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Albinos na África: terror e medo



           O continente africano passou por traumáticos eventos durante os períodos de imperialismo europeu e tráfico de escravos, os quais abriram grandes feridas no seu território. Até hoje, a África, como um todo, está longe da recuperação e alcance de um estado razoável de desenvolvimento econômico e social, com diversos países sendo inundados pela corrupção, violência, miséria, doenças e fome. Dentro desse ambiente, a educação básica deixa muitas vezes de existir e a conscientização responsável torna-se ínfima, dando espaço para as desinformações, crendices, desespero e a ganância tomarem controle da alma da sociedade. E um dos frutos desse processo todo é algo difícil de ser concebido nos dias de hoje, mas, infelizmente, uma cruel e dolorosa realidade: a caça de albinos na busca dos seus ossos e partes corporais.

     
   O QUE É O ALBINISMO?

          Albinismo é um problema de saúde onde o indivíduo nasce com um defeito na produção ou distribuição de melanina no corpo, muitas vezes devido à interferência no funcionamento da tirosinase, uma enzima organometálica (nesse caso, contendo cobre) que está envolvida com a síntese da molécula de melanina. Podendo afetar todos os animais vertebrados, o albinismo é caracterizado pela falta total ou parcial de melanina no organismo, com o potencial de atingir os pelos, pele e/ou íris dos olhos.

          Como a melanina é o pigmento no nosso corpo responsável por dar cor ao nosso cabelo, pele e íris dos olhos, os seguintes sintomas acabam sendo facilmente notáveis no albinismo:

- Inexistência de coloração no cabelo, pele ou íris dos olhos;
- Pele e cabelo mais claros do que o normal;
- Manchas na pele sem coloração;
- Alguns albinos podem ter os olhos de coloração roxa ou avermelhada, dependendo da quantidade de pigmentação na região. Isso acontece porque sem melanina suficiente para cobrir a íris, os vasos sanguíneos atrás dos olhos passam a ficar mais visíveis.

            As causas do albinismo são exclusivamente genéticas, sendo um dos mais raros problemas desse tipo dentro da população global. Sua ocorrência é dada quando um de vários defeitos genéticos fazem o corpo ser incapaz de produzir ou distribuir bem a melanina pelo corpo. Esses defeitos genéticos podem ocorrer como uma falha aleatória ou serem passados através dos pais. Nesse último caso, bem mais comum, o problema se manifesta a partir de uma expressão recessiva de genes alelos, onde é necessário que ambos os pais os tenham.

Criança negra com albinismo do tipo AOC

            Os genes carregam a informação que faz você um indivíduo. Nós temos duas cópias de cromossomos autossômicos e genes: um ganho do seu pai, e o outro ganho da sua mãe. O albinismo, quando hereditário, é um "traço recessivo", o que significa que uma pessoa pode carregar o "traço" genético do albinismo sem manifestar os sintomas. Para o problema ocorrer, é necessário que ambos os traços estejam juntos no código genético. Por isso os pais podem ter um filho albino mesmo não possuindo albinismo, mas possuindo cada um deles o ´traço´. Quando nenhum dos pais possui o problema, mas carregam o defeito genético, existe 1 em 4 chances do bebê gerado manifestar o albinismo.

            A forma mais severa de albinismo é chamada de ´albinismo oculocutâneo´ (AOC). Pessoas afetados por esse tipo têm cabelos, pele e íris dos olhos brancos ou rosas. Outro tipo de albinismo é chamado ´albinismo ocular tipo 1´ (AO1), sendo que este afeta somente os olhos, e geralmente a cor dos cabelos e da íris são normais. Porém, um exame irá mostrar que não existe coloração na retina (ou seja, uma exceção no espectro normal do albinismo).

