YouTube

Artigos Recentes

Ritalina é a 'Pílula da Inteligência'?


- Artigo atualizado no dia 1 de janeiro de 2019 - 

Compartilhe o artigo:



          A procura pela internet vem só aumentando por um medicamento que, supostamente, melhora suas capacidades mentais de processamento de informação, otimiza o seu foco de atenção e aumenta sua inteligência: o cloridato de metilfenidato, ou comumente conhecido como Ritalina. Indivíduos próximos de uma importante prova, como concursos ou vestibulares, ficam tentados a comprarem esse medicamento, sem se preocuparem com os efeitos colaterais ou sua real ação de eficácia. Entre estudantes universitários, então, seu uso está quase virando uma crise de saúde pública. Apenas dão ouvidos ao marketing pesado vendendo a droga como uma 'pílula mágica', estilo aquela do filme Norte-Americano 'Sem Limites' (2011). E o seu consumo, incluindo crônico e abusivo, vem crescendo assustadoramente, entre adultos e adolescentes.

- Continua após o anúncio -



   RITALINA E O TDAH

          O cloridato de metilfenidato (com o princípio ativo sendo o metilfenidadto) é um medicamento utilizado, especificamente, para tratar crianças e adolescentes que sofrem de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e no tratamento da narcolepsia nos adultos, sendo este último uso menos recorrente. Seu mecanismo de ação no cérebro ainda não foi totalmente elucidado, e  provavelmente age interferindo no funcionamento das redes neurais responsáveis pela atenção, a partir da inibição de certas vias de atuação da dopamina. Essa ação assemelha-se ao de drogas ilícitas (ex.: cocaína), fundamentada na elevação do nível de atividade dopaminérgica.

          Um estudo recente publicado no periódico Neuroscience (Ref.25) trouxe fortes evidências de que o metilfenidato aumenta a conectividade entre o núcleo caudado do cérebro e três estruturas cerebrais chamadas de córtex pré-frontal dorsolateral, hipocampo e precúneo, via intermediação de níveis endógenos aumentados de dopamina na cabeça da caudado. O córtex pré-frontal está envolvido no sustento da atenção; o hipocampo atua na formação da memória; e o precúneo está envolvido em funções motoras, o que pode explicar como esse medicamento afeta a hiperatividade. O estudo foi realizado com base na análise de primatas não-humanos expostos a diferentes doses do medicamento.

          De qualquer forma, estudos sistemáticos e meta-análises realmente mostram que existe uma melhora no quadro de TDAH - sendo essa mais significativa nas crianças - com a administração do metilfenidato. Nos adultos, cuja presença do transtorno é mais rara, existem certas dúvidas de eficácia, com alguns trabalhos mostrando pequenos níveis de eficiência.

          Bem, a TDAH (1) é um dos problemas mais comuns que atingem as crianças e, apesar de não ter cura, pode ser amenizada com a ajuda de tratamentos. Com a idade, o transtorno costuma perder bastante a força, quase que desaparecendo por completo nos adultos. O TDAH é caracterizado, principalmente, por um alto nível de atividade corporal do indivíduo (sempre correndo, sempre falando, etc.), prática constante de ações sem pensar antes de agir e perda rápida de foco, especialmente nos estudos. Esses sintomas acabam dificultando o progresso da criança na escola, e as interações sociais com amigos e familiares, sendo uma das maiores preocupações dos pais saber se o seu filho possui o problema. Ainda não se conhecem as causas do TDAH, mas a genética parece ser o fator de maior peso. Outros suspeitos são: traumatismo craniano; tóxicos ambientais (como metais pesados); bebidas alcoólicas/tabaco durante a gestação; nascimento prematuro; e baixo peso no nascimento.


          Existe também uma forma do cloridrato de metilfenidato vendido aqui no Brasil sob o nome de Concerta, onde o princípio ativo se encontra associado a comprimidos revestidos de liberação prolongada (Ref.26).

- Continua após o anúncio -




   PÍLULA DA INTELIGÊNCIA?

