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Por que perdemos o osso do pênis?


- Atualizado no dia 31 de maio de 2021 -

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           Enquanto alguns podem achar que o pênis do homem possui algum tipo de estrutura óssea no seu interior, os mecanismos responsáveis pela sua ereção estão relacionados ao seu corpo cavernoso, este o qual é parecido com uma esponja. Circundando a uretra, o corpo cavernoso recebe sangue e, consequentemente, aumenta o seu volume, levando à ereção peniana. Em outras palavras, não existe algo como 'quebrar' o pênis, ou coisas do tipo comumente ditas no meio popular, porque não existe qualquer osso dentro dele. O que pode ocorrer são danos na estrutura do pênis causados pela aplicação de grandes forças, como em acidentes durante atividades físicas/sexuais diversas. De qualquer forma, não é loucura pensar que possa existir algum osso dentro do pênis da nossa espécie, porque outros primatas o possuem!

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          Diferente de nós, vários dos nossos "parentes" evolucionários mais próximos possuem um osso no pênis conhecido como 'bácula' (cientificamente chamado de baculum) (I), o qual auxilia a ereção em conjunto com o corpo cavernoso. Chimpanzés-comuns e bonobos são dois primatas que possuem a bácula na estrutura peniana, e essa parte anatômica se estende para todos os primatas superiores e do Velho Mundo. Na verdade, grande parte dos mamíferos possuem esse osso, incluindo roedores, morcegos, carnívoros e alguns insetívoros, os quais variam de forma dramática em termos de forma e de tamanho entre as espécies, independentemente do tamanho ou forma do pênis. Essa alta diversidade morfológica - uma das maiores entre os ossos do esqueleto de mamíferos - serve inclusive como uma excelente referência para a caracterização de fósseis e pode até prever como era o comportamento sexual de animais não mais presentes no planeta. Os extintos lobos-gigantes (Canis dirus) (!), por exemplo, provavelmente mantinham hábitos agressivos de cópula devido à grande quantidade de báculas quebradas encontradas junto aos seus fósseis.

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(!) ATUALIZAÇÃO: Recentemente foi revelado que esses canídeos não eram lobos (gênero Canis), mas pertencentes a um clado bem distinto (Aenocyon dirus). Para mais informações: Os lendários Lobos-Terríveis não eram lobos
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           Sendo uma estrutura óssea isolada, a bácula é derivada do tecido conectivo e localizada no fim distal do pênis e acima da uretra. Possui uma menor densidade mineral e menor dureza do que outros ossos do sistema esquelético do corpo, provavelmente para diminuir os riscos de fraturas durante a cópula, algo que vez ou outra pode acontecer. Por fim, o desenvolvimento e o crescimento da bácula são controlados por andrógenos de forma similar a outros componentes penianos, e evidências sugerem que atuação local de estrógenos aromatizados está envolvida no crescimento e desenvolvimento inicial dessa estrutura (Ref.15). Mas qual seria a função da bácula?


Na imagem acima, temos exemplos de bácula de mamíferos norte-americanos. No canto superior esquerdo, temos a bácula de diferentes espécies de esquilos terrestres (Spermophilus sp.); no canto superior direito, temos várias báculas de ratos do arroz (Oryzomys sp.) - aqueles em forma de tridente - e de arganazes (Microtus sp.); e, na parte inferior, temos as duas primeiras báculas pertencentes à espécies de ursos (Ursus) e, a última, de um leão-marinho (Zalophus).


          A presença da bácula é documentada ao longo de nove ordens modernas de mamíferos (Afrosoricida, Carnivora, Chiroptera, Dermoptera, Erinaceomorpha, Lagomorpha, Primates, Rodentia e Soricomorpha) e suspeita-se que essa estrutura emergiu de forma independente pelo menos nove vezes ao longo do percurso evolutivo dos mamíferos placentários. Para ilustrar, o ancestral comum dos carnívoros possuíam uma bácula, a qual foi perdida em duas linhagens independentes (hienas e a espécie de civeta Arctictis binturong). Em contraste, a bácula parece ter emergido uma única vez no ancestral comum dos primatas, seguido por oito subsequentes perdas (Ref.18).

