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O que se sabe até o momento sobre o vírus da China?

- Artigo atualizado no dia 15 de fevereiro de 2020 -

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          No momento, são 3 casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus no Brasil, registrados no Rio Grande do Sul (2) e em São Paulo (1) (Ref.42). Todos os pacientes estão passando por testes genômicos para uma possível confirmação do vírus 2019-nCoV. No total, já foram 44 casos descartados. Por enquanto, os exames serão centralizados na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. A Anvisa está adotando medidas de precaução para deter a disseminação vírus no Brasil. Brasileiros repatriados e retirados da China - 34 no total - e os 24 membros da tripulação militar que realizou o resgate, estão em quarentena na Base Aérea de Anápolis. Segundo o Ministério da Saúde,  exames concluíram que nenhum deles carrega o novo vírus (Ref.40).

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> A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou no dia 30/01 a disseminação do novo coronavírus uma emergência internacional. Segundo a OMS, a principal razão para essa declaração não é o que está acontecendo na China - a qual foi elogiada pelos seus esforços de contenção do vírus - mas a situação de disseminação do vírus para outros países, com a preocupação maior recaindo em países mais vulneráveis ao vírus e com sistemas de saúde mais fracos.
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           Os cientistas estão bastante preocupados com o novo vírus, especialmente porque relativamente pouco se sabe ainda sobre sua natureza e patogenicidade. O vírus, o qual causa infecção no trato respiratório - incluindo pneumonia -, parece ter emergido na cidade Chinesa de Wuham, em dezembro do ano passado, e já infectou mais de 68 mil pessoas (casos oficialmente confirmados), matando mais de 1600 na China. Aliás, as autoridades Chinesas confirmaram no dia 29 de janeiro que todas as regiões da China continental foram alcançadas pelo vírus, incluindo o Tibet. Cerca de 1716 profissionais de saúde contraíram o vírus no país, 6 dos quais morreram.

          Fora da China, já são mais de 500 casos confirmados em pelo menos 25 outros países, como Japão, Tailândia, EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Espanha e Austrália. Existem também um número de casos suspeitos na Escócia e na Irlanda do Norte. Os países com o maior número de infectados fora da China são Japão (96), Singapura (43), Tailândia (32), Coreia do Sul (27). Fora da Ásia, os dois países com o maior número de casos confirmados são a Alemanha (14) e a Austrália (15).

          Na Alemanha, no Vietnã e na Tailândia, cientistas confirmaram as primeiras transmissões entre humanos fora da China. Fora da China continental também foi registrada quatro mortes pelo vírus: um homem de 44 anos de nacionalidade Chinesa que viajou para as Filipinas vindo de Wuhan, via Hong Kong,  uma mulher com mais de 80 anos de idade no Japão, um homem de 72 anos de idade em Hong Kong, e um homem de 80 anos de idade na França - primeira morte fora da Ásia - vindo da província de Hubei.

          Especialistas suspeitam, no entanto, que, globalmente, muito mais pessoas estão infectadas, mas os números reais são difíceis de confirmar devido a um número de fatores como o fato de muitos estarem ainda assintomáticos. Segundo estimou o professor Neil Ferguson, um especialista em saúde pública do Imperial College, Londres, quando o número de infectados oficialmente reportado estava ainda abaixo de 2 mil, o número real estaria próximo da casa dos 100 mil (Ref.10). Já Li Ka Shing, da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong, sugeriu na mesma época que o número estaria próximo dos 43 mil (Ref.11). Ambos fortemente recomendam que medidas mais robustas de contenção do vírus sejam colocadas em prática, porque sem uma efetiva intervenção dos setores de saúde, dezenas de milhares mais indivíduos podem ser infectados diariamente.

