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O café mais caro do mundo e o terror por trás da sua produção



            O café pertence à família botânica Rubiaceae, que tem cerca de 500 gêneros e mais de 6.000 espécies. Duas espécies do gênero Coffea apresentam grande importância comercial, ou seja, Coffea arabica (ou ´café arábica´, a mais popular e mais produzida no mundo) e Coffea canephora (ou ´café robusta´). A qualidade do café está relacionada ao grau de torra e aos diversos constituintes químicos dos grãos, incluindo proteínas, lipídios, carboidratos e outros compostos voláteis ou não. Aqui no Brasil, o consumo de café faz mais do que parte da nossa cultura e cotidiano, sendo algo diário e quase obrigatório para muitos. Mas além dos cafés tradicionais, encontramos os chamados ´cafés exóticos´. E, entre eles, temos um que se destaca no mundo todo por valer uma verdadeira fortuna. E, infelizmente, tudo o que é supervalorizado na nossa sociedade também tende a esconder segredos sombrios.

           O café mais caro do mundo é conhecido como Kopi Luwak (na tradução, ´Café de Civeta´) e é produzido nada mais, nada menos, do que com os grãos defecados e semi-digeridos por um pequeno mamífero chamado de Civeta-de-Palmeira-Asiática (Paradoxurus hermaphroditus)! Sim, é um café feito com grãos provenientes das fezes desses animais! Outras espécies de civetas também costumam ser usadas, mas em escala muito reduzida.

A Civeta-de-Palmeira-Asiática  é um pequeno animal onívoro (1,7 e 2,7 kg) de hábitos noturnos e solitários que vive em diversas regiões do sul e sudeste asiático, se adaptando muito bem em diversos tipos de habitats

           A popularidade do Kopi Luwak explodiu após o café aparecer em um programa da apresentadora americana Oprah Winfrey e no filme Antes de Partir, estrelado por Morgan Freeman e Jack Nicholson, em 2007. Em restaurantes, o preço da xícara de café pode chegar a custar cerca de  US$ 95 (em torno de R$ 280)! O quilo dos grãos pode ultrapassar os US$ 400 e, em alguns casos, alcançar preços na faixa dos US$ 3000!

          A produção do Kopi Luwak concentra-se na Ilhas de Bali, Java, Sumatra e Sutawesi, na Indonésia, e pode ser encontrada também em vilas nas Filipinas Tailândia, Vietnã e Etiópia. O café produzido por esses grãos especiais possui um sabor único devido à ação de enzimas e sucos digestivos no sistema digestivo das civetas, e pelo fato desses animais selecionarem melhor os grãos maduros antes de comê-los e acrescentarem substâncias de odor das suas glândulas anais nas sementes sendo excretadas, aumentando ainda mais a qualidade do produto final. Assim, o processo todo garante uma fermentação natural que rende uma bebida com notas de frutas vermelhas, zero de acidez e pouco amargor.

Civeta-de-Palmeira-Asiática se alimentando de grãos de café

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     A HISTÓRIA SOMBRIA POR TRÁS

           Porém, existe um grave problema ambiental que envolve esse café. Os produtores, em geral, gostam de afirmar que coletam os grãos de café excretados por esses animais como um artigo silvestre, ou seja, a partir de excrementos de animais livres na natureza. Mas diversas reportagens e investigações começaram a denunciar uma verdadeira rede de crueldade nos últimos anos.

Muitos produtores alegam que os grãos coletados são silvestres, algo longe da verdade na prática

          Gerando enormes lucros, grande parte dos produtores (hoje deve ser difícil achar exceções) mantêm diversas dessas espécies de civetas em jaulas imundas, apertadas e sem nenhum acompanhamento veterinário. Os animais são tratados como verdadeiras "máquinas de café", perdendo totalmente sua liberdade e complexa interação ecológica presente no seu habitat natural. Assim, os grãos são produzidos em grande quantidade e, ao mesmo tempo, podem ser vendidos como raros artigos silvestres, mantendo os preços nas alturas.