          Desde que começou a ser utilizado de forma terapêutica a partir da década de 1960, o metilfenidato começou a atrair atenção das pessoas em relação às suas atividades de estimulação do sistema nervoso central, de combate à fatiga, de melhora da atenção e de manutenção do estado de alerta. Pesquisadores começaram também a analisar o metilfenidato para possíveis outros usos em pessoas saudáveis, com a esperança de que o medicamento melhorasse a capacidade cognitiva dos indivíduos. Lógico que não ia demorar muito para esses efeitos terapêuticos e estudos se transformarem, entre o público, em 'Hmm...eu posso ficar mais inteligente com isso'. Sim, e com isso surgiu o gigantesco marketing ilegal em cima das supostas 'pílulas mágicas'. Se você costuma vasculhar a internet, já deve ter, com certeza, se deparado com sites, blogs e anúncios vendendo o medicamento para quem quer obter auxílio nos estudos.

          Porém, sinto informar, mas ainda não temos uma pílula do 'Sem Limites', e nem mesmo algo próximo do que é anunciado por aí. As atuais pesquisas sobre o assunto ainda não comprovaram, satisfatoriamente, benefícios do tipo, sendo provável que o erro de pensamento nessa questão é o mesmo que sobrevoa as vitaminas e minerais. Por exemplo: cálcio é bom para os ossos, e na deficiência desse nutriente na dieta, terei problemas ósseos; mas isso não significa que seu eu tomar uma quantidade de cálcio acima do requerido pelo meu corpo meus ossos terão super resistência. Entendem? Uma criança com TDAH possui uma falha bioquímica no cérebro, e a Ritalina apenas minimiza um pouco o problema. Se não houver o problema, a droga possivelmente não terá ação benéfica nenhuma. E dizer que ela te deixa mais inteligente aí já é apelar muito, considerando as atuais evidências científicas.

         E aqui vai outro ponto importante: mesmo em crianças com TDAH, os benefícios da Ritalina não são tão pronunciados assim. Em adolescentes e adultos a eficácia diminui menos ainda. Ou seja, mesmo se você possuir um foco de atenção mais baixo, mas não caracterizando esse transtorno, os benefícios serão, provavelmente, desprezíveis e, no máximo, moderados. Pessoas que relatam ter uma alta melhora no desempenho acadêmico com o metilfenidato estão sendo afetadas ou por um efeito placebo, ou pela própria vontade de querer estudar, ou estão vendendo o medicamento (este último é o mais provável). Mas se todos os problemas terminassem aqui, não existiriam fortes motivos para preocupar ninguém que toma o medicamento. Talvez apenas com o gasto inútil de dinheiro. Só que, como todo medicamento, a Ritalina possui efeitos colaterais, os quais podem ser bem sérios, especialmente quando tomada a longo prazo e quando consideramos que o seu mecanismo de ação é no cérebro e é ainda desconhecido. Entre eles podemos citar:

1. Dores abdominais, náuseas, perda de apetite e vômitos são comuns no início de uso;

2. Cefaleia, sonolência/insônia, tontura e discinesia, taquicardia, palpitação, arritmias, alterações da pressão arterial e do ritmo cardíaco, erupções cutâneas, perda de cabelo, urticária, febre, prurido e atarragia são comuns no decorrer do uso;

3. Ela pode agravar ou causar alguns distúrbios psiquiátricos, como a depressão, pensamentos suicidas, hostilidade, ansiedade, agitação e tiques nervosos.

4. Assim como outros estimulantes, é possível que quadros de dependência química se desenvolvam nos usuários, especialmente se as doses forem abusivas. Por isso ele é vendido como um 'tarja preta'.

5. Um estudo recente de revisão sistemática Cochrane com meta-análise, publicado no Scandinavian Journal of Child and Adolescent Psychiatry and Psychology (Ref.24), revelou que efeitos psicóticos - englobando alucinações, problemas de concentração e ansiedade - podem atingir cerca de 1,1%  a 2,5% dos pacientes com TDAH sendo tratados com metilfenidato. Devido à baixa qualidade de evidências e poucos trabalhos publicados sobre o assunto, o estudo não pôde confirmar ou refutar se existe de fato um aumento no risco de efeitos psicóticos oriundos do metilfenidato, apesar das evidências sugerirem que sim.


