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Quanto tempo o novo coronavírus sobrevive sobre superfícies e no ar?


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          Em dezembro de 2019, um novo coronavírus causou um grande surto de doença pulmonar na cidade de Wuhan, a capital da província de Hubei na China, e tem desde então se espalhado globalmente. O vírus eventualmente foi nomeado SARS-CoV-2, devido ao fato do seu genoma (constituído de RNA) ser ~82% idêntico ao coronavírus (SARS-CoV) responsável pelo SARS (síndrome respiratória aguda grave). Ambos os vírus pertencem ao clado b do gênero Betacoronavirus. A doença causada pelo SARS-CoV-2 é chamada COVID-19. Apesar dos casos de infecção inicialmente estarem conectados ao mercado de animais e alimentos marinhos de Wuhan, uma eficiente transmissão humano-para-humano levou ao crescimento exponencial do número de casos e a eventual declaração de uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

         No momento, são mais de 590 mil casos oficialmente confirmados, com uma taxa de mortalidade em torno de 3,7%, mas alcançando níveis alarmantes na Itália - algo que talvez possa se espelhar no Brasil, segundo análises estatísticas mais recentes (I). No geral, pacientes contraindo a forma severa da doença constituem aproximadamente 15% dos casos. Nenhum tratamento efetivo ainda existe para o COVID-19.

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(I) Para mais informações sobre o assunto, acesse: O que se sabe até o momento sobre o novo vírus da China?


          Como não existem ainda tratamentos cientificamente comprovados para o COVID-19, e considerando que uma vacina efetiva pode demorar a ser liberada para uso a nível populacional, a melhor forma de lidar com a nova pandemia é a adoção de métodos preventivos tradicionais, como a lavagem frequente das mãos com água e sabão ou via álcool em gel, minimizar o contato das mãos no rosto - evitando que possíveis patógenos das mãos entrem em contato com as mucosas do nariz, olhos e boca -, não viajar para áreas com alto nível de infectados, evitar aglomerações de pessoas e manter uma distância mínima de 1-2 metros de indivíduos que estejam tossindo ou espirrando.

           Todas essas medidas visam reduzir a contaminação das pessoas a partir de gotículas e aerossóis (suspensão de particulados ou gotículas muito pequenos em um gás/ar) contendo o vírus sendo eliminadas pela tosse e pelos espirros de pessoas infectadas e também depositadas sobre superfícies diversas. Mas qual é o tempo que o SARS-CoV-2 consegue resistir na forma de aerossóis no ar e depositado sobre diferentes superfícies? Essa é uma informação importante para os esforços de contenção da pandemia e até recentemente incerta.

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          Nesse sentido, em um estudo publicado esta semana no periódico The New England of Medicine (II), pesquisadores buscaram avaliar a estabilidade do SARS-CoV-2 e também do SARS-CoV (causador da pandemia de 2002/2003 do SARS - síndrome respiratória grave aguda), este o qual é o mais próximo coronavírus humano evolutivamente relacionado. Para isso, duas cepas foram usadas: SARS-CoV-2 nCoV-WA1-2020 (MN985325.1) e SARS-CoV-1 Tor2 (AY274119.3). Com o objetivo de simular os aerossóis expulsos nos espirros e na tosse, os pesquisadores usaram um nebulizador Collison de três jatos. O aparelho permitiu a produção de aerossóis com menos de 5 micrômetros de diâmetro contendo quantidades similares ou de SARS-CoV-2 ou de SARS-CoV.

          Com a ajuda do nebulizador, os pesquisadores contaminaram cinco ambientes distintos com os aerossóis: ar, plástico, aço inoxidável, cobre, e papelão. Todas as medidas experimentais foram realizadas em triplicatas.

          Os resultados dos experimentos mostraram que o SARS-CoV-2 permanecia viável (capaz de infectar) em aerossóis (ar) por até 3 horas, com uma redução de carga viral similar à vista com o SARS-CoV. Em superfícies de plástico e de aço inoxidável, o SARS-CoV-2 se mostrou mais estável, com vírus viável detectado até 72 horas após a deposição dos aerossóis, mas com uma substancial maior redução da carga viral comparado com o vírus nos aerossóis (ar). Similares viabilidade e carga viral foram encontradas para o SARS-CoV. Sobre a superfície de cobre, nenhum SARS-CoV-2 viável foi detectado após 4 horas e nenhum SARS-CoV viável foi detectado após 8 horas. Sobre papelão, nenhum SARS-CoV-2 viável foi detectado após 24 horas e nenhum SARS-CoV viável foi detectado após 8 horas.

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           Os pesquisadores concluíram que a estabilidade do SARS-CoV-2 foi similar àquela do SARS-CoV sob as condições experimentais testadas. Isso indica que diferenças nas características epidemiológicas desses vírus provavelmente emergem de outros fatores, incluindo altas cargas virais no trato respiratório e o potencial para pessoas infectadas com o SARS-CoV-2 transmitirem o vírus enquanto assintomáticas.

          Os resultados do estudo também reforçam que a transmissão do SARS-CoV-2 via aerossóis e a partir de superfícies contaminadas é mais do que plausível, já que o vírus pode permanecer viável e infeccioso em aerossóis por horas e em certas superfícies por dias. A limpeza constante de superfícies frequentemente tocadas pelas mãos, uso de máscaras por indivíduos tossindo ou espirrando, evitar aglomerações e lavar bem as mãos de forma frequente precisam ser medidas levadas mais a sério.

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ATUALIZAÇÃO: Um estudo preprint publicado no periódico bioRvix (III) que os vírus depositados sobre superfícies - incluindo chão e materiais de proteção, como máscaras - podem ser novamente lançados em suspensão no ar durante limpeza ou manipulação de equipamentos. Isso sugere que uma sanitização frequente de superfícies pode ser ainda mais crítica para minimizar a transmissão do SARS-CoV-2, caso este esteja sendo transmitido em substancial extensão pelo ar.
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(II) Publicação do estudo: NEJM

(III) Publicação do estudo: bioRvix