            Por causa da falta de melanina, vários problemas de saúde acabam surgindo com facilidade ou estão associados. No albinismo oculocutâneo, problemas de visão sempre vêm acompanhados. No geral, podemos ter:

- Esotropia (estrabismo onde um ou ambos os olhos ficam apontados na direção do nariz);
- Sensibilidade à luz;
- Movimentos rápidos dos olhos;
- Problemas de visão, ou cegueira funcional;
- Maior vulnerabilidade aos danos causados pela radiação solar na pele, aumentando os riscos de desenvolvimento de câncer nesse órgão;

            Além disso, temos um tipo de albinismo chamado de ´Síndrome Hermansky-Pudlak´ (SHP), causado pela mudança de um único gene. Essa síndrome pode ocorrer junto a um problema de sangramento, e também concomitante com doenças pulmonares e intestinais.

             Para tratar os sintomas, dependendo do grau de gravidade do problema, podem estar envolvidos:

- Redução da exposição solar, para minimizar os danos tragos pela radiação ultravioleta (UV);
- Uso de óculos com proteção UV para diminuir os danos oculares;
- Uso de protetores solares com um alto fator de proteção;
- Pode ser recomendado o uso de óculos para corrigir problemas de visão e cirurgias para tratar outros problemas oculares associados.

            No geral, se tirarmos os problemas oculares e epiteliais da análise, assim como o SHP, os indivíduos com albinismo mostram uma saúde e capacidade física/intelectual igual aos outros indivíduos sem o problema.


   TERROR NA ÁFRICA

            A República do Malawi, também conhecida como ´Malaui´, é um país da África Oriental que sofre com a pobreza, corrupção e com as tumultuosas relações internacionais. Mas, além disso tudo, uma terrível prática acontece no país: a caça de albinos por partes dos seus corpos.

             E não para apenas na República do Malawi. De acordo com o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), foram reportados 134 assassinatos de albinos nos últimos anos em 25 países da África até 2015. A Tanzânia enfrenta um problema ainda maior do que a República do Malawi, onde foram reportados 151 ataques a indivíduos albinos entre os anos de 2000 e 2015, dos quais 74 casos foram fatais. No ano passado, a ONU emitiu um alerta dizendo que 10 mil albinos em Malawi estavam sob ameaça de morte. Desde novembro de 2014, 19 albinos foram mortos e houve mais de 100 casos de desaparecimento ou tentativa de sequestro. Na Tanzânia, são cerca de 30 mil albinos, os quais também vivem sob constante medo. Os ataques envolvem mutilação, profunda violência e graves danos corporais. Além disso, até as covas onde albinos são enterrados acabam sendo alvos dos criminosos.


Na imagem, um menino albino em Malawi que teve sua mão direita e braço esquerdo decepados para serem vendidos.

            E o mais preocupante é que esses números provavelmente são muito maiores, porque representam apenas os casos reportados. Nesses países a investigação policial é muito deficiente e falta diversos recursos de treino e qualificação para a formação de bons agentes policiais. Além disso, rituais secretos em áreas mais rurais muitas vezes não são registrados ou levantam suspeitas. Os albinos, além de enfrentarem uma vida difícil vivendo em um território com bastante radiação solar, ainda precisam enfrentar o terror gerado por serem um pouco diferentes dos outros ao redor. Ironicamente, os negros enfrentam o preconceito em grande parte do mundo justamente por causa da cor de pele. E o que motiva tais atrocidade?.

       "Nós estamos sendo mortos como animais. Por favor, rezem por nós.", canta em profunda tristeza uma mulher albina em um evento na Tanzânia para promover os direitos dos albinos

            Apesar do albinismo poder afetar qualquer comunidade, independentemente da religião ou tradições cotidianas - por causa da sua origem genética - muitos no continente africano, especialmente na África Sub-ariana, acreditam que os ossos ou partes sem pigmentação dos albinos traz sorte, riqueza e saúde, e pagam muito por elas. Um esqueleto completo de um albino chega a valer 75 mil dólares na Tanzânia, uma verdadeira fortuna nesse país. Essas terríveis crenças são alimentadas pela pobreza nesses países, onde muitos criminosos ajudam a fomentar essa história macabra para conseguir uma boa fonte de renda, e falta do conhecimento científico do porquê da existência de albinos dentro da população africana, algo que fortalece o aspecto sobrenatural em torno do problema. Muitos curandeiros também usam as partes corporais dos albinos para sua "medicina", no mínimo, demoníaca. Familiares chegam a sequestrar e vender seus parentes albinos, e até bebês albinos são mortos.