          Especialistas também sugerem que apenas em Wuhan é provável que o vírus possa infectar 39 mil dos seus 30 milhões de habitantes no melhor dos cenários, e que as tentativas de contenção sendo implementadas no país são agora inúteis (Ref.22). No pior dos cenários, cerca de 190 mil habitantes podem ser infectados em Wuhan. Aliás, um bebê na região recebeu diagnóstico de coronavírus 30 horas após nascer (Ref.33). É o indivíduo mais jovem a ser infectado pelo novo vírus e provavelmente foi infectado através da mãe, que também testou positivo para o vírus.

          Até o momento, o CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças), confirmou 12 casos nos EUA (Ref.8). O primeiro, um homem de 30 anos de idade, se infectou após uma viagem para a China. Apesar de ter se apresentado em um hospital em Seattle, Washington, com um quadro de pneumonia, ele agora se encontra saudável. O segundo é uma mulher com mais de 60 anos de idade, retornado para a sua casa em Chicago, Illinois, após visitar Wuham. A paciente continua no hospital, mas o quadro é estável. No total, eram 337 suspeitos nos EUA até o dia 05/02; desse total, 225 deram negativo.

        A cidade de Wuham, com 11 milhões de habitantes, encontra-se neste momento está em estado de confinamento para ajudar a controlar a disseminação do vírus. Huanggang, outra cidade Chinesa, com 6 milhões de habitantes, também será confinada; outras cidades no país estão parcialmente confinadas, e várias outras já impuseram rígidas restrições de viagem. Já Hong Kong anunciou no dia 05/02 que irá impor quarentena mandatória para todos os visitantes da China continental, em um esforço para conter a disseminação do vírus. Hong Kong até o momento possui 21 casos confirmados da doença (Ref.31). A venda de animais vivos em mercados também foi banida no país dese o dia 26/01.

          Além de desenvolver pesquisas para identificar detalhes da cepa do vírus e de impor restrições de circulação e fechamento de pontos turísticos, a China também está construindo dois hospitais para tratar exclusivamente dos infectados. Os empreendimentos seguem o modelo de Pequim para tratamento de doenças respiratórias agudas. O primeiro hospital - já construído, em apenas 10 dias - possui 1 mil leitos, uma área de 25 mil m². O segundo deve ter 1,3 mil leitos e será entregue em 15 dias.     

          Fora da China, os EUA e a Austrália declararam que negariam a entrada de visitantes estrangeiros que estiveram recentemente no território Chinês (Ref.23). Países incluindo a Rússia, Japão, Paquistão e Itália também anunciaram (01/02) restrições de viagens similares. No entanto, agências de saúde, incluindo a OMS, aconselharam contra tais medidas, porque indivíduos podem entrar no país de forma não-oficial para escapar das barreiras impostas, aumentando o potencial de disseminação descontrolada do vírus. A OMS recomenda que sejam implementados sistemas mais robustos de triagem nas entradas das fronteiras.
     

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IMPORTANTE: O vírus pode causar severa infecção aguda em boa parte dos casos, mas uma pneumonia moderada na maior parte dos casos mais sérios. Do total de mortos confirmados, a maioria eram idosos (>80%) e indivíduos com problemas respiratórios prévios ou com alguma outra condição crônica de saúde como diabetes e doenças cardiovasculares. A taxa de mortalidade até o momento observada é de 2-3%. Do total de casos confirmados, 3281 já se recuperaram. A OMS nomeou oficialmente a doença pulmonar causada pelo novo coronavírus como COVID-19.
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   NATUREZA E ORIGEM

         O vírus responsável pelo surto foi identificado pelo pesquisadores -  via sequenciamento do genoma RNA viral - como um novo coronavírus e designado '2019-nCoV' pela OMS. O vírus foi inclusive isolado de um número de pacientes.

