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Andorinhão-Preto fica 10 meses voando sem pousar!



         Acredite se quiser, mas o Andorinhão-Preto quebrou todos os recordes conhecidos no reino animal de tempo de permanência no ar: em suas migrações anuais, 3 desses pássaros, em um grupo monitorado por cientistas, passaram 10 meses voando sem pousar uma só vez! Sim, você não ouviu errado: 10 meses nos céus! O estudo detalhando o fantástico feito foi publicado na Current Biology nesta semana (Ref.1).

        O Andorinhão-Preto (Apus apus) é uma ave que pode ser encontrada em várias partes da Europa, Ásia e Norte da África, com entre 25 e 49% da sua população presente no território europeu e um total estimado no globo entre 40 e 200 milhões de indivíduos. Medindo entre 16 e 17 cm de comprimento e entre 42 e 48 cm de uma ponta a outra da asa, esses animais possuem uma coloração marrom escura (com exceção da parte de baixo da boca e garganta, as quais são brancas), parecendo serem totalmente pretos quando vistos voando no céu. Com um peso em torno de 44,9 gramas, o corpo dessas aves é perfeito para o voo e já era sabido que eles costumavam voar longas distâncias sem descaso, mas não se esperava que elas pudessem chegar ao extremo de passarem quase 1 ano inteiro voando sem pausa.

Andorinhão-Preto ( Apus apus)

            Para conhecerem o real poder de resistência de voo dos Andorinhões-Pretos, os pesquisadores anexaram pequenos rastreadores em 13 indivíduos que estavam em um grupo migrando da Escandinávia para a África, durante um período de 10 meses. Nesses rastreadores, foram inseridos acelerômetros para avaliar a atividade de voo. 10 desses pássaros fizeram algumas poucas breves aterrissagens, mas ficaram 99% do tempo no ar. Mas 3 deles não pousaram uma só vez seguida! Essas aves evoluíram para serem altamente eficientes no ar, com uma aerodinâmica corporal, formatos de asas e metabolismo otimizado especialmente adaptados para longos voos. Para se alimentarem, elas comem insetos voadores diversos que pegam durante as manobras aéreas.

Durante a migração, a maior parte dos Andorinhões-Pretos ficam mais de 99% do tempo no ar!
 
           Algumas outras aves já mostravam incrível poder de resistência de voo também, mas nenhuma chega perto de ultrapassar o recorde do Andorinhão-Preto. Como exemplo podemos citar outra espécie de andorinhão, o Andorinhão-Real (Tachymarptis melba), e o Tesourão-Grande (Fregata minor). O Andorinhão-Real, honrando a família, chega a ficar mais de 6 meses voando sem parar, onde um estudo de 2013 publicado na Nature registrou um indivíduo dessa espécie que ficou 200 dias nos céus (Ref.6). Já o Tesourão-Grande alcança os 2 meses. E essas descobertas são uma grande surpresa para a ciência, já que voar requer um gasto de energia bem alto quando comparado com as atividades em solo ou na água. Pela lógica, era de se imaginar que essas aves precisariam pousar  com bem mais frequência para recuperar as energias. Diversas estratégias parecem ter evoluído com esses animais, e um outro estudo publicado este ano na Science, por exemplo, mostrou que Tesourões-Grandes no oceano Índico aproveitam correntes de ar ascendentes dentro ou abaixo de nuvens cúmulos para planar longas distâncias auxiliados por essa ajuda extra na economia de energia (Ref.7).

À esquerda, o Tesourão-Grande e, à direita, o Andorihão-Real

            Outra pergunta feita pelos pesquisadores é se essas aves também dormem durante essas longas estadias no céu. A maior parte dos animais sofrem bastante com a falta de sono e basta você ficar 1 ou 2 noites sem dormir para saber o quão horrível é. Mas parece que, no mínimo, o Andorinhão-Negro também evoluiu para lidar bem com sonos muito escassos. Pesquisas anteriores já mostraram que essas aves parecem buscar dormir após os longos voos como atividade de preferência, talvez para recuperar o sono perdido, mas ainda não é possível dizer se elas fazem isso também no ar e qual a real importância dessa atividade para a saúde delas. Já foi comprovado, por exemplo, que o Tesourão-Grande dorme em  pleno voo, mas será que isso pode ser extrapolado para outras aves que gastam mais do que 1 dia voando, como as migratórias?

          Bem, pesquisadores sugerem que o sono pode ser plenamente possível durante os voos, e o Tesourão-Grande é prova viva disso. Entre dois tipos principais de sono, o REM (Movimento Rápido dos Olhos) e SWS (Fase de Ondas-Lentas) - ambos sendo traduzidos da sigla em inglês padrão -, o SWS seria a escolha durante os voos, já que não carrega consigo a típica atonia muscular associada com o REM, fase esta mais profunda. No SWS, os olhos inclusive podem ficar abertos e conectados com um hemisfério do cérebro ainda acordado (no REM, ambos os hemisférios adormecem) permitindo que as aves visualizem o caminho nos céus. Golfinhos no mar, por exemplo, usam essa estratégia, dormindo com um olho aberto (USWS - Fase Unilateral de Ondas-Lentas) e, ao mesmo tempo, continuam nadando.

          Aliás, dependendo do voo, não seria necessário nem uma visualização do caminho, apenas um controle motor muscular mínimo em funcionamento. Neste último caso, um estudo publicado na Nature este ano mostrou que o Tesourão-Real dorme em pleno voo tanto com um hemisfério acordado e o outro adormecido, ou com ambos os hemisférios adormecidos (para confirmar isso, os pesquisadores usaram dados de electroencefalogramas obtidos de aparelhos anexados às aves) (Ref.9). Esse estudo, inclusive, mostrou que, apesar dessas aves dormirem no ar, elas gastam apenas 7,4% do tempo adormecidas, indicando que o sono pode não ser tão essencial assim para esses animais.

          Dormindo ou não, é ainda difícil conceber um pássaro voando por 10 meses seguidos sem parar. A Natureza, sem dúvida alguma, ainda guarda mistérios incontáveis.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. dx.doi.org/10.1016/j.cub.2016.09.014
  2. http://www.nature.com/news/record-breaking-common-swifts-fly-for-10-months-without-landing-1.20873
  3. http://animaldiversity.org/accounts/Apus_apus/
  4. http://www.iucnredlist.org/details/22686800/0
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16688436
  6. http://www.nature.com/articles/ncomms3554?WT.ec_id=NCOMMS-20131009
  7. http://science.sciencemag.org/content/353/6294/26 
  8. http://cat.inist.fr/?aModele=afficheN&cpsidt=13709894
  9. http://www.nature.com/articles/ncomms12468?WT.feed_name=subjects_neuroscience
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