          Mesmo já sendo exaustivamente estudada, no mínimo, desde o século XVII, a bácula é ainda um relativo mistério para a ciência, especialmente considerando sua conturbada história evolutiva de "vai-e-vem" e sua alta diversidade morfológica. Existem várias hipóteses que tentam explicar a evolução e funcionalidade desse curioso osso peniano nos mamíferos, as principais podendo ser enumeradas em:

1. Essa estrutura óssea pode ter proporcionado melhor suporte mecânico para o pênis, fortalecendo-o e auxiliando-o a vencer a resistência da parede vaginal.  Pode, assim, ter servido também para melhor forçar a vagina a ficar aberta durante e após a ejaculação, aumentando as chances de reprodução;

2. Maior proteção à uretra da compressão durante a copulação, e, ao mesmo tempo, facilitando a saída do fluxo de esperma ao mantê-la aberta;

3. Pode servir como um fator de estímulo a mais para as fêmeas durante a cópula, com facilitação do transporte de esperma, da ovulação e da receptividade sexual, possivelmente melhorando a fricção da parede vaginal (algo que pode estimular o sistema neuroendócrino no trato feminino);

4. A ampla variedade e falta de um padrão visível para a ocorrência da bácula entre os mamíferos pode ter sido fruto de uma seleção sexual de dimorfismo, assim como o leque de pena de um pavão.

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        Nas duas primeiras hipóteses, ou seja, as explicações em termos mecânicos, a bácula mostra-se maior em certos carnívoros e primatas que possuem prolongadas copulações. Sendo assim, pode existir uma necessidade de uma estrutura mais robusta, justificando a existência desse osso peniano. Na terceira hipótese, uma ferramenta de estimulação seria mais do que bem-vinda em termos reprodutivos. Aliás, as fêmeas de esquilos terrestres já mostraram terem estruturas na vagina que são complementares ao formato de "colher-dentada" da bácula do macho. Essa última observação entra em conflito com o antigo pensamento de que a imensa diversidade e complexidade de formatos desse osso nos mamíferos seria apenas uma característica evolucionária não adaptativa, ou seja, seria apenas fruto colateral associado a outras características adaptativas no corpo ou a seleções neutras. De fato, nos últimos anos, evidências acumuladas apontam forte assinatura de seleção sexual marcando variações de complexidade na bácula.

           Nesse caminho, um estudo publicado em 2020 no periódico Proceedings of the Royal Society B (Ref.26) encontrou que entre os carnívoros a evolução da complexidade e da forma da bácula foi marcada por seleção sexual pós-copulação, variando com o sistema social presente em cada espécie. Animais socialmente monogâmicos, em especial os canídeos, mostraram possuir maior nível de complexidade na bácula - não confundir com 'monogamia genética', onde dois indivíduos mantêm exclusiva relação sexual entre si. Já entre animais que vivem em grupo, especialmente os pinípedes (superfamília de mamíferos aquáticos, que inclui focas, os leões-marinhos e lobos-marinhos e as morsas), os pesquisadores encontraram báculas evoluindo no sentido de maior simplicidade. A ponta da bácula mostrou também aumentar de complexidade com prolongada duração da intromissão e com a presença de ovulação estimulada.

        Ok, tudo muito bonito, mas a pergunta que não quer se calar: por que alguns mamíferos possuem esse osso peniano e outros não? E, nesse mesmo sentido, por que entre os primatas superiores, somos os únicos que não o temos? Um notável estudo publicado em 2016 no periódico Proceedings of the Royal Society B. (Ref.2) traçou a linha evolucionária da bácula e mostrou que ela primeiro surgiu entre 145 e 95 milhões de anos atrás, estando presente nos ancestrais comuns de todos os primatas e carnívoros, apesar de inexistir no ancestral comum de todos os mamíferos. Esses achados reforçam que que os humanos (gênero Homo) ou ancestrais mais próximos (tribo Hominini) realmente perderam esse osso durante o percurso evolucionário, enquanto outras linhagens de primatas o mantiveram. Válido reforçar que, até o momento, nenhum fóssil humano foi encontrado denunciando a presença de uma bácula (Ref.18).


