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Animais exóticos de estimação: o lado sombrio da história



         Você vê um animal bem diferente e bonitinho, ou um bem "maneiro" na internet, em um livro ou em algum programa na televisão, e logo já fica com vontade de tê-lo em casa. A partir daí, você corre para os petshops mais próximos procurando pelo incrível animal ou tenta encomendá-lo pela internet. Achando um vendedor, você paga todo feliz pelo seu "produto" e passa a aguardar ansiosamente pela entrega. Porém, você pode não saber ou não tinha a intenção, mas são grandes as chances de você ter contribuído para uma indústria multibilionária que perde apenas para o comércio de drogas e armas: o tráfico global e ilegal da vida selvagem. E, dentro dessa rede criminosa e sangrenta, seu novo animal de estimação faz parte de um triste comércio que cresce cada vez mais: o tráfico de animais exóticos para suprir os desejos egoístas das pessoas.   

            É estimado que um quinto de todo o tráfico de vida selvagem (animais vivos, peles, carne, marfim, chifres de rinoceronte, etc.) seja destinado à demanda por animais de estimação e para entretenimento (circos e outras atrações do tipo). E na maior parte do gigantesco comércio de "animais de estimação", encontramos os animais considerados ´exóticos´ (aqui definidos como espécies não nativas do país, ou não considerados um animal de estimação padrão, ou ambos). Nos EUA, esse comércio movimenta em torno de US$15 bilhões todos os anos, e estima-se que no Reino Unido existam mais de 42 milhões de animais exóticos em posse da população. Aqui no Brasil, o Ibama estima que cerca de 38 milhões de exemplares sejam retirados anualmente da natureza, e que aproximadamente 4 milhões deles sejam vendidos para fomentar, em parte, a demanda por animais de estimação exóticos, movimentando cerca de US$ 2,5 bilhões por ano. Dentro desses números, encontramos os mais variados tipos de animais, incluindo ouriços, macacos, lagartos e até mesmo tigres, girafas e ursos. Não existem limites e as pessoas comprando tais animais nem ao menos procuram saber se a espécie está em risco de extinção ou se ela é legalizada para a compra.

As aves são as mais traficadas em termos de diversidade de espécies e classes; os répteis vêm em segundo lugar, sendo a União Europeia o maior importador

           A população mundial mais do que dobrou no último século e continua a crescer. Se a demanda por animais selvagens para fins fúteis continuar a mesma, o impacto futuro sobre as populações de inúmeras espécies irá ficar cada vez mais catastrófico. E o pior é que, no caso de animais para fins domésticos ou de coleção, a maior raridade desses animais pode acabar empurrando seus preços para cima, já que muitos colecionadores valorizam bastante a raridade do animal sendo requisitado. A situação é tão grave que mesmo a mídia que entrega produtos de entretenimento com uma mensagem de conservação ambiental, como os filmes ´Rio´ e ´Encontrando Nemo´ acabam sendo fomentadores do comércio de animais exóticos. No lançamento desses dois filmes, por exemplo, houve uma coincidência com a intensificação do tráfico de ambos (Ararinha-Azul - Anodorhynchus byacinthimus - e Peixe-Palhaço - Amphiprioninae).

As populações do Papagaio-Cinza-Africano estão em forte declínio por causa do tráfico de animais de estimação

            E o tráfico ilegal, e até mesmo grande parte do legal, de animais exóticos para o mercado doméstico não afeta negativamente apenas as populações dos animais sendo traficados. São tantos os efeitos colaterais desastrosos que, se as pessoas tivessem consciência pelo menos da metade deles, elas passariam a nunca nem ao menos pensar em comprar um animal exótico. Vamos, então, investigar os danos tragos por esse comércio sangrento.

Por causa da intensa captura da Tartaruga-Radiata (Astrochelys radiata) para o comércio de animais de estimação, os pesquisadores estimaram, em 2008, que ela estará extinta dentro de 45 anos. Na verdade, o tráfico de cágados e tartarugas de água doce é  tão grande na Ásia, que a situação já é conhecida como ´Crise Asiática das Tartarugas´.


