell shock. E os sintomas de shell shock no Frodo ficam ainda mais evidentes quando ele se aproxima de Mordor, onde ele passa até a ser acometido por cegueiras temporárias em algumas ocasiões. Quando ele está subindo a Montanha da Perdição, já bastante afetado pelo fardo, ele passa a experienciar perdas de olfato e paladar, tremores incontroláveis, exaustão e ataques de ansiedade. 
 
Frodo totalmente esgotado pelo Um Anel ao subir a Montanha da Perdição


          E quando Frodo voltou para o Condado, após o Um Anel ter sido destruído, ele passa o resto da sua vida ali tendo pesadelos e flashbacks dos horrores da guerra.

           Nesse ponto, seguindo a resolução da Guerra do Anel, Frodo continuou manifestando sintomas de estresse pós-traumático típicos de veteranos de combate. Após ser resgatado de Mordor, imediatamente após sua reunião com os membros sobreviventes da Sociedade do Anel em Ithilien, Frodo removeu suas roupas surradas e se preparou para uma nova vestimenta visando atender uma festa em sua homenagem, mas se mostrou muito relutante em carregar uma espada, mesmo uma que era ornamental. Isso demonstra uma aversão traumática à violência. E muitos anos depois dos eventos da Guerra do Anel, Frodo ainda carregava profunda tristeza e contínua reclamação de dor no seu ombro (a 'ferida' causada pelo Rei Bruxo, no Topo do Vento, com uma lâmina de Môrgul, e a qual nunca se curou). Já no Condado, é reforçado os recorrentes pesadelos que perseguiam Frodo:

           Uma noite, Sam entrou na sala de estudos e encontrou seu mestre com um olhar muito estranho.             Ele estava muito pálido e seus olhos pareciam ver coisas muito distantes

         "Qual é o problema, Mr. Frodo?", disse Sam.  

          "Eu estou ferido," Frodo respondeu, 'ferido; e isso nunca irá realmente ser curado." (VI:9, 1002)

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IMPORTANTE lembrar que efeitos psicológicos traumáticos também afetaram a população civil durante a guerra, com os intensos ataques aéreos sobre as cidades, especialmente na Inglaterra. O estresse pós-traumático em civis foi chamado de 'Air-Raid Shock' (Ref.14). Na Inglaterra, o primeiro bombardeio aéreo atingindo civis ocorreu no dia 16 de dezembro de 1914, visando as cidades costeiras de Hartlepool, Scarborough e Whitby.
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      PÂNTANO DOS MORTOS

            De acordo com o próprio Tolkien, o Pântano dos Mortos faz significativa referência ao Norte da França após a sangrenta Batalha de Somme, responsável por quase 600 mil mortes de soldados Aliados. Assim como o massivo confronto em Somme, no qual o Tolkien estava presente, Dagorlad era uma vasta planície entre Emyn Muil e Cirith Gorgor, e que foi palco de uma grande batalha (Batalha de Dagorlad) entre Sauron e a Última Aliança no fim da Segunda Era. Várias outras batalhas sangrentas se deram em Dagorlad entre Gondor e os exércitos de Easterlings.

          'Dragorlad', na mitologia da Terra Média, é uma palavra em Sindarin que significa 'Planície de Batalha'. Após os horrores da guerra, ela ficou completamente preenchida de mortos e se transformou mais tarde em um pântano, ganhando o nome, então, de 'Pântano dos Mortos'. Somme também se transformou em uma gigantesca pilha de corpos após os intensos conflitos na Primeira Guerra Mundial.

Soldados durante da sangrenta Batalha de Somme, e o Frodo, Sam e Gollum caminhando pelo Pântano dos Mortos. No primeiro dia de abertura da batalha, apenas no Exército Britânico, foram cerca de 57,5 mil soldados seriamente feridos, 19,5 mil dos quais morreram; ambos os números representando possíveis recordes para um único dia de combate em guerra (!).  

          Em uma carta ao professor L. W. Forster escrita na Noite de Ano Novo de 1960, Tolkien realçou sua insistência de que a mitologia da Terra Média não possuía dependência sobre os eventos das duas Guerras Mundiais, mas deixou explícito uma importante exceção: "Pessoalmente, eu não acho que qualquer uma das guerras (e, claro, a bomba atômica) teve qualquer influência tanto na trama ou na maneira do seu desenrolar. Talvez na paisagem. Os Pântanos dos Mortos e as proximidades de Morannon devem algo ao Norte da França após a Batalha de Somme." (Ref.9)

           Tolkien, também em cartas, descreveu os horrores que ele passou nas trincheiras durante a Batalha de Somme, onde corpos, membros e cabeças estavam espalhados por todos os lados, muitos apodrecendo, e onde ninguém conseguia dormir: "Nós vivemos com tudo isso por onze dias, comíamos e bebíamos e lutamos no meio disso; mas não, nós não dormíamos. Às vezes, nós caíamos e ficávamos inconscientes. Você não poderia chamar isso de dormir." (Ref.9