           Em uma investigação conduzida pela BBC no final de 2013 (Ref.1), repórteres disfarçados de compradores foram em fazendas da Ilha de Sumatra, onde se produziam os grãos, e constataram gaiolas muito apertadas, sujas e comportando inclusive civetas muito feridas, tudo sob um falso rótulo de "produto silvestre". Algumas gaiolas podiam inclusive serem encontradas com superpopulações desses animais, de modo completamente desumano, e com um detalhe: são animais de hábitos solitários, ficando bastante estressados se em contato próximo por longos períodos com outros da mesma espécie.

Vários animais selvagens são mantidos prisioneiros em verdadeiras fábricas de exploração desumana, com muitos sendo mal alimentados e deixados cheios de infecções/feridas

          Ainda na investigação da BBC, vídeos filmados secretamente foram entregues nas mãos de especialistas para análise. Depois de ver as imagens dos animais ilegalmente engaiolados, o pesquisador Neil D'Cruze, da Sociedade Mundial para Proteção de Animais, disse que os bichos pareciam "totalmente deprimidos e infelizes", e acrescentou: "Esses animais silvestres têm comportamentos que precisam e querem expressar. As gaiolas são completamente secas, imundas e sem lugar para eles subirem." Muitos desses animais acabam sendo capturados do meio selvagem e mesmo aqueles criados desde sempre em cativeiro sofrem do mesmo jeito devido à sua biologia e pelo simples fato de estarem presos em tais ambientes. E como a qualidade dos grãos de café excretados varia com a idade, geralmente os indivíduos mais velhos - se não morrem antes nas terríveis celas - são soltos de qualquer maneira no ambiente selvagem, com poucas chances de sobrevivência devido ao estado deplorável após longos períodos de sofrimento.

          Investigações conduzidas pela PETA (Ref.3) mostraram que várias fazendas na Indonésia e nas Filipinas mantêm inúmeras civetas presas em gaiolas, com algumas dessas propriedades inclusive propagandeando, explicitamente e sem nenhuma vergonha, que os grãos coletados eram genuinamente silvestres. Os animais aprisionados e gravados secretamente pelos ativistas da PETA mostravam sinais de grande estresse, péssimas alimentação e cheios de infecções. Isso acarreta comportamentos doentios (girando sem parar nas gaiolas e balançando freneticamente a cabeça) e perdas de pelo pelo corpo, como pode ser visto no vídeo denúncia abaixo.

            

            Não só a PETA e diversas outras organizações de apoio à causa animal pedem que as vendas desses grãos seja proibida ou boicotada, mas o próprio responsável por trazer o kopi luwak para o ocidente, Tony Wild - um executivo no ramo de café - , não mais suporta o seu consumo e comercialização devido à intensa crueldade com os animais. Em uma matéria escrita pelo empresário para o jornal britânico The Guardian (Ref.2), em 2013, Tony pediu ao mundo que a indústria criada por ele desse café fosse finalizada devido aos abusos sofridos pelas civetas. Na sua campanha, ´Cut the Crap´ (uma gíria na língua inglesa que significa ´Pare de falar besteira´ ou ´Vá direto ao ponto´, mas, que, literalmente, pode ser traduzida para ´Corte as fezes´),  ele afirma que quando introduziu o kopi luwak no mercado britânico, era apenas uma estranha novidade, mas que logo se transformou em algo supervalorizado, cruel, feito em ritmo industrial e frequentemente inautêntico. Tony diz que ficou difícil suportar esse mercado sangrento.

