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Por que perdemos o osso do pênis?


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           Enquanto alguns acham que o pênis do homem possui algum tipo de estrutura óssea no seu interior, os mecanismos responsáveis pela sua ereção estão relacionados ao seu corpo cavernoso, este o qual é parecido com uma esponja. Circundando a uretra, o corpo cavernoso recebe sangue e, consequentemente, aumenta o seu volume, levando à ereção peniana. Em outras palavras, não existe algo como 'quebrar' o pênis, ou coisas do tipo comumente ditas no meio popular, porque não existem ossos dentro dele. O que pode ocorrer são danos na estrutura do pênis causados pela aplicação de grandes forças nele, como em acidentes durante atividades físicas/sexuais diversas. De qualquer forma, não é loucura pensar que possa existir algum osso dentro do pênis da nossa espécie, porque outros primatas o possuem!
       
          Diferente de nós, vários dos nossos parentes evolucionários próximos possuem um osso no pênis conhecido como 'bácula' (cientificamente chamado de baculum) (1), o qual é responsável pela ereção em conjunto com o corpo cavernoso. Chimpanzés e Bonobos são dois primatas que possuem a bácula na estrutura peniana, e essa parte anatômica se estende para todos os primatas superiores e do Velho Mundo. Na verdade, grande parte dos mamíferos possuem esse osso, incluindo roedores, morcegos, carnívoros e alguns insetívoros, variando bastante em sua forma e tamanho de espécie para espécie, independentemente do tamanho ou forma do pênis. Essas diferenciações tão gritantes até servem como bons parâmetros de caracterização fóssil dos mamíferos e podem até prever como era o comportamento sexual de animais não mais presentes no planeta. Os extintos lobos-gigantes (Canis dirus), por exemplo, provavelmente mantinham hábitos agressivos de cópula devido à grande quantidade de báculas quebradas encontradas junto aos seus fósseis.

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           Sendo uma estrutura óssea isolada, a bácula é derivada do tecido conectivo e localizada no fim distal do pênis e acima da uretra. Possui uma menor densidade mineral e menor dureza do que outros ossos do sistema esquelético do corpo, provavelmente para diminuir os riscos de fraturas durante a cópula, algo que vez ou outra pode acontecer. Mas qual seria a função da bácula?

Na imagem acima, temos exemplos de bácula de mamíferos norte-americanos. No canto superior esquerdo, temos a bácula de diferentes espécies de esquilos terrestres (Spermophilus sp.); no canto superior esquerdo, temos várias báculas de ratos do arroz (Oryzomys sp.) - aqueles em forma de tridente - e de arganazes (Microtus sp.); e, na parte inferior, temos as duas primeiras báculas pertencentes à espécies de ursos (Ursus) e, a última, de um leão-marinho (Zalophus). 

          Mesmo já sendo minuciosamente analisada, no mínimo, desde o século XVII, a bácula é ainda um relativo mistério para a ciência. Existem várias explicações científicas hipotéticas para justificar a evolução e prevalência desse curioso osso peniano nos mamíferos, as principais podendo ser enumeradas em:

1. Essa estrutura óssea pode ter proporcionado melhor suporte mecânico para o pênis, fortalecendo-o e auxiliando-o a vencer a resistência da parede vaginal.  Pode, assim, ter servido também para melhor forçar a vagina a ficar aberta durante e após a ejaculação, aumentando as chances de reprodução;

2. Maior proteção à uretra da compressão durante a copulação, e, ao mesmo tempo, facilitando a saída do fluxo de esperma ao mantê-la aberta;

3. Pode servir como um fator de estímulo a mais para as fêmeas durante a cópula, com facilitação do transporte de esperma, da ovulação e da receptividade sexual;

4. A ampla variedade e falta de um padrão visível para a ocorrência da bácula entre os mamíferos pode ter sido fruto de uma seleção sexual de dimorfismo, assim como o leque de pena de um pavão.