Báculas, na parte inferior, da esquerda para a direita: leão-marinho-de-steller (Eumetopias jubatus), foca-comum (Phoca vitulina), foca-barbada (Erignathus barbatus), leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californianus), foca-anelada (Pusa hispida), castor-da-montanha (Aplodontia rufa), rato-verdadeiro (Peromyscus maniculatus), marmota-olímpica (Marmota olympus), geomiídeos (Thomomys sp.), arminho (Mustela erminea olympica), furão (Mustela frenata), visom (Mustela vison), lontra-norte-americana (Lutra canadensis), texugo (Taxidea taxus), lobo-vermelho (Canis rufus), coiote (Canis latrans), raposa-do-Ártico (Alopex lagopus), raposa-anã (Vulpes macrotis), urso-negro (Ursus americanus), lince-pardo (Lynx rufus), onça-parda (Puma concolor); já o bitelo de osso na parte superior é a bácula das morsas (Odobenus rosmarus), a qual chega a medir mais de 60 cm de comprimento, e é a maior do mundo! Os elefantes, em geral, mesmo possuindo pênis muito maiores, possuem uma bácula com cerca de metade desse comprimento.

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           Na segunda parte do estudo (Ref.2), analisando os primatas e carnívoros que possuem a bácula e aqueles que não a possuem, foi mostrado que a presença dessa estrutura óssea parece estar intimamente ligada com o tipo de cópula efetuado por cada espécie, corroborando a hipótese mais bem aceita no meio acadêmico. Em primatas com tempo de intromissão maior, ou seja, com um maior tempo gasto com o pênis dentro da vagina, a bácula é mais prevalente. Essa tendência sexual surge em espécies com comportamento poligâmico, onde vários machos cruzam com várias fêmeas, e algo não observado na nos humanos modernos. Consequentemente, a competição pela fertilização no maior número de fêmeas possível faz com que os machos passem mais tempo copulando com uma mesma fêmea, para impedir o acesso sexual dela por outros machos. Isso submete o pênis a um excessivo trabalho, e, nesse sentido, o osso peniano entraria para dar uma ajuda mecânica de sustentação extra, de proteção e para manter a uretra aberta. 

         Somando-se ao achado, o estudo mostrou mais uma vez que quanto maior o tempo de intromissão, maior tende a ser a bácula, tanto nos primatas quanto nos carnívoros, também corroborando a ideia de que esse osso entraria como suporte extra para o excesso de atividade sexual.


Humanos, tarsites e vários primatas do gênero Platyrrhines não possuem bácula, diferente dos chimpanzés e bonobos, por exemplo











           Um estudo subsequente (2018) também publicado na Proceedings of the Royal Society B (Ref.17), analisando a estrutura peniana de carnívoros através de simulações computacionais biomecânicas, mostrou que a bácula tende a se tornar mais robusta para superar resistência mecânica durante a intromissão inicial e confirmou que a presença de uma ranhura ventral na bácula reduz deformação da uretra. Esses dois achados reforçam a hipótese sugerindo que a bácula evoluiu em resposta a pressões seletivas associadas à duração da copulação e à proteção da uretra.

          Porém, é importante apontar que entre os primatas superiores (gorilas, chimpanzés, orangotangos, humanos) a bácula, quando presente, tende a ser uma estrutura quase vestigial e com aparente pouco valor funcional. E apesar de expressarem báculas frequentemente complexas, essas estruturas também são diminutas e tradicionalmente consideradas pouco funcionais, rudimentares ou residuais nos felídeos, apesar de opiniões acadêmicas conflitantes nesse aspecto (Ref.16).

          De qualquer forma, no caso dos humanos modernos (Homo sapiens), os resultados desses estudos sugerem que talvez nossos ancestrais homininis perderam a bácula durante o percurso evolucionário simplesmente porque passaram a não necessitar desse osso genital, ou seja, a estrutura parou de ser selecionada como fator importante para o sucesso reprodutivo, com os genes funcionais responsáveis por sua expressão sendo progressivamente inutilizados até se tornarem não-funcionais ao longo de milhares ou milhões de anos (mutações, deriva genética) (II). Por outro lado, existem também pelo menos outras cinco hipóteses onde a seleção natural e/ou a seleção sexual podem ter atuado de forma determinante para a perda da bácula na linhagem evolutiva associada aos humanos.

