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O que é a aterrorizante Paralisia do Sono?


- Atualizado no dia 15 de janeiro de 2021 -

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        A experiência é aterrorizante. Seu corpo não consegue se mexer, sua respiração não pode ser controlada, sua capacidade de falar é suprimida, mas sua consciência está em pleno funcionamento, permitindo que você veja e ouça tudo ao seu redor. E, em pouco tempo, você começa a desejar não querer ver ou ouvir.

          O que acabou de ser descrito parece ser o começo de uma história de terror, mas é algo relativamente comum e que atinge uma parcela considerável da população mundial (algo próximo de 8%), mas sendo mais prevalente em estudantes (28%) e pacientes psiquiátricos (32%) (Ref.2). A Paralisia do  Sono é uma estranha condição diretamente relacionada com a fase do sono conhecida como REM (Movimento Rápido do Olhos). No REM, o corpo entra em uma fase profunda de sono, onde o sistema motor é forçado a entrar em um estado de atonia muscular ('paralisia'). Isso ocorre para proteger o corpo de se movimentar bruscamente durante os sonhos, evitando acidentes, além de permitir um descanso máximo para o indivíduo. Quando acordamos, independentemente se no meio do REM ou durante o processo natural do despertar, o nosso sistema nervoso central 'devolve' o controle normal do nosso corpo quase que instantaneamente. Acontece que, às vezes, esse desligamento muscular persiste mesmo depois de acordamos, caracterizando a Paralisia do Sono.

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        Por motivos ainda não bem compreendidos, o sinal nervoso que paralisa o corpo durante o sono continua atuando, fazendo com que a pessoa não consiga falar ou se movimentar, mesmo já estando completamente acordada e consciente de tudo ao seu redor, ouvindo e enxergando. Ou seja, você fica preso no estado de transição entre 'totalmente acordado' e 'totalmente adormecido'. A Paralisia do sono, como fenômeno único, é dividida em 'Paralisia do Sono Isolada' (ISP) e ´Paralisia do Sono Isolada Recorrente´ (RISP). A ISP, mais comum, afeta as pessoas de forma infrequente e, geralmente, é experienciada apenas raras vezes na vida do indivíduo. No RISP, muito raro, os episódios de paralisia são recorrentes, tornando a vida do indivíduo bem traumática. Ambas as manifestações podem ocorrer não só ao acordar, mas também ao adormecer, onde a paralisia induzida pelo REM pode iniciar antes do corpo adormecer por completo. A paralisia do corpo normalmente não dura mais do que 1 minuto, porém, algumas vezes, ela pode se prolongar por horas. O movimento dos olhos é até observado em muitos episódios, sendo seus músculos uns dos únicos que se salvam do bloqueio.

        Outra característica bem conhecida da Paralisia do Sono são as alucinações que acompanham o processo. Também devido à mecanismos psicológicos não muito bem entendidos, as pessoas que experienciam essa paralisia acabam vendo aparições de três tipos: Intrusos, Sufocadores e Esmagamento. Ou seja...

1. ... alguém entrando dentro do quarto, por exemplo, especialmente na forma de 'pessoas de sombra';



2. Ou alguém pisando e pressionando a pessoa (uma explicação que o cérebro arruma para a incapacidade de movimentação);


3. Ou alguém estrangulando a pessoa (como você não consegue controlar a respiração, um  pânico surge, onde cria-se uma ilusão de falta de ar, especialmente se existir apneia envolvida).



         É sugerido que, por causa da sensação de fragilidade sentida pelo indivíduo (não ser capaz de reagir por estar paralisado), o cérebro começa a prever as piores situações possíveis que podem ameaçar sua vida, entrando em pânico e paranoia para tentar forçar alguma reação no corpo. O mais interessante dessa terrível experiência é que as 'entidades' de ameaça que surgem para a pessoa podem tomar as mais variadas formas, indo de demônios à fantasmas. No caso dos 'intrusos', alienígenas podem ser criados pela mente, e essa é uma das explicações mais aceitas pela comunidade científica para grande parte dos famosos casos relatados de abduções. E não é preciso dizer que a Paralisia do Sono tinha, e ainda tem, grandes significados sobrenaturais e mitológicos ao longo da história. Se o indivíduo for muito religioso e não conhecer o problema como um quadro médico, uma única experiência pode ser o bastante para traumatizá-lo seriamente.

           Aliás, existe evidência de que em sociedades com elaboradas tradições culturais de crenças sobrenaturais associadas ao fenômeno da paralisia do sono, os indivíduos tendem a sofrer mais durante a experiência do evento (imobilidade mais prolongada, maior nível de medo) e inclusive reportar uma maior frequência desses eventos (Ref.18-19). A Itália é um exemplo bem notável, onde boa parte da população acredita que a experiência é causada por uma criatura sobrenatural localmente conhecida como Pandafeche. Em outros países também existem crenças populares únicas e muito difundidas: China ("opressão fantasmagórica"), Japão (Kanashibari, ex.: demônios), Turquia (Karabasan, uma criatura similar a um espírito) e Egito (ataque de um Gênio/Jinn).