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        Nas duas primeiras hipóteses, ou seja, as explicações em termos mecânicos, a bácula mostra-se maior em certos carnívoros e primatas que possuem prolongadas copulações. Sendo assim, pode existir uma necessidade de uma estrutura mais robusta, justificando a existência desse osso peniano. Na terceira hipótese, uma ferramenta de estimulação seria mais do que bem-vinda em termos reprodutivos. Aliás, as fêmeas de esquilos terrestres já mostraram terem estruturas na vagina que são complementares ao formato de "colher-dentada" da bácula do macho. Isso até entra em conflito com o antigo pensamento que a imensa diversidade de formatos desse osso nos mamíferos seria apenas uma característica evolucionária não adaptativa, ou seja, seria apenas fruto colateral associada a outras características adaptativas no corpo ou a seleções neutras. Em anos recentes, porém, já acredita-se que os inúmeros formatos foram selecionados diretamente pela seleção natural, com o objetivo de melhor favorecer os atos de copulação, o mesmo sendo válido para toda a morfologia das genitálias em ambos os sexos.

        Ok, tudo muito bonito, mas a pergunta que não quer se calar: por que alguns mamíferos possuem esse osso peniano e outros não? E, nesse sentido, por que entre os primatas superiores, somos os únicos que não o temos? As respostas para essas pergunta ainda são inconclusivas, mas pesquisadores talvez possam ter encontrado o porquê de vários carnívoros e primatas os terem e quando a bácula surgiu. Um estudo publicado recentemente na Proceedings of the Royal Society B. (Ref.2) traçou a linha evolucionária da bácula e mostrou que ela primeiro surgiu entre 145 e 95 milhões de anos atrás, estando presente nos ancestrais comuns de todos os primatas e carnívoros, apesar de inexistir no ancestral comum de todos os mamíferos. Assim, parece que os humanos (gênero Homo) realmente perderam esse osso durante o percurso evolucionário, enquanto outras espécies o mantiveram. E a segunda pergunta anterior se torna ainda mais intrigante: por que perdemos esse osso?

Báculas, na parte inferior, da esquerda para a direita: leão-marinho-de-steller (Eumetopias jubatus), foca-comum (Phoca vitulina), foca-barbada (Erignathus barbatus), leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californianus), foca-anelada (Pusa hispida), castor-da-montanha (Aplodontia rufa), rato-verdadeiro (Peromyscus maniculatus), marmota-olímpica (Marmota olympus), geomiídeos (Thomomys sp.), arminho (Mustela erminea olympica), furão (Mustela frenata), visom (Mustela vison), lontra-norte-americana (Lutra canadensis), texugo (Taxidea taxus), lobo-vermelho (Canis rufus), coiote (Canis latrans), raposa-do-Ártico (Alopex lagopus), raposa-anã (Vulpes macrotis), urso-negro (Ursus americanus), lince-pardo (Lynx rufus), onça-parda (Puma concolor); já o bitelo de osso na parte superior é a bácula das morsas (Odobenus rosmarus), a qual chega a medir mais de 60 cm de comprimento, e é a maior do mundo! Os elefantes, em geral, mesmo possuindo pênis muito maiores, possuem uma bácula com cerca de metade desse comprimento.

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          Ainda segundo o estudo, analisando os primatas e carnívoros que possuem a bácula e aqueles que não a possuem, foi mostrado que a sua presença parece estar intimamente ligada com o tipo de cópula efetuado por cada espécie, algo que já vinha sendo trabalhado como a hipótese mais bem aceita no meio acadêmico. Em primatas com tempo de intromissão maior, ou seja, com um maior tempo gasto com o pênis dentro da vagina, a bácula tende a ocorrer. Essa prática sexual surge em espécies com comportamento poligâmico, onde vários machos cruzam com várias fêmeas, e algo não observado na espécie humana. Consequentemente, a competição pela fertilização no maior número de fêmeas possível faz com que os machos passem mais tempo copulando com uma mesma fêmea, para impedir o acesso sexual dela por outros machos. Isso submete o pênis a um excessivo trabalho, e, nesse sentido, o osso peniano entraria para dar uma ajuda mecânica de sustentação extra, de proteção e para manter a uretra aberta. Somando-se a isso, o estudo mostrou mais uma vez que quanto maior o tempo de intromissão, maior tende a ser a bácula, tanto nos primatas quanto nos carnívoros, também corroborando a ideia de que esse osso entraria como suporte extra. para o excesso de sexo.

