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Andorinhão-Preto fica 10 meses voando sem pousar!


- Atualizado no dia 22 de maio de 2021 -

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         Acredite se quiser, mas o Andorinhão-Preto quebrou dois impressionantes recordes no Reino Animal, e com ampla margem de vantagem. O primeiro é o de tempo de permanência no ar: em suas migrações anuais, 3 desses pássaros, em um grupo monitorado por cientistas, passaram 10 meses voando sem pousar uma só vez! Sim, você não ouviu errado: 10 meses nos céus! O estudo detalhando o fantástico feito foi publicado em 2016 na Current Biology (Ref.1). Já em termos de velocidade diária de migração, esses pássaros quebraram inclusive projeções teóricas: um estudo publicado mais recentemente no periódico iScience (Ref.10) encontrou uma média de 570 km/dia e um máximo de 832 km/dia ao longo de 9 dias. O valor máximo teórico predito é de 500 km/dia e limitado para aves de pequeno porte. Em outras palavras, assim como peixes evoluíram para continuamente nadarem, os andorinhões-pretos evoluíram para viverem voando.

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        O Andorinhão-Preto (Apus apus) é uma ave que pode ser encontrada em várias partes da Europa, Ásia e Norte da África, e entre 25 e 49% da população dessa espécie está presente no território Europeu, com um total estimado no globo entre 40 e 200 milhões de indivíduos. Medindo de 16 a 17 cm de comprimento e entre 42 e 48 cm de uma ponta a outra da asa, esses animais possuem uma coloração marrom escura (com exceção da parte de baixo da boca e garganta, as quais são brancas), parecendo ser totalmente pretos quando vistos voando no céu. Com uma massa corporal em torno de 45 gramas, o corpo dessas aves é extremamente bem adaptado para o voo e já era sabido que costumavam voar longas distâncias sem descanso, mas até pouco tempo atrás não se suspeitava que elas pudessem chegar ao extremo de passar quase 1 ano inteiro voando sem pausa.

Andorinhão-Preto (Apus apus)


   PERMANÊNCIA NO AR

             No primeiro estudo (Ref.1), visando medir o poder de resistência de voo dos andorinhões-pretos, os pesquisadores anexaram pequenos rastreadores em 13 indivíduos que estavam em um grupo migrando da Escandinávia para a África, durante um período de 10 meses. Nesses rastreadores, foram inseridos acelerômetros para avaliar a atividade de voo. Dez desses pássaros fizeram algumas poucas breves aterrissagens, mas ficaram 99% do tempo no ar. Porém, 3 deles não pousaram uma só vez seguida! Essas aves evoluíram para serem altamente eficientes no ar, com uma aerodinâmica corporal, formatos de asas e metabolismo otimizado especialmente adaptados para longos voos. Para se alimentarem, elas comem insetos voadores diversos que pegam durante as manobras aéreas.

Durante a migração, a maior parte dos Andorinhões-Pretos ficam mais de 99% do tempo no ar!
 
           Algumas outras aves já mostravam incrível poder de resistência de voo também, mas nenhuma chega perto de ultrapassar o recorde do Andorinhão-Preto. Como exemplo podemos citar outra espécie de andorinhão, o Andorinhão-Real (Tachymarptis melba), e o Tesourão-Grande (Fregata minor). O Andorinhão-Real, honrando a família, chega a ficar mais de 6 meses voando sem parar, com um estudo de 2013 publicado na Nature (Ref.6) registrando um indivíduo dessa espécie que ficou 200 dias nos céus. Já o Tesourão-Grande alcança os 2 meses. 

         Voar requer um gasto de energia bem alto quando comparado com as atividades em solo ou na água. O senso comum sugere que as aves que gastam muito tempo no ar precisariam pousar com bem mais frequência para recuperar as energias. Porém, diversas estratégias de voo parecem ter evoluído nesses animais para superar as expectativas. Um estudo publicado em 2016 na Science (Ref.7), por exemplo, mostrou que Tesourões-Grandes no oceano Índico aproveitam correntes de ar ascendentes dentro ou abaixo de nuvens cúmulos para planar longas distâncias auxiliados pela ajuda eólica extra na economia de energia.

À esquerda, o Tesourão-Grande e, à direita, o Andorinhão-Real

            Outra dúvida explorada no estudo da Current Biology era se o Andorinhão-Negro dormia durante as longas estadias no céu. A maior parte dos animais sofrem bastante com a falta de sono e basta você ficar 1 ou 2 noites sem dormir para saber o quão horrível é. Porém, segundo análise dos pesquisadores, parece que o andorinhão-preto também evoluiu para lidar bem com sonos muito escassos. Estudos prévios já haviam mostrado que essas aves parecem buscar dormir após os longos voos como atividade de preferência, talvez para recuperar o sono perdido, mas ainda não é possível afirmar com certeza se elas fazem isso também no ar e qual a real importância dessa atividade para a saúde desses animais. É bem estabelecido, por exemplo, que o Tesourão-Grande dorme em  pleno voo, mas será que isso pode ser extrapolado para outras aves que gastam mais do que 1 dia voando, como as migratórias?