          Por causa de tantos efeitos colaterais seu uso deve ser analisado mesmo em crianças com graves quadros de TDAH, onde um estudo detalhado de riscos/benefícios decidirá se o uso do metilfenidato compensa. E olha que contraditório: o indivíduo quer tomar a pílula para aumentar sua capacidade de estudo e absorção de conhecimento, mas pode acabar piorando seu potencial de aprendizagem por conta dos efeitos colaterais (sonolência, perda de apetite, mal estar, etc.). E o uso indiscriminado do medicamento acaba trazendo doses inadequadas, as quais só pioram a situação. Você não ganha nenhum benefício da Ritalina e pode acabar perdendo rendimento nos estudos ou algo até pior, dependendo das circunstâncias.

          Somando-se a isso, um recente estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Illinois, Chicago, e publicado no periódico JAMA (Ref.23), concluiu que mais de 1/3 dos adultos Norte-Americanos podem estar usando medicamentos prescritos que possuem o potencial de causar depressão ou o aumento no risco de suicídio, incluindo pílulas anticoncepcionais, medicamentos para a pressão sanguínea e outros problemas cardiovasculares, inibidores de prótons, anti-ácidos, analgésicos, etc., em mais de 200 medicamentos de uso comum investigados. E muitas vezes as pessoas não sabem que tais medicamentos tão comuns possuem esses preocupantes efeitos colaterais. Nesse sentido, os pesquisadores também encontraram que 15% das pessoas usando 3 ou mais desses medicamentos de forma conjunta também enfrentavam um quadro de depressão.  Como a Ritalina pode ser um grande fator de risco para o desenvolvimento/agravamento de distúrbios psiquiátricos (englobando depressão e suicídio), seus usuários podem estar acumulando perigosamente fatores de riscos para esses problemas junto a outros medicamentos também em uso concomitante. Aliás, o Brasil é o maior consumidor de psicoestimulantes do mundo, atrás apenas dos EUA (Ref.27). Bem, será uma coincidência o aumento cada vez crescente de suicídios (2) e casos de depressão ao redor do mundo, especialmente entre os mais jovens?


            Outro problema que cerca a questão é que as pessoas normalmente confundem 'déficit de atenção' com 'distrações'. Isso é ainda mais verdade quando relacionamos o contexto da nossa atual era da informação, onde temos enxurradas de dados nos atingindo de todos os lados, especialmente dos modernos aparelhos de smartphones. A maioria das pessoas não possuem problemas cognitivos ou falta de foco, não em um nível onde medicamentos específicos precisem ser prescritos. O que acontece é que o foco está no lugar errado. Sem uma mudança no seu sistema organizacional de estudo, mesmo se existisse uma droga que aumentasse significativamente seu foco de atenção e capacidade de aprendizado, você acabaria aprendendo mais coisas do Facebook e focando ainda mais sua atenção no YouTube.


   RITALINA E AS CRIANÇAS

         Além disso, ainda nesse contexto e fugindo um pouco do tema central, muitas crianças acabam recebendo medicamentos como a Ritalina só porque 'parecem' ter TDAH. Em outras palavras, o medicamento é dado apenas para acalmar a criança, sob o consentimento dos pais, mas sem um bom diagnóstico ter sido feito antes por um profissional da área. Algumas crianças são, naturalmente, mais agitadas do que outras, por exemplo, sem isso significar que elas tenham o transtorno. Não é preciso dizer que isso é uma irresponsabilidade sem tamanho, ao sujeitar um jovem corpo em crucial fase de desenvolvimento a um forte psicofármaco.

          Em uma recente pesquisa de compilação de dados dos relatórios de substâncias psicotrópicas da Junta Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas, foi reportado que no Brasil houve um aumento de aproximadamente 6.322% na comercialização do metilfenidato entre os anos de 1996 a 2012, período no qual a produção passou de 9kg para a marca de 578kg. Reporte similiar foi também realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária Brasileira (ANVISA) que divulgou um boletim mostrando um aumento de 75% na venda de metilfenidato, entre os anos de 2009 a 2011, prescrito para crianças e adolescentes brasileiros com idades variando entre 6 a 16 anos (Ref.27).  Inúmeros autores comentam que a multiplicação de diagnósticos psiquiátricos e o aumento de prescrições psicofarmacológicas estão intrinsecamente relacionados à venda e o alto faturamento das indústrias farmacêuticas na atualidade (Ref.27).