Humanos, tarsites e vários primatas do gênero  Platyrrhines não possuem bácula, diferente dos chimpanzés e bonobos, por exemplo





          Porém, mesmo com o estudo corroborando estabelecidas hipóteses e ser um dos maiores já lançados sobre o assunto, ainda é cedo para quaisquer conclusões, especialmente porque existem outros mamíferos com bácula além dos carnívoros e primatas.

          De qualquer forma, no caso da espécie humana, os resultados do estudo sugerem que talvez perdemos a bácula durante o percurso evolucionário do gênero Homo simplesmente porque nossos ancestrais passaram a não necessitar dela, ou seja, a estrutura parou de ser selecionada como fator importante de adaptação, com os alelos responsáveis por sua expressão diminuindo de frequência até serem eliminados ao longo de milhares ou milhões de anos. Existem também duas hipóteses onde a seleção natural e a seleção sexual podem ter fortemente atuado devido a efeitos deletérios da bácula se somando à sua falta de função.

          A primeira hipótese está associada com as dimensões do nosso órgão sexual. O pênis humano é um dos maiores em termos de proporção corporal na ordem dos primatas, apenas com o chimpanzé possuindo um igual ou maior na média. Seu tamanho e formato (especialmente as bordas da glande) sugerem que esse órgão na linhagem humana evoluiu como uma ferramenta única de remoção de esperma de outros machos rivais do canal vaginal durante o ato sexual. À medida que o ancestral do gênero Homo se tornou bípede, o canal vaginal da fêmea se tornou mais estendido, dificultando o trabalho de pênis pequenos. A seleção natural, então, teria selecionado pênis mais longos e, com isso, trazendo também uma bácula maior e mais pesada. Isso teria levado a substancial desconforto e vulnerabilidade, fomentando novamente a seleção natural, só que dessa vez no sentido de eliminar o osso peniano ao longo da evolução do gênero Homo. Além disso, a perda da bácula teria permitido a emergência de um pênis mais vascularizado no qual máximo alongamento durante a ereção pode ser alcançado.

          Já o famoso Biólogo Evolutivo e pesquisador da Universidade de Oxford, Richard Dawkins, em 2006, apresentou uma curiosa hipótese para a deficiência de bácula nos humanos (Ref.14). Sem esse osso, a ereção peniana humana é alcançada estritamente via pressão sanguínea, via um sistema de bombeamento hidráulico. Falha na ereção, ou disfunções eréteis, pode ser um sinal precoce de alerta de diabetes e de certas doenças neurológicas, ou pode resultar de fatores psicológicos, incluindo depressão, ansiedade e estresse. Dawkins sugere que, como as habilidades de diagnóstico das fêmeas estavam refinadas, elas teriam sido capazes de inferir o estado de saúde dos machos a partir da firmeza e qualidade geral da ereção peniana. Porém, a presença de uma bácula preveniria um diagnóstico útil já que esse osso auxilia a manter a ereção e firmeza do pênis. Nesse sentido, fêmeas teriam passado a escolher parceiros sexuais (seleção sexual) que claramente não possuíam uma bácula devido a mutações.     