         A família Coronavirinae consiste de quatro gêneros baseados em suas propriedades genéticas, incluindo o gênero Alphacoronavirus, Betacoronavius, Gammacoronavirus, e o Deltacoronarirus. O genoma de RNA do coronavírus (variando de 26 a 32 kb de comprimento) é o maior entre os vírus de RNA. Os coronavírus podem infectar mamíferos, aves e répteis, incluindo humanos, porcos, gado, cavalos, camelos, gatos, cães, roedores, pássaros, coelhos, furões, martas, cobras, e várias espécies selvagens. Muitas infecções por coronavírus são subclínicas, causando, por exemplo, os tão comuns resfriados (I). Raramente, coronavírus infectando animais não-humanos evoluem e passam a ser capazes de infectar humanos. A severa síndrome respiratória aguda por coronavírus (SARS-CoV) e a síndrome respiratória por coronavírus do Oriente Médio (MERS-Cov) são dois exemplos bem conhecidos desse tipo de evolução, pertencendo a espécies do gênero Betacoronavirus e representando patógenos que podem causar severas doenças respiratórias em humanos.

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(I) Leitura recomendada: Qual a relação entre gripe, resfriado e frio?

          No caso do novo coronavírus, o surto da pneumonia viral em Wuhan está associado com a exposição a um mercado de frutos marinhos na região de Huanan, sugerindo uma possível zoonose. Isso porque o mercado também vende de forma ilegal animais vivos não-marinhos para consumo humano, como cobras, marmotas, morcegos, pássaros, sapos, ouriços e coelhos.

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         Nesse sentido, um estudo publicado no periódico Journal of Medical Virology (Ref.3) trouxe evidências sugerindo que cobras podem representar o reservatório do vírus 2019-nCoV que diretamente infectou os humanos. A conclusão veio após a análise filogenética de 276 coronavírus obtidos de várias localizações geográficas, incluindo 5 novos genomas identificados do 2019-nCoV.


         Os resultados dessa análise evolucionária encontraram que o vírus parece ter sido formado a partir da combinação de um coronavírus encontrado em morcegos e outro coronavírus de uma origem desconhecida. O vírus resultante desenvolveu um mistura ou "recombinação" de uma proteína viral que reconhece e se liga a receptores nas células hospedeiras. Tal reconhecimento é crucial para permitir que o vírus entre nas células, podendo levar a infecções e doenças.  Em específico, uma recombinação homóloga foi identificada e associada a uma glicoproteína do 2019-nCoV. Já assinaturas genéticas específicas, relações cladísticas e mecanismos aparentes de infecção indicaram que o surto foi iniciado a partir de uma transmissão cobra-humano.

        Dois tipos de cobras são comuns do Sudeste Asiático, incluindo da cidade de Wuhan (Bungarus multicinctus e Naja Atra). E nos mercados onde vários dos infectados pelo novo vírus trabalhavam, as cobras são produtos vivos comuns.

         Na China, houve um total de 217 casos confirmados de pneumonia até 20 de janeiro de 2020, com novos paciente também reportados em Hong Kong, Tailândia, Singapura, Coreia do Sul e Japão. Porém, ao contrário do SARS-CoV, o 2019-nCoV parece causar uma forma menos grave de pneumonia viral e parece possuir limitada capacidade para a disseminação direta entre humanos (!). Isso pode ser devido ao fato do evento de recombinação ter ocorrido dentro do receptor-lingante glicoproteico, ou justamente devido à possível origem ofídica, ou ambos.

          Cobras são répteis de sangue frio com temperatura corporal média bem menor do que aquela encontrada nos humanos. Esse fato corroboraria a atenuada infecção pelo 2019-nCoV sendo mais frequentemente observada. No entanto, existe ainda uma preocupação sobre sua adaptação evolutiva em humanos à medida que for se disseminando, com o potencial de fornecer ao vírus a capacidade de se replicar de forma mais eficiente e se espalhar mais rapidamente via contato próximo humano-humano. E mais recentemente autoridades Chinesas confirmaram que mesmo indivíduos infectados mas no período de incubação do vírus (antes dos sintomas emergirem) - o qual pode durar de 1 a 14 dias - já são capazes de transmitir o patógeno, algo não visto em outros coronavírus, como a SARS, mas visto no caso da gripe (vírus influenza) (Ref.9). Mesmo com uma possível menor virulência, essa nova característica torna o vírus muito mais difícil de ser contido, já que as pessoas podem estar transmitindo a doença sem nem desconfiarem que estão infectadas.

