Parceria de mel entre homens e aves
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| Figura 1. "Caçador de mel" Yao com um Grande-Guia-do-Mel selvagem na mão. |
- Atualizado no dia 24 de junho de 2026 -
Em 1588, João dos Santos, um missionário português em Sofala (no atual Moçambique), observava frequentemente uma pequena ave voando por fendas nas paredes da igreja de sua missão e bicando a cera dos castiçais em seu interior. Esse tipo de ave, escreveu o missionário, tinha outro hábito peculiar: conduzia homens até ninhos de abelhas, chamando a atenção e voando de árvore em árvore. Depois que os homens coletavam o mel, as aves comiam os favos de cera deixados para trás. A ave descrita é a espécie Indicator indicator - popularmente conhecida como greater honeyguide em inglês e indicador-grande em português (Portugal) - e a relação mutualística historicamente alegada é real: um raro exemplo de cooperação entre humanos e animais selvagens.
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Em Moçambique, e outras regiões da África Subsaariana, "caçadores de mel" pertencendo, em sua maioria, a grupos nativos africanos, perseguem colmeias recheadas de mel. Esse alimento, além de ajudar a nutri-los, também é um valioso produto de venda para esses caçadores. Mas eles não estão sozinhos na caçada. Com cerca de 20 cm e massa de ~50 g quando adultos, o indicador-grande é uma ave cuja linhagem ancestral evoluiu uma relação de mutualismo facultativo (protocooperação) com esses caçadores, ou seja, ambas as espécies em cooperação (Homo sapiens e I. indicator) saem ganhando mas conseguem sobreviver sem essa cooperação.
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> Essas aves (I. indicator) não são domesticadas nem treinadas deliberadamente; em vez disso, elas se beneficiam ao aprender a interpretar sinais humanos na natureza, o que lhes permite localizar facilmente humanos que estão à procura de mel. E para a localização da colmeia, o indicador-grande possui um excelente sentido de olfato. A espécie é amplamente distribuída na África Subsaariana.
> Na Reserva Especial do Niassa, no norte de Moçambique, as comunidades - em sua maioria da etnia Yao - dependem fortemente do mel silvestre e do grande-indicador-de-mel para a subsistência. Nessa área, é estimado que 75% do mel silvestre é coletado com a ajuda do indicador-grande, com esse último contribuindo com ~$40700 para a economia local em 2023. Ref.5
> O mel e outros produtos das abelhas fornecem de 16% a 20% da ingestão calórica total dos caçadores de mel Hadzabe, no norte da Tanzânia, e cerca de metade desse mel é localizada com a ajuda de indicadores-grandes. Ref.5
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Como a dieta dessa espécie de ave é constituída principalmente de ovos, pupas e larvas de abelhas, vermes-de-cera e cera de abelha (1), uma colmeia é um pote de ouro para elas. Nesse sentido, o indicador-grande possui o hábito de chamar a atenção dos caçadores com comportamentos característicos - movimentação de asas e chamados específicos de coordenação - e, voando de árvore em árvore, guiam os humanos parceiros até a localização de uma colmeia silvestre. Chegando no local, a ave para na árvore que hospeda a colmeia e espera os caçadores humanos lançarem fumaça nas abelhas (para atordoá-las), coletarem o mel e o que é deixado para trás é imediatamente consumido pelo grande-guia-do-mel - em especial a cera de abelha rica em energia (Fig.2). Mas não é só isso.
Os caçadores usam diferentes chamados que são reconhecidos pela ave, aumentando de forma significativa a chance dela guiá-los corretamente. Um estudo publicado em 2016 na Science (Ref.1) mostrou que, quando o chamado correto é realizado pelos caçadores, as aves guiavam eles 66% das vezes e, dentro dessas excursões, 81% delas levavam a uma colmeia. Quando os chamados certos não eram feitos, a probabilidade das aves guiarem os caçadores reduziam pela metade (~33%) ou menos. No geral a probabilidade estimada dos caçadores encontrarem uma colmeia era de ~54% com o chamado correto, comparado com apenas ~17% quando outros sons de humanos e outros animais eram usados como controle.
E um estudo mais recente (Ref.4) mostrou que existem diferenças regionais entre os chamados usados por caçadores de mel de diferentes regiões na África, assim como ocorre com os dialetos usados para a comunicação entre as pessoas. E as aves parecem aprender essas variações locais no sentido de reforçar a relação mutualística. Os chamados que a ave usa para guiar os humanos não parece variar entre as populações da espécie e provavelmente são inatos e derivados dos chamados usados pelos filhotes - que parasitam o ninho de outras espécies de aves (parasitismo de ninho) - para pedir alimento.
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> Acredita-se que seja relativamente rara a obtenção de cera de abelha pelo indicador-grande sem assistência humana, uma vez que muitos ninhos de abelhas (colmeias) estão escondidos no fundo de ocos de árvores ou outras cavidades estreitas. Além disso, essas colmeias são frequentemente defendidas por abelhas com ferrão (ex.: subespécie Apis mellifera scutellata) capazes de matar facilmente essas aves. Ref.5
> O indicador-grande alimenta-se principalmente de cera de abelha, bem como de larvas e ovos de abelhas-melíferas e de diversos insetos, incluindo cupins, formigas aladas e moscas; o filhote no ninho consome o alimento do hospedeiro, incluindo frutas.