  TRANSPORTE E CAPTURA

          Existem duas origens dos animais exóticos que chegam até a sua casa quando você os compra: legal e ilegal. Na via legal, você os compra através de criadores licenciados, onde geralmente existe grande fiscalização e controle. Porém, o comércio legalizado possui muitas restrições e limitações, devido à dificuldade de várias espécies em se reproduzirem fora do seu habitat natural (para muitas, isso é quase impossível) e por causa das inúmeras proibições relativas ao estado de conservação de uma espécie e/ou entrada da mesma no país. Além disso, o próprio comércio legal pode fomentar a captura ilegal, onde as margens de lucro são bem maiores. Consequentemente, a via ilegal acaba sendo muitas vezes a escolhida (estimativas mínimas colocam o número em torno de 25%), e, nessa, os animais só encontram a crueldade.

          Antes mesmo de chegarem à casa das pessoas, os animais enfrentam uma trágica viagem. Sem mostrar preocupação nenhuma com o bem estar físico e emocional de espécie alguma, os caçadores usam, na maior parte das vezes, métodos brutais para capturá-los. Para pegar pássaros, muitos optam por pintar os galhos das árvores com resinas pegajosas, para prendê-los no pouso, algo que danifica suas penas e membros. Para capturar filhotes de primatas, os caçadores muitas vezes matam os pais.

          E durante o transporte, esses animais costumam passar por vários intermediários e exportadores antes de chegarem ao seu destino. E as condições de transporte quase sempre são as piores possíveis. Papagaios podem ter seus bicos e pés amarrados e serem forçados para dentro de tubos de plástico para serem melhor escondidos. Pássaros em geral e ovos de répteis podem ser colocados desconfortavelmente em coletes especiais para conseguirem passar pelos detectores de raios-X nos aeroportos sem serem identificados. Bebês tartarugas completamente enrolados em fitas adesivas, para ficarem dentro da carapaça, são socados em meias às dúzias. E é comum diversos animais serem traficados em espaços de superlotação e com baixíssima quantidade de alimentos. Muitos também são drogados, para ficarem quietos durante a viagem. Em tais condições, onde existe uma baixa ventilação, super população espremida, falta de comida e água, e cuidados básicos de segurança, a grande maioria acaba morrendo ou ficando muito doente.

Várias cacatuas apreendidas durante seu tráfico ilegal, enfiadas dentro de garrafas plásticas de forma totalmente desumana

         Dados recentes o comércio de animais selvagens indo dos EUA para a União Europeia mostraram que cerca de 80% dos anfíbios, répteis e mamíferos estavam doentes, machucados ou mortos, com um índice de mortalidade de aproximadamente 70% após 6 semanas. E esse número é considerado algo ´padrão´ pela indústria de animais de estimação. É estimado que para cada animal capturado e vendido, 50 podem acabar mortos no processo. E isso não importa para os caçadores, porque vários animais exóticos costumam valer bastante no mercado negro. Um papagaio-cinza-africano chega a alcançar o preço de US$ 2 mil e uma arara-azul-grande chega a valer dezenas de milhares de dólares. Para os traficantes, se um é vendido, já é muito lucro, mesmo se dezenas morram no processo.

Os traficantes pouco se importam com o bem-estar dos animais e fazem qualquer coisa para não serem pegos

         Uma recente investigação feita pelo PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) no Texas (Ref.8 e 9), que durou 7 meses, resultou na apreensão superior a 27 mil animais, os quais estavam submetidos a condições deploráveis de armazenamento. Mais de 400 iguanas estavam sem comida e água, onde metade delas estava morta. Centenas de animais estavam mortos quando foram primeiro achados. E mais de 6 mil deles morreram em um curto período de tempo após serem libertos porque estavam doentes demais para serem salvos.          

Entre 40 e 80% dos peixes exóticos morrem durante o tráfico, onde os mesmos são transportados em sacos plásticos e submetidos a uma pobre alimentação

          E outra grande investigação, conduzida pela BBC News por 12 meses, e publicada esta semana (Ref.25), revelou um terrível tráfico de bebês chimpanzés para fomentar o mercado de animais de estimação e entretenimento em zoológicos comerciais. Com um preço que alcança os 12,5 mil dólares cada um, os caçadores e traficantes não mostram piedade e arrancam os filhotes de seus pais e grupos em meio à carnificina. Eles matam os pais e companheiros próximos para facilitar a captura dos filhotes (obtendo também um pequeno lucro na venda da carne dos mortos). Para cada filhote capturado, cerca de 10 chimpanzés adultos são brutalmente assassinados. E o pior é que quando os filhotes chegam à idade pré-adulta na mão dos compradores, e deixam de ser "fofinhos" e mansos, eles normalmente são enjaulados, abandonados ou mortos.

