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Plantas geneticamente modificadas: A polêmica é ainda válida hoje?

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          Por causa de inúmeros problemas associados como o mau uso da terra, excesso no consumo de carne, má distribuição de renda, rápido aumento da população mundial, entre outros, a escassez de alimentos está se tornando um problema cada vez mais grave ao redor do mundo. Hoje temos uma população total de 7,7 bilhões de habitantes, e para 2050 é estimado um total de 10 bilhões. Apesar do enorme potencial de produção e de melhor distribuição de alimentos mais do que suficiente para alimentar toda a população (1), é pouco provável que ações tradicionais necessárias para tal sejam colocadas em prática a curto prazo. Nesse sentido, estratégias mais modernas e não-tradicionais para aumentar a produtividade das plantações acabam representando grandes oportunidades de sustentabilidade.

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(1) Leitura recomendada: É possível alimentar mais de 10 bilhões de pessoas sem devastar o ecossitema

          Talvez a principal dessas estratégias é o uso de plantas geneticamente modificadas, incluindo as plantas transgênicas e cisgênicas. Ao invés do gasto de longos e incertos períodos fazendo cruzamentos para a obtenção de plantas mais bem adaptadas às adversidades, a modificação genética via ferramentas biotecnológicas modernas se torna um super-atalho para a promoção imediata de características desejáveis - melhora no valor nutricional e maior resistência às secas, frio e pragas, por exemplo - em uma espécie de cultivo alvo. No entanto, apesar do enorme potencial desse tipo de tecnologia, ainda hoje o campo biotecnológico enfrenta um grande inimigo: opinião pública.




   PLANTAS GENETICAMENTE MODIFICADAS

         Plantas com características favoráveis têm sido produzidas há milhares de anos, via métodos convencionais de cruzamentos e de seleção artificial. Aliás, essas técnicas tiveram grande impacto na evolução de várias espécies domesticadas de plantas, em especial o trigo (2). Traços desejáveis são selecionados, combinados e propagados via repetidos cruzamentos sexuais ao longo de numerosas gerações. Esse é um processo muito longo, levando até 15 anos para produzir novas variedades.

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(2) Leitura recomendada: Como nova informação genética é gerada durante o processo evolutivo?

          Pesquisa na biologia de plantas entrou em uma fase disruptiva no começo da década de 1980 com o advento de métodos diretos para a transformação estável de células vegetais, permitindo a introdução de DNA exógeno dentro do genoma hospedeiro. A engenharia genética não apenas passou a permitir que os processos tradicionais de melhoramento fenotípico fossem dramaticamente acelerados - ao introduzir genes diretamente na planta visada com as características adaptativas - como também quebrou a barreira de incompatibilidade entre espécies de plantas que não conseguiam se hibridizar e aumentou enormemente o genetic pool na agricultura.

           As plantas geneticamente modificadas (GM) - incluindo as transgênicas e as cisgênicas - são aquelas que foram geneticamente modificada usando tecnologia de DNA recombinante ou outros métodos que induzem mutações. Isso pode ser expresso como um gene que não é nativo na espécie alvo ou um gene endógeno modificado. O gene inserido ou modificado irá codificar a proteína conferindo um traço particular à planta (resistência a herbicidas e a pragas, mais rápido crescimento, etc.). O novo gene pode também ser usado para produzir compostos não-alimentícios de interesse, como anticorpos, plásticos, biocombustíveis, entre outros, ou para aumentar a produção de um determinado nutriente já presente ou não na planta.

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          O cultivo global de plantas GMs para o consumo humano e não-humano alcançou 185,1 milhões de hectares em 2016, com um total de benefícios comerciais de US$150,3 bilhões (1996-2014). Até 2017, as plantações GM passaram a cobrir 13,5% das terras aráveis do mundo, mas com pequena presença na Europa e na África. Algodão, soja e milho GMs englobam 90% ou mais da produção onde são permitidos, e a maior parte dessas plantas foram desenvolvidas para melhorar a performance no campo de cultivo (tolerância a herbicidas e produção endógena de inseticidas). Como exemplo de comparação, para plantações de soja, milho, algodão e colza não-modificadas terem alcançado o mesmo nível de produção por hectare das variedades GMs em 2016, seriam necessários um total de 22,4 milhões de hectares extras de produção.