          A primeira hipótese está associada com as dimensões do nosso órgão sexual. O pênis humano é um dos maiores em termos de proporção corporal na ordem dos primatas, apenas com o chimpanzé possuindo um igual ou maior na média. Seu tamanho e formato (especialmente as bordas da glande) sugerem que esse órgão na linhagem humana evoluiu como uma ferramenta única de remoção de esperma de outros machos rivais do canal vaginal durante o ato sexual. À medida que o ancestral do gênero Homo se tornou bípede, o canal vaginal da fêmea se tornou mais estendido, dificultando o trabalho de pênis pequenos. A seleção natural, então, teria selecionado pênis mais longos e, com isso, trazendo também uma bácula maior e mais pesada. Isso teria levado a substancial desconforto e vulnerabilidade, fomentando novamente a seleção natural, só que dessa vez no sentido de eliminar o osso peniano ao longo da evolução do gênero Homo. Além disso, a perda da bácula teria permitido a emergência de um pênis mais vascularizado no qual máximo alongamento durante a ereção pode ser alcançado.

          Já o famoso Biólogo Evolutivo e pesquisador da Universidade de Oxford, Richard Dawkins, em 2006, apresentou uma curiosa hipótese para a deficiência de bácula nos humanos (Ref.14). Sem esse osso, a ereção peniana humana é alcançada estritamente via pressão sanguínea, através de um sistema de bombeamento hidráulico. Falha na ereção, ou disfunções eréteis, pode ser um sinal precoce de alerta de diabetes e de certas doenças neurológicas, ou pode resultar de fatores psicológicos, incluindo depressão, ansiedade e estresse. Dawkins sugere que, como as habilidades de diagnóstico das fêmeas estavam refinadas, elas teriam sido capazes de inferir o estado de saúde dos machos a partir da firmeza e qualidade geral da ereção peniana. Porém, a presença de uma bácula preveniria um diagnóstico útil já que esse osso auxilia a manter a ereção e firmeza do pênis. Nesse sentido, fêmeas teriam passado a escolher parceiros sexuais (seleção sexual) que claramente não possuíam uma bácula devido a mutações.   

          Posteriormente, a hipótese de Dawkins foi expandida para englobar uma sinalização honesta de resistência ao estresse. Ou seja, sem o osso do pênis, fêmeas passariam a perceber melhor machos que eram capazes de lidar melhor com estresse (situações de perigo, ameaça, fome), esses os quais seriam capazes de manter uma firme ereção mesmo em situações estressantes (Ref.20).

          É proposto também que a evolução do bipedalismo aumentou os riscos de sérios acidentes com o pênis ereto, e considerando que ereção sustentada e mais frequente é favorecida com a presença da bácula - incluindo também maior suscetibilidade a danos debilitantes com essa estrutura óssea -, esta teria sido desfavorecida através de mecanismo de seleção natural (Ref.20).

          Mais recentemente, um estudo publicado no periódico Mammal Review (Ref.21) e de autoria do pesquisador Ivan Jakovlic da Universidade de Lanzhou, China, também propôs uma interessante hipótese que não envolve seleção sexual. Ivan propõe que a presença da bácula começou a ser desfavorecida por seleção natural na nossa linhagem evolutiva quando os homininis começaram a perceber que desferir violentos golpes no pênis levava a graves traumas nesse órgão devido à presença do osso genital, causando potencial disfunção erétil e removendo machos rivais da competição por fêmeas. Considerando uma maior capacidade de aprendizado social e transmissão cultural entre os nossos ancestrais homininis mais próximos, essa agressiva estratégia pode ter começado a se tornar um comportamento de ataque padrão entre os machos, favorecendo com o tempo (pressão seletiva) a prevalência cada vez maior de machos com mutações genéticas para um pênis sem a bácula.

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(I) Muitas fêmeas entre os mamíferos possuem um osso correspondente à bácula no interior do clitóris chamado de clitórides ou baubellum. baubellum, em termos evolutivos e de desenvolvimento, parece ser bem mais lábil do que a bácula, sugerindo que essa estrutura não é funcional, apenas homóloga à estrutura peniana (Ref.18-19) - como a presença se mamilos nos indivíduos do sexo masculino.


(IILeitura recomendada: O que é a Deriva Genética? 

