O que é a Lesão ou Fratura de Monteggia?
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| Figura 1. Imagens de radiografia da paciente. Ref.1 |
Uma mulher de 26 anos de idade apresentou-se ao hospital com dor no cotovelo esquerdo após cair sobre a mão estendida enquanto patinava no gelo. O exame físico revelou edema e sensibilidade à palpação na região lateral esquerda do cotovelo, deformidade em valgo e amplitude de movimento limitada. Os pulsos radial e ulnar estavam íntegros e não foram observados déficits sensoriais.
As radiografias do cotovelo esquerdo mostraram uma fratura do terço proximal da diáfise da ulna e luxação posterior da cabeça do rádio (Fig.1A, seta, visão anteroposterior; Fig.1B, seta, visão lateral).
Com base nesses achados, foi feito o diagnóstico de fratura de Monteggia - uma lesão por fratura-luxação caracterizada por fratura da ulna proximal e luxação da cabeça do rádio (na articulação radioumeral) com ou sem fratura do rádio associada (Fig.2).
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> Luxação é o deslocamento ossos de uma articulação de suas posições normais, devido a impactos, quedas ou movimentos bruscos. Esse desalinhamento pode ser parcial (subluxação) ou completo, comprometendo a estabilidade do cotovelo e limitando seus movimentos. Causa dor intensa, deformidade visível, inchaço e incapacidade de movimentar o membro. É uma emergência médica que exige atendimento médico imediato para reposicionamento. As articulações que luxam com mais frequência são: ombro, dedos, cotovelo, joelho e quadril. Para mais informações, acesse as Ref.6 e Ref.7
> A articulação do cotovelo é uma estrutura sinovial e composta que conecta o braço (úmero) ao antebraço (rádio e ulna). Permite flexão e extensão, além de auxiliar na rotação do antebraço (pronação/supinação). É constituída por três articulações: úmero-ulnar, úmero-radial e rádio-ulnar proximal. Essas articulações são estabilizadas por ligamentos colaterais e pelo ligamento anular. Ref.8
> Uma das causas mais frequentes de luxação no cotovelo são quedas com o braço estendido: Ao tentar amortecer a queda com a mão, o impacto pode forçar o cotovelo além do seu limite anatômico.
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Descrita originalmente em 1814 pelo cirurgião italiano Giovanni Battista Monteggiasse, o principal mecanismo da fratura de Monteggia - também chamada de fratura-luxação de Monteggia ou lesão de Monteggia - é o resultado de trauma direto no antebraço, mais especificamente no seu aspecto ulnar, associado a uma hiperpronação (ou pronação excessiva) do antebraço e o cotovelo em extensão (Ref.9). Nesse sentido, frequentemente ocorre quando uma pessoa cai sobre a mão estendida ou espalmada com o antebraço em hiperpronação. No caso do antebraço, a posição pronada é caracterizada pela torção dos dois ossos que constituem essa parte do braço (rádio e ulna).
Outras causas comuns incluem queda de uma altura sobre o cotovelo e um golpe direto por trás do cotovelo (Ref.3). A lesão é reconhecidamente grave, mas rara, representando 0,7% de todas as fraturas e luxações do cotovelo em pacientes adultos (Ref.10). A maioria dos casos ocorre em crianças, devido à elasticidade dos ossos e à prática mais intensa de atividades físicas, embora ainda continue sendo uma lesão rara nos pacientes pediátricos.
Na classificação de Bado (1967), existem quatro tipos da fratura de Monteggia:
- tipo I, luxação anterior e angulação anterior;
- tipo II, luxação posterior e angulação posterior;
- tipo III, luxação lateral e angulação lateral;
- e tipo IV: luxação anterior da cabeça do radio com fratura do terço proximal de ambos os ossos.
O tipo III é comumente encontrado apenas em crianças, sendo uma luxação anterior ou anterolateral da cabeça do rádio, além de uma fratura metafisária da ulna com angulação lateral. O tipo IV é extremamente incomum; é uma fratura da ulna no terço médio ou proximal, com luxação anterior da cabeça radial e uma terceira fratura radial superior.
O tratamento da fratura de Monteggia vai depender da gravidade da lesão e da idade do paciente. Opções conservadoras incluem redução fechada e imobilização com gesso, enquanto casos mais complexos podem exigir intervenção cirúrgica - tipicamente em adultos - para realinhar os ossos e estabilizar a articulação. A reabilitação é crucial para restaurar a função e prevenir complicações como rigidez articular e atrofia muscular.
O reconhecimento precoce e a intervenção cirúrgica [quando necessária] da lesão são essenciais para prevenir instabilidade crônica, restrição de movimento e lesão do nervo interósseo posterior. O exame físico médico irá fornecer pistas sobre o que investigar na radiografia (raio-X). O ideal para reconhecer uma fratura de Monteggia é tirar radiografias do antebraço e do cotovelo. A série de radiografias do antebraço mostrará a fratura da ulna, e a série de radiografias do cotovelo mostrará a luxação da cabeça do rádio.
Os sinais e sintomas da fratura de Monteggia incluem dor intensa, deformidade visível, inchaço e incapacidade de movimentar o membro afetado.
No caso da paciente do relato inicial, foi realizada redução aberta e fixação interna da fratura da ulna e redução fechada da cabeça do rádio luxada. Após 12 semanas de acompanhamento, a paciente havia recuperado a função normal do cotovelo. O caso foi descrito e reportado no periódico The New England Journal of Medicine (Ref.1).
> Na Fratura de Galeazzi, temos quase o inverso em relação à fratura de Monteggia: ocorre quando existe uma fratura no rádio, próximo da articulação do punho, que faz a ulna se deslocar (luxação) dessa articulação. Ref.3, 5
REFERÊNCIAS
- Chen & Hsu (2025). Monteggia Fracture. NEJM, 393:e39. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2510553
- Neto et al. (1995). Seqüela da fratura de Monteggia na criança: tratamento tardio da luxaçäo da cabeça do rádio: apresentaçäo de dois casos. Revista Brasileira de Ortopedia, 30(7)514-8. https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-161126
- https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/monteggia-fracture
- Santin et al. (2020). Fratura-luxação de Monteggia: osteossíntese com placa de olécrano. RTO [Internet], 20(1):20-4. Link do PDF
- Queiroz, João Paulo. (2022) Fraturas de Monteggia e Galeazzi. (Youtube)
- https://institutosalutesp.com.br/blog/como-prestar-primeiros-socorros-em-casos-de-luxacao/
- https://www.drleonardozanesco.com.br/luxacao-no-cotovelo-causas-sintomas
- https://radiopaedia.org/articles/elbow
- Miyahara et al. (2022). Fraturas do esqueleto apendicular e critérios de manejo cirúrgico: ensaio iconográfico. Radiologia Brasileira, 55(2). https://doi.org/10.1590/0100-3984.2021.0039
- Suarez et al. (2016). Epidemiologia e tratamento da lesão de Monteggia em adultos: Série de 44 casos. Acta Ortopédica Brasileira, 24(1):48-51. http://dx.doi.org/10.1590/1413-785220162401152249
- https://amb.org.br/files/ans/fratura_de_monteggia.pdf