           Além da barbárica e desumana caça, os albinos também sofrem grande preconceito e desrespeito dentro desses países, o que dificulta ainda mais ações que visam protegê-los. No geral, eles são vistos como indivíduos amaldiçoados, principalmente por causa do contraste da suas cores super pálidas com a dos seus pais, geralmente, negros e com pele bem escura.  Como a educação é muito falha nesses países, poucos sabem que a condição do albinismo é causada por fatores biológicos e que eles são tão normais quanto qualquer um dentro das comunidades. Mesmo entre os albinos, são poucos os que sabem da origem biológica da sua falta de pigmentação. Mulheres que dão a luz à bebês albinos também costumam ser perseguidas e mulheres albinas são constantemente vítimas de pesada violência sexual.

Uma garota negra albina vítima de um curandeiro que arrancou o seu braço para usá-lo em suas medicinas repulsivas; infelizmente, ela é uma das poucas que escapam com vida de tais ataques


     ALBINISMO NA ÁFRICA

             No mundo todo é estimado que existam cerca de 1 albino para cada 17 mil habitantes. Porém, na África sub-Sariana, o número de albinos é relativamente bastante elevado.

           Os albinos perseguidos na África são aqueles que carregam o tipo OCA (Albinismo Oculocutâneo), onde a pele, olhos e cabelos são atingidos por uma significativa redução ou total falta de melanina. Vários genes são associados com a manifestação do OCA, apesar das formas OCA1 e OCA2 serem as mais comuns - entre 5 tipos no total. O OCA1 é causada pela redução ou completa falta de atividade da tirosinase, enzima codificada pelo gene TYR. Já o OCA2 é causado por uma redução ou completa falta de atividade da proteína P - um canal de íons cloreto que ajuda a regular o pH da organela melanossoma, onde a tirosinase está ativa.

            Apesar do AOC2 ser encontrado em todas as populações, algumas delas possuem uma relativa alta incidência do problema. No mundo, a incidência do AOC2 é próximo de 1 em cada 36 mil pessoas, mas é especialmente comum em indivíduos de origem africana. Altas taxas de AOC2 são vistas entre várias tribos na África: 1 em cada 1100 em Ibo, na Nigéria; 1 em cada 7900 entre os Bamilekes, em Camarão; 1 em cada 3900 na África do Sul; e 1 em cada 1400 na Tanzânia, fazendo este país ter uma das maiores taxas. A principal mutação genética entre os AOC2 na Tanzânia é uma deleção específica do exon 7 do gene ligado à AOC2, respondendo por 77% dos alelos mutantes, e parece ter sido derivada de um ancestral africano que viveu entre 2000 e 5000 anos atrás.

Existe uma grande prevalência de albinismo na África, por mais contra intuitivo que isso possa parecer

         Enfim, existem duas recentes possíveis explicações para essa alta incidência do AOC2 nas comunidades africanas (Ref.3):

1. Lepra: Na África, encontramos uma alta prevalência histórica também de lepra (também conhecida como Hanseníase), uma doença que atinge o sistema nervoso, pele e mucosas das vias aéreas superiores, e sendo causada pela bactéria Mycobacterum leprae. Interessantemente, a M. leprae possui um gene, 38L, de função desconhecida que divide uma significativa sequência homóloga com um gene relacionado com o AOC2, sendo especulado que o mesmo estaria associado com a manifestação da hipopigmentação (redução na pigmentação). Portanto, uma pessoa portando o traço genético do albinismo tipo AOC2, mas sem manifestar o problema (heterozigoto), pode ganhar alguma proteção contra a lepra, onde mutações envolvendo sequências genéticas parecidas entre o indivíduo e a bactéria podem conferir ao primeiro algum tipo de resistência.

