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Por que a cabeça da Cachalote é tão grande?



           A Cachalote é a maior das baleias dentadas e o maior dos predadores com dentes do planeta, sendo encontrada nos mares do mundo inteiro. Em idade adulta, os machos chegam a ter 16 metros de comprimento, mas podem alcançar os 20,5 metros, com uma massa variando entre 50 e 57 toneladas (1). Uma das suas características mais marcantes é a sua enorme cabeça meio retangular, a qual pode compor entre um quarto e um terço do comprimento desse animal! Até hoje, não é totalmente explicado essa grande parte anatômica das cachalotes, mas existe uma explicação de funcionalidade já provada e outra, bem interessante, que pode complementar a primeira.

          A explicação muito bem esclarecida atualmente estabelece que o enorme complexo na cabeça das cachalotes, serve para gerar poderosos sons, na forma de cliques sonoros, os quais podem ultrapassar os 230 decibéis e são os mais fortes produzidos entre os seres vivos. Esses sons, assim como no morcego, servem para a localização espacial do animal, tanto para se movimentar quanto para capturar suas presas. O formato dos corpos gordurosos ao redor do órgão nasal e a peculiar organização do sistema de sacos nasais para a geração de sons corrobora essa afirmativa. Mas, apesar desse fato científico, podemos ter outros complementos explicativos válidos de serem mencionado.

Estrutura geral da cabeça da cachalote; todas as partes acima da mandíbula superior estão relacionadas com a produção de sons nessas baleias

          É bem conhecido que as Cachalotes podem mergulhar muito fundo nos oceanos em busca de comida. Duas das suas presas favoritas são a Lula-Gigante e a Lula-Colossal, as quais também são enormes e provavelmente dão muito trabalho para as Cachalotes (2). Nesses mergulhos, essa baleia normalmente se aventura em profundidades de 300 a 800 metros, mas podem ultrapassar, facilmente, os 2 mil metros. Para permanecer tempo suficiente nessa profundidade, é necessário um enorme esforço de natação caso a densidade do seu corpo não seja compatível com a água ao redor. E a água nessas profundidades é, naturalmente, mais densa do que a da superfície (3).

           A cabeça das Cachalotes contém uma grande massa cheia de óleo (cerca de 90%) chamada de ´Órgão de Espermacete´. Esse óleo é uma mistura líquida de triaglicerois e ceras chamada ´espermacete´, e chega a pesar mais de 4 toneladas em alguns indivíduos da espécie. À temperatura normal do corpo dessa baleia (37°C), a mistura oleosa permanece líquida. A partir dos 31°C, ela começa a cristalizar, e em uma temperatura ainda mais baixa, fica sólida. No estado sólido, a densidade da mistura se torna bem maior. É teorizado que essa propriedade confere à Cachalote a habilidade de alterar sua densidade corporal e, com isso, permite que ela nade sem grande esforço tanto em altas profundidades quanto na superfície dos mares. Através de vários processos fisiológicos, os quais aproveitam as baixas temperaturas do fundo do mar (entre 0 e 3°C), esse cetáceo conseguiria manipular a temperatura da sua massa oleosa, solidificando-a.

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            Se esse mecanismo for um real artifício utilizado pela Cachalote, isso ajudaria a explicar ainda mais a sua estranha e gigantesca cabeça, além de explicar também o porquê de tanto espermacete dentro dela, complementando, em termos evolutivos, seu sofisticado sistema acústico. De qualquer forma, existem outras hipóteses científicas complementares que também buscam auxiliar a explicação da sua grande e estranha cabeça cheia de óleo. Entre elas, podemos citar:

1. Comportamento agressivo: A grande porção de massa na cabeça das cachalotes chamada de ´junk´ (mostrado na figura acima), formada também por uma mistura de triglicerídeos e ceras, pode servir como um ´amortecedor´ de choque quando machos começam a brigar entre si. Estudos de simulação mostram que isso é algo estruturalmente possível. (Ref.5)