          Nos EUA, as plantas GMs foram introduzidos no suprimento de alimentos na década de 1990. Algodão, milho e soja são os representantes nessa categoria mais comuns no país, e em 2012 soja GM já representava 93% de toda a soja plantada, e milho GM 88%. Os países que mais plantam plantas GMs são, na ordem: os Estados Unidos, a Argentina e o Brasil, este último com 15,8 milhões de hectares. Hoje, são três as plantas transgênicas cultivadas no nosso país: a soja, o milho e o algodão.

          Saindo do fator produtividade, talvez o caso mais conhecido é o Golden Rice, uma variedade de arroz (Oryza sativa) que foi modificada de forma aumentar o conteúdo de beta-caroteno, um percursor de vitamina A na dieta, e que foi aprovado para uso nos EUA, na Austrália, na Nova Zelândia e no Canadá. Essa variedade também possui um maior conteúdo de ferro, de potencial importância desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a deficiência em ferro afeta 30% da população mundial. O nome é devido à cor amarelada dos grãos dessa variedade de arroz.

          Os benefícios para a sociedade humana oferecidos pelos cultivares GMs são diretos e indiretos. De forma direta, temos uma maior produtividade e alimentos mais nutritivos e de melhor qualidade. De forma indireta, temos uma maior preservação do meio ambiente, onde um mesmo espaço de terra pode produzir inúmeras vezes mais com os transgênicos do que com as plantas não modificadas, diminuindo a necessidade de mais desmatamento para aumentar a área de cultivo.


   O QUE É UMA PLANTA GM?

         Definir o que GM significa no contexto de biotecnologia agricultural não é uma tarefa simples, especialmente em termos legais. Por exemplo, segundo a definição da União Europeia via Diretiva 2001/18/EC, um organismo geneticamente modificado (OGM) é definido como um no qual o material genético foi alterado de um modo que não ocorre naturalmente. Essa definição, porém, levanta uma série de problemas. Primeiro, algumas das técnicas usadas no cruzamento 'tradicional' de plantas, assim como técnicas genômicas modernas, produzem mudanças genéticas que não ocorreriam naturalmente.

         Segundo, podemos citar a mutagênese química ou radioativa (usando raios-X, raios gama e agentes químicos), técnica que produz milhares de mutações em uma planta individual. Os produtos desses tratamentos são considerados OGMs como definido pela Diretiva, mas são referidos como uma 'exceção de mutagênese', principalmente porque várias variedades de plantas de cultivo derivadas dessas técnicas já são amplamente usadas há décadas, mesmo antes da Diretiva entrar em vigor. Um exemplo bem conhecido é o óleo de semente de colza, o qual só se tornou adequado para o consumo humano através de um intensivo programa de mutagênese na segundo metade do século XX, responsável por reduzir os níveis de glucosinolatos e ácido erúcico, ambos tóxicos.

         E é válido citar que mutações ocorrem naturalmente, e são um dos principais mecanismos de evolução biológica (2), mas, claro, não na taxa vista com os tratamentos radioativos e químicos.

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          Técnicas genômicas mais modernas também têm explorado populações duplamente haploides para a identificação de marcadores genéticos e de loci de traços visando auxiliar cruzamentos assistidos. A produção dessas populações envolve cruzamentos forçados entre espécies que não iriam naturalmente se cruzar (centeio e trigo, trigo e milho, etc.), seguido por duplicação genômica em embriões haploides que perderam os cromossomos 'exógenos' - algo nada 'natural'. No entanto, sob a Diretiva Europeia, as variedades resultantes não são consideradas OGMs.

         Nesse sentido, podemos tentar classificar os OMGs como aquelas espécies em cujo genoma foi inserido DNA de espécies sexualmente não compatíveis. E existem vários exemplos que entram nessa classificação e que estão inclusive bem estabelecidos no mercado. Por exemplo, o gene EPSPS usado pela Monsanto para emplacar resistência ao herbicida glifosato em plantações tem origem da bactéria Agrobacterium tumefaciens, enquanto que os genes Cry usados para tornar certas plantas mais resistentes ao ataque de insetos tem origem de outra bactéria: Bacillus thuringiensis (Bt) (!). Tais genes são chamados de 'transgenes' e os organismos que os recebem são chamados de 'transgênicos'.