          A medicina psiquiátrica e, atualmente, a pediátrica, infelizmente, estão tendendo a prescrever psicofármacos como principal e, na maioria das vezes, exclusiva alternativa terapêutica de tratamento para os mais diversos tipos e estilos de problemas educacionais, sociais, existenciais e emocionais. A banalização e proliferação de diagnósticos de TDAH é um dos sintomas dessa tendência aqui no Brasil. Pais e profissionais de saúde precisam estar mais alertas a essa situação.

- Continua após o anúncio -



   CONCLUSÃO

         Finalizando, o metilfenidato só pode ser comprado, legalmente, com uma receita médica, a qual deve ficar retida na Farmácia. Seu uso é específico para as duas doenças citadas acima, e não existe comprovação científica de que ele melhore substancialmente a capacidade cerebral de pessoas saudáveis, seja no aprendizado, seja na inteligência (1). Você dá ponto na pele sem existir uma ferida aberta? Não, não é mesmo? Então não consuma o metilfenidato sem ter TDAH ou narcolepsia. E da mesma forma que levar ponto precisa ser algo feito, idealmente, em um hospital, o consumo de qualquer medicamento vendido sob prescrição médica deve também ter o acompanhamento de um profissional de saúde.

OBS.: Existem alguns outros medicamentos com efeitos parecidos com o da Ritalina, também usados para o tratamento da TDAH. O Modafinil é um exemplo bem conhecido entre eles e está no mesmo barco do metilfenidato em relação ao uso ilegal. O alerta dado neste artigo vale também para essas outras drogas. No Brasil, porém, o mais difundido, de longe, é a Ritalina.

(1) Alguns estudos mostram ganhos cognitivos benéficos em indivíduos saudáveis, mas enfrentam diversas falhas de metodologia e contestação de outros trabalhos. Não existe consenso sobre a questão e os efeitos positivos sendo mostrados são muito fracos e as evidências de que eles realmente existem são bem escassas, e isso tudo porque não estamos nem mesmo considerando o balanço de riscos e benefícios. As agências de saúde contra-indicam, absolutamente, o uso da Retalina, e outros medicamentos similares, para o uso em pessoas saudáveis, também afirmando que não existem evidências científicas sólidas de qualquer benefício seguro.


Artigo relacionado: Açúcar causa hiperatividade nas crianças?





REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://link.springer.com/article/10.1007/s12152-015-9232-9#/page-1
  2. https://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/stimulant-adhd-medications-methylphenidate-amphetamines
  3. http://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.161.11.1990
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s40263-015-0241-3
  5. http://www.cdc.gov/ncbddd/adhd/facts.html
  6. http://www.drugs.com/pro/ritalin.html
  7. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/cap.2014.0100
  8. http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?articleID=2467823
  9. https://www.researchgate.net/profile/Veljko_Dubljevic/publication/281033455_Cognitive_enhancement_with_methylphenidate_and_modafinil_conceptual_advances_and_societal_implications/links/55d1f65208ae0a341720df00.pdf
  10. http://www.ingentaconnect.com/content/ben/cn/2016/00000014/00000001/art00006
  11. http://www.ispor.org/research_pdfs/49/pdffiles/PMH62.pdf
  12. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4330699/
  13. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/add.12460/abstract?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=
  14. https://ijnp.oxfordjournals.org/content/17/6/961.full
  15. http://www.ispor.org/research_pdfs/49/pdffiles/PMH62.pdf
  16. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0028390812002742
  17. http://u.saude.gov.br/images/pdf/2014/setembro/11/Metilfenidato--atualizada-em-29-10-2013-.pdf
  18. http://www.cvs.saude.sp.gov.br/zip/ALERTA%20TERAP%C3%8AUTICO%2010%20Metilfenidato_010813_final.pdf
  19. http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=10716102013&pIdAnexo=1909485
  20. http://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/view/1148
  21. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14659891.2017.1364307
  22. https://link.springer.com/article/10.1007/s00213-017-4650-5
  23. https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2684607
  24. https://www.exeley.com/sj_child_adolescent_psychiatry_psychology/doi/10.21307/sjcapp-2018-003
  25. http://www.jneurosci.org/content/early/2018/12/10/JNEUROSCI.2513-18.2018
  26. http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=14440632017&pIdAnexo=8127141
  27. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2017000200010