Peixes-palhaços mudam de sexo quando adultos?
- Atualizado no dia 20 de abril de 2025 -
Os peixes-palhaços (subfamília Amphiprioninae) englobam espécies de peixe teleósteo que habitam águas tropicais rasas ao longo do Mar Vermelho, no Oceano Índico e na parte oeste do Oceano Pacífico. Além da famosa simbiose obrigatória com certas anêmonas-do-mar - as quais fornecem a esses peixes local de ninho e proteção contra predadores (1) -, esses peixes são monogâmicos, vivem em grupos sociais e possuem hermafroditismo sequencial, esse último marcado por uma característica bem interessante: a mudança de sexo ocorre através de um gatilho social. Machos mudam de sexo quando a parceira fêmea desaparece ou quando a fêmea dominante de um grupo morre ("vaga" aberta para uma nova fêmea líder). Além disso, a mudança de sexo também ocorre quando dois machos em idade reprodutiva são colocados juntos e um deles (geralmente o maior) estabelece dominância.
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Algumas espécies de peixes-palhaços representando a diversidade de padrões de cores desses peixes: (A) Amphiprion clarkii, (B) A. polymnus, (C) A. ephippium e (D) A. perideraion. Fotos: Wikimedia |
Os peixes-palhaços vivem e um pequeno grupo social composto de uma fêmea dominante cercada por um macho subdominante e um número variável de indivíduos que não engajam em atividade reprodutiva. Uma forte hierarquia social controla o grupo: os indivíduos dominantes controlam o tamanho corporal e inibem o desenvolvimento sexual de indivíduos de baixo status social (tipicamente de menor porte corporal) através de comportamentos agressivos que reforçam o status de comando do grupo. Uma vez que a fêmea dominante desaparece (ex.: vítima de predação), todos os subordinados disputam entre si para subir no status hierárquico, fazendo de tudo para alcançar máximo crescimento corporal. O macho subdominante - parceiro reprodutivo da fêmea prévia - naturalmente assume a posição mais alta de hierarquia e troca de sexo, enquanto o macho não-reprodutivo de maior porte corporal no grupo assume a posição de subcomando e vira parceiro sexual da nova fêmea em comando. Em alguns casos, machos não-reprodutivos que escaparam do controle de indivíduos dominantes podem ocupar um novo espaço social e se tornar fêmeas sem passar pelo estágio de subcomando (macho funcional).
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> O parceiro sexual macho de um peixe-palhaço fêmea é o segundo mais dominante em um grupo social e naturalmente é aquele que ascende para a posição mais alta da hierarquia, engatilhando a mudança de sexo. A fêmea é sempre a maior do grupo em termos de porte corporal.
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Durante a fase de transição macho → fêmea, pelo menos na espécie Amphiprion ocellaris [basal], o indivíduo exibe um perfil hormonal intermediário entre macho e fêmea e um comportamento atípico e similar àquele de machos que persistem estáveis até a mudança gonadal (testículos → ovários) ser finalizada (Ref.5). Peixes-palhaços fêmeas são naturalmente dominantes na hierarquia social e altamente agressivas, enquanto machos são menos agressivos e fornecem a maior parte do cuidado parental [dos filhotes]. Nesse último ponto, a mudança de sexo também resulta em extensiva reorganização molecular e celular da parte anterior do cérebro desses peixes, incluindo o sistema estrogênico, e em aumento no número de células na área pré-óptica do hipotálamo (Ref.6-7). Expressão de um número de genes críticos (ex.: dmrt1) está associada com a mudança de sexo (Ref.8).
O hermafroditismo sequencial está ligado a benefícios reprodutivos e de sobrevivência. Por exemplo, na perda ou falta de uma fêmea em um determinado grupo, outro macho pode se tornar uma fêmea, evitando que os membros do grupo tenham que realizar perigosas e longas viagens entre os recifes para procurar novas fêmeas.
Importante apontar que todos os peixes-palhaços fêmeas são derivadas de machos que mudaram de sexo na fase adulta ou reprodutiva após ascender para dominância social (Ref.6).
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(1) Curiosidade: Nessa relação de simbiose mutualística, os peixes-palhaços também ajudam a alimentar as anêmonas parceiras, aumentando a taxa de crescimento dessas últimas. Por exemplo, na presença de alimentos diversos de variados tamanhos e tipos, o peixe-palhaço da espécie Amphiprion clarkii consome seletivamente animais e macroalgas verdes de pequeno tamanho, enquanto fornece pedaços maiores nutritivos para a anêmona hospedeira da espécie Entacmaea quadricolor - e evitando fornecimento de alimentos inadequados para a anêmona (ex.: macroalga marrom e esponjas). O vídeo abaixo mostra um flagra desse comportamento. Além disso, o peixe-palhaço também fornece alimentos de pequeno porte para a anêmona hospedeira quando está saciado. Ref.9
> Fêmeas de peixe-palhaço que colonizam anêmonas de maior porte são capazes de crescer e depositar mais ovos. Outra vantagem incentivando o peixe a cuidar bem e fomentar crescimento do seu parceiro simbionte.
> Anêmonas-do-mar são predadores sésseis que disparam nematocistos tóxicos a partir de células especializadas (cnidócitos) nos tentáculos para capturar presas, acionados via estimulação química e mecânica. Filamentos urticantes contendo neurotoxinas são projetados para fora dos cnidócitos após descarga dos nematocistos, "ferroando" a pele que entra em contato com os tentáculos. Além das dolorosas e incapacitantes ferroadas, um muco de proteínas citolíticas no corpo das anêmonas e os peixes-palhaços também protegem esses animais de predadores. Peixes-palhaços interagem com 10 espécies de anêmonas que pertencem a 3 clados distintos. Durante interação desses peixes com os tentáculos das anêmonas, os nematocistos não são ativados.