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      BÁCULA E O JARDIM DO ÉDEN

         Publicada no American Journal of Medical Genetics (Ref.12), com o título ´Congenital human baculum deficiency: the generative bone of Genesis 2:21-23´ ('Deficiência humana congênita da bácula: o osso gerador do Gênesis 2:21-23', na tradução), uma carta que chamou bastante a atenção no meio acadêmico da teologia em 2001 propôs a hipótese de que Deus não teria tirado o osso da costela do Adão para a criação de Eva no Jardim do Éden, mas, sim, o osso da bácula! Essa seria a real forma da crença Cristã presente na Bíblia para explicar a visível cicatriz perineal que todo homem carrega no saco escrotal (esta a qual vai do ânus até o períneo, está presente também na mulher e origina-se da fusão das dobras urogenitais) e a ausência da bácula no ser humano. Em outras palavras, Deus teria arrancado o osso do pênis do homem, abrindo a região genital deste último e, consequentemente, deixando a cicatriz.

           A controversa hipótese foi proposta pelo teólogo Norte-Americano Ziony Zevit, também professor da American Jewish University, em Maryland, em colaboração com Scott F. Gilbert, professor de Biologia da mesma Universidade. Segundo Zevit, essa suposta confusão em relação à escolha da costela para o papel teria surgido com a tradução errada da palavra hebraica ´tsela´ presente nos textos sagrados, esta a qual pode ser traduzida como 'costela', mas que também pode ter um significado mais geral, como uma estrutura de sustentação, ou seja, algo que pode ser remetido à bácula. E a bácula, como algo pertencente a um órgão sexual, teria um valor de 'gerador de vida' muito maior do que um osso da costela. Além disso, isso explicaria porque os homens e as mulheres possuem o mesmo número de costelas. 

          Em 2015, Zevit publicou um livro de estudos bíblicos dando mais suporte acadêmico a essa hipótese (Ref.13). A publicação do livro reforçando a alegação da origem 'peniana' da Eva fomentou bastante polêmica entre os Cristãos. No livro é citado que a palavra 'tsela' aparece várias vezes e em diferentes contextos no Velho Testamento, o que pode ter levado ao erro de tradução. Ainda segundo o livro, a palavra teria sido usada para se referir a partes sobressaindo do corpo, como pé, braços e o pênis, e que uma passagem no Gênesis 2:21, na qual Deus fechou a carne sob o tsela, se refere à carne que existe na parte de baixo do pênis.

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(1) Algumas fêmeas entre os mamíferos possuem um osso correspondente à bácula no interior do clitóris chamado de clitórides ou baubellum.

CURIOSIDADE:  Em 2007, uma bácula fossilizada de 1,4 metro de comprimento, pertencente a uma espécie de morsa já extinta, foi vendida como um item raro por 8 mil dólares. (Ref.9)

Artigos Recomendados:
  1. http://www.cell.com/cms/attachment/2021740668/2041556107/main.pdf.png
  2. http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/283/1844/20161736
  3. http://icb.oxfordjournals.org/content/early/2016/06/03/icb.icw057.abstract
  4. http://www.bioone.org/doi/abs/10.1660/062.117.0317?journalCode=tkas
  5. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0073711
  6. http://www.nhm.org/site/sites/default/files/pdf/contrib_science/lacm-42.pdf#page=59
  7. http://science.sciencemag.org/content/351/6270/214
  8. http://www.ingentaconnect.com/content/miiz/actac/2014/00000016/00000001/art00016
  9. https://web.archive.org/web/20071106050910/http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/n/a/2007/08/26/state/n154935D40.DTL
  10. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajmg.1387/abstract;jsessionid=B47A9BD2746110DFE558F285E3C6B355.f03t02
  11. https://blogs.ucl.ac.uk/researchers-in-museums/2012/11/26/how-did-man-lose-his-penis-bone/
  12. http://cabinetmagazine.org/issues/28/gilbert_zevit.php
  13. https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-topics/bible-interpretation/the-adam-and-eve-story-eve-came-from-where/
  14. https://www.researchgate.net/profile/Christopher_Kendall4/publication/322525883_The_Genetic_Basis_of_Taste_Perception_A_Review/links/5a5dfe14458515c03ee09293/The-Genetic-Basis-of-Taste-Perception-A-Review.pdf#page=16