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Qual é a relação entre Leonardo da Vinci, genética, evolução e TDAH?



           O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um dos problemas mais comuns que atingem as crianças e, apesar de não ter cura, pode ser amenizada com a ajuda de tratamentos. Com a idade, o transtorno costuma perder bastante a força, quase que desaparecendo por completo nos adultos. O TDAH é caracterizado, principalmente, por um alto nível de atividade corporal do indivíduo (sempre correndo, sempre falando, etc.), prática constante de ações sem pensar antes de agir, frequente procrastinação de tarefas, e perda rápida de foco, especialmente nos estudos. Esses sintomas acabam dificultando o progresso da criança na escola, e as interações sociais com amigos e familiares, sendo uma das maiores preocupações dos pais saber se o seu filho possui o problema. 


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          Na sua última atualização sobre o tema, o FDA (Departamento de Drogas e Alimentos dos EUA) (Ref.2) relacionou sintomas que crianças e adultos com TDAH  podem apresentar, nos três tipos no qual o problema se manifesta:

1. Desatenção: problemas para criar um foco em uma tarefa específica; dificuldade para seguir instruções; e dificuldade em finalizar tarefas e ser organizado; e esses sintomas não são devido ao desacato ou falta de compreensão.

2. Hiperatividade-Impulsividade: sempre se movimentando ou procurando fazer alguma coisa, incluindo em situações não-apropriadas para essas ações; tendência em falar excessivamente; e sempre interrompendo os outros; tomando frequentemente decisões sem pensar nas consequências de médio-longo prazo; na idade pré-escolar, a hiperatividade é o sintoma mais comum da TDAH.

3. Combinado: os sintomas reúnem aqueles dos dois tipos anteriores; a maioria das crianças possuem o tipo combinado.

         Para os adultos, os sintomas seriam os mesmos do que aqueles vistos nas crianças, mas podem se apresentar com algumas modificações. Nessa faixa de idade, pessoas com o problema podem ter baixas habilidades no manejamento do seu tempo, ter dificuldade em multitarefas, se tornar bem inquietas com o tempo ocioso e evitar tarefas que requerem bastante concentração. 

          O FDA também estima que, nos EUA, cerca de 11% das crianças e jovens entre 4 e 17 anos foram diagnosticadas com a desordem em 2011, um número que só vem crescendo ano após ano, devido, provavelmente, a maior atenção da população para o problema (ou seja, um maior número de diagnósticos, não de casos). Entre os adultos, estudos sugerem que cerca de 4% deles possuem o problema. Estudos mais amplos sugerem que, ao redor do mundo, o TDAH afete em torno de 5% das crianças e adolescentes.

           A desordem começa normalmente entre o 3 e 6 anos de idade nos afetados, e pode continuar pela adolescência e persistir com moderada frequência na fase adulta. Caso suspeite que você ou seu filho possua TDAH, procure um profissional de saúde apto para o diagnóstico e formulação de um tratamento. Nunca busque tratamentos por conta própria, especialmente se envolver o uso de fortes medicamentos como a Ritalina (I).

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(IArtigo recomendado: Ritalina é a Pílula da Inteligência?
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          Ainda não se conhecem as causas do TDAH, mas a genética parece ser o fator de maior peso.

          Um estudo recentemente publicado no periódico JAMA (Ref.3) encontrou que irmãos de pacientes com autismo ou com TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) possuem um elevado risco em desenvolverem ambas as condições. Segundo os resultados do estudo, irmãos de pacientes autistas possuem um risco 30 vezes maior de desenvolver autismo, e um risco 3,7 vezes maior de desenvolverem TDAH. Já irmãos de pacientes com TDAH possuem um risco 13 vezes maior de desenvolverem TDAH e um risco 4,4 vezes maior de desenvolverem autismo.


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          Outros fatores de risco suspeitos são: traumatismo craniano; tóxicos ambientais (como metais pesados); bebidas alcoólicas/tabaco durante a gestação; nascimento prematuro; deficiência em vitamina D durante a gravidez (Ref.4); e baixo peso no nascimento. O tratamento costuma envolver o medicamento 'Ritalina', um calmante de tarja preta, e, por isso, o diagnóstico precisa ser preciso para não infringir efeitos colaterais desnecessários na criança. Evidências nos últimos anos vêm também mostrando que quando canalizada de forma positiva, e sob controle, a TDAH pode trazer certas vantagens para seus portadores, como o fomento à busca constante de novas áreas de exploração e de novos conhecimentos. Um mito comum nesse sentido é achar que o TDAH sempre está associado com baixo desempenho acadêmico e profissional. Aliás, é sugerido que o Leonardo da Vinci possuía TDAH (II).

