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Os outros animais sonham?

                                           
- Artigo atualizado no dia 9 de junho de 2019 -

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        Todos já perceberam que não somos os únicos animais com cérebros complexos que dormem. Considerando a definição comportamental científica de sono - estado caracterizado por persistente imobilidade, postura e localização espécie-específicas, um alto limiar de estimulação, presença de um padrão circadiano e homeostaticamente regulado - todos os animais dormem, desde os mais simples até os mais complexos. Nesse sentido, o sono parece ser algo fundamental para todos os organismos vivos do Reino Animal. De fato, estudos recentes vêm comprovando que animais bem primitivos também dedicam boa parte do tempo ao sono, como as águas-vivas (1). Em outras palavras, uma diversidade enorme de animais descansam da mesma forma que nós, mas será que eles sonham como os humanos?


         De que os animais mantêm padrões emulativos de atividade cerebral quando dormem, não restam dúvidas, e podemos observar isso quando cães latem e se mexem durante o sono. Na década de 1950, os cientistas já tinham determinado inclusive a existência de dois estados de sono - REM (Movimento Rápido dos Olhos) e SWS (Sono de Ondas Lentas) - nos gatos, espelhando os padrões de sono de humanos e de outros primatas superiores, como chimpanzés, gorilas e bonobos. Subsequentemente, isso também foi mostrado nos cães.

          O primeiro estado do sono é o SWS, também conhecido como movimento não-rápido dos olhos ou sono quieto. Esse estado é caracterizado nos mamíferos pela ocorrência de ondas deltas lentas corticais de alta-amplitude (0,5-4 Hz), ondas agudas hipocampais (hSWP-R) e oscilações de fuso. Durante o SWS, processos fisiológicos são reduzidos, incluindo ritmo cardíaco, temperatura corporal, movimentos dos olhos, e tônus muscular. Em contraste, o estado REM - chamado também de sono paradoxal, e comumente associado com os sonhos em humanos - é caracterizado pela desincronização cortical e REM como no estado acordado, mas sem o tônus muscular. Os estados de sono REM e SWS são também caracterizados por um alto limiar de excitação, mas ao contrário do sono SWS, no REM a temperatura cerebral aumenta, e os ritmos respiratórios e cardíacos se tornam irregulares. Finalmente, os movimentos dos dedos dos pés, cauda e pelos do bigode se tornam fásicos (espasmos musculares).

           No REM, como mencionado, ocorrem os sonhos nos humanos, apontando para o mesmo fenômeno nos cães e gatos. Aves também mostraram possuir esses dois estados, potencialmente permitindo a formação de sonhos nesses animais. Mas estariam nossos companheiros peludos e os representantes aviários sonhando sobre os acontecimentos das suas vidas também? Como não conseguimos perguntar isso diretamente a esses animais, dois métodos disponíveis são a observação do comportamento físico e a análise da atividade cerebral associada com seus movimentos e experiências.

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        Na década de 1960, pesquisadores retiraram a parte no cérebro responsável pela paralisia dos gatos no sono REM, para deixarem esses animais agirem de acordo com o fluxo de atividade cerebral (tornando-os sonâmbulos), e o comportamento que eles mostravam eram idênticos ao de uma situação de caça, incluindo corridas e posturas agressivas. E estudos posteriores geraram os mesmos resultados para outros felinos e também cães. Estava evidente que cães e gatos possuem a capacidade de sonhar de modo similar aos humanos e a outros primatas superiores.

          A partir desses achados, estudos realizados nas últimas duas décadas (Ref.2) têm investigado se outros animais também conseguem sonhar, analisando em especial pássaros e ratos. Monitorando padrões elétricos e bioquímicos de aves e de mamíferos de acordo com suas ações (por exemplo, quando os ratos correm, é produzido um certo padrão de atividade neural, e quando os pássaros cantam, é produzido outro),  analisando os sinais de atividade gravados e, depois, comparando-os com os sinais produzido durante o sono REM, os pesquisadores conseguiram comprovar que esses animais também sonham. Testes com pássaros realizados na Universidade de Chicago mostraram que as aves, ao decorrer do sono, reproduzem as mesmas notas cantadas durante o dia. No MIT (Ref.1), os pesquisadores já chegaram a mapear toda a atividade elétrica cerebral ligada à movimentação de ratos presos em labirintos. Depois, durante o sono dos roedores, os sinais dos sonhos foram também mapeados e mostraram sinais idênticos aos do labirinto. Ou seja, tanto os pássaros quanto os ratos comprovadamente sonham com os acontecimentos do dia, assim como nós costumamos fazer. E mais, existem evidências de que eles sofrem também com pesadelos (2).


