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Ritalina é a ´Pílula da Inteligência´?



          A procura pela internet vem só aumentando por um medicamento que, supostamente, melhora suas capacidades mentais de processamento de informação, otimiza o seu foco de atenção e aumenta sua inteligência: o cloridato de metilfenidato, ou comumente conhecido como Ritalina. Indivíduos próximos de uma importante prova, como concursos ou vestibulares, ficam tentados a comprarem esse medicamento, sem se preocuparem com os efeitos colaterais ou sua real ação de eficácia. Entre estudantes universitários, então, seu uso está quase virando uma crise de saúde pública. Apenas dão ouvidos ao marketing pesado vendendo a droga como uma ´pílula mágica´, estilo aquela do filme ´Sem Limites´ (2011). E o seu consumo vem crescendo assustadoramente, entre adultos e adolescentes.

        O cloridato de metilfenidato (com o princípio ativo sendo o metilfenidadto) é um medicamento utilizado, especificamente, para tratar crianças e adolescentes que sofrem de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e no tratamento da narcolepsia nos adultos, sendo este último uso menos recorrente. Seu mecanismo de ação no cérebro ainda não foi totalmente elucidado, sendo que ele provavelmente age interferindo no funcionamento das redes neurais responsáveis pela atenção, a partir da inibição de certas vias de atuação da dopamina. De qualquer forma, estudos sistemáticos realmente mostram que existe uma melhora no quadro de TDAH, sendo que a mesma é mais significativa nas crianças. Nos adultos, cuja presença do transtorno é mais rara, existem certas dúvidas de eficácia, com alguns trabalhos mostrando pequenos níveis de eficiência.

          Bem, a TDAH é um dos problemas mais comuns que atingem as crianças e, apesar de não ter cura, pode ser amenizada com a ajuda de tratamentos. Com a idade, o transtorno costuma perder bastante a força, quase que desaparecendo por completo nos adultos. O TDAH é caracterizado, principalmente, por um alto nível de atividade corporal do indivíduo (sempre correndo, sempre falando, etc.), prática constante de ações sem pensar antes de agir e perda rápida de foco, especialmente nos estudos. Esses sintomas acabam dificultando o progresso da criança na escola, e as interações sociais com amigos e familiares, sendo uma das maiores preocupações dos pais saber se o seu filho possui o problema. Ainda não se conhecem as causas do TDAH, mas a genética parece ser o fator de maior peso. Outros suspeitos são: traumatismo craniano; tóxicos ambientais (como metais pesados); bebidas alcoólicas/tabaco durante a gestação; nascimento prematuro; e baixo peso no nascimento. Analisando todo o pano de fundo, fica fácil entender de onde a Ritalina conseguiu sua fama.

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          Pesquisadores começaram, então, a analisar o metilfenidato para possíveis outros usos em pessoas saudáveis, com a esperança de que o medicamente melhorasse a capacidade cognitiva dos indivíduos. Lógico que não ia demorar muito para esses trabalhos se transformarem, entre o público, em ´Hmm...eu posso ficar mais inteligente com isso´. Sim, e com isso surgiu o gigantesco marketing ilegal em cima das supostas ´pílulas mágicas´. Se você costuma vasculhar a internet, já deve ter, com certeza, se deparado com sites, blogs e anúncios vendendo o medicamento para quem quer obter auxílio nos estudos. Sinto informar, mas ainda não temos uma pílula do ´Sem Limites´, e nem mesmo algo próximo do que é anunciado por aí. As atuais pesquisas sobre o assunto ainda não comprovaram, satisfatoriamente, benefícios do tipo, sendo provável que o erro de pensamento nessa questão é o mesmo que sobrevoa as vitaminas e minerais. Por exemplo: cálcio é bom para os ossos, e na deficiência do mesmo na dieta, terei problemas ósseos; mas isso não significa que seu eu tomar uma quantidade de cálcio acima do requerido pelo meu corpo meus ossos terão super resistência. Entendem? Uma criança com TDAH possui uma falha bioquímica no cérebro, e a Ritalina apenas minimiza um pouco o problema. Se não houver o problema, ela possivelmente não terá ação nenhuma. E dizer que ela te deixa mais inteligente aí já é apelar muito, considerando as atuais evidências científicas.

         E aqui vai outro ponto importante: mesmo em crianças com TDAH, os benefícios da Ritalina não são tão pronunciados assim. Em adolescentes e adultos a eficácia diminui menos ainda. Ou seja, mesmo se você possuir um foco de atenção mais baixo, mas não caracterizando esse transtorno, os benefícios serão, provavelmente, desprezíveis. Pessoas que relatam ter uma alta melhora no desempenho acadêmico com o metilfenidato estão sendo afetadas, no máximo, ou por um efeito placebo, ou pela própria vontade de querer estudar, ou estão vendendo o medicamento (este último é o mais provável). Mas se todos os problemas terminassem aqui, eu não estaria criticando ninguém que toma o medicamento. O dinheiro é seu. Só que, como todo medicamento, a Ritalina possui efeitos colaterais, os quais podem ser bem sérios, especialmente quando tomada a longo prazo e quando consideramos que o seu mecanismo de ação é no cérebro e é desconhecido. Entre eles podemos citar:

1. Dores abdominais, náuseas, perda de apetite e vômitos são comuns no início de uso;

2. Cefaleia, sonolência/insônia, tontura e discinesia, taquicardia, palpitação, arritmias, alterações da pressão arterial e do ritmo cardíaco, erupções cutâneas, perda de cabelo, urticária, febre, prurido e atarragia são comuns no decorrer do uso;

3. Ela pode agravar ou causar alguns distúrbios psiquiátricos, como a depressão, pensamentos suicidas, hostilidade, ansiedade, agitação, psicose e tiques nervosos.