Vindos de vários países africanos, os principais compradores de bebês chimpanzés se localizam na China, Sudeste da Ásia e Estados do Golfo

           É estimado que 3 mil primatas superiores, incluindo orangotangos, gorilas e chimpanzés são perdidos da natureza em consequência do tráfico ilegal. Eles são vendidos ou morrem nas mãos de caçadores ou durante o transporte no tráfico. Cerca de dois terços das perdas são de chimpanzés, uma espécie já ameaçada de extinção e os nossos parentes mais próximos.

Mesmo os filhotes de chimpanzé salvos do tráfico por agentes de proteção ambiental acabam carregando traumas para o resto da vida, principalmente depois de terem visto seus pais e companheiros sendo brutalmente assassinados, segundo os especialistas

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     ADAPTAÇÃO DOMÉSTICA

            As pessoas quando compram animais exóticos acabam não tendo experiência ou conhecimento quase nenhum para criá-los. As acomodações domésticas não são apropriadas (tamanho, temperatura, etc.), a comida sendo administrada não é a correta (quantidade e qualidade) e a presença humana pode não ser nada agradável para eles. Além disso, muitos animais selvagens convivem em grandes grupos de indivíduos, e isso é arrancado deles dentro da sua residência. Diversos animais, como aves e primatas, possuem complexas interações sociais dentro dos seus grupos populacionais, as quais são fundamentais para a reprodução e bem-estar dos mesmos. No final, temos animais sob grave restrição comportamental/territorial e quase sempre sofrendo de forte ansiedade, medo, dor e estresse.

           É estimado que 60% dos animais exóticos morram dentro de um mês devido à não adaptabilidade ao novo ambiente, cuidados inapropriados e/ou danos gerados durante o tráfico. No Reino Unido, estudos já mostraram que, no mínimo, 75% dos répteis comercializados morrem dentro de 1 ano no ambiente doméstico, e estimativas superiores colocam o número em 90%, mesmo muitos deles alcançando entre 8 e 120 anos no ambiente selvagem. E, para piorar, os veterinários, quando são procurados para lidarem com esses animais doentes, muitas vezes não sabem lidar com os mesmos por não entenderem a biologia de várias espécies, já que animais domesticados, como cães e gatos, são os pacientes majoritários e mais visados. Além disso, muitos veterinários se recusam a atender vários desses casos com medo de contraírem alguma doença nova, especialmente quando o animal trago é um primata.

Os répteis são os que mais sofrem no ambiente doméstico

           Um dos casos mais tristes é o do Slow Loris (Nycticebus sp.), um grupo de primatas pertencentes à infraordem lêmure, sem nome popular aqui no Brasil. A proliferação em anos recentes de diversos vídeos no Youtube retratando-os como animais dóceis, brincalhões e "fofinhos" fez com que o comércio ilegal dessas pobres criaturas disparasse no mundo, levando-os a um crítico estado de conservação no meio selvagem (ajudado pela venda de partes desses animais para medicinas alternativas sem valia). Mas o mais terrível é a forma como eles são traficadas. Para torná-los mais dóceis e seguros para serem lidados (são os únicos primatas venenosos do mundo, onde sua saliva contém toxinas que entram na corrente sanguínea de predadores quando mordem; as toxinas na saliva são obtidas de glândulas nos seus braços, as quais são lambidas quando excretadas), eles têm os seus dentes arrancados ou cortados. O doloroso procedimento pode ser fatal, feito sem anestesia, e, quando eles sobrevivem, mais da metade acaba morrendo durante o transporte, devido à infecções, alto estresse e péssimas condições de aprisionamento. E isso não termina aí. Quando os compradores recebem esses primatas, estes acabam morrendo porque as pessoas acabam não sabendo cuidar e alimentá-los da devida maneira, sem contar a boca toda danificada . Ou seja, eles sofrem durante a captura, transporte ilegal e, se sobrevivem a isso, passam o resto da vida sofrendo até morrerem. A maioria que sobrevive não duram mais do que 1 ano. O vídeo abaixo, um resumo deste artigo, mostra as fortes cenas do triste tráfico ilegal do slow loris.