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(!) É argumentado que a Batalha de Towton, em 29 de março de 1461, em Yorkshire, Inglaterra, na qual o Edward IV tomou a coroa ao derrotar as forças Lancastrianas, marcou um número total de mortes em um único dia substancialmente maior: cerca de 28 mil mortes.
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     MORDOR

          A ´No man´s land´ (Terra de Ninguém, no português), termo cunhando primeiro na Primeira Guerra Mundial, era o território que ficava no meio das trincheiras, separando os inimigos. Essa área era neutra, sofria intensos bombardeios e costumava ser repleta de minas e arames farpados espalhadas por todos os lados,. Era um ambiente totalmente desolado, destruído e muito perigoso. Soldados precisavam se aventurar por ali constantemente (avanço das tropas e transporte de feridos), mas sempre muito temerários, porque sair da relativa segurança das trincheiras e mergulhar em um mar de tiros de metralhadoras, minas terrestres e bombardeios era apostar mais do que alto com a vida (Obs).

         O cenário descrito acima encontra bastante similaridade com as desoladas regiões de Mordor, onde eram poucos aqueles que arriscavam atravessá-la ou mesmo entrar. Um ambiente sem verde, sem esperança e banhado com medo e sofrimento.

Terras desoladas das Terras de Ninguém e de Mordor

        (Obs): A chegada dos tanques de guerra veio para quebrar a temeridade desses territórios, onde esses poderosos veículos blindados conseguiam resistir bastante às ofensivas de fogo e abrir caminho pelas linhas inimigas.

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    ÁGUIAS-GIGANTES
            
           Mesmo sendo ainda muito limitados, os aviões foram bastante usados na Primeira Guerra Mundial, e sofreram grandes inovações com o decorrer do conflito. Apesar das suas ações serem mais táticas nessa época e seus bombardeios serem ainda rudimentares, eles eram de grande ajuda para as forças no chão, tirando fotos do campo de batalha e ajudando a orientar o posicionamento da artilharia. Aliás, alguns especialistas da época diziam que quando o tempo estava muito ruim e os aviões (ainda frágeis nesse período) não podiam ser usados, era como arrancar os olhos da artilharia, esta a qual era a principal força ofensiva da Primeira Guerra. Podemos fazer um bom paralelo entre esses aviões e as Águias-Gigantes no Senhor dos Anéis, as quais sempre traziam alegria e esperança para suas forças "Aliadas" no chão.
 
Aviões britânicos da Primeira Guerra Mundial e as Águias-Gigantes (com uma delas carregando o Gandalf, um mago bastante querido por esses animais)


        HOBBITS

           A pedido do Gandalf e pela busca da paz e proteção dos seus lares, Frodo, junto com o Sam, Pippin e Merry acabam indo para a guerra, com o objetivo de destruir o Um Anel. Mesmo inocentes e aparentemente fracos, eles mostram grande bravura e coragem no campo de batalha. Assim foi o mesmo que ocorreu com os jovens inexperientes recrutados para a Primeira Guerra Mundial, a pedido do Rei e em busca de um ideal de paz e proteção das suas nações. Apesar disso se aplicar para diversas outras guerras, o Tolkien sempre mostrou grande respeito e admiração pelos recrutas e jovens ( como ele e seus amigos) na guerra em que ele participou.

Recrutas na Primeira Guerra Mundial, em 1915, e uma arte dos quatro Hobbits recrutados para a jornada de destruição do Um Anel

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Artigos Recomendados:
 
REFERÊNCIAS 
  1. http://www.bbc.com/culture/story/20161223-tolkiens-grandson-on-how-ww1-inspired-the-lord-of-the-rings
  2. http://www.nationalgeographic.com/ngbeyond/rings/influences.html
  3. http://blogs.mhs.ox.ac.uk/innovatingincombat/jrr-tolkien-world-war-one-signals-officer/
  4. http://www.nytimes.com/2016/07/03/opinion/sunday/how-jrr-tolkien-found-mordor-on-the-western-front.html
  5. http://www.bbc.co.uk/guides/zgr9kqt
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4176276/
  7. http://www.ptsd.va.gov/public/PTSD-overview/basics/history-of-ptsd-vets.asp
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1079301/ 
  9. Livingston, Michael (2006). "The Shell-shocked Hobbit: The First World War and Tolkien's Trauma of the Ring," Mythlore: A Journal of J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Charles Williams, and Mythopoeic Literature: Vol. 25 : No. 1 , Article 6. https://dc.swosu.edu/mythlore/vol25/iss1/6
  10. Mike Fielden (2019). THE WARS OF TOLKIEN: TRAUMA AND WAR COMMENTARY IN THE LORD OF THE RINGS. (Thesis) https://scholarsbank.uoregon.edu/xmlui/bitstream/handle/1794/25018/Final_Thesis-Fielden.pdf
  11. Miley, F., & Read, A. (2020). Soldiers don’t go mad: shell shock and accounting intransigence in the British Army 1914-18. The British Accounting Review, 100956. https://doi.org/10.1016/j.bar.2020.100956
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