2. Tuberculose: Seguindo o mesmo raciocínio anterior, na África sub-Sariana, é alta também a prevalência de tuberculose, sendo que a sua bactéria causadora, a Mycobacterium tuberculosis, contém um gene - relacionado com um proteína transportadora de arsênio na membrana plasmática - que é também similar à sequências genéticas presentes na AOC2. Portanto, de alguma forma, pessoas portadoras do traço genético do AOC2, mesmo sem manifestar o albinismo, também podem ganhar alguma resistência a essa doença.

          Em ambas as hipóteses acima, as quais podem se complementar ou não, o processo evolutivo teria selecionado mais as pessoas com as proteções genéticas contra a tuberculose e a lepra, levando a um maior número de pessoas com os genes relacionados com o albinismo e maior chance de uma pai e uma mãe os terem e gerarem um filho albino. Fatores de proteção contra a lepra parecem ser os mais prováveis de estarem relacionados à grande presença do albinismo em vários países africanos.

         Por causa dessa alta prevalência de albinos na África, aliado às crenças infundadas, esse grupo de indivíduos acaba tendo bastante exposição dentro da sociedade africana e alvos mais fáceis dos criminosos em várias regiões.


      CÂNCER DE PELE: MAIS UM INIMIGO

            Alguns grupos humanitários estimam que cerca de 90% dos albinos com câncer de pele morram da doença em países africanos. Apesar de todo câncer de pele ser tratável em seu início de desenvolvimento, muitos indivíduos albinos na África não conseguem um tratamento a tempo ou não são conscientizados a fazê-lo. E como grande parte do território africano é inundado de radiação solar e considerando o fato que existam dezenas de milhares de albinos no continente, a questão se torna um grave problema de saúde pública que se soma à caça e ao preconceito.

            Negros albinos na África sub-Sariana possuem um risco estimado 1000 vezes superior de desenvolver células escamosas de carcinoma - ligadas ao câncer de pele - do que outros indivíduos negros onde vivem. Uma das funções da melanina é em proteger as células epiteliais dos danos causados pelo UV na radiação solar, e sua deficiência ou falta aumenta bastante os riscos de ocorrerem danos graves no material genético - como no gene de supressão-tumoral p53 - que resultem no surgimento de um câncer. Além disso, outros danos inflamatórios gerados pelo UV geram grande quantidade de espécies reativas oxigenadas (O que são os radicais livres?), as quais também contribuem para danos no DNA. Os negros com albinismo são particularmente vulneráveis, onde o câncer se desenvolve de maneira agressiva e geralmente de forma recorrente, já que a alta quantidade de melanina entre os negros não-albinos impediu que outros sistemas de proteção fossem desenvolvidos com maior robustez.


             E como em boa parte da África a educação e conscientização da população é precária, muitos desconhecem medidas de proteção básica que precisam ser adotadas pelos albinos. Uso de protetores solares, roupas de manga comprida, grandes chapéus e óculos de proteção contra o UV são essenciais em ambientes com possível exposição solar. Além disso, as pessoas com albinismo precisam ficar mais atentas com sintomas iniciais de um câncer na pele, para buscarem tratamento médico o mais rápido possível. Mas a realidade é outra: em média, os negros albinos demoram entre 9 e 12 meses para procurarem um tratamento após notarem anormalidades na pele.

             Porém, tais medidas não dependem muitas vezes das campanhas de conscientização ou maior nível educacional. Em países tão pobres como a Tanzânia, onde cerca de 80% da população vive com menos de $1,5 por dia, fica difícil comprar bons protetores solares que chegam a custar de $15 a $20. O mesmo pode ser dito da dificuldade em se conseguir um atendimento médico. Além disso, é estimado que cerca de 40% dos albinos negros com câncer de pele que conseguem iniciar um tratamento médico acabam desistindo de completá-lo ou devido aos custos ou por causa da distância que precisam viajar para alcançarem os centros de saúde (escassos em grande parte da África, especialmente nas zonas rurais).