          Porém, outros cientistas, comentando sobre o estudo (Ref.6), não acreditam que o novo coronavírus por trás do surto possa infectar espécies que não sejam aves e mamíferos, e alguns afirmam com certeza que o reservatório original é um mamífero, com base nas evidências até o momento acumuladas.


   MORCEGOS

         Em um estudo mais recente publicado no periódico The Lancet (Ref.18), pesquisadores analisaram 10 sequências genômicas virais a partir de 9 pacientes infectados e concluíram que o 2019-nCoV precisa ser considerado um novo tipo de coronavírus devido ao fato de ser substancialmente distinto do SARS.

          Comparando a sequência genômica do 2019-nCoV com uma biblioteca de vírus, os autores do estudo encontraram que os vírus mais próximo-relacionados eram dois coronavírus similares ao SARS e de origem de morcegos - bat-SL-CoVZC45 e bat-SL-CoVZXC21 - os quais mostraram compartilhar 88% da sequência genética com o novo coronavírus. Porém, o 2019-nCoV mostrou ser geneticamente mais distante do vírus SARS (compartilhando ~79% da sequência genética) e do MERS (compartilhando ~50% da sequência genética). Além disso, os resultados indicaram que o 2019-nCoV não parece ter surgido a partir de uma mutação aleatória, ou seja, já vinha evoluindo há um bom tempo.

          Analisando em seguida a proteína usada pelo vírus para entrar nas células humanas, os pesquisadores encontraram que o 2019-nCoV e o vírus SARS possuem estruturas similares nesse sentido, apesar de algumas pequenas diferenças. Isso sugere que o 2019-nCoV pode usar a mesma porta molecular de entrada usada pelo SARS-CoV para entrar nas nossas células (um receptor chamado ACE2).

         Com base nas evidências produzidas no estudo, os pesquisadores acreditam que apesar da provável origem de morcegos, o novo coronavírus parece ter, de fato, infectado humanos a partir de um hospedeiro intermediário. Em outras palavras, mesmo os dados sendo consistentes com os morcegos sendo o reservatório geral e original dos coronavírus, o 2019-nCoV em específico provavelmente infectou os humanos através de outro animal selvagem. Primeiro, quando o surto foi primeiro reportado no final de dezembro, a maioria das espécies de morcego em Wuham estavam hibernando. Segundo, nenhum morcego foi vendido ou encontrado no mercado de Huanan, onde vários outros animais não-marinhos estavam. Nesse sentido, a possibilidade das cobras representarem o reservatório original ainda se sustenta minimamente, apesar de um mamífero ser a maior aposta.

          Um segundo estudo mais recente publicado na Nature (Ref.27) corroborou a provável origem de morcegos, e trouxe evidências - análise de sete proteínas não-estruturais conservadas - de que o novo coronavírus pertence a uma espécie de vírus relacionados ao SARS (SARSr-CoV). O estudo analisou sequências genômicas virais obtidas de 5 pacientes, encontrando um compartilhamento de 79,5% de sequências do DNA com o SARS-CoV e um genoma 96% idêntico a outros coronavírus de morcegos. Também confirmou que o 2019-nCoV usa o receptor ACE2 para entrar nas células. 

          E reportado hoje (07/02) na Nature (mas não publicado ainda como um artigo científico) (Ref.35), pesquisadores Chineses fortemente sugeriram que os pangolins (gênero Manis) - amplamente considerado o mamífero mais traficado do mundo - são os hospedeiros intermediários que transmitiram o novo coronavírus de morcegos para humanos. Sequenciando o DNA de coronavírus desses animais, pesquisadores encontraram uma similaridade genética de 99% com o coronavírus infectando agora humanos (2019-nCoV). Apesar de não serem oficialmente vendidos no mercado de Wuhan, muito provavelmente esses animais eram comercializados lá de forma ilegal, já que são muito visados em todo território Chinês e considerando que o governo do país pode punir com prisão de 10 anos ou mais quem vende pangolins, cujas 8 espécies associadas estão em grave risco de extinção (II).