4. Assim como outros estimulantes, é possível que quadros de dependência química se desenvolvam nos usuários, especialmente se as doses forem abusivas. Por isso ele é vendido como um ´tarja preta´.

          Por causa de tantos efeitos colaterais seu uso deve ser analisado mesmo em crianças com graves quadros de TDAH, onde um estudo detalhado de riscos/benefícios decidirá se o uso do metilfenidato compensa. E olha que contraditório: o indivíduo quer tomar a pílula para aumentar sua capacidade de estudo e absorção de conhecimento, mas pode acabar piorando seu potencial de aprendizagem por conta dos efeitos colaterais (sonolência, perda de apetite, mal estar, etc.). E o uso indiscriminado do medicamento acaba trazendo doses inadequadas, as quais só pioram a situação. Você não ganha nenhum benefício da Ritalina e pode acabar perdendo rendimento nos estudos ou até mesmo a vida, dependendo das circunstâncias.

            Outro problema que cerca a questão é que as pessoas normalmente confundem ´déficit de atenção´ com ´distrações´. Isso é ainda mais verdade quando relacionamos o contexto da nossa atual era da informação, onde temos enxurradas de dados nos atingindo de todos os lados, especialmente dos aparelhos smartphones modernos. A maioria das pessoas não possuem problemas cognitivos ou falta de foco, não em um nível onde medicamentos suspeitos precisem ser prescritos. O que acontece é que o foco está no lugar errado. Sem uma mudança no seu sistema organizacional de estudo, mesmo se existisse uma droga que aumentasse significativamente seu foco de atenção e capacidade de aprendizado, você acabaria aprendendo mais coisas do Facebook e focando ainda mais sua atenção no YouTube (Risos). Além disso, muitas crianças recebem medicamentos como a Ritalina só porque ´parecem´ ter TDAH. Em outras palavras, o medicamento é dado apenas para acalmar a criança, sem um bom diagnóstico ter sido feito antes por um profissional da área. Algumas crianças são, naturalmente, mais agitadas do que outras, por exemplo, sem isso significar que elas tenham o transtorno. Não é preciso dizer que isso é uma irresponsabilidade sem tamanho.

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         Finalizando, o metilfenidato só pode ser comprado, legalmente, com uma receita médica, a qual deve ficar retida na Farmácia. Seu uso é específico para as duas doenças citadas acima, e não existe comprovação científica de que ele melhore a capacidade cerebral de pessoas saudáveis, seja no aprendizado, seja na inteligência (1). Você dá ponto na pele sem existir uma ferida na mesma? Não, não é mesmo? Então não consuma o metilfenidato sem ter TDAH ou narcolepsia. E da mesma forma que levar ponto precisa ser algo feito, idealmente, em um hospital, o consumo de qualquer medicamento deve também ter o acompanhamento de um profissional de saúde.

OBS.: Existem alguns outros medicamentos com efeitos parecidos com o da Ritalina, também usados para o tratamento da TDAH. O Modafinil é um exemplo bem conhecido entre eles e está no mesmo barco do metilfenidato em relação ao uso ilegal. O alerta dado neste texto vale também para essas outras drogas. No Brasil, porém, o mais difundido, de longe, é a Ritalina.

(1) Alguns estudos mostram ganhos cognitivos benéficos em indivíduos saudáveis, mas enfrentam diversas falhas de metodologia e contestação de outros trabalhos. Não existe consenso sobre a questão e os efeitos positivos sendo mostrados são muito fracos e as evidências de que eles realmente existem são mais fracas ainda, e isso tudo sem considerarmos os riscos-benefícios. As agências de saúde contra-indicam, absolutamente, o uso da Retalina, e outros medicamentos similares, para o uso em pessoas saudáveis, também afirmando que não existem evidências científicas sólidas de qualquer benefício seguro.

Artigo relacionado: Açúcar causa hiperatividade nas crianças?

Artigo complementar:  O que é o Transtorno de Aprendizagem?

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://link.springer.com/article/10.1007/s12152-015-9232-9#/page-1
  2. https://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/stimulant-adhd-medications-methylphenidate-amphetamines
  3. http://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.161.11.1990
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s40263-015-0241-3
  5. http://www.cdc.gov/ncbddd/adhd/facts.html
  6. http://www.drugs.com/pro/ritalin.html
  7. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/cap.2014.0100
  8. http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?articleID=2467823
  9. https://www.researchgate.net/profile/Veljko_Dubljevic/publication/281033455_Cognitive_enhancement_with_methylphenidate_and_modafinil_conceptual_advances_and_societal_implications/links/55d1f65208ae0a341720df00.pdf
  10. http://www.ingentaconnect.com/content/ben/cn/2016/00000014/00000001/art00006
  11. http://www.ispor.org/research_pdfs/49/pdffiles/PMH62.pdf
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4330699/
  13. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/add.12460/abstract?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=
  14. https://ijnp.oxfordjournals.org/content/17/6/961.full
  15. http://www.ispor.org/research_pdfs/49/pdffiles/PMH62.pdf
  16. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0028390812002742
  17. http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/setembro/11/Metilfenidato--atualizada-em-29-10-2013-.pdf
  18. http://www.cvs.saude.sp.gov.br/zip/ALERTA%20TERAP%C3%8AUTICO%2010%20Metilfenidato_010813_final.pdf
  19. http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=10716102013&pIdAnexo=1909485