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(!) O Brasil, junto com os EUA, é o maior produtor de soja (Glycine max) do mundo, com as variedades transgênicas sendo amplamente empregadas desde a década de 1990. O transgene bacteriano associado é responsável pela produção da proteína Cry1Ac, a qual confere à soja resistência aos principais insetos praga da ordem lepidóptera da cultura. Ao se alimentarem as larvas/lagartas irão ingerir essa proteína, a qual se liga ao tubo digestivo desses insetos, promovendo o rompimento da membrana do intestino médio e, eventualmente, a morte. No Brasil, a liberação da soja transgênica acha-se regulada desde 1995 pela Lei de Biossegurança nº. 8.974 revogada pela Lei 11.105 de 2005 que fixa as normas coordenadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para uso dessa técnica de engenharia genética
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          Por outro lado, as inserções de DNA também podem ser realizadas intra-espécies. Por exemplo, nos EUA, a empresa JR Simplot Company of Boise incorporou genes de reduzida expressão - PhL, R1, ASN1 e PPO5 -, e todos codificantes de enzimas associadas a formação de manchas no tubérculo e a quebra de amido, em novas variedades de batata (Solanum tuberosum) e oriundos da própria espécie. Nesse caso, os organismos resultados são chamados de cisgênicos.

         Finalmente, tanto os transgênicos quanto os cisgênicos são inseridos via recombinação de DNA. Essa poderia ser uma classificação válida de um OGM (presença de DNA recombinante), se a recombinação não fosse um processo ocorrendo naturalmente a todo momento.

          Essa dificuldade de classificação é mais do que importante de ser citada para entrarmos na discussão sobre os riscos à saúde que podem estar ou não associados aos OGMs, especialmente entre as plantas GMs.


   SAÚDE HUMANA E GMO

          Um número de técnicas existem para a produção de plantas transgênicas. As duas mais comumente empregadas são a bactéria Agrobacterium tumefaciens, a qual naturalmente é capaz de transferir DNA para as plantas, e a 'gene gun', a qual atira partículas microscópicas revestidas com DNA na célula da planta. Geralmente, células individuais de planta são alvos dessas modificações genéticas e então regeneradas em plantas transgênicas inteiras usando técnicas de cultura celular. Para plantas GMO em geral, várias são as técnicas, incluindo a mutagênese radioativa e química - seguido de seleção artificial - e, na última década, o extensivo uso de edição genética a partir de ferramentas como ZFN (zinc-finger nucleases) e o CRISPR-Cas9 (3). Os editores genéticos são mais frequentemente usados para introduzirem mutações de desativação, na forma de deleções curtas, incluindo deleções ou mudanças em nucleotídeos (letras) únicos. Todas essas técnicas - com exceção dos indutores de mutagênese - são também usadas para a modificação de animais de criação, como peixes e porcos.

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(3) Leitura recomendada: CRISPR-Cas9: O poder da edição genética!

> Importante lembrar que modificações via editores genéticos não são consensualmente consideradas GMs, mas uma categoria separada de Edição Genética (GE). Esse é outro ponto de recente e ferrenho debate, especialmente em termos legais na Europa. De qualquer forma, GE ou GM, os editores genéticos estão cada vez mais precisos e prometem revolucionar o campo das modificações em plantas de cultivo.