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(II) As escamas do pangolim são usadas em medicinas tradicionais Chinesas sem valor científico, e, junto com a carne, em pratos luxosos variados. Para quem quiser saber mais sobre esses animais e a situação em que se encontram, acesse: Qual é o mamífero mais traficado do mundo?
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   POR QUE OS VÍRUS DE MORCEGOS SÃO TÃO LETAIS?

          Não é apenas uma coincidência que alguns dos piores surtos de doenças virais nos anos recentes - como SARS, MERS, Ebola, Marburg e provavelmente o novo coronavírus (2019-nCoV) - tenham origem de morcegos. O organismo desses mamíferos é único não só por causa do fato de voarem mas também devido ao sistema imune deles. Ao contrário de outros mamíferos que enfrentam infecções transientes com vírus altamente patogênicos e virulentos - ou morrendo em curto período ou conseguindo limpar o corpo das populações virais deletérias - os morcegos conseguem suportar a longo prazo o corpo altamente infectado, carregando altas cargas virais e muito patogênicas pelo resto da vida sem expressarem sintomas.

          O principal mecanismo que parece explicar essa notável habilidade envolve um importante caminho imunológico viral conhecido como STING-interferon. Nos morcegos, esse caminho se encontra otimizado, permitindo deter o ataque da infecção viral às células mas ao mesmo tempo não ativando de forma vigorosa o sistema imune, o que previne um caos no corpo e o aparecimento de sintomas comuns de uma infecção viral (III). Além disso, proteínas interferon tipo I - responsáveis por tornar as células resistentes a vírus - são continuamente produzidas em um número de espécies, mesmo na ausência de infecções e sem causar processos inflamatórios generalizados - provavelmente um mecanismo de defesa que evoluiu para sustentar o altamente energético voo (Ref.40).

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(III) Leitura recomendada: Descoberto como os morcegos lidam com tantos vírus letais no corpo

          Nesse sentido, boa parte das células saudáveis de muitos morcegos ficam protegidas contra infecções virais diversas mesmo antes do processo de infecção ser iniciado, possibilitando que esses animais carreguem grandes cargas virais sem maiores prejuízos e independentemente da patogenicidade e virulência dos vírus. Isso por sua vez permite que os morcegos se tornem ricas fontes virais, fomentando também a evolução de vírus com altas capacidade de replicação e taxas de transmissão intra-hospedeiro. Essas características tornam outros potenciais hospedeiros mamíferos sem o sistema imune único dos morcegos - como os humanos - altamente vulneráveis a perigosos patógenos 'cultivados' nesses animais.


   (!) O QUÃO RÁPIDO O VÍRUS SE ESPALHA?

          À medida que o número de novos casos confirmados já pula para milhares, cientistas começam a estimar o quão infeccioso e virulento é o novo coronavírus, tentando confirmar também se aqueles sem sintomas de fato estão ajudando na disseminação do patógeno.

          Em específico, os epidemiologistas quem saber quantas pessoas uma pessoa com o vírus tende a infectar - valor conhecido como R0 ou R-naught. Um R0 maior do que 1 significa que contra-medidas, como quarentena, será necessário para conter a disseminação do vírus.

           O valor R0 mais recente publicado pela OMS foi um estimado de 1,4 a 2,5. Esse intervalo de estimativa é similar ao R0 do SARS nos estágios iniciais do surto de 2002-2003 e do vírus influenza H1N1 que causou uma pandemia em 2009. Apesar desse valor poder estar subestimado ou superestimado, é uma estimativa que pode enfraquecer a hipótese do reservatório ofídico do vírus, ou pode sustentar essa hipótese caso o vírus tenha começado a infectar as pessoas bem mais cedo do que os casos oficialmente reportados e dado tempo para o vírus evoluir uma mais forte virulência entre humanos (!!).