            Apesar de existirem métodos de análise química que permitem diferenciar grãos falsos de kopi luwak dos verdadeiros (ou adulterados com grãos de menor qualidade) (Ref.4 e 5), é impossível diferenciar um grão coletado de forma silvestre daquele coletado de animais aprisionados. E como a grande fama do produto aumentou muito a demanda, fica muito difícil combater a produção ilegal desses grãos, já que o método de coleta natural rende uma escassa produção. Nos últimos anos, por exemplo, houve um enorme crescimento na demanda do kopi luwak nos EUA, onde até pouco tempo atrás era, virtualmente, desconhecido pela população. O próprio turismo na Indonésia cresceu significativamente em certas regiões devido à existência do exótico café, algo que fomenta ainda mais a sua produção.

Muitas civetas são obrigadas a ficarem juntas em espaços mínimos, mesmo sendo animais de hábitos solitários, e muitas mais acabam desenvolvendo grande depressão e outros problemas mentais dentro das gaiolas


    ESTADO DE CONSERVAÇÃO

           Apesar da  Civeta-de-Palmeira-Asiática ainda não ser uma espécie ameaçada de extinção ou sob risco de ameaça de conservação pela IUCRN (Ref.6), devido ao grande número populacional e grande distribuição geográfica desses animais, os cientistas e ambientalistas estão cada vez mais preocupados com o aumento do tráfico e captura desses animais para o comércio de café. Além do sofrimento no encarceramento, a demanda dessa espécie em várias regiões do mundo para produções particulares dos valiosos grãos de café só aumenta os danos a esses animais. Isso sem contar os desequilíbrios ecológicos diversos gerados pelo tráfico ilegal.

           Somando-se à questão do café, por causa do maior conhecimento desse esse animal pela população no mundo, muitas pessoas começaram a fomentar o comércio ilegal deles como animais exóticos de estimação. Outros dois grandes problemas são a caça pela carne dessas civetas e a degradação do seu habitat (apesar dessa espécie suportar bem essa última ameaça). Mesmo existindo leis específicas de proteção a esses animais na Indonésia e outros países, isso acaba não sendo suficiente para deter a influência comercial traga pelo exótico café.

           A longo prazo a situação desse animal pode ficar igual a do Slow Loris (Nycticebus), o qual sofreu gigantesca redução na sua população e agora está ameaçado de extinção (todas as espécies do gênero) por causa do explosivo comércio visando o mercado de animais de estimação nos últimos anos (Animais exóticos de estimação: o lado sombrio da história). Essa explosão recente (menos de uma década) na demanda pelo kopi luwaki pode levar a um grande prejuízo para o número populacional da espécie e, mesmo esses animais já sofrendo muito no quesito bem-estar, pouca atenção está sendo voltada para o assunto no circuito internacional. Estudos foram e continuam sendo publicados alertando sobre a situação, mas também não conseguem obter muito valor de impacto.

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    O QUE PODE SER FEITO?

          Como o comércio desse café gera muito lucro, é bem difícil contar com a ajuda dos produtores e empresas envolvidas no negócio. Algo que pode gerar impactos positivos para proteger essas civetas é diminuir a demanda através de boicotes. Quanto mais consumidores conscientizados, mais deles ficariam dispostos a abandonar o luxuoso café, já que grande parte das pessoas não conhecem a violência por trás do produto ou mesmo como se dá a sua produção. Hoje, apenas uma fazenda na Indonésia já chega a produzir mais de 7 mil quilos desses grãos por ano, a partir de centenas de civetas aprisionadas. Globalmente, a produção já deve ultrapassar, e muito, as 50 toneladas anuais. E isso é estrondoso para algo que antes era considerado raro por ser, teoricamente, coletado de forma silvestre.

          E não seria um boicote envolvendo reais sacrifícios, já que esse café é apenas algo supérfluo e desnecessário, com a importância não passando de um gosto um tanto diferenciado para outros cafés. Será que isso realmente vale o massacre de uma espécie selvagem inteira? Muitas pessoas gostam de dar esse caro café de presente para amigos e familiares, e aposto que a maioria ficaria chocada se soubessem que estão envolvendo um produto tão cruel como presentes direcionados à pessoas especiais em suas vidas.