> É incerto quando essa relação mutualística primeiro evoluiu, mas pode ser tão antiga quanto centenas ou milhares de anos - e talvez até mesmo envolvendo primeiro outras espécies humanas ou de homininis.
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A evolução dessa comunicação particular interespecífica faz todo sentido: as aves, apesar de geralmente guiarem qualquer humano para as colmeias, só o fazem com real dedicação quando sabem que são os caçadores querendo a ajuda, ou seja, em uma situação que resultará na abertura de uma nova colmeia e alimento em abundância. Aliás, o indicador-grande parece estabelecer essa forte relação cooperativa apenas com os humanos.
O que é ainda inconclusivo é como esses pássaros reconhecem os chamados certos feitos pelos caçadores. Você poderia dizer que os pais ensinam isso para os filhos, mas esse é o mais interessante: o indicador-grande é uma ave que deposita seus ovos em ninhos de outras espécies, para que estes sejam cuidados por outras fêmeas, poupando o serviço de mãe para essa ave. Em outras palavras, os filhotes são criados por desconhecidos. De qualquer forma, o triste é que talvez não dê nem tempo para os pesquisadores analisarem essa questão, já que a urbanização está crescendo e a profissão de caçador de mel está diminuindo drasticamente, algo que, em um futuro próximo, pode acabar com essa relação de parceria.
> Em Essuatíni - um país da África Austral que faz fronteira com Moçambique e a África do Sul - a busca por mel com o auxílio do indicador-grande é comum, mas principalmente como uma atividade recreativa entre jovens criadores de gado mantida por fatores culturais e sociais. Os caçadores de mel utilizam diversos sinais sonoros para se comunicar com as aves, como bater um machado na madeira, proferir elogios verbais e assobiar - inclusive utilizando frutos ocos e objetos de plástico. Eles recompensam as aves com cera de abelha, larvas e/ou mel, temendo encontros futuros com animais perigosos caso não o façam. Essas habilidades são transmitidas pelos mais velhos e disseminadas entre os jovens pastores por meio do aprendizado entre pares. Ref.6
> Existe uma crença entre povos nativos africanos de que o indicador-grande pode deliberadamente guiar humanos até animais perigosos, como leões, búfalos, elefantes, rinocerontes e grandes cobras peçonhentas, como resultado de ingratidão humana. Porém, tais situações são raras e provavelmente uma coincidência ou erro cognitivo de memória espacial por parte da ave. De qualquer forma, tal crença acaba reforçando tradições culturais humanas de recompensar o indicador-grande com cera de abelha após um serviço bem sucedido de guia, fortalecendo a parceria interespecífica. Ref.7
> Outros membros da família do Grande-Guia-do-Mel (Indicatoridae) também são conhecidos por guiarem humanos até as colmeias, mas nenhum deles possui uma interação tão forte com a nossa espécie quanto o I. indicator.
Leitura recomendada:
- Rinocerontes fizeram parceria com pássaros contra humanos caçadores
- Ovos parasitas de Cucos-Africanos podem enganar facilmente humanos, mas não os Drongos
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- Spottiswoode et al. (2016). Reciprocal signaling in honeyguide-human mutualism. Science, Vol. 353, Issue 6297, pp. 387-389. https://doi.org/10.1126/science.aaf4885
- http://www.sciencemag.org/news/2016/07/unusual-bird-human-partnership-runs-even-deeper-scientists-thought
- http://beheco.oxfordjournals.org/content/18/4/792.short
- Wal et al. (2026). Cooperative human signals to honeyguides form local dialects. People and Nature, Volume 8, Issue 3, Pages 682-694. https://doi.org/10.1002/pan3.70234
- var der Wal et al. (2025). The economic value of human-honeyguide mutualism in Reserva Especial do Niassa, Moçambique. Ecosystem Services, Volume 72, 101696. https://doi.org/10.1016/j.ecoser.2024.101696
- Nhlabatsi et al. (2025). Recreational honey-hunting with honeyguides in the Kingdom of Eswatini. Proc Biol Sci, 292(2052):20250255. https://doi.org/10.1098/rspb.2025.0255
- Lloyd-Jones et al. (2025). To Bees or Not to Bees: Greater Honeyguides Sometimes Guide Humans to Animals Other Than Bees, but Likely Not as Punishment. Ecology and Evolution, Volume 15, Issue 4, e71136. https://doi.org/10.1002/ece3.71136
- Dunkley et al. (2026). The ecology and evolution of cues and signals in animal interspecies cooperation. Animal Behaviour, 123611. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2026.123611
- Lloyd-Jones et al. (2022). When wax wanes: competitors for beeswax stabilize rather than jeopardize the honeyguide–human mutualism. Proc Biol Sci, 289(1987):20221443. https://doi.org/10.1098/rspb.2022.1443
- https://birdsoftheworld.org/bow/species/grehon2/cur/introduction
- https://doi.org/10.1111/j.1474-919X.1988.tb02724.x
- https://thebdi.org/glossary/cerophagy/
- https://africanhoneyguides.com/