           

         E muitas vezes as pessoas compram os animais selvagens pensando apenas nos filhotes, todos muito fofos e bonitinhos. Esquecem-se de que eles crescem bastante. Uma píton pode alcançar os 5 metros de comprimento, uma iguana chega aos 1,5 metro e algumas tartarugas aquáticas podem ultrapassar os 30 cm. Um felino de grande porte, como um tigre, pode parecer um gatinho quando filhote, mas cresce bem rápido para dimensões totalmente inadequadas para um ambiente doméstico. Um pequeno aquário, um quarto ou até mesmo um sítio podem não ser suficientes para garantir o bem-estar desses animais. E é a partir desse ponto que muitos animais são abandonados ou aprisionados sob intenso sofrimento. 
 
Existem hoje mais tigre como animais de estimação do que no meio selvagem. Predadores de grande porte, eles necessitam de áreas imensas como território, mas muitos ignorantes mantêm os mesmos dentro das suas casas, em espaços mínimos e desconfortáveis para a espécie, esta a qual está em risco de extinção

         Muitos traficantes e vendedores de animais exóticos gostam de anunciar que estes são simples de serem cuidados, e adoram dizer que os répteis são ótimos para as pessoas muito ocupadas, "pois não é necessário levá-los para passear ou acomodá-los em espaços amplos". Porém, a realidade é bem outra. Todas as espécies são altamente adaptadas a viverem em seu habitat natural, e são poucas aquelas que se adaptam facilmente a outros ambientes naturais. Menos ainda em ambientes urbanos.

Arrancar as próprias penas, nervosismo e gritos frequentes para chamar a atenção são frequentemente causados por um pássaro frustrado e mal compreendidos.

         Répteis podem sofrer de doenças respiratórias, infecções fúngicas, raquitismo e problemas bucais decorrentes de uma incorreta umidade e/ou insuficiência de luz solar. Muitos acabam queimados por causa do mau uso de lâmpadas de aquecimento e outras fontes de calor. E até mesmo a criação do aquário para eles pode ser fatal quando se usa objetos diversos que podem ser engolidos. E muitos problemas surgem também da escolha errada de alimentos.

Ouriços, um dos animais mais populares no tráfico, podem ser facilmente machucados se uma criança tenta "desenrolá-los" ou se um gato resolve atacá-los

          No caso da alimentação e banhos de Sol, muitas espécies acabam sofrendo com a falta de nutrientes, por causa de alimentos inapropriados para elas e que não conseguem cobrir a comida do seu habitat natural, ou pela insuficiência de raios solares em contato com a pele. Em escolas veterinárias, já foram encontrados índices de 90% dos pássaros tragos para tratamento com problemas de deficiência vitamínica. Papagaios frequentemente se auto mutilam por causa de deficiências nutricionais. Mal nutrição já foi encontrada em 15% dos répteis de estimação averiguados por especialistas. Já os primatas, luz solar natural é essencial para a saúde deles, e, quando são mantidos em ambientes fechados, eles podem sofrer de perda dentária, abscessos e raquitismo. E isso tudo só piora quando os animais são muito jovens, tornado-se mais sensíveis às adversidades nutricionais. 

Além de trancar os primatas em quartos fechados, muitos ainda os castram para diminuir a agressividade e cortam seus caninos para impedi-los de morder, resultando em graves danos psicológicos e físicos

         Além disso, o tráfico e criação de animais exóticos gera uma grande demanda por alimentos vivos, especialmente para cobras e outros répteis. Isso cria mercados ilegais de reprodução e armazenamento de ratos, por exemplo, em condições quase sempre degradantes. Recentemente, na Escócia, foram encontradas duas gaiolas de 60 cm de altura e pouco mais de 1 metro de comprimento que comportavam 170 ratos, os quais provavelmente estavam sendo criados para servir de alimento para cobras. Eles estavam empilhados uns sobre os outros e, de tão estressados, as mães e outros ratos já estavam comendo os filhotes. As condições das gaiolas foram descritas como totalmente inadequadas e desumanas.