> As radiações usadas para o propósito de induzir mutações nas plantas incluem UV, raios-X e raios gama. Bombardeamento com nêutrons rápidos são também usados, mas em limitada extensão, porque promovem translocações, perdas cromossômicas e grandes deleções, algo que pode não produzir as mutações desejadas na maioria dos casos. Já os raios gama, bem mais empregados, são radiações eletromagnéticas de comprimentos de onda muito curtos que penetram profundamente nos tecidos e quebram a molécula de água para produzir radicais hidroxilas altamente reativos, estes os quais atacam a estrutura do DNA. Várias partes das plantas são alvos desses procedimentos, mas as sementes representam o mais comum.
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          Entre essas técnicas, a que geralmente gera a maior atenção quanto a possíveis efeitos deletérios na saúde humana é a recombinação de transgenes - apesar dos procedimentos de indução mutagênica serem também bastante questionados pela opinião pública pela natureza das técnicas. Nesse procedimento, é isolado o fragmento de DNA ou gene de interesse do genoma de uma espécie doadora e cópias são feitas através de procedimento de DNA recombinante via síntese artificial do fragmento; com a ajuda de um vetor adequado, o fragmento clonado é inserido de forma randomizada ou a um local específico do genoma hospedeiro (espécie alvo). Entre os aspectos desse procedimento que têm historicamente levantado preocupação, podemos citar:

- Transferência de DNA exógeno não-visado para o genoma da planta (genes outros além daqueles sendo estudados);

- A possibilidade de um aumento de mutações nas plantas transgênicas comparado com as versões não-transgênicas devido a processos usados na produção e no rearranjamento de DNA ao redor do local de inserção de genes exógenos.

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          Existem hoje mais de 80 alimentos no mundo (animal e vegetal) transgênicos, indo de milho resistente a insetos até leveduras que melhoram a qualidade do vinho. E, no banco de dados da FAO, existem mais de 3218 cultivares de várias espécies de plantas que foram desenvolvidos usando agentes de indução mutagênica, incluindo irradiação ionizante e sulfonato de etil-metano. Esses alimentos são usados para a alimentação direta ou indireta das pessoas (no caso indireto, são dados de alimentação para animais de criação que, por sua vez, serão consumidos por nós).

          Os estudos de revisão sistemática e aqueles revisados por pares na literatura acadêmica, até o momento, não encontraram efeitos deletérios na saúde humana derivados do consumo desses alimentos (Ref.10-11). Essa conclusão também é corroborada pela Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (FDA) (Ref.12). No entanto, é difícil estabelecer efeitos colaterais deletérios para o consumo de quaisquer produtos alimentícios (GM ou não), porque isso varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, na década de 1990 ficou famoso o caso do óleo de soja modificado com genes de castanha-do-Pará aqui no Brasil que acabou não sendo comercializado porque pessoas alérgicas à castanha-do-Pará também se mostraram alérgicas ao óleo modificado. Mas isso não é um problema que foge do 'natural', porque pessoas naturalmente possuem alergia a alimentos diversos.

          As evidências científicas acumuladas até o momento indicam que as proteínas transgênicas em alimentos oriundos de GMOs são substancialmente degradadas durante o processamento alimentar e ao passar através do trato digestivo de humanos, gado, ovelhas, porcos, galinhas e peixes. E também não existem evidências sugerindo que o DNA transgênico é digerido no intestino diferente do DNA constituindo o alimento 'natural'. No geral, pouco ou nenhum resíduo GM é absorvido pelo organismo e não existem evidências de que DNA GM possa ser incorporado e expresso no genoma de animais (humanos ou não). Na carne, leite e ovos de animais terrestres de criação nenhum resíduo GM têm sido reportado. Aliás, após cozimento, DNA transgênico nos alimentos é largamente degradado. E mesmo existindo suficiente evidência de que pequenos fragmentos de DNA oriundo da dieta podem resistir ao trato digestivo e entrar na corrente sanguínea, a presença de genes intactos é pouco provável. No intestino, bactérias do microbioma podem incorporar sequências de DNA ingeridos no seu genoma, mas nenhum problema associado a esse tipo de evento foi reportado, especialmente porque o DNA é em geral amplamente degradado na região gástrica e processamento prévio. E mesmo transgenes de resistência bacteriana frequentemente usados no passado como marcadores no desenvolvimento de plantas GMs são amplamente disseminados na natureza.

          Globalmente, 70-90% das cultivares GMs são usados para a produção de ração, sustentando não menos do que 100 bilhões de animais ao redor do mundo, ou o equivalente a 13 vezes a população humana. E nenhuma evidência de efeitos detrimentosos à saúde dos animais de criação têm sido reportados associados à ração GM.