CURIOSIDADE:  Em 2007, uma bácula fossilizada de 1,4 metro de comprimento, pertencente a uma espécie de morsa já extinta, foi vendida como um item raro por 8 mil dólares. (Ref.9)
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      BÁCULA E O JARDIM DO ÉDEN

         Publicada no American Journal of Medical Genetics (Ref.12), com o título ´Congenital human baculum deficiency: the generative bone of Genesis 2:21-23´ ('Deficiência humana congênita da bácula: o osso gerador do Gênesis 2:21-23', na tradução), uma carta que chamou bastante a atenção no meio acadêmico da teologia em 2001 propôs a hipótese de que Deus (Yahweh) não teria tirado o osso da costela do Adão para a criação de Eva no Jardim do Éden, mas, sim, o osso da bácula! Essa seria a real forma da crença Cristã presente na Bíblia para explicar a visível cicatriz perineal que todo homem carrega no saco escrotal (esta a qual vai do ânus até o períneo, está presente também na mulher e origina-se da fusão das dobras urogenitais) e a ausência da bácula no ser humano. Em outras palavras, Deus teria arrancado o osso do pênis do homem, abrindo a região genital deste último e, consequentemente, deixando a cicatriz.

           A controversa hipótese foi proposta pelo teólogo Norte-Americano Ziony Zevit, também professor da American Jewish University, em Maryland, em colaboração com Scott F. Gilbert, professor de Biologia e Genética da mesma Universidade. Segundo Zevit, essa suposta confusão em relação à escolha da costela para o papel teria surgido com a tradução errada da palavra hebraica ´tsela´ presente nos textos sagrados, esta a qual pode ser traduzida como 'costela', mas que também pode ter um significado mais geral, como uma estrutura de sustentação, ou seja, algo que pode ser remetido à bácula. E a bácula, como algo pertencente a um órgão do sistema reprodutor masculino, teria um valor de 'gerador de vida' muito maior do que um osso da costela. Isso também explicaria porque os homens e as mulheres possuem o mesmo número de costelas. 

          Além disso, o Hebreu Bíblico (ao contrário do Hebreu rabínico) não possui um termo específico para "pênis", sendo sempre referido indiretamente através de várias convoluções e descrições indiretas, das quais tsela poderia ser uma delas. Quando foi traduzido para a linguagem Grega no século II a.C., essa potencial interpretação teria sido perdida.

          Em 2015, Zevit publicou um livro de estudos bíblicos dando mais suporte acadêmico a essa hipótese (Ref.13). A publicação do livro reforçando a alegação da origem 'peniana' da Eva fomentou bastante polêmica entre os Cristãos. No livro é citado que a palavra 'tsela' aparece várias vezes e em diferentes contextos no Velho Testamento, o que pode ter levado ao erro de tradução. Ainda segundo o livro, a palavra teria sido usada para se referir a partes sobressaindo do corpo, como pé, braços e o pênis, e que uma passagem no Gênesis 2:21, na qual Deus fechou a carne sob o tsela, se refere à carne que existe na parte de baixo do pênis.

          Uma pronta objeção à proposta de Zevit baseia-se no fato de que, na passagem bíblica, o termo ṣēlā‘ (ou tsela) está no plural ("de entre seus ṣal‘ōt"), ou seja, fazendo mais sentido uma referência às costelas (plural) do homem (Ref.27). Zevit, por outro lado, contra-argumenta que o plural faz referência a "apêndices" do corpo, ou seja, de que a bácula foi retirada entre os apêndices do corpo do homem.

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   OSSIFICAÇÃO DO PÊNIS

          Apesar de não existir bácula nos humanos modernos, um ligamento distal equivalente é arranjado centralmente e age como um tronco de suporte para a glande do pênis. Nesse sentido também é válido mencionar que é possível a ocorrência de calcificação na estrutura do pênis humano, gerando um tecido similar ao ósseo. Ossificação peniana humana é uma rara condição urológica com aproximadamente 40 casos patologicamente confirmados e reportados na literatura médica até o momento.

          A calcificação patológica ocorre através de mineralização heterotópica dos tecidos moles do pênis - processo onde sais de cálcio se acumulam no tecido mole, formando um osso extra-esquelético - e tem sido associada com doenças renais em estágio terminal, diabetes, traumas, malignâncias, hemodiálise crônica, gonorreia, sífilis e desregulação do metabolismo de cálcio. No entanto, o mecanismo de gatilho não é totalmente entendido. A ossificação geralmente ocorre na parte mediana da haste peniana, mas em alguns casos pode se estender por toda a haste. Historicamente, a ossificação do pênis era assumida de ter uma origem evolutiva ancestral (atavismo) devido à presença do osso peniano (bácula) em outros mamíferos e, especificamente, entre primatas. Porém, nas últimas décadas, essa ossificação têm sido associada com uma manifestação puramente patológica - a qual, de fato, gera prejuízos para o pênis e frequente disfunção sexual -, caracterizada primariamente por um processo metaplástico sustentado por fibrose.