           No entanto, um estudo mais recente publicado no periódico Journal of Travel Medicine (Ref.44) e realizado por pesquisadores da Universidade de Umeå, na Suécia, encontrou um valor muito mais alto do que o estimado pela OMS. Revisando 12 estudos de transmissibilidade do 2019-nCoV, os pesquisadores encontraram um valor de R0 médio de 3,28 (valor mediano de 2,79), bem acima da média e limite superior de 1,4-2,5. Em outras palavras, o novo coronavírus estaria se espalhando substancialmente mais rápido do que o SARS.


   QUAIS OS SINTOMAS?

          Um estudo publicado recentemente no periódico The Lancet (Ref.12) examinou 41 pacientes infectados com o 2019-nCoV (maioria homens e idade média de 49 anos), englobando pacientes encaminhados para tratamento até 2 de janeiro. Sintomas comuns identificados foram febre (98%), tosse (76%), e mialgia [dor muscular] ou fatiga (44%). Sintomas menos comuns observados foram produção excessiva de saliva (28%), dor de cabeça (8%), hemoptise (5%) e diarreia (3%). Dificuldade respiratória (dispneia) se desenvolveu em 22 de 40 pacientes, e 26 de 41 pacientes desenvolveram linfopenia (diminuição no número de linfócitos).

          Todos os 41 pacientes desenvolveram pneumonia com características anormais. Complicações incluíram síndrome de estresse agudo respiratório (29%), RNAaemia (15%), lesão cardíaca aguda (12%) e infecção secundária (10%). Do total, 13 tiveram que ser encaminhados para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 6 morreram.

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          (!!) Curiosamente, os pesquisadores também concluíram que 13 dos pacientes analisados não possuíam ligação com o mercado de frutos marinhos de Wuhan. Com base nesse fato, padrão de reportes de casos confirmados, e período de incubação, os pesquisadores sugeriram que as primeiras infecções humanas com o novo vírus ocorrem em novembro de 2019 - e talvez mais cedo ainda. Assim, o novo coronavírus poderia estar já se disseminando silenciosamente antes do surto explícito ligado ao mercado de Wuhan a partir de dezembro, ou seja, teria entrado no mercado antes de ter saído. Algumas análises independentes também corroboram esse cenário, indicando que o mercado, no mínimo, não parece ser a única fonte de disseminação do vírus (Ref.13).

          Outro estudo publicado no The Lancet (Ref.19) analisou 99 pacientes com pneumonia causada pelo 2019-nCoV, e com média de idade de 55,5 anos, incluindo 67 homens e 32 mulheres. Do total, 49 (49%) tinha um histórico de exposição ao mercado de Huanan. Entre os sintomas detectados, 83% manifestaram febre, tosse em 82%, respiração curta em 31%, dor muscular em 11%, confusão em 9%, dor de cabeça em 8%, dor de garganta em 5%, rinorreia (catarro no nariz) em 4%, dor no peito em 2%, diarreia em 2%, e náusea e vômito em 1%. Exames de imagem mostraram que 75% dos pacientes exibiam pneumonia bilateral. Do total, 17 dos pacientes desenvolveram síndrome de estresse respiratório agudo e, entre eles, 11 pacientes pioraram o quadro em um curto período de tempo e morreram de falhas múltiplas nos órgãos.

          As evidências acumuladas até o momento sugerem que o coronavírus se espalha apenas através de contato próximo e através de gotículas de saliva. Mas os cientistas continuam investigando com urgência se a transmissão também ocorre via ar; esse seria o pior cenário, indicando que medidas de isolamento não seriam efetivas.