         Existe também a controversa questão sobre a assimilação de micro-RNA (miRNA) de plantas na corrente sanguínea de animais, incluindo humanos, após o consumo. Os miRNAs são pequenos filamentos de RNA não-codificantes que possuem como principal função atuar como silenciadores pós-transcricionais, ao afetarem a função de RNAs mensageiros (mRNAs). O miRNAs derivados de plantas possuem um final 3' 2'-O-metil modificado, e, portanto, podem ser facilmente distinguidos de sequências equivalentes de animais no sangue, órgãos e leite desses últimos. De fato, já foi demonstrado que o miRNA de plantas GM ou 'naturais' conseguem alcançar a corrente sanguínea de animais, e têm sido usados em certas modificações genéticas e desenvolvimento de novos herbicidas. No entanto, não existem evidências de que os miRNAs de plantas impactam negativamente a saúde dos animais. E essa não é uma questão específica das variedades GMs.

          Nesse último ponto, temos que esclarecer algo. Frequentemente as pessoas associam produtos naturais como algo inofensivo e 'criado' para nos servir de forma segura. Não, na natureza os seres vivos estão em constante processo evolutivo e produzindo também toxinas diversas para se defenderem. Mutações ocorrem a todo momento, deletérias ou benéficas, e podem passar para a próxima geração via mecanismos evolutivos diversos, como deriva genética e seleção natural. Até mesmo transferências laterais de genes ocorrem entre espécies de diferentes clados e complexidades (2). Plantas de cultivo de centenas ou milhares de anos atrás são bem diferentes hoje do que no passado, seja por interferência humana seja por processos evolutivos naturais. Os métodos de engenharia genética apenas aceleram essas mudanças. Aliás, por isso também a dificuldade de se definir o que é um GMO.

          Dependendo do ponto de vista, podemos dizer que os humanos vêm modificando as plantas de cultivo - criando variedades 'GMs' - desde a adoção da agricultura. Entre os mais antigos exemplos de modificações genéticas sendo fixadas em espécies agriculturáveis por humanos está a perda da fragmentação de sementes nos cereais. Ao longo dos últimos 10-15 mil anos, agricultores têm propagado plantas com traços desejáveis, selecionando e fixando genes e alelos, e modificando a estrutura genética das espécies, com especial destaque para os processos de hibridização. Antes da domesticação, a banana possuía sementes e era pouco comestível; há milhares de anos humanos provavelmente hibridizaram diferentes subespécies no Sudeste Asiático a partir do ancestral selvagem Musa acuminata, do qual a maior parte dos cultivares modernos são derivados, produzindo variedades com cada vez menos sementes até cultivares sem sementes. Essa é drástica 'modificação genética', levando apenas mais tempo para ter ocorrido.

          Uma planta 'natural' ou uma artificialmente modificada precisam ser e são testadas da mesma maneira para a análise do perfil de segurança alimentar. Em 2016, a Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina liberou um reporte concluindo que plantações tratadas com o uso de biotecnologia não são diferentes de plantações tratadas de forma tradicional em termos de riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Isso foi seguido por uma declaração dada por mais de 100 premiados com o Nobel, junto com outros cientistas de destaque, pedindo para que os críticos parem com a oposição não-científica aos cultivares GM, especificamente o Golden Rice, e para os governos ao redor do mundo rejeitarem campanhas contra as plantações biotecnologicamente modificadas.

          A opinião pública muitas vezes se deixa levar por dogmas religiosos, valores ou crenças pessoais em questões como essa, inferindo uma noção de 'errado' quando cientistas modificam seres vivos 'criados por Deus' ou pela entidade "Mãe Natureza". Isso, aliás, é similar ao pregado em campanhas anti-vacinas e anti-evolucionistas. Aliás, esse tipo de questionamento 'ético' ficou famosamente expresso na fala do Príncipe Charles (Inglaterra) sobre os GMOs: "Misturar material genético de espécies que não podem se reproduzir entre si naturalmente, nos levam a áreas que deveriam ser deixadas a Deus." No entanto, essa frase oriunda de um leigo na área é o exemplo perfeito de anti-ciência: ignora, por exemplo, que a transferência lateral de genes ocorre naturalmente na natureza entre clados evolutivamente muito distantes (procarióticos e eucarióticos) e que o nosso próprio DNA é recheado com o genoma de vírus diversos (2).