             Outro grave problema é o terrível estigma que persegue os albinos na África. Muitos pais, pensando que seu filho albino foi amaldiçoado, acabam o abandonando pelas ruas. Sem recursos ou mesmo vestimentas mínimas, os albinos abandonados ou são mortos por caçadores ou ficam sob grande exposição solar, danificando gravemente a pele. Ainda existem os pais que forçam seus filhos albinos a ficarem expostos no Sol para que eles adquiram alguma coloração e deixem de chamar tanto a atenção ou os "envergonhem" menos. Suas peles, dessa forma, sofrem queimaduras que as deixam um pouco mais escuras, algo que alegra os pais irresponsáveis mas que impõe sérios riscos de desenvolvimento de câncer de pele.

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     O QUE ESTÁ SENDO FEITO?

             Para tentar resolver a trágica situação, diversas campanhas de organizações internacionais de direitos humanos se empenham em conscientizar as pessoas e pressionar os governos a adotarem medidas que ajudem a aumentar a segurança para a comunidade albina. A ONU também declarou o dia 13 de Junho como o Dia Internacional da Consciência Albina para ajudar na causa.

           Em Janeiro de 2015, a Tanzânia, por exemplo, baniu curandeiros e prendeu mais de 200 praticantes de medicina tradicional que cometeram crimes contra albinos. Somando-se a isso, 17 pessoas foram condenadas à pena de morte nesse ano por terem matado albinos. Em Malawi, o presidente Peter Mutharika anunciou, em Março de de 2015, um plano para aumentar o alerta das forças de segurança no país para os crimes praticados contra albinos e também reforçar as punições legais contra os criminosos. Ele também direcionou o Ministro de Assuntos Internos, o inspetor geral de polícia e todos os escritórios de segurança a "fornecer o máximo de proteção aos nossos irmãos e irmãs com albinismo".

            Porém, os esforços ainda não estão surtindo o efeito esperado. Assim como acontece com a caça pelo marfim dos elefantes e chifres dos rinocerontes, o alto valor de mercado pelas partes corpóreas dos albinos acaba encorajando criminosos de todas as partes. Em Malawi, a Associação de Pessoas com Albinismo reportou que os casos de ataques a albinos aumentaram em 2016, e países onde o problema é bem menos intenso, como Burundi, Moçambique e Zâmbia, também tiveram mais denúnciais de tais atos, segundo a agência canadense de caridade UTSS.

Em Segerema,  na Tanzânia, a cerca de 60 km de Mwanza, um monumento foi erguido no meio da cidade. É uma estátua de metal, em tamanho realista, retratando um pai negro (pigmentado) segurando seu filho com albinismo sobre os seus ombros, enquanto a mãe negra, também pigmentada, coloca um chapéu de proteção por cima da sua cabeça para protegê-lo do Sol. O objetivo da obra é em ajudar a combater o preconceito contra os albinos no país

            Outro problema é que as campanhas governamentais nesses países, como na Tanzânia, tendem a focar nas áreas urbanas, sendo que nas regiões rurais é onde os albinos enfrentam os maiores riscos. Esse foco acaba sendo moldado pelo pouco poder financeiro disponível para alcançar vilas e comunidades rurais.

             Se as pessoas nos países africanos soubessem que seus ancestrais já carregavam os genes relacionados com o albinismo, assim como muitas pessoas atualmente o carregam, talvez o preconceito contra os albinos diminuíram e as crenças seriam enfraquecidas. Na Tanzânia, por exemplo, cerca de 1 em cada 19 pessoas carregam tais mutações. Em outras palavras, são altas as chances de muitos dos próprios caçadores criminosos carregarem os genes relacionados ao albinismo. A maior proteção proteção policial precisa também estar unida com uma maior educação básica para a população, tanto nas escolas quanto para o público geral.

