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Sangue de São Januário: Milagre ou Alquimia?

- Atualizado no dia 2 de maio de 2020 -

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          Religiões e cultos diversos são suportados pela fé, mas frequentemente buscam sólidas evidências de alegados milagres ou de fenômenos que aparentam fugir da plausibilidade científica visando dar maior credibilidade à crença associada. Nesse sentido, é muito fácil entender o porquê das religiões terem tido influência tão poderosa em épocas mais antigas quando comparado com períodos mais recentes da história. À medida que a ciência avança e consegue explicar um espectro maior de eventos observados na natureza, os antes sólidos dogmas religiosos passam a ter suas estruturas abaladas. Um exemplo que ilustra bem essa questão é a famosa liquefação do sangue de São Januário.


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          Nascido ao redor de 270 d.C.  sob o Imperador Diocletiano, Januário (Gennaro) era um bispo de Benevento (província de Nápoles, Itália) quando Timóteo, o prelado da região, o condenou a ser queimado vivo por manter sua fé Cristã. De acordo com a tradição, o primeiro milagre aconteceu quando Januário não foi queimado sob as chamas. Então, Timóteo teria condenado o bispo a ser devorado por lobos em um anfiteatro. Lendas relatam que os lobos não o devoraram, prostando-se aos pés de Januário. Contrariado novamente, Timóteo resolveu decapitá-lo. No entanto, Timóteo estava perdendo sua visão e foi alegadamente curado na ocasião por Januário, um milagre que resultou na conversão de mais pessoas ao Cristianismo. São Januário foi eventualmente decapitado em 305 d.C., e, na noite da decapitação, crentes teriam pegado um dedo e a cabeça do seu corpo.

Durante o reino do Imperador Diocletiano, em 305 d.C., um bispo de Benevento chamado Gennaro foi preso por visitar e encorajar as ações de um padre chamado Sosius. Posteriormente Gennaro foi condenado à morte por decapitação pelo governador de Campania.

 
           Segundo conta a história, após o evento de decaptação, o sangue de São Januário teria sido eventualmente coletado por uma mulher chamada Eusebia - existem documentos históricos relatando que a cidade de Nápoles ficou em posse do seu corpo, o qual, no século IX foi provavelmente abduzido pelos Lombardos, e estes por sua vez teriam deixado apenas a cabeça e amostras de sangue do santo (Ref.2). Alegadamente, de acordo com a tradição, no ano de 389 d.C. o sangue seco, que tinha sido conservado em um recipiente totalmente vedado, havia se liquefeito (passou do estado sólido para o líquido) espontaneamente. Após esse evento, o sangue voltou a se coagular e, pelos próximos séculos, a liquefação espontânea ocorreu primeiro 1 vez ao ano, depois 2 vezes ao ano e, por fim, 3 vezes ao ano. Até o século XV, a explicação para o fenômeno era de que o sangue reconhecia que era parte do sangue do santo e ficava impaciente enquanto esperava sua ressurreição, ativando seu retorno para o estado líquido. A partir do século XVIII, essa argumentação começou a ser gradativamente abandonada e, ao mesmo tempo, começaram a surgir tentativas de explicação lógica para o "milagre", incluindo tentativas de copiá-lo para demonstrações públicas.


Milhares de pessoas se reúnem todos os anos para testemunhar o fenômeno da liquefação do sangue de São Januário e também poder beijar as ampolas na Catedral de Nápoles, na Itália. Essa reunião ocorre em três datas: 19 de Setembro, 16 de Dezembro e no sábado após a primeira segunda de Maio

           O "sangue milagroso" está guardado dentro de duas ampolas hermeticamente fechadas e ambas fixadas em um relicário de prata. A ampola menor, em forma cilíndrica, contém apenas alguns pontos avermelhados, enquanto a ampola maior, com capacidade volumétrica em torno de 60 ml possui, aproximadamente, 60% do seu conteúdo preenchido por uma substância avermelhada bem escura (quando sólida, a coloração é mais amarronzada e bem escura). Nas datas mencionadas na legenda da imagem acima, o relicário é trazido para receber as rezas das autoridades religiosas, supostos parentes de São Januário e pessoas diversas. Após as rezas, é esperado que o sangue se liquefaça, virando para cima e para baixo as ampolas. Porém, em algumas ocasiões, esse sangue sólido se transforma em líquido antes mesmo de receber as rezas, pode ocorrer em diferentes datas (ou não ocorrer) e o próprio processo de liquefação leva diferentes intervalos de tempo para se completar (imediatamente, horas ou até mesmo dias) ou retornar para sua fase sólida. Só que, claro, essas irregularidades podem ser, e são, interpretadas como premonições ou situações espirituais diversas.