Outro animal exótico bem popular é o Petauro-do-Açúcar, um pequeno marsupial que, se não dado a devida atenção, pode se auto mutilar ou morrer de estresse ou solidão, devido ao fato de viver em complexos grupos sociais na natureza. Na verdade, só o fato de negá-lo a vida em grupo, e em seu habitat, já traz sérios prejuízos à sua saúde

         Outro absurdo é manter qualquer pássaro aprisionados em gaiolas, sendo que são criaturas adaptadas para o voo e, na grande maioria das vezes, ao convívio em grupo. É realmente difícil de entender como as pessoas conseguem achar normal aprisionar um pássaro em um espaço ínfimo.

Pássaros acabam ficando impedidos de voar ou interagir em grupo, algo que pode levá-los a um grande estresse e fazê-los terem comportamentos prejudiciais ao seu corpo. Como você pode ser tão egoísta a ponto de aprisionar uma criatura nascida para voar livre pelos céus?




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   DESEQUILÍBRIO ECOLÓGICO

          Nos últimos 500 anos, quase 1000 espécies de aves foram introduzidas em novas áreas pela atividade humana. Mais da metade dessas espécies foram introduzidas após o ano de 1950, devido, principalmente, ao pesado aumento do tráfico ilegal e destruição do habitat original (o desmatamento e ocupação humana forçam as espécie a procurarem novos lares). Pássaros exóticos que escapam do cativeiro e acabam se fixando em um novo habitat é algo bastante comum e que pode trazer graves consequências ambientais. O abandono desses animais pelos donos, ainda mais comum, também é outro fomentador das invasões. O mesmo pode ser dito para qualquer outro grupo de animais.

De acordo com a Organização de Agricultura e Alimentos das Nações Unidas, cerca de 1,5 bilhões de peixes ornamentais vivos são exportados todos os anos vindos de 100 países. É extremamente fácil muitos peixes exóticos acabarem invadindo um novo ambiente durante o tráfico e por descuido /abandono por parte dos donos

         Macacos rehsus, também grandes alvos do tráfico, são ávidos devoradores de ovos, e podem ser potencialmente fatais para a biodiversidade de aves em uma região caso invadam a mesma. Novos predadores podem dizimar populações inteiras. Competidores por recursos alimentares e habitat podem sufocar as espécies nativas. Em um exemplo, a região pantanosa no sul da Flórida (EUA) vem sofrendo grandes prejuízos ambientais depois que píton-birmanesas (Python bivittatus), mantidas como animais de estimação, escaparam para o meio selvagem, se tornaram invasoras, proliferaram e agora ameaçam várias espécies de pássaros em perigo de extinção e cobras nativas.

           A ameaça ao ecossistema traga por espécies exóticas é tão grande que a Austrália impõe pesadas leis para quem mantêm ou importa ilegalmente animais. Como o país é uma ilha, seu ecossistema evoluiu de forma bem isolada e as ameaças externas podem ser fatais. Diversas espécies nativas já foram dizimadas por lá devido à introdução de animais exóticos, como gatos e cães, os quais predam vorazmente os nativos. As penalidades australianas para esse tipo de crime podem superar os 5 anos de prisão e/ou pagamento de multas superiores a 110 mil dólares. O ator Johnny Depp, recentemente, passou por maus bocados ao entrar ilegalmente com seus dois cães no país. A Nova Zelândia, país vizinho e também uma ilha, enfrenta o mesmo problema ambiental.

Os Kiwi são aves nativas da Nova Zelândia e, antes em número de milhões, a população dessa espécie caiu para cerca de 68 mil indivíduos. Uma das grandes ameaças são os cães, introduzidos no país durante os períodos de colonização, e que predam os Kiwi aos montes. Além dos cães, ratos carnívoros da ilha são outros grandes predadores.

         Alguns casos podem até trazer prejuízos econômicos para o país, onde certas espécies de animais exóticos podem causar uma verdadeira destruição na agricultura. Importante também lembrar, claro, que o desequilíbrio ecológico ocorre nas áreas onde as espécies são capturadas com gravidade tão grande quanto a invasão das espécies exóticas, por levar ao declínio populacional dessas últimas.