           Em um estudo publicado no The Lancet (Ref.41), pesquisadores Chineses, analisando 9 mulheres grávidas infectadas com o vírus (e que desenvolveram COVID-19), não encontraram evidências de infecção nos bebês que nasceram, implicando que infecção intrauterina ou outra forma de transmissão direta não parece ser uma possibilidade.

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Lavar as mãos: Um estudo publicado no periódico Risk Analysis (Ref.38) reforçou que a limpeza das mão é o fator de prevenção mais importante em epidemias como a do novo coronavírus. A partir de modelos epidemiológicos e simulações baseadas em dados científicos acumulados, os pesquisadores estimaram que, em média, apenas cerca de 20% das pessoas em aeroportos possuem mãos limpas, ou seja, significando que eram foram lavadas com água e sabão por pelo menos 15-20 segundos dentro de ~1 hora. Do total de pessoas que vão ao banheiro, 30% não lavam as mãos e 50% não as lavam de forma correta. Em outras palavras, 80% das pessoas em aeroportos estão potencialmente contaminando tudo o que tocam com uma alta carga de microrganismos diversos, patogênicos ou não, e também carregando a contaminação de outras pessoas por um período mais longo de tempo, aumentando o risco de contato com mucosas do corpo.

Segundo a conclusão das análises, se três vezes mais pessoas (60%) lavassem as mãos corretamente em todos os aeroportos do mundo, isso seria suficiente para frear a disseminação de várias doenças epidêmicas em até ~70%, incluindo o novo coronavírus. E mesmo aplicando esse nível de higienização em apenas 10 dos mais importantes aeroportos do mundo, o esforço poderia diminuir a força de disseminação do patógeno em até 37%.
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   TRANSMISSÃO VIA ASSINTOMÁTICOS?

          Um estudo publicado no último 30 de janeiro no periódico The New England Journal of Medicine (NEJM) (Ref.28) sobre as primeiras quatro pessoas na Alemanha infectadas com o novo coronavírus (2019-nCoV) tinha concluído que mesmo indivíduos infectados sem sintomas da infecção (assintomáticos) eram capazes de transmitir o vírus. Isso trouxe grande preocupação, porque já existiam suspeitas nesse sentido e uma confirmação implicaria uma dificuldade muito maior de controlar a disseminação do patógeno.

          O estudo baseou essa conclusão em uma mulher infectada que supostamente teria passado o vírus para os quatro pacientes, na Alemanha. Os pacientes tinham afirmado que ela não parecia estar expressando sintoma nenhum da infecção. Nesse sentido, os autores do estudo confiaram no parecer desses pacientes sem examinar a mulher infectada. Mas após uma investigação de autoridades de saúde na Alemanha (Ref.29), foi descoberto que a mulher estava sim expressando sintomas, mas havia tomado paracetamol, escondendo as dores no corpo e a febre. O falho estudo será retratado pelo NEJM.

          De qualquer forma, cientistas Chineses na área de infectologia continuam sugerindo que indivíduos assintomáticos são capazes de transmitir o vírus. Por outro lado, segundo a OMS, mesmo se essa alegação for verdade, os casos de transmissão a partir de infectados assintomáticos provavelmente serão a minoria, já que tosse ou espirros são mecanismos de extrema importância na disseminação do vírus.


   QUAIS CIDADES E PAÍSES EM MAIOR RISCO?

          Em um reporte publicado hoje (29/01) por especialistas da Universidade de Southampton, Reino Unido, foram listados as cidades e províncias dentro da China continental, e cidades e países ao redor do mundo, que estão em alto risco para a disseminação do novo coronavírus.

         Segundo o reporte, Bangkok (Tailândia) é atualmente a cidade em maior risco frente à disseminação global do vírus - baseado no número de viajantes aéreos preditos de chegarem a partir das piores cidades afetadas na China continental. Hong Kong (China) é a segunda na lista, seguida por Taipei (Taiwan, a República da China). Seoul (4°), Tóquio (5°), Sydney (12°), New York (16°), Dubai (17°), Londres (19°) e Paris (27°) estão entre 30 outras principais cidades internacionais ranqueadas na pesquisa. Nenhuma cidade Brasileira aparece entre as principais.