Imagem das ampolas dentro do relicário de prata

           No caso da liquefação não ocorrer, enormes desastres seriam certos de atingirem a Itália, como em 1973, quando houve uma epidemia de cólera em Nápoles; em 1939, quando a Segunda Guerra Mundial começou; em 1940, quando a Itália entrou nessa guerra; e em 1943, quando a Itália foi ocupada pelos nazistas. Porém, como exemplo mais recente, no tradicional dia 16 de Dezembro de 2016, o sangue não se liquefez, e nada aconteceu de notável. E isso sem falar das grandes quantidades de recusas na liquefação durante a Segunda Guerra Mundial. Somando-se a isso, em 1976, quando o sangue falhou em se liquefazer, alegou-se que o "pior terremoto da história da Itália aconteceu". Porém, apesar de um terremoto realmente ter acontecido, ele não foi nem perto o 'pior' - onde estava o sangue não-liquefeito nos outros? Ora, assim fica fácil terem coincidências com "enormes desastres" - sempre ocorrem significativos desastres em qualquer lugar. Aliás, você pode apontar qualquer acontecimento ruim como "desastre" para acobertar o milagre.

         Ok, podem parecer estranhos esses desvios tão grandes de regularidade da liquefação sanguínea, porém o fenômeno em si já é extremamente misterioso, ainda mais considerando que o sangue está seco. Não só a liquefação espontânea é aparentemente "sobrenatural", mas também os ciclos inacabáveis de solidificação-liquefação. Sob o olhar científico só existe uma explicação caso a ampola guarde um conteúdo original desde a sua feitura séculos atrás: a substância não é sangue. Parece fácil responder essa dúvida, certo? É só alguém abrir as ampolas e fazer análises químicas para aferir o conteúdo. Porém, a Igreja Católica não permite que as ampolas sejam abertas, sob a justificativa de que o suposto sangue santo seria afetado pelo contato direto com o ambiente externo, resultando em danos irreparáveis.

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          Nesse sentido, duas análises espectroscópicas foram feitas, uma no ano de 1902 e outra em 1989. Nesse tipo de análise, onde apenas radiação eletromagnética é utilizada, teoricamente se torna possível ter uma boa leitura do conteúdo dentro das ampolas, já que os feixes eletromagnéticos (infravermelho, visível, entre outros) conseguem atravessar o vidro associado. Mas apesar desses dois testes terem confirmado suposta presença de hemoglobina, os resultados das análises são amplamente criticados pela comunidade científica, porque os métodos de emissão e de absorção usaram luz visível e eram muito pouco precisos. Caso fosse sangue, os métodos utilizados teriam enorme dificuldade em atravessar o conteúdo solidificado e impurezas da própria ampola poderiam atrapalhar as medidas, resultando em falsos positivos. Testes com métodos espectroscópicos mais modernos e eficientes foram sugeridos para a Igreja Católica, mas permissões ainda não foram concedidas, e cientistas permitidos de analisar essas relíquias sempre foram cuidadosamente selecionados pelas autoridades Católicas.


Em outras épocas também pode ocorrer a liquefação, como em períodos de visita do Papa em exercício. Nesse caso, o Papa Francisco, em 2015, por exemplo, foi colocado em presença do sangue, o qual teria se liquefeito pela metade, indicando que São Januário o amava e o aprovava.

          Bem, caso as conclusões baseadas nos resultados dessas limitadas análises sejam realmente incorretas - e tudo indica que sim -, do que poderia ser feito esse 'sangue'? Várias explicações já foram propostas, incluindo que o material presente nas ampolas seria fotossensível, higroscópico ou possuidor de um baixo ponto de fusão. Porém, nesses cenários propostos, existem consideráveis limitações que não cobrem todo o fenômeno de liquefação observado. Primeiro, a luminosidade do meio não parece interferir (fotossensibilidade) com a liquefação. Segundo, a natureza higroscópica (significativa absorção da umidade do ar, tornando eventualmente a mistura líquida) não faz sentido porque as ampolas estão realmente vedadas, sem contato direto com a atmosfera. Em termos de temperatura de fusão, a temperatura ambiente também não parece interferir com o fenômeno (!). Em outras propostas, existe a impossibilidade química de certos materiais terem sido alcançados já no século XIV. Diante dessas frustrações, seria hora de largar o jaleco e admitir o milagre? Não tão rápido!