         Aliás, até mesmo instituições acadêmicas religiosas que sabem separar crença de ciência apoiam o uso mais extensivo dos GMOs já mostrados seguros para o consumo alimentar. Podemos citar a declaração da Academia Católica Pontifical de Ciências (adaptado): "Existe um imperativo de tornar os benefícios da tecnologia de engenharia genética disponíveis em larga escala para as populações pobres e vulneráveis que as querem; tecnologia, nesse sentido, é a resposta ao comando de Deus para cultivar e conservar a terra (cf. Gen 2:15) que foi confiada à humanidade, e isso deve servir para reforçar o pacto entre seres humanos e o meio ambiente, um pacto que deveria espelhar o amor criativo de Deus".

         Pesquisas de opinião geralmente reportam grande sentimento negativo da população contra os GMOs, mas quando o público é perguntado sobre questões científicas básicas dos GMOs, poucos são os que demonstram entender um mínimo do assunto. Temem porque não entendem. Todos os dias milhões de pessoas saem em seus carros para o trabalho, ignorando os altos riscos nas estradas por estarem familiarizados com esses riscos (sabem que podem limitá-los por conhecerem as regras de trânsito). Porém, para riscos associados a algo não familiar, a percepção de perigo tende a ser muito maior porque o indivíduo não possui o conhecimento necessário para lidar com a matéria.

         Infelizmente, decisões políticas são movidas por votos e não pela academia científica. Benefícios dos GMOs são excessivamente subestimados e os malefícios são excessivamente superestimados. A União Europeia é um exemplo claro disso, onde medidas governamentais são extremamente restritivas contra os GMOs. Até a presente data, apenas a variedade de milho Bt MON810 é autorizada para o cultivo no território Europeu, e sendo cultivada apenas na Espanha em significativa extensão (mais de 30% das plantações de milho Espanholas carregam o transgene associado). Por outro lado, mais contraditório ainda, mais de 100 variedades de plantas GMs têm sido aprovados para importação como alimento (humano e ração) na Europa, especialmente soja, esta a qual é comercializada internacionalmente em sua maior parte (>90%) como variedades GMs. É uma prova de como o conflito de interesse político - fomentado pela Pós-Verdade - subjuga a razão científica e o bem comum. E essa confusão Europeia acaba gerando hesitação em diversos outros países, prejudicando globalmente o progresso.

          Na África, o continente mais afetado pela subnutrição, enquanto alguns países como o Quênia, a África do Sul e o Egito estão gradualmente abraçando as plantas GMs, pouco ou nenhum progresso têm sido visto em países no Oeste da África. A Nigéria, o mais populoso país Africano, encara desafios de insuficiência de alimentos para a população cada vez maiores. O país precisa de extensiva aplicação biotecnológica para fomentar a produção e a qualidade dos alimentos, mas pouca atenção tem se dado no país aos GMOs. Governo e população, assim como em vários outros países - desenvolvidos ou não - temem os GMOs, e só mais recentemente - a partir de meados de 2018 - aprovações para o plantio ainda tímido de GMOs (soja resistente a pestes locais no caso) foram concedidas, mas já existem processos para regulamentar o uso de milho Bt e algodão Bt. Na África do Sul, onde plantas GMs têm sido cultivadas e consumidas pelas últimas duas décadas, nenhum reporte de efeitos adversos à saúde ou ao meio ambiente foi feito, e, pelo contrário, o país têm se beneficiado muito com os GMOs, desde a maior produção de alimentos e lucros até a maior proteção aos recursos naturais.

         E, obviamente, estudos avaliando o impacto de plantas GMs na saúde humana e no meio ambiente precisam continuar sendo efetuados independente do atual consenso de segurança. O mesmo se aplica a produtos ditos 'naturais', seja de origem animal ou vegetal, seguindo o Princípio da Precaução. Tudo o que nós fazemos envolve algum nível de risco e nenhuma atividade é absolutamente segura. 