A população de Macacos-de-Gibraltar, nas últimas 3 décadas, diminuiu 80% no meio selvagem, em grande parte devido ao intenso comércio da espécie como animal de estimação


A tarântula Poecilotheria metallica estão distribuídas apenas em uma pequena área de 100 quilômetros quadrados, em uma reserva da floresta Andhra Pradesh, na Índia, e onde elas estão em situação crítica de conservação. As principais ameaças são o desmatamento, perda de habitat e o seu comércio ilegal como animais de estimação/coleção, onde sua beleza atrai a atenção de vários colecionadores espalhados pelo mundo.

         E caso você tenha um animal exótico e desistiu de criá-lo, não o abandone em qualquer lugar, e, sim, encaminhe o mesmo para as autoridades competentes.


     ATAQUES ACIDENTAIS A HUMANOS

           Animais selvagens mantidos próximos de humanos podem acabar ferindo seus donos ou pessoas ao redor, por instinto e/ou devido ao estresse. Isso é mais preocupante quando está se lidando com grandes predadores (felinos de grande porte, por exemplo) ou com aqueles peçonhentos (certas cobras e aranhas, por exemplo). Diversos animais não podem ser domesticados e fica praticamente impossível amenizar seus instintos selvagens. Mesmo submetidos a longos períodos de convívio humano, eles podem continuar bastante perigosos. Muitas pessoas até compram esses animais pensando apenas no status de ter uma espécie muito feroz ou muito peçonhenta, apenas para dizerem que tem um (Quer uma salva de palmas, "cidadão"?).

Na Alemanha, é estimado que existam cerca de 100 mil cobras venenosas residindo em lares privados

    
          Vários casos de ataques de felinos selvagens mantidos como animais de estimação já foram reportados nos EUA, incluindo um tigre que atacou o neto de 3 anos de idade do seu dono, um tigre-de-Bengala que arrancou o braço de um menino de 4 anos de idade e um leão que matou vários cães e acuou um garoto em seu quarto. Ainda no território norte-americano, existe uma moda de manter híbridos de cães e lobos como animais de estimação, algo fortemente não recomendado pela Associação Americana de Medicina Veterinária. Na tentativa de tentar domar os lobos selvagens, muitos os cruzam com cães, estes os quais são domesticados. Centenas de milhares desses animais vivem em lares espalhados por todo o país. Resultado? Desde 1982, no mínimo 85 pessoas foram feridas e 19 mortas, e isso apenas em reportes. Manter predadores selvagens em casa é longe de ser uma boa ideia.

            E após um grave ataque, três tristes consequências acompanham o acidente. A primeira é a morte ou graves danos às pessoas. A segunda é a morte do animal atacante na maior parte das vezes, consequente da retaliação. Já a terceira é a má fama que eles ganham, diminuindo a simpatia das pessoas pela espécie. Caso a mesma esteja em perigo de extinção, o apoio de conservação pela nossa sociedade acaba sendo enfraquecido.

A agressão de primatas mantidos como animais de estimação contra humanos é bem comum, e especialmente perigosa quando o ataque alveja crianças pequenas. Além disso, esses conflitos facilitam a transmissão de doenças.

          Um dos mais trágicos e conhecidos casos aconteceu em Zanesville, Ohio, no dia 19 de outubro de 2011, quando policiais tiveram que caçar e matar dezenas de animais selvagens na região depois que seu dono, Terry Thompson, antes de se suicidar, liberou seus ursos, tigres, leões, lobos e leopardos das jaulas (dentro de uma propriedade de 73 acres). Para evitar ataques às pessoas da cidade, as autoridades tiveram que colocar um fim à vida de quase todos eles (49 dos 56 soltos). Após o incidente, leis foram aprovadas no Estado proibindo a posse desses animais em propriedade privada.


             A culpa não é deles, apenas estão seguindo sua natureza. Arrancamos eles dos seus lares e ainda os responsabilizamos por nossos erros.


     DISSEMINAÇÃO DE DOENÇAS

             Só no Reino Unido, é estimado que existam cerca de 42 milhões de animais exóticos vivendo em residências privadas, em contato próximo com as pessoas e, muito provavelmente, de outros animais. Nesse sentido, uma grande preocupação surge: a transmissão de zoonoses. Em torno de 61% das doenças humanas possuem uma origem zoonótica, ou seja, doenças transmitidas de um animal vertebrado para um humano. Além disso, em torno de 75% das doenças humanas que emergem no mundo possuem uma ligação com animais selvagens.