            No caso específico das alucinação envolvendo falta de ar e pressão sobre o peito, a possível causa pode estar no fato de que a atividade respiratória muscular durante o sono REM é diminuída, devido à inibição de neurônios motores. No sono REM, a respiração se torna irregular, e existe hipotonia muscular esquelética resultando em significativas reduções na ventilação alveolar e volume pulmonar, levando a hipercapnia (aumento de dióxido de carbono no sangue). Em indivíduos saudáveis, a ventilação alveolar durante o sono REM pode ser 40% menor do que durante o estado despertado.

           Um estado de hipervigilância também é característico do sono REM, e o qual parece se originar da porção mediana do cérebro. Essa hipervigilância provavelmente leva ao medo e paranoia que frequentemente acompanha os episódios de paralisia do sono.


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   TRATAMENTOS

          Ainda não existem tratamentos específicos cientificamente comprovados que ajudem a prevenir as paralisias ou curar casos crônicos. Diversas estratégias são tentadas para cada paciente, incluindo medicamentos, acompanhamento psicológico, técnicas de relaxamento, entre outros. Como os casos recorrentes e frequentes de paralisia do sono são aparentemente raros, e não ameaçam seriamente a saúde do paciente na maior parte dos casos, pouco tem se avançado na área médica visando o problema e não existem estudos clínicos randomizados nesse sentido. Contudo, conhece-se fatores que podem engatilhar o fenômeno, como estresse excessivo, exposição a eventos traumáticos prévios, sonos desregulados, falta de sono, dormir de barriga para cima quando se tem apneia e, possivelmente, causas genéticas. Nessa linha, geralmente a primeira tentativa de tratamento foca na higiene do sono, recomendando ao paciente (Ref.10, 13):

- Dormir de 7-8 horas por noite;

- Sempre tentar dormir no mesmo horário à noite, e acordar no mesmo horário de manhã, inclusive nos finais de semana;

- Evitar distrações no quarto na hora de dormir, e manter o ambiente quieto, escuro, relaxante e a uma temperatura confortável;

-  Remover aparelhos eletrônicos como TV, notebook e smartphone da cama, e não usá-los por pelo menos meia hora antes de ir dormir;

- Evitar grandes refeições, cafeína e bebidas alcoólicas antes de ir dormir;

- Praticar exercícios físicos durante o dia, como musculação ou corrida (facilitam e melhoram o sono durante a noite).

            Antidepressantes tricíclicos e inibidores seletivos de recaptação de serotonina podem reduzir a frequência dos episódios através da supressão do sono REM, e têm sido usados de forma efetiva no tratamento de alguns casos (Ref.15-16).

           Indivíduos entre 25 e 44 anos tendem a ser os mais propensos a terem o distúrbio, e, no geral, os estudos mostram que estudantes e pacientes psiquiátricos são os mais afetados (provavelmente por causa do maior estresse e problemas para dormir nesses dois grupos). Indivíduos do sexo feminino parecem ser levemente mais suscetíveis. Somando-se a isso, pessoas com narcolepsia podem ter, como um dos sintomas da doença, ataques de Paralisia do Sono,  os quais afetam entre 30 e 50% dos portadores da doença. Na narcolepsia, é mais comum o processo acontecer antes de dormir, enquanto o "real" fenômeno (ou seja, isolado) acontece mais durante o despertar. E por isso também acrescenta-se o 'isolada' após o nome 'Paralisia do Sono' para deixar claro quando o fenômeno não for ligado à narcolepsia.

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         Se você já experienciou, ou se você experienciar, uma Paralisia do Sono, não é preciso se preocupar (apesar de ser algo assustador). Mas caso o evento seja frequente ou passe a ser frequente, procure ajuda profissional, já que pode ser o sintoma de um problema mais grave, como a narcolepsia, além de ser algo perturbador demais para ser vivido a todo momento, algo que pode levar a ansiedades, transtornos e dificuldade para dormir.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://tps.sagepub.com/content/51/2/158.short
  2. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1087079211000098
  3. www.sleep-journal.com/article/S1389-9457(12)00362-0/abstract
  4. http://www.jneurosci.org/content/32/29/9785.short
  5. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0140673693929923
  6. http://www.neurology.org/content/52/6/1194
  7. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jclp.20724/abstract
  8. http://www.scientificamerican.com/article/ask-the-brains-sleep-paralysis/
  9. http://www.esst.org/adds/ICSD.pdf
  10. https://www.cdc.gov/sleep/about_sleep/sleep_hygiene.html
  11. https://medlineplus.gov/ency/article/000801.htm
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2921144/ 
  13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK562322/
  14. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4731518/
  15. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-05822020000100603&script=sci_arttext
  16. https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/56694712/Sleep.Hypnosis_2-Sleep_paralysis.pdf
  17. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3156892/
  18. https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1363461520909609
  19. https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1363461520909616