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O que são os Grânulos de Fordyce?

- Atualizado no dia 13 de maio de 2024 - 

           Um paciente de 32 anos do sexo masculino apresentou-se a uma clínica dermatológica reclamando de múltiplos pequenos grânulos sobre seus lábios. Os grânulos - diagnosticados como Grânulos de Fordyce - eram parcialmente confluentes, portanto causando problemas cosméticos (Fig.1a). Para remover as lesões sem danos superficiais, eletrocoagulação intralesional com uma única microagulha isolada foi selecionada como a modalidade de tratamento. Para melhorar a acuracidade, os lábios do paciente foram esticados horizontalmente com os dedos (Fig.2a).

           Seguindo 3 meses pós-tratamento, o tamanho e o número de grânulos foram substancialmente reduzidos e o paciente ficou satisfeito com o resultado cosmético (Fig.1c,d).

           O caso foi descrito e reportado em 2019 no periódico Dermatologic Therapy (Ref.1).


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   GRÂNULOS DE FORDYCE

          Primeiro descritos em 1896 pelo Dr. J.A. Fordyce, os grânulos de Fordyce são glândulas sebáceas assintomáticas comumente encontradas na mucosa oral, no lábio superior e região retromolar; mais raramente podem ser encontradas na mucosa genital (glande do pênis e nos pequenos lábios da vulva) e, muito atipicamente, em outras mucosas internas, como esôfago, língua e cérvix uterino (Ref.2). Também podem ser observadas comumente na parte externa da pele do pênis ou na parte interna do prepúcio (grânulos de Fordyce são reportados em 65% dos homens não circuncidados) (1) (Ref.3-4). Na maior parte dos casos em que ocorrem na mucosa oral, os lábios superiores estão envolvidos. 

 

Glândulas de Fordyce sobre o lábio superior. Em termos histológicos, essas lesões são glândulas sebáceas cutâneas hipertrofiadas, geralmente simétricas e bilaterais, e não possuem associação com folículos capilares e nem exibem dutos abrindo diretamente sobre a superfície cutânea. Embora essas glândulas estejam presentes desde o nascimento, tornam-se tipicamente visíveis sob o epitélio apenas durante ou após a puberdade, em resposta à ação de hormônios androgênicos adrenais e gonadais. Alterações patológicas são raras. Ref.7

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> Imagens de típicas manifestações dos grânulos de Fordyce na estrutura peniana e na vulva.

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          Caracterizam-se por múltiplas micropápulas amareladas ou esbranquiçadas de 0,1 a 1-3 mm de diâmetro que ocasionalmente podem coalescer e formar placas, sendo normalmente distribuídas de forma simétrica e contendo os mesmos lipídios encontrados nas glândulas sebáceas da pele. Somente as glândulas sebáceas visíveis através do epitélio devem ser consideradas grânulos de Fordyce, com a frequência dessas manifestações cutâneas aumentando com a idade, principalmente após o estímulo hormonal da puberdade, embora estejam presentes histologicamente em crianças. A prevalência em adultos varia de 70 a 85-90% com discreta predominância no sexo masculino. No entanto, a condição pode se manifestar desde o nascimento (Ref.5).


            Histopatologicamente, as lesões são indistinguíveis das glândulas sebáceas, porém não estão associadas ao folículo piloso, e seu ducto se abre diretamente na superfície. Importante apontar que 90% das glândulas sebáceas normais estão associadas com folículos capilares. A patofisiologia dos grânulos de Fordyce não está ainda bem elucidada. Como a incidência tende a aumentar com a idade, é sugerida uma influência endócrina sobre as glândulas sebáceas. Outros pesquisadores sugerem disposição anormal de glândulas sebáceas ectópicas durante o desenvolvimento embrionário. Evidência mais recente têm apontado associação entre sistema de grupo sanguíneo ABO, nível de colesterol sanguíneo e número médio de grânulos de Fordyce na região oral (Ref.10). Indivíduos com altas densidades desses grânulos podem exibir um maior nível de lipídios circulantes.

          É entidade de fácil diagnóstico clínico, e geralmente não são necessários exames complementares. O quadro deve ser diferenciado de outras lesões da cavidade oral: candidíase, diminutos lipomas, manchas de Koplik, verrugas virais, lesões papulosas mucosas da síndrome de Cowden, líquen plano e leucoplasia. Podem também ser confundidas com Glândulas de Tyson (2).

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(2) Leitura recomendadaO que são as pápulas perláceas penianas?

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          Apesar do caráter assintomático, benigno e de serem considerados variantes da normalidade, alguns pacientes procuram tratamento por razões estéticas. Opções terapêuticas podem incluir o uso de ácido bicloroacético, eletrodissecção laser de CO2, terapia fotodinâmica com ácido 5-aminolevulínico, isotretinína oral, microagulhamento e curetagem com eletrocoagulação.

 

(A) Paciente de 46 anos de idade do sexo masculino exibindo múltiplas pápulas branco-amareladas de 1 a 2 mm de extensão sobre o lábio superior, caracterizando grânulos de Fordyce. As pápulas ficavam mais proeminentes durante sorrisos e estavam causando grande preocupação e incômodo estético no paciente. (B) Paciente após quatro tratamentos com eletrodissecção e curetagem, resolvendo as pápulas e sem recorrência. Ref.11


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Ahn et al. (2019). A case of successful treatment of Fordyce spots with a single insulated microneedle radiofrequency device. Dermatologic Therapy. https://doi.org/10.1111/dth.13026 
  2. Lee et al. (2012). Clinicopathologic Manifestations of Patients with Fordyce's Spots. Annals of Dermatology 2012; 24(1): 103-106. https://doi.org/10.5021/ad.2012.24.1.103
  3. Hall, A. (2018). Ectopic Sebaceous Glands (Fordyce Spots) and Median Raphe Cysts. Atlas of Male Genital Dermatology, 15–17. https://doi.org/10.1007/978-3-319-99750-6_7 
  4. Fischer, G. (2019). White Papules and Nodules: Fordyce Spots, Sebaceous Cyst, Milia, and Hailey–Hailey Disease. Vulvar Disease, 235–237. https://doi.org/10.1007/978-3-319-61621-6_33
  5. Einstein et al. (2020). As Dr. Fordyce Might Say, A Peculiar Affection of the Lips of a Neonate. Pediatrics 146 (1_MeetingAbstract): 464–465. https://doi.org/10.1542/peds.146.1MA5.464 
  6. Ryu et al. (2021). Fordyce Spots Treated by an Intralesional Insulated Microneedle Radiofrequency Device. Dermatologic Surgery, Volume 47, Issue 7, p. 1021-1022. https://doi.org/10.1097/DSS.0000000000002868
  7. Leung & Barankin (2015). Fordyce Spots. Clinical Case Reports and Reviews, Volume 1(6): 121-122. https://doi.org/10.15761/CCRR.1000140
  8. https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/24140-fordyce-spots
  9. https://www.pcds.org.uk/clinical-guidance/fordyce-spots-syn-fordyces-granules
  10. Goodson & Diajil (2023). Blood group in relation to oral Fordyce's granules and serum cholesterol level. Journal of Oral Pathology & Medicine, Volume 52, Issue 6, Pages 521-527. https://doi.org/10.1111/jop.13432
  11. Chern & Arpey (2008). Fordyce Spots of the Lip Responding to Electrodesiccation and Curettage. Dermatologic Surgery, 34(7), 960–962. https://doi.org/10.1111/j.1524-4725.2008.34187.x