            O tráfico ilegal, e também legal, acaba sendo um grande ajudante em espalhar doenças antes confinadas em territórios selvagens ( florestas, por exemplo) para dentro das sociedades humanas. Sem fiscalização, animais diversos carregando doenças diversas viajam o mundo inteiro. E além dos humanos, esses animais exóticos podem acabar contaminando os nativos, especialmente quando são abandonados pelas pessoas em qualquer lugar. E como as populações humanas e de animais nativos não estão acostumadas com o agente infeccioso vindo na bagagem (vírus, bactéria, vermes ou fungos), as consequências podem ser trágicas.

Papagaios e outros pássaros exóticos podem transferir perigosos patógenos para os humanos, como a psitacose, salmonella e tuberculose aviária

           A gripe aviária, por exemplo, alcançou o Reino Unido em 2005 provavelmente pelo comércio de aves importadas de Taiwan que visavam a demanda por animais exóticos de estimação. A infecção por salmonela normalmente é atribuída ao consumo de alimentos contaminados, mas o contato com répteis e anfíbios é outra importante fonte dessa bactéria. Nos EUA, é estimado que 11% das infecções por salmonela  (74 mil casos anualmente) vêm do contato direto e indireto com esses animais. E não é preciso citar os primatas, os quais carregam diversas doenças que podem nos infectar, especialmente quando lembramos da similaridade entre eles e nós. Doenças fatais, como a Aids, surgiram do contato entre humanos e primatas.

Devido aos grandes riscos de transmissão de várias doenças, novas ou já conhecidas, o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) classifica os macacos como animais de estimação mais do que impróprios

           E o contrário também é válido, onde nós podemos transmitir doenças para esses animais e condená-los a uma curta vida de sofrimento. Caxumba, tuberculose e hepatites são algumas das doenças que podemos transmitir a eles.


    SOLUÇÕES?

             Teoricamente, um comércio de CERTOS animais exóticos poderia ser possível, considerando um robusto esquema de fiscalização e controle quanto à entrada dos mesmos em um determinado país e verificação das condições da sua nova moradia. Porém, as pessoas não conseguem respeitar as limitações impostas e acabam não se importando se o animal está em risco de extinção ou se impõe riscos à biodiversidade e saúde das pessoas. Além disso, o ´robusto esquema´ encontraria extremas dificuldades financeiras e estruturais para ser colocado em prática. E mesmo os centros legalizados de criação de animais exóticas são alvos de suspeitas de ilegalidade, tanto para atender a demanda quanto para burlar as restrições. A "lavagem de animais" é dita ser muito comum nesses mercados, segundo os especialistas.

          Para se ter uma ideia, estudos e dados levantados pela CITES mostram que uma substancial parte das espécies exóticos comercializados legalmente como animais de estimação vem diretamente do meio selvagem. Entre 2006 e 2010, 23% dos pássaros e 10% dos répteis vendidos legalmente foram arrancados do seu habitat. E entre 2006 e 2012, cerca de 65% do carnívoros e primatas comercializados legalmente vieram do meio selvagem! Ou seja, esse comércio "legal" acaba também fomentando o trabalho de caçadores inescrupulosos e a perda de biodiversidade. Considerando também o tráfico assumidamente ilegal, como o consumidor vai saber se ele está comprando um animal exótico realmente legalizado e não arrancado do meio selvagem? Fica difícil saber. 

          E quando também pensamos que poucos animais selvagens se adaptam bem com o convívio humano, longe dos seus grupos ou habitat natural, e que vários deles podem estar sofrendo abusos nos centros legalizados de criação e venda (maus tratos e não atendimento das necessidades básicas), o certo seria banir de vez todo o comércio de animais exóticos que tenha como objetivo fomentar o mercado doméstico ou de entretenimento. Diversos animais, como papagaios e primatas, são muito inteligentes e psicologicamente complexos, com capacidades intelectuais de uma criança humana muito nova e até além em alguns aspectos. É mais do que um absurdo tratá-los como simples mercadorias.