          E falando em espécie, a explosão comercial do kopi luwak acabou também fomentando o crescimento de outros cafés exóticos do tipo, o que causa preocupação para o bem estar de outras espécies. No top 5 dos cafés mais caros do mundo, temos 4 deles que usam animais para o processamento dos seus grãos. Excetuando-se o já discutido kopi luwak, são eles:

Black Ivory Coffe: Cultivado em plantações acima de 1500 m de altitude na Tailândia, Indonésia e Laos, os grãos do café são esmagado por elefantes asiáticos antes de serem engolido por esses animais. O fruto passa pela digestão natural do mamífero junto de frutas e ervas presentes na ração dos elefantes antes de ser expelido nas fezes. Após a torra dos grãos, a bebida apresenta notas de gramas, ervas e notas de chocolate com canela, além de acidez baixa. Utiliza apenas café arábica para a produção e o quilo pode alcançar os US$ 1200.

Funcionário alimentando um elefante com grãos de café

Jacu Bird Coffee: Produzido aqui no Brasil, no Estado do Espírito Santo, e com produção regulada pelo IBAMA, os grãos desse café são retirados das fezes do Jacu, um grupo de aves do gênero Penelope,  que engole o grão inteiro sem mastigá-lo. No estômago do pássaro, o café absorve ácidos e enzimas que garantem baixa acidez, amargor e doçura média à bebida, rica em notas de jasmim. O quilo pode alcançar os US$ 1150.

Jacu, a qual produz o segundo café exótico que mais desperta a curiosidade das pessoas depois da civeta

Monkey Coffee: Cultivados em Taiwan, e talvez em outras partes da Ásia, os grãos desse café passam por macacos Rhesus (Macaca mulatta), que comem o exterior da fruta e cospem os grãos. Depois disto, eles são colhidos, lavados e secos naturalmente ao sol antes de serem torrados e moídos. A bebida contém notas de caramelho e baunilha com altos níveis de doçura e acidez média. O quilo pode alcançar os US$ 700.

O café de processados por macacos é geralmente feito utilizando  a espécie Rhesus

          Apesar de não haver denúncias de abusos nos três casos acima, nunca é saudável incentivar tal tipo de comércio, especialmente quando o mesmo envolve animais selvagens. Não vamos deixar que nossos luxos descartáveis continuem fazendo tantas vítimas inocentes. Já não basta o que fazemos com a nossa própria espécie. Sempre pesquisem sobre os produtos que vocês compram e nunca fomentem a violência e o abuso.


Vídeo Recomendado:

            


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REFERÊNCIAS
  1. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/09/130913_cafe_animais_dt
  2. https://www.theguardian.com/lifeandstyle/wordofmouth/2013/sep/13/civet-coffee-cut-the-crap
  3. http://action.petaasiapacific.com/ea-action/action?ea.client.id=110&ea.campaign.id=22769
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23889358
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26777237
  6. http://www.iucnredlist.org/details/41693/0 
  7. http://gq.globo.com/Prazeres/Gastronomia/noticia/2016/01/os-5-cafes-mais-caros-do-mundo.html
  8. http://revistas.ufpr.br/alimentos/article/view/32720/20775
  9. https://www.researchgate.net/profile/Andreas_Wilting/publication/303667729_Predicted_distribution_of_the_common_palm_civet_Paradoxurus_hermaphroditus_Mammalia_Carnivora_Viverridae_on_Borneo/links/574c385e08aed8df7c54d66b.pdf
  10. https://www.researchgate.net/profile/Neil_Dcruze/publication/301575271_The_animal_welfare_implications_of_civet_coffee_tourism_in_Bali/links/573c413408ae298602e55330.pdf
  11. http://animaldiversity.org/accounts/Paradoxurus_hermaphroditus/
  12. https://www.blackivorycoffee.com/about