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(!) É notável mencionar o famoso químico e boticário Caspar Neumann, o qual, na primeira metade do século XVIII havia criado uma substância com propriedades similares ao sangue de São Januário e, inclusive, fazia apresentações públicas e privadas (incluindo para a Academia Real de Ciência de Berlim) da liquefação “milagrosa” de alegado sangue humano coagulado. No caso, Neumann colocava a substância – preta e dura – dentro de frascos de vidro e aproximava estes de crânios humanos, resultando no avermelhamento da substância e subsequente liquefação. Apesar de Neumann nunca ter revelado em nenhum lugar a receita da substância, é especulado que se tratava de espermacete (lipídio extraído de cachalote), éter e pigmentos vermelhos oriundos das raízes de plantas alcanetas, uma mistura que é sólida a 10°C mas que derrete quando segurada na mão ou aquecida de outra forma (Ref.8). No caso, as caveiras de Neumann serviriam como uma fonte de calor (ex.: vela no interior ou previamente aquecida) (Ref.2).

 


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          Em 1991, um estudo publicado na Nature (Ref.3) demonstrou que o tal sangue plausivelmente poderia ser uma substância conhecida como gel tixotrópico (Ref.1, 7), e as evidências para essa proposta são mais do que fortes. Através de uma solução contendo hidróxido de óxido de ferro - FeO(OH) - em forma coloidal, é possível formar esse gel, o qual possui a característica de se liquefazer quando agitado ou vibracionado, voltando novamente à sua forma sólida quando colocado em repouso. Além disso, sua absorção de bandas no visível utilizando os métodos espectroscópicos de 1906 e 1989 é similar a de um sangue velho coagulado, onde diferenças mínimas são muito difíceis de serem observados a olho nu. E qual a descrição do "sangue sagrado" de São Januário? Sim, uma massa preta ou marrom escura quando sólida que, durante a liquefação, passa por um estado líquido avermelhado, depois amarelo-avermelhado e, finalmente, escarlate. O mesmo acontece com o sangue simulado do gel tixotrópico!


Resumo para a produção do gel tixotrópico, o nosso sangue santo simulado

         E todos os reagentes e técnicas utilizadas para a preparação desse gel podiam ser facilmente encontradas na Itália do século XIV. Bicarbonato de cálcio (CaCO3) é um dos minerais mais comuns na superfície terrestre; o cloreto de sódio (NaCl) é também amplamente extraído de várias fontes, naturais ou minerais; água destilada já era produzida e, mesmo se não fosse, água da chuva poderia ser usada no lugar; e cloreto férrico (FeCl3) é encontrado no mineral molisita, o qual é precipitado de fluxos de lava vulcânica, ou seja, áreas de atividade vulcânica, como o Monte Vesúvio (Itália), mostram abundância desse composto. 

           Do ponto de vista histórico, a única dificuldade que seria encontrada na época pelos alquimistas seria o processo de diálise que precisa ser feito para purificar a mistura coloidal, onde se é retirado cloreto férrico que não reagiu e o cloreto de cálcio formado como subproduto. Essa diálise pode ser feita com sacos de celofane, papel de pergaminho ou intestino de animais (servem como membrana semipermeável). Mas apesar de bexigas e intestino de animais já serem amplamente utilizados na época para o armazenamento de pigmentos, o uso para a purificação de soluções coloidais só veio a ter registro no século XIX. Porém, existem registros históricos desses materiais terem sido usados para a filtração de águas salinas e para esse processo pular para um diálise exige-se apenas um pequeno empurrão. Algum alquimista ter feito uma observação do tipo por acidente (como grande parte das notáveis descobertas químicas são feitas) é mais do que plausível.