         O investimento do governo para otimizar a fiscalização e combate ao tráfico precisa ser muitas vezes superior ao encontrado hoje. Ainda é fácil para os traficantes forjarem licenças de venda, além do suborno nessas atividades serem facilmente aplicados. Somando-se a isso, a pobreza extrema em vários países levam as pessoas a serem atraídas para o lucrativo tráfico. E as campanhas contra o comércio de animais selvagens ainda são ínfimas, não possuindo prioridade alguma nas agendas políticas. Como o tráfico ilegal da vida selvagem não passa uma imagem de ameaça à segurança econômica dos países ou à estabilidade política dos mesmos, esforços são mínimos para combatê-lo ou punir os responsáveis. E o pior é que o desequilíbrio ecológico e as doenças que podem ser disparadas por esses crimes são uma gigantesca ameaça para um país, mas quase nunca são levados a sério. O mesmo descaso costuma ocorrer com outras questões ambientais graves, como o aquecimento global.

Apesar do intenso tráfico ilegal de primatas superiores, apenas 27 prisões foram feitas entre 2005 e 2011 na África e na Ásia relacionadas com o crime, sendo que um quarto das mesmas não sofreram qualquer tipo de ação processual, segundo dados da ONU

           Com isso, menos pessoas são conscientizadas, mais delas continuam fomentando esse mercado sangrento e pouco se vê nas redes sociais campanhas sobre a causa. Pelo contrário, o que mais se vê é o anúncio de venda de diversos animais. E a situação é tão terrível, que os traficantes não se dão nem ao trabalho de investir na Deep Web, porque a própria internet aberta não é alvo de uma fiscalização mínima contra as propagandas desse tipo. O YouTube, por exemplo, é infestado de lojas e pessoas vendendo animais ilegais ou incentivando a compra da vida selvagem sem controle algum. Em outras palavras, até mesmo as empresas privadas como o Google, que apoiam as causas ambientais e sociais, estão fazendo pouco para combater o comércio ilegal da vida selvagem e acabam ajudando o tráfico por omissão.


          Mesmo existindo agências e organizações que persistem com unhas e dentes pela proteção do meio ambiente, como a WWF e o Greenpeace, e acordos internacionais, como a CITES (Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas da Flora e da Fauna, na tradução da sigla em inglês), que preveem regras rígidas na comercialização de animais e plantas ao redor do globo, muito pouco é feito para ajudar tais entidades. Muitas vezes, ações acabam sendo fracas e as regras ficam apenas no papel, porque falta apoio dos governos e da população. Os chimpanzés, rinocerontes e elefantes, por exemplo, estão sob o maior nível de proteção dentro da CITES, mas o tráfico e caça desses animais continua intensos e empurrando os mesmos para a extinção. E isso sem contar a existência de ´lavagem´ de animais, onde aqueles em situação de proteção sob a CITES são transportados escondidos junto a outros que não estão sob proteção, dificultando a fiscalização.

Outro grande problema é o desmatamento, o qual, além de prejudicar diretamente as espécies selvagens, ainda as prejudica indiretamente, onde as fragmentações de florestas e abertura de estradas dentro das mesmas para a extração/transporte de madeira facilita o trabalho de caçadores.

          Mas, no final, a situação só vai ser resolvida mesmo quando a população parar de fazer parte desse esquema vergonhoso. Quando pararmos de sermos egoístas e passarmos a respeitar a vida selvagem. Os animais exóticos não são nossos escravos e não estão preparados para conviverem conosco. Se você quer um animal de estimação, contente-se, por exemplo, com um gato ou um cão, ambos os quais são domesticados e já se acostumaram com o contato humano, após milhares de anos de convivência dentro da nossa sociedade. Além disso, existem incontáveis cães e gatos em abrigos esperando um dono para adotá-los. Por que condená-los ao sofrimento e morte junto aos exóticos?

         Caso você realmente queira que o triste e revoltante tráfico da vida selvagem não seja fomentado, faça a sua parte: nunca compre animais exóticos de fonte alguma, incluindo lojas licenciadas, e sempre denuncie às autoridades competentes caso testemunhe espécies exóticas ilegais sendo mantidas como animais de estimação ou sendo comercializadas. E, caso tenha filhos, ensine-os desde sempre a respeitar o meio selvagem. O melhor caminho para combater qualquer mal é sempre a prevenção.

Denúncias: Interessados em denunciar crimes ou agressões ao meio ambiente podem entrar em contato com o serviço Linha Verde do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pelo telefone 0800-61-8080 ou pelo e-mail  [email protected]

Site do IBAMA: http://www.ibama.gov.br/

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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