O ativista albino Alfred Kapole tem esperança de que a próxima geração de albinos terá um futuro mais seguro na África

             Em relação ao câncer de pele, alguns governos no continente começaram a prestar mais atenção ao problema. Em 2015, o governo no Quênia disse que iria gastar cerca de $1,5 milhões para providenciar produtos de proteção solar para mais de 3 mil pessoas com albinismo e uma companhia em Senegal já produziu 5 mil protetores solares com preço acessível a serem distribuídos.

            Mas não basta apenas a distribuição ou disponibilidade de mais produtos de proteção solar. Muitos albinos acreditam que remédios tradicionais de curandeiros já são o suficiente para se protegerem do Sol - misturas de extratos de óleo e outras partes de plantas - ou tratarem cânceres de pele em progressão. Ou seja, voltamos ao problema da educação e combate às desinformações/crenças.

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     TRISTE E DESAFIADORA REALIDADE

            Acumulando problemas de saúde, forte preconceito e sangrenta perseguição, os albinos na África acabam enfrentando degradantes pressões psicológicas e grandes desafios sociais. Esses indivíduos tendem a se auto marginalizar da sociedade para serem menos notados, ter um estado emocional instável e desenvolverem personalidades menos assertivas. E mesmo tendo amigos próximos, os albinos africanos, no geral, se sentem rejeitados e mal vistos pela sociedade como um todo.

           Esses prejuízos fazem os indivíduos albinos abandonarem cedo a escola, terem dificuldade em formarem uma família e terem poucas oportunidades de emprego. E aqueles empregos mais disponíveis e menos valorizados que sobram, geralmente envolvem o trabalho pesado no campo e sob forte exposição solar, o que facilita ainda mais os danos na pele.      

            Depois de conhecer esses horrores, alimentados apenas por crenças infundadas e puro preconceito, fica quase impossível acreditar que qualquer tipo de política irá salvar os rinocerontes (Rinocerontes no precipício da extinção) e elefantes (Marfim e o massacre dos elefantes), ambos na mesma situação (marfim e chifres usados para a medicina alternativa sem valia, especialmente chinesa). Sem nem mesmo humanos têm suas vidas minimamente respeitadas, imagine outros animais.

            Os Artigos 2 e 3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, afirma que todas as pessoas têm direitos iguais, protegendo-as de quaisquer ameaças sociais derivadas de questões ligadas à cor da pele, etnia e outras características físicas gerais. Infelizmente, boa parte da nossa sociedade ainda está travada no título da declaração e não consegue avançar a leitura.

           É realmente difícil tentar digerir o mundo...


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://medlineplus.gov/ency/article/001479.htm 
  2. http://ijmas.com/upcomingissue/09.01.2016.pdf 
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0306987712004264 
  4. https://academic.oup.com/inthealth/article/7/4/223/2458905/Albinism-in-Africa-a-medical-and-social-emergency 
  5. http://www.loc.gov/law/foreign-news/article/malawi-president-announces-plan-to-protect-albinos/ 
  6. http://www.jaad.org/article/S0190-9622(15)00237-6/fulltext 
  7. https://www.amnesty.org.uk/ritual-murders-people-albinism-malawi 
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4549604/ 
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22031648 
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25298350
  11. http://www.bbc.com/future/story/20170425-the-silent-killer-of-africas-albinos
  12. http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+MOTION+B8-2016-0908+0+DOC+XML+V0//EN&language=en
  13. http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39049994
  14. http://sro.sussex.ac.uk/67375/1/Kiishweko,%20Rose%20Rutagemwa.pdf
  15. http://www.bbc.com/news/world-africa-30394260
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1584235/
  17. http://globaldisability.org/2016/02/18/broken-bodies-the-hunt-for-persons-with-albinism-in-tanzania
  18. http://www.un.org/en/events/albinismday/