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         O Greenpeace - organização global e independente que atua para defender o meio ambiente e promover a paz, inspirando as pessoas a mudarem atitudes e comportamentos - tem feito campanha contra a liberação de OGM no meio ambiente e se oposto ao seu uso na alimentação humana e animal. Para a organização, os resultados da utilização de transgênicos, sem que estudos suficientes que comprovem a sua segurança sejam realizados, são imprevisíveis, incontroláveis e desnecessários. Mas curiosamente o Greenpeace está repetindo o que negacionistas climáticos vêm fazendo há décadas, ou seja, negando as evidências científicas acumuladas. Enquanto a organização está certa em cobrar mais estudos sobre os impactos dos transgênicos na saúde e no meio ambiente, temos já estudos acumulados de alta qualidade desde a década de 1990 sobre várias plantas geneticamente modificadas, e apesar de já serem amplamente consumidas e cultivadas, nenhum substancial problema foi reportado e/ou confirmado por estudos de alta qualidade.


   CASO DO MAMÃO

          A lista de frutas GM incluem cultivares de maças, melão, mamão e ameixa. O mamão (Carica papaya) é um caso notável devido à sua suscetibilidade ao vírus PRV, o principal fator comercial limitante de produção ao redor do mundo e responsável por um declínio de 40% da indústria Havaiana de mamão no começo da década de 1990. Um método de controle adotado foi o desenvolvimento de cultivares modificados pela inserção de um gene - expressando uma proteína de revestimento - do próprio vírus no DNA do C. papaya, conferindo, portanto, resistência ao vírus. Não existe método alternativo de controle, e outros países adotaram medida similar para lidar com o problema.

         Em 2011, o Japão aprovou a importação do mamão GM do Hawaii para o consumo alimentar. Nesse sentido, o mamão é considerado a primeira fruta GM a ser comercializada. Vários estudos independentes têm sido realizados para avaliar a segurança alimentar do mamão GM. Nenhum prejuízo à saúde humana foi reportado. A proteína extra de revestimento é totalmente degradada nas condições gástricas e intestinais, e alergias não foram reportadas. Estudos em animais não-humanos também não reportaram efeitos deletérios.

          Sem a engenharia genética, é possível que o comércio do mamão já teria entrado em colapso. Se dependesse da opinião pública e leiga, o mamão não seria um saudável alimento na mesa da população.

          O mesmo caso se estende para o salmão GM, aprovado para produção comercial pelo Ministério da Saúde do Canadá. A modificação nesse peixe envolveu a introdução de um gene de fator de crescimento do salmão-Chinook no genoma do salmão-do-Atlântico, resultando em um crescimento mais rápido e uma redução no tempo para alcançar o tamanho de mercado. Estudos clínicos não encontraram até o momento nenhum sinal de efeitos adversos na saúde humana após o consumo do salmão GM.

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(1) Para mais informações, acesse: Primeiro salmão geneticamente modificado começou a ser vendido no Canadá


   BENEFÍCIOS À SAÚDE DOS GMOs

          Além do aumento de produtividade dos campos agrícolas e auxílio no combate ao aquecimento global antropogênico, as cultivares GMs não só aumentam o potencial de nutrição da humanidade como também traz outros impactos benéficos à saúde humana. Para começar, ao fortalecer as plantações contra o ataque de pragas diversas, a engenharia genética ajuda a diminuir dramaticamente o uso de agrotóxicos, esses sim um perigo para a saúde da população e do meio ambiente como um todo.

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GLIFOSATO

É comumente alegado que os transgênicos seriam "buchas de agrotóxicos", resistindo e retendo massivas quantidade de glifosato (um herbicida amplamente usado ao redor do mundo), e impondo sérios riscos à saúde do consumidor.

Primeiro, nem todas as plantas GM são resistentes ao glifosato. Segundo, não existem evidências científicas dando suporte à alegação de que as plantas GM resistentes ao glifosato acumulem esse herbicida de maneira diferente do que outras plantas ou que níveis maiores sendo usados desse produto em certas plantações estejam impregnando os alimentos a níveis acima do seguro.

De acordo com o FDA (Ref.16), nos EUA, análises nos anos de 2016 e de 2017 não encontraram quantidades de resíduos de glifosato violando os níveis de segurança para todas os quatro produtos testados (milho, grãos de soja, leite e ovos), mesmo com um amplo uso de cultivares GM no país. Nas amostras de leite e de ovos, nenhum resíduo foi encontrado.