          A condição mais comumente associada com a ossificação do pênis é a doença de Peyronie. Essa condição é caracterizada pelo desenvolvimento de um tecido peniano cicatrizado fibroso, resultando em uma forçada curvatura e dolorosa atividade sexual. Nesse caso, reconstrução cirúrgica é frequentemente necessária para restaurar a função sexual.
 
          No entanto, é importante ressaltar o caso de um garoto de cinco anos de idade descrito em 1964, o qual era afetado por uma ossificação peniana congênita, sugerindo que atavismo (reaparecimento de uma estrutura ancestral latente no código genético) pode não ser totalmente descartada como causa (Ref.25). O pedaço de osso removido do paciente tinha 2,5 cm de comprimento, e mostrou ter uma real estrutura óssea porosa sob análise microscópica.

        Por outro lado, o corpo humano é capaz de formar tecido ósseo ou cartilaginoso em locais afetados por condições patológicas quando tecido conectivo está presente. De fato, tecido ósseo é conhecido de se originar mesmo em locais do corpo que não possuem nenhuma relação com o esqueleto, incluindo glândulas mamárias, glândulas salivares e testículos. Nesse sentido, muitos patologistas realçam que tecido fibroso possui a habilidade de se transformar em um novo tecido, incluindo tecido ósseo na estrutura peniana, tornando desnecessária uma explicação filogenética.

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Artigos Recomendados:
  1. http://www.cell.com/cms/attachment/2021740668/2041556107/main.pdf.png
  2. http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/283/1844/20161736
  3. http://icb.oxfordjournals.org/content/early/2016/06/03/icb.icw057.abstract
  4. http://www.bioone.org/doi/abs/10.1660/062.117.0317?journalCode=tkas
  5. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0073711
  6. http://www.nhm.org/site/sites/default/files/pdf/contrib_science/lacm-42.pdf#page=59
  7. http://science.sciencemag.org/content/351/6270/214
  8. http://www.ingentaconnect.com/content/miiz/actac/2014/00000016/00000001/art00016
  9. https://web.archive.org/web/20071106050910/http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/n/a/2007/08/26/state/n154935D40.DTL
  10. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajmg.1387/abstract;jsessionid=B47A9BD2746110DFE558F285E3C6B355.f03t02
  11. https://blogs.ucl.ac.uk/researchers-in-museums/2012/11/26/how-did-man-lose-his-penis-bone/
  12. http://cabinetmagazine.org/issues/28/gilbert_zevit.php
  13. https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-topics/bible-interpretation/the-adam-and-eve-story-eve-came-from-where/
  14. https://www.researchgate.net/profile/Christopher_Kendall4/publication/322525883_The_Genetic_Basis_of_Taste_Perception_A_Review/links/5a5dfe14458515c03ee09293/The-Genetic-Basis-of-Taste-Perception-A-Review.pdf
  15. https://basicandappliedzoology.springeropen.com/articles/10.1186/s41936-018-0052-4
  16. https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rspb.2020.1883
  17. https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rspb.2018.1473
  18. Spani et al. (2021). The ultimate database to (re)set the evolutionary history of primate genital bones. Sci Rep 11, 11245. https://doi.org/10.1038/s41598-021-90787-2
  19. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ece3.3634
  20. https://academic.oup.com/emph/article/2019/1/147/5554655
  21. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/mam.12237
  22. Belshoff et al. (2021). Human Penile Ossification: A Rare Cause of Sexual Dysfunction - A Case Report and Review of the Literature. Cureus, 13(1), e12675. https://doi.org/10.7759/cureus.12675
  23. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2214442019301925
  24. https://www.scielo.br/j/spmj/a/7385bKhP9DDzzng3mQMGhvH/
  25. https://www.auajournals.org/doi/10.1016/S0022-5347%2817%2964197-1
  26. https://cuaj.ca/index.php/journal/article/view/249
  27. Baden, Joel (2019). An Unnoted Nuance in Genesis 2:21-22. Vetus Testamentum (Brill). https://brill.com/view/journals/vt/69/1/article-p167_13.xml