> Mas como o peixe-palhaço não é ferroado pelas anêmonas ao tocar nos tentáculos? Um estudo recente publicado no periódico BMC Biology (Ref.10) resolveu parte importante do mistério: baixos níveis de ácidos siálicos no muco que cobre o corpo desse peixe. Esse perfil químico diferenciado do muco protetor impede o acionamento de quimiorreceptores na superfície dos tentáculos, prevenindo a liberação de toxinas dos nematocistos. Além disso, o estudo mostrou que outra espécie de peixe (Dascyllus trimaculatus) que vive em associação com anêmonas - e sem relação filogenética próxima com peixes-palhaços - também exibe um muco protetor com baixos níveis de ácidos siálicos, sugerindo evolução convergente desse traço. Porém, outros mecanismos de proteção complementares também parecem atuar. Por exemplo, algumas espécies de peixes-palhaços precisam "aclimatizar" por vários minutos antes de entrar em uma anêmona, talvez adquirindo outros componentes químicos de proteção no muco do próprio hospedeiro.
> Variações nas cores conspícuas dos peixes-palhaços possuem relação com o grau de toxicidade e o comprimento dos tentáculos das anêmonas hospedeiras, balanceando traços de camuflagem e de alerta contra predadores. Peixes-palhaços interagindo com anêmonas com tentáculos muito curtos e mais tóxicas tendem a usar a coloração como um sinal aposemático, alertando potenciais predadores em relação ao perigoso hospedeiro. Ref.11
> Pelo menos 425 espécies de peixes exibem mudança de sexo ao longo da vida (hermafroditismo sequencial). Diferentes espécies exibem hermafroditismo protogínico (fêmea → macho), protândrico (macho → fêmea), ou bidirecional. Hermafroditismo protogínico é o tipo predominante, ocorrendo em 305 espécies em 20 famílias. Em alguns desses peixes, a mudança das gônadas forma "ovotestículos", que consistem de ambos tecidos ovariano e testicular. E mudança de sexo controlada por pistas sociais é uma característica de um número de famílias de peixes marinhos, ou seja, não é um fenômeno exclusivo dos peixes-palhaços. Nesses peixes o sexo é determinado pelo status sociais. Quando um peixe ascende para uma posição dominante na hierarquia social, a mudança de sexo ocorre. Ref.12-13
REFERÊNCIA
- Casas et al. (2016). Sex Change in Clownfish: Molecular Insights from Transcriptome Analysis. Scientific Reports 6, 35461. https://doi.org/10.1038/srep35461
- Casas et al. (2018). High-Throughput Sequencing and Linkage Mapping of a Clownfish Genome Provide Insights on the Distribution of Molecular Players Involved in Sex Change. Scientific Reports 8, 4073. https://doi.org/10.1038/s41598-018-22282-0
- Marcionetti & Salamin (2023). Insights into the Genomics of Clownfish Adaptive Radiation: The Genomic Substrate of the Diversification, Genome Biology and Evolution, Volume 15, Issue 7, evad088. https://doi.org/10.1093/gbe/evad088
- Schmid et al. (2025). Genomic Architecture of the Clownfish Hybrid Amphiprion leucokranos, Genome Biology and Evolution, Volume 17, Issue 3, evaf031. https://doi.org/10.1093/gbe/evaf031
- Rhodes et al. (2022). Stable and persistent male-like behavior during male-to-female sex change in the common clownfish Amphiprion ocellaris. Hormones and Behavior, Volume 145, 105239. https://doi.org/10.1016/j.yhbeh.2022.105239
- Parker et al. (2024). Adult sex change leads to extensive forebrain reorganization in clownfish. Biology of Sex Differences 15, 58. https://doi.org/10.1186/s13293-024-00632-0
- Rhodes et al. (2023). New cells added to the preoptic area during sex change in the common clownfish Amphiprion ocellaris. General and Comparative Endocrinology, Volume 333, 114185. https://doi.org/10.1016/j.ygcen.2022.114185
- Ding et al. (2022). Transcriptome Profiling and Expression Localization of Key Sex-Related Genes in a Socially-Controlled Hermaphroditic Clownfish, Amphiprion clarkii. International Journal of Molecular Sciences, 23(16), 9085. https://doi.org/10.3390/ijms23169085
- Kobayashi et al. (2025). Active provisioning of food to host sea anemones by anemonefish. Scientific Reports 15, 4115. https://doi.org/10.1038/s41598-025-85767-9
- Roux et al. (2025). Anemonefish use sialic acid metabolism as Trojan horse to avoid giant sea anemone stinging. BMC Biology 23, 39. https://doi.org/10.1186/s12915-025-02144-8
- Merilaita & Kelley (2018). Scary clowns: adaptive function of anemonefish coloration. Journal of Evolutionary Biology. https://doi.org/10.1111/jeb.13350
- Casas & Saborido-Rey (2021). Environmental Cues and Mechanisms Underpinning Sex Change in Fish. Sexual Development, Volume 15, Issue 1-3. https://doi.org/10.1159/000515274
- Miura et al. (2023). Gonadal and cellular dynamics during protogynous sex change in the harlequin sandsmelt Parapercis pulchella. Journal of Fish Biology, Volume 103, Issue 6, Pages 1347-1356. https://doi.org/10.1111/jfb.15534