        Bem, ficou claro que mamíferos e aves conseguem sonhar, mas e quanto a animais considerados menos complexos no percurso evolutivo? A presença dos modos de sono REM e SWS estão relacionados com o processo de construção de sonhos e ambos estão comprovadamente presentes nas aves e mamíferos, únicos grupos até pouco tempo atrás pensados possuírem a habilidade de sonhar. Nesse sentido, era especulado que essas fases de sono e os sonhos em si eram características inerentes à presença de um sangue quente (animais homeotérmicos), mesmo não existindo uma relação clara de causalidade. Portanto, a origem evolutiva do ato de sonhar vinha sendo associado a um evento relativamente recente no processo evolutivo dos amniotas.

          Porém, um estudo publicado em 2016 na Science (Ref.5), e realizado por pesquisadores Alemães do Instituto Max Planck de Pesquisas Cerebrais, na Alemanha, revelou que os répteis possuem também a capacidade de sonhar! A descoberta veio depois do estudo comportamental de 5 Dragões-de-Barba (Pogona vitticeps), nativos da Austrália. Analisando-os quando estavam dormindo, foi possível comprovar a existência dos dois modos (REM e SWS) durante o sono, assim como os humanos, outros mamíferos e aves.



          Aliás, um estudo publicado na PLOS Biology em 2018 (Ref.6) encontrou que outros lagartos exibem esses dois estados de sono (SWS e REM). A conclusão veio após análises do dragão-barbado e do teiú-gigante (Salvator merianae). Os pesquisadores também sugeriram que esses estados de sono - e possivelmente a capacidade de sonhar - tenham evolutivamente emergido em um ancestral comum entre os répteis e mamíferos há cerca de 350 milhões de anos. Porém, foram apontadas diferenças substanciais entre esses répteis e os mamíferos e aves, e entre os dois répteis. Enquanto o sono REM nos humanos é caracterizado por atividade cerebral e ocular similar àquela observada no período despertado, o estado correspondente em ambas as espécies de lagartos está associado com movimentos mais lentos dos olhos e, no caso do teiú-gigante, a atividade cerebral não parece ser compatível com o período despertado. Isso aponta para uma complexa evolução dos estados de sono nos amniotas, e que os tipos de sonhos nos vertebrados (quando existentes) podem variar bastante.

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   CONCLUSÃO

          Definitivamente, os humanos não são os únicos seres vivos agraciados com a habilidade de sonhar. Mas como será que os outros animais encaram um sonho? Sabem que estavam apenas sonhando quando, eventualmente, acordam e se lembram do ocorrido? Eles conseguem se lembrar deles? Seus sonhos conseguem ser mais do que uma simples cópia do dia, assim como os sonhos humanos mais elaborados e imaginativos? E como esses sonhos podem se manifestar nos répteis? No caso dos Dragões-de-Barba, os pesquisadores sugerem sonhos relacionados com insetos saborosos, um rival em seu território, locais com clima agradável e coisas do tipo. Mas provavelmente vai demorar para sabermos ao certo a resposta para todas essas perguntas.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://news.mit.edu/2001/dreaming  
  2. http://www.bbc.com/future/story/20140425-what-do-animals-dream-about
  3. https://www.psychologytoday.com/blog/animal-emotions/201212/do-animals-dream-science-shows-course-they-do-rats-too
  4. http://news.nationalgeographic.com/2015/09/150905-animals-sleep-science-dreaming-cats-brains/ 
  5. http://science.sciencemag.org/content/352/6285/590 
  6. https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.2005982