Mas, claro, o uso de agrotóxicos em geral precisa ser reduzido, e uma dos meios para isso reside justamente na criação de plantas GM cada vez mais otimizadas e produtivas.
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          Em segundo lugar, com o uso de plantas de cultivo GM, as taxas de suicídio no campo tendem a diminuir substancialmente. Já foi mostrado que o uso de algodão GM pelos agricultores na Índia faz o lucro desses últimos aumentarem, em média, 58,2%. Esse aumento de renda melhora o bem-estar e a segurança familiar, resultando em menos depressão, desespero, e, consequentemente, suicídios. Aliás, um estudo publicado no periódico Journal of Epidemiology & Community Health (Ref.13) encontrou que o aumento de US$1 no salário mínimo do trabalhador Norte-Americano está ligado a uma diminuição de 3,5-6% na taxa de suicídio.

          Em terceiro, temos que com o uso de plantas GMs resistentes a insetos, existe uma redução na contaminação por fungos. Plantações com milho GM já mostraram conter 29% menor concentração de micotoxinas, 31% menos fumonisinas e 37% menos tricotecenos. As micotoxinas em particular são comprovadamente tóxica e carcinogênica a humanos e animais não-humanos, e são especialmente danosas em países em desenvolvimento devido à fatores como clima e fracas regulações alimentares.

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          Em quarto, os alimentos GM podem ser nutricionalmente fortificados em extensões que via técnicas tradicionais seriam quase impossíveis. Mesmo em países desenvolvidos, a deficiência nutricional é ainda um notável problema que afeta todas as idades. Além do Golden Rice, temos outro impactante exemplo de otimização nutricional via intervenção biotecnológica. Os ácidos graxos polinsaturados de cadeia longa ômega-3 eicosapentaenoico (EPA) e docosahexanoico (DHA) são cruciais para a saúde humana, mas são encontrados apenas em pequenas concentrações nas plantas. Peixes marinhos são ricos em ômega-3, mas o acesso a esse tipo de alimento é limitado em várias populações. Ao contrário do beta-caroteno no Golden Rice, a biossíntese de EPA e de DHA envolve várias enzimas e não é nativa a plantas superiores. No mar, a biossíntese desses ácidos graxos ocorre em microrganismos como as microalgas, formando a base da cadeia alimentar oceânica na qual esses compostos são acumulados a cada nível trófico. Vários avanços nas últimas décadas permitiram a introdução dos genes necessários para a síntese desses ácidos graxos em plantas de cultivo (como canola), cujas sementes trazem concentrações semelhantes de EPA e de DHA vistas em óleos de peixes marinhos ricos em ômega-3.


   CONCLUSÃO

        Atualmente, existe um amplo consenso científico de que todos os alimentos voltados para o consumo humano e para animais de criação derivados de cultivares geneticamente modificados e aprovados para o comércio são seguros para a saúde e o ecossistema. Essa conclusão é baseada em evidências acumuladas e geradas por cientistas, agências regulatórias e agências científicas independentes em vários países. Em um contexto de crescente uso de agrotóxicos e aumento robusto da população humana, os organismos geneticamente modificados, especialmente plantas de cultivo, são essenciais para garantir o futuro saudável da humanidade. Ativismos políticos e ambientais não-cientificamente baseados e alimentados pela opinião pública mais ferem do que protegem as pessoas e o meio ambiente.

          No começo do século XX, o processo Haber-Bosch de produção de fertilizantes nitrogenados (4) salvou o maior número de vidas na história - ao redor de 2,7 bilhões - ao permitir um aumento explosivo na produção de alimentos. Agora, no século XXI, temos em mãos novas ferramentas tecnológicas para salvar mais uma vez bilhões de vidas. Depende apenas da nossa vontade usá-las.

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(4) Para mais informações, acesse: História Humana e Nitrogênio: Criação e Destruição


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2408621/ 
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4393037/ 
  3. https://www.usda.gov/topics/biotechnology 
  4. https://www.nature.com/articles/s41477-019-0430-z 
  5. https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs11248-019-00120-x
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