2. Desorientação acústica de presas: O complexo sistema sonoro criado pela sua grande cabeça pode ajudar a criar poderosas e específicas frequências de sons que poderiam confundir presas (cardumes, por exemplo), facilitando a captura das mesmas. Estudos são muito inconclusivos quanto à possibilidade do próprio processo ser real entre os odontocetis (baleias dentadas, como a cachalote). (Ref.6)

3. Super Ecolocalização: Outra hipótese bem aceita diz que o sistema nasal único de produção de som da cachalote serviria como um poderoso ecolocalizador. Como já foi dito, é sabido que elas usam esse sistema para se guiarem nos mares, mas, por exemplo, é desconhecido como elas conseguem ser predadores tão vorazes e ter tanto sucesso de captura das presas com sua cabeça e mandíbula tão ´deformadas´ e estranhamente desproporcionais. Assim, o ecolocalizador, que funciona em cliques de alta frequência, permitiria uma localização exata da presa e compensaria a boca ´atrofiada´. Toda a gigantesca e complexa estrutura da cabeça serviria para dar base ao seu estupendo sistema sonoro. (Ref.7) 
 

Mandíbula/boca muito desproporcional e possuindo uma forma bem "esquisita"



 4. Competição sexual: Estudos mostram que os machos costumam ter cabeças bem maiores do que as fêmeas, e que estas crescem em uma maior progressão ao longo da vida dos mesmos. Isso poderia indicar que a gigantesca cabeça é outro exemplo de dismorfia sexual, utilizada para as competições por fêmeas (as cachalotes machos com a maior cabeça, conseguiriam mais facilmente parceiras sexuais). Embora uma hipótese bem menos estudada e citada, existem evidências para baseá-la. (Ref.8)

            Infelizmente, o espermacete acabou sendo também o fator principal da caça excessiva à essa baleia entre os séculos XVII e XX. Seu óleo era muito apreciado como um combustível e lubrificante, valendo enormes somas de dinheiro no mercado. Isso impulsionou uma chacina baleeira em cima desses animais, a qual foi muito bem retratada no famoso livro Moby Dick. Hoje, o animal encontra-se em estado vulnerável de conservação, tentando recuperar sua população dilacerada nos últimos séculos.

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(1) As fêmeas são bem menores, chegando a ser 50% menores em comprimento e possuindo uma massa até 3 vezes menor.

(2) As Lulas-Gigantes podem alcançar os 10 metros de comprimento, enquanto as Lulas colossais podem ultrapassar os 12 metros e pesar cerca de 750 quilos. Em média, ambas as espécies não ultrapassam os 5 metros, sendo os maiores moluscos conhecidos. Acredita-se que as grandes cicatrizes brancas na cabeça da Cachalote, algo bem comum nessa espécie, sejam fruto direto de combates violentos com esses gigantescos moluscos, os quais possuem garras bem afiadas nos tentáculos. Mas, até hoje, ninguém conseguiu testemunhar tais embates.

Representação artística do encontro e luta entre uma cachalote e uma lula-gigante

(3) Ora, a água no fundo do mar, logicamente, precisa ser mais densa do que a da superfície (considerando as diferenças de temperatura e composição das duas), ou ela não estaria no fundo (o mais denso afunda, lembra?). Quanto mais fria a água marinha e mais salgada, mais densa ela fica e tende a afundar. Independente se a superfície fica mais fria e salgada por um momento, ela irá descer e compor as profundezas do mar. Esse processo é também muito importante nos ciclos marítimos, onde essa constante subida e descida de água da superfície para o fundo favorece a melhor dispersão de nutrientes para todo o oceano, sustentando toda o ecossistema marinho. Essas diferenças de temperatura/densidade também são responsáveis por grande parte dos padrões de circulação de corrente nos oceanos do mundo inteiro.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. Lehninger Principles of Biochemistry. David L. Nelson, Michael M. Cox. 6° Edição.
  2. http://scitation.aip.org/content/asa/journal/jasa/117/3/10.1121/1.1828501
  3. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=10308905&fileId=S0025315414001118
  4. http://adsabs.harvard.edu/abs/2003ASAJ..114.1143M
  5. https://peerj.com/articles/1895/
  6.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16938998
  7. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4919788/
  8. http://www.bioone.org/doi/abs/10.3106/041.038.0306?journalCode=jmam