         É válido relembrar que o sangue de São Januário em algumas ocasiões se recusava a liquefazer mesmo com insistentes agitações e viragens das ampolas por horas a fio, entre outras irregularidades já mencionadas. Pode ser que o gel tripoxico ali esteja contaminado com outras substâncias - reagentes iniciais não muito bem purificados, por exemplo - e, dependendo das condições de armazenamento e temperatura local, isso acaba resultando em falha da liquefação no momento esperado. O mais importante não é reproduzir com exatidão o "sangue milagroso", mas, sim, demonstrar que a alegada relíquia pode ser cientificamente imitada em suficiente extensão, ou seja, não é necessário um 'milagre' para tal fenômeno ocorrer. Métodos espectroscópicos mais modernos e compreensíveis poderiam de uma vez por todas resolver a questão, mas a Igreja Católica descarta tal possibilidade - e por motivos óbvios.
 
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           E olha que curioso. Após o milagroso sangue de São Januário ter sido revelado ao público, outros sangues milagrosos também começaram a surgir na Itália, como os de São João Batista, São Gregório Armeno, Santa Patrícia e São Pantaleão, todos possuindo a mesma propriedade de liquefação espontânea e nenhum deles ocorrendo antes do século XIV. Será difícil acreditar que os responsáveis pela mistura do gel tixotrópico teriam passado o conhecimento para outras pessoas/autoridades ou até mesmo fornecido o 'sangue falso'? Existia também uma intensa rivalidade entre os vários conventos e monastérios em Nápoles, fomentando a multiplicação das relíquias de sangue na cidade entre os séculos XVI e XVII - provavelmente envolvendo grandes investimentos financeiros para a produção ou compra dos "sangues milagrosos". Por essa razão, Nápoles também acabou ficando conhecida como urbs sanguinum - "a cidade dos sangues", com inspiração em duas passagens da Bíblia (Ezeq. 22:2, 24:6; Naum 3:1).

          Bem, nesse ponto também fica a pergunta: por que alguém teria o trabalho inicial de produzir um sangue falso? Ora, em uma sociedade altamente influenciada e orientada pelas crenças religiosas, autoridades da fé querendo manter o seu poder poderiam muito bem financiar ou recompensar generosamente tais descobertas. Aliás, na época da revelação do sangue sagrado, o rei da Itália era o Robert de Anjou, descrito como uma pessoa extremamente religiosa. Quer outro motivo para a Igreja ou um alquimista independente buscar uma fantástica relíquia sagrada que agradasse ao rei?


Suposto retrato do Rei de Nápoles, Robert de Anjou.

            Mais importante, no período Medieval, era poderosa entre o público a crença de que um santo garantia favores quando sangrava. De fato, desde tempos antigos, quem seja que controlava relíquias sagradas – especialmente o milagre do sangue – controlava a política em Nápoles (Ref.9). São Januário, de longe, era o mais influente e adorado santo, e as pessoas da região acreditavam fervorosamente que a liquefação do seu sangue predizia desenvolvimentos políticos, trazia bons presságios, protegia a comunidade, e que a relíquia suportava favores divinos. 

         “Hoje, 6 de outubro de 1496, dia do processão funerária do Rei Ferrante, o sangue de São Januário se liquefez. Isso foi tomado como um sinal de esperança de prolongada proteção para todas as pessoas, pelo rei que tinha expulsado o Rei da França... ele tinha expulso os Turcos... e ele tinha expulso os Mouros.” – Giuliano Passaro, 6 de outubro, 1496 (Ref.9).

         
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/labs/articles/25080643/
  2. De Ceglia, F. P. (2017). Playing God: Testing, Modeling, and Imitating Blood Miracles in Eighteenth-Century Europe. Bulletin of the History of Medicine, 91(2), 391–419. https://doi.org/10.1353/bhm.2017.0031
  3. https://www.nature.com/articles/353507a0
  4. http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.490.5736&rep=rep1&type=pdf
  5. http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/from_our_own_correspondent/8036438.stm
  6. http://www.nytimes.com/1991/10/15/science/science-watch-chemists-duplicate-miracle-of-saint-s-blood.html
  7. https://paperspast.natlib.govt.nz/periodicals/NZT18810805.2.16
  8. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1179/1607845413Y.0000000133
  9. The Miracle of San Gennaro. (2020). Church and State in Spanish Italy, 103–146. https://doi.org/10.1017/9781108779555.004