          Os países em maior risco são a Tailândia (1°), Japão (2°) e Hong Kong (3°). EUA foi colocado em 6° na lista, Austrália em 10° e Reino Unido em 17°. O Brasil não se encontra entre os 30 principais e, no geral, África e América do Sul são os dois continentes em menor risco. Dentro da China continental, as cidades de Beijing, Guangzhou, Shanghai e Chongqing estão todas identificadas como alto risco pelos pesquisadores, junto com as províncias de Guangdong, Zhejiang, Sichuan e Henan.

         Para o reporte completo, acesse: WorldPop.org


   SUMÁRIO (Até o momento)

         Um novo vírus - designado 2019-nCoV - emergiu na China, no final do ano passado, e já infectou mais de 68 mil indivíduos (casos oficialmente registrados), mas dezenas de vezes mais casos podem representar o real valor. Fora da China, são pelo menos 24 países reportando casos confirmados, especialmente no Sudeste Asiático. São mais de 1,6 mil mortes, 3 das quais fora da China. Inicialmente, não se sabia se o vírus estava sendo transmitido entre humanos, mas essa forma de transmissão foi confirmada na última semana. Além disso, a transmissão parece estar ocorrendo mesmo a partir de indivíduos infectados mas em período de incubação do vírus. Análises genéticas fortemente sugerem que o reservatório original do vírus são morcegos, com o mamífero pangolim atuando como intermediário entre morcegos e humanos. Enquanto que severas infecções foram registradas, resultando em um número de mortes na China, outros pacientes expressam uma infecção pulmonar mais branda, mas geralmente envolvendo pneumonia. A doença pulmonar causada pelo novo coronavírus foi chamada oficialmente de COVID-2019 pela OMS.

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          Segundo os especialistas, novos métodos de diagnóstico para uma rápida detecção da infecção viral são urgentemente de necessários, incluindo estratégias de análise quantitativa de anticorpos vírus-específicos. Acompanhamento da evolução viral, identificação de fatores de virulência, e melhor elucidação de mecanismos moleculares de replicação viral e de patogênese são também cruciais.

         O controle ideal para infecções virais emergentes requer a descoberta e desenvolvimento de vacinas efetivas e/ou medicamentos antivirais, algo que pode levar anos (apesar de cientistas já estarem de posse do DNA viral e correndo para o desenvolvimento recorde de uma vacina). No entanto, alguns especialistas sugerem que alguns medicamentos antivirais já licenciados para o tratamento de outras infecções virais podem também ter atividade contra o 2019-nCoV, como previamente reportado para o MERS-CoV (Ref.4).




REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/22/governo-de-minas-investiga-caso-de-coronavirus-em-belo-horizonte.ghtml
  2. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-nCoV/summary.html
  3. https://www.nature.com/articles/d41586-020-00154-w
  4. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/jmv.25683
  5. http://www.saude.mg.gov.br/component/gmg/story/12008-nota-de-esclarecimento-sobre-caso-suspeito-de-coronavirus
  6. https://www.nature.com/articles/d41586-020-00180-8
  7. https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/25/china-suspende-viagens-turisticas-para-o-exterior-por-surto-de-coronavirus.ghtml
  8. https://www.nytimes.com/2020/01/26/world/china-coronavirus.html
  9. https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51254523
  10. https://www.theguardian.com/science/2020/jan/26/coronavirus-could-infect-100000-globally-experts-warn
  11. https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51259649
  12. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30183-5/fulltext
  13. http://virological.org/t/clock-and-tmrca-based-on-27-genomes/347
  14. https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/27/china-registra-primeira-morte-por-coronavirus-em-pequim.ghtml
  15. https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/01/brasil-investiga-um-caso-suspeito-de-coronavirus-e-ministerio-sobe-nivel-de-alerta.shtml
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