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          De fato, cientistas têm sugerido que o sono pode ser plenamente possível durante os voos, e o Tesourão-Grande é prova viva disso. Entre dois tipos principais de sono, o REM (Movimento Rápido dos Olhos) e SWS (Fase de Ondas-Lentas) - ambos sendo traduzidos da sigla em inglês padrão -, o SWS seria a escolha durante os voos, já que não carrega consigo a típica atonia muscular associada com o REM, fase esta mais profunda. No SWS, os olhos inclusive podem ficar abertos e conectados com um hemisfério do cérebro ainda acordado (no REM, ambos os hemisférios adormecem) permitindo que as aves visualizem o caminho nos céus. Golfinhos no mar, por exemplo, usam essa estratégia, dormindo com um olho aberto (USWS - Fase Unilateral de Ondas-Lentas) e, ao mesmo tempo, continuam nadando.

          Aliás, dependendo do voo, não seria necessário nem uma visualização do caminho, apenas um controle motor muscular mínimo em funcionamento. Neste último caso, um estudo publicado em 2016 na Nature  (Ref.9) mostrou que o Tesourão-Grande dorme em pleno voo tanto com um hemisfério acordado e o outro adormecido, ou com ambos os hemisférios adormecidos (para confirmar isso, os pesquisadores usaram dados de eletroencefalogramas obtidos de aparelhos anexados às aves). Esse estudo, inclusive, mostrou que, apesar dessas aves dormirem no ar, elas gastam apenas 7,4% do tempo adormecidas, indicando que o sono pode não ser tão essencial assim para esses animais.

          
   VELOCIDADE DE MIGRAÇÃO

           As aves habitam todos os continentes do planeta e regularmente realizam uma das mais longas campanhas migratórias registradas no Reino Animal. No geral, a migração no verão é mais rápida do que aquela no outono, e as velocidades migratórias, no geral, alcançam os valores máximos nas aves de pequeno porte tipicamente em torno de 200-400 km/dia. A velocidade migratória depende de vários fatores, incluindo estilo de voo, tamanho corporal, e taxas de consumo e de gasto de energia durante o voo. Para aves como os andorinhões (família Apodidae), modelos teóricos preveem uma velocidade média máxima de 500 km/dia.

           Como já explorado, o andorinhão-preto exibe extraordinárias adaptações para um estilo de vida aéreo, incluindo alta razão entre altura e largura das asas, corpo aerodinâmico, equilíbrio otimizado entre bater de asas e planar para máxima economia de energia, produtivo aproveitamento das correntes de ar e, provavelmente, sono durante o voo à noite. Além disso, esses pássaros se especializaram para a caça aérea de insetos de forma a eliminar a necessidade de pouso para a alimentação (Ref.12), e, de fato, passam a maior parte do ano e do tempo no ar. É possível, portanto, que o valor teórico possa estar subestimando o poder de avanço migratório dessa espécie.

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           No segundo estudo (Ref.10), pesquisadores usaram rastreamento por GPS para analisar migrações sazonais dos andorinhões-pretos durante as temporadas de acasalamento na parte norte da Europa. Os dados obtidos revelaram velocidades de migração de verão substancialmente maiores (média: 570 km/dia; máximo: 832 km/dia ao longo de 9 dias) do que o predito para essa espécie nos modelos teóricos.
 

          Na migração de inverno, os andorinhões-pretos mostraram realizar significativas 'paradas', constituídas de 1-4 períodos de residência com restritos movimentos geográficos, principalmente em áreas localizadas entre 35° e 50° de latitude, pouco antes de cruzarem o Deserto do Saara. Cada parada durava de 2 dias até 15 dias, variando de indivíduo para indivíduo, e resultando em uma velocidade migratória média de 250 km/dia. Já a migração de verão envolveu quase contínuo voo a partir, na média, do dia 14 de maio, e durando, em média, 15 dias, com os pássaros alcançando as áreas de acasalamento no dia 29 de maio. Três dos pássaros monitorados não pararam uma única vez durante o voo. Assistência dos ventos - somada às outras adaptações aerodinâmicas e de comportamento aéreo do andorinhão-preto - mostrou-se crucial para o alcance de velocidades migratórias tão altas. 

Borne to be airborne. Foto: Aron Hejdström, CAnMove


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(16)31063-6
  2. http://www.nature.com/news/record-breaking-common-swifts-fly-for-10-months-without-landing-1.20873
  3. http://animaldiversity.org/accounts/Apus_apus/
  4. http://www.iucnredlist.org/details/22686800/0
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16688436
  6. http://www.nature.com/articles/ncomms3554?WT.ec_id=NCOMMS-20131009
  7. http://science.sciencemag.org/content/353/6294/26 
  8. http://cat.inist.fr/?aModele=afficheN&cpsidt=13709894
  9. http://www.nature.com/articles/ncomms12468
  10. https://www.cell.com/iscience/fulltext/S2589-0042(21)00442-9
  11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/evo.14093
  12. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0003347217303974