          Cada vez mais estudos vêm associando também o uso do medicamento paracetamol - também conhecido como acetaminofeno - pelas grávidas com um maior risco de desenvolvimento de autismo e de TDAH. Para saber mais, acesse: Uso de paracetamol pelas grávidas associado ao autismo e ao TDAH.


   EVOLUÇÃO DO TDAH

          O fato do TDAH impor pesado fardo na qualidade de vida individual e dos familiares responsáveis, e ainda ser tão prevalente, parece ser contra-intuitivo de uma perspectiva evolucionária, e muitos tenderiam a esperar que a seleção natural teria já livrado os alelos de risco (variantes genéticas de causa) da população humana.

          Para explicar a alta prevalência do TDAH entre os humanos modernos (Homo sapiens) hoje, geralmente os pesquisadores recorrem à ideia de que os genes associados a essa condição garantiam vantagens no passado - acumulando altas frequências de alelos positivamente selecionados - mas desvantagens com o passar do tempo (mismatch theory), especialmente em relação às bruscas mudanças culturais, geográficas e de estilo de vida testemunhadas na transição Paleolítico-Neolítico. Como muito tempo não passou - em termos evolutivos - desde que esses genes passaram de vantajosos para desvantajosos, os fenótipos associados ao TDAH continuaram persistindo em significativa extensão até o momento.


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          Nesse sentido, um estudo publicado esta semana na Scientific Reports (Ref.5) trouxe a primeira forte evidência dando suporte para essa hipótese. Para isso, os pesquisadores realizaram uma análise genômica ampla em mais de 20 mil indivíduos diagnosticados com TDAH e 35 mil controles visando acessar a evolução dos alelos associados em populações Europeias e usando amostras arcaicas, antigas e modernas. Os resultados das análises revelaram claros sinais de pressão seletiva agindo contra esses alelos desde o Paleolítico, com a frequência das variantes genéticas associadas ao TDAH diminuindo de forma consistente e continuamente. Essa tendência não pôde ser explicada por mistura com populações Africanas ou via introgressão com Neandertais. O mais interessante, é que a pressão seleção negativa observada teve início bem antes da transição entre o Paleolítico e o Neolítico, cerca de 10 mil anos antes.

          Porém, os pesquisadores não sabem ao certo quais traços comportamentais direta ou indiretamente associados ao TDAH (hiperatividade motora, impulsividade, etc.) têm sido alvos de seleção natural na nossa espécie.


  (II) LEONARDO DA VINCI

          Em um estudo publicado no periódico Brain (Ref.6), o professor Marco Catani, da Kins´s College, Reino Unido, trouxe fortes evidências de que Leonardo da Vinci - o gênio polímata Italiano do século XVI e uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento - tinha TDAH.

          O estudo reforça que Leonardo possuía uma marcante tendência de procrastinar seus trabalhos, deixando inúmeros deles incompletos. Registros de biógrafos antigos e contemporâneos deixam claro que Leonardo estava constantemente indo de uma tarefa para outra, em diversas áreas. E, além disso, Leonardo dormia muito pouco e trabalhava de forma contínua, noite e dia, alternando ciclos rápidos de curtos cochilos e períodos de despertar.



          Na sua obra 'A Última Ceia' (1495-1498), um afresco de 4,6 metros de altura e 8,8 metros de comprimento, e um trabalho para a Igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, Itália, Leonardo foi forçado a comparecer na presença do Duque de Milão, Ludovico Sforza, para dar satisfações do porque a obra estava demorando tanto (levou 3 anos para ficar pronta). Apesar do Duque tê-lo perdoado e se afeiçoado pela sua pessoa, o Papa Leão X não foi tão paciente. Leonardo, em 1514 foi empregado pelo Papa para a realização de obras para o Vaticano. Porém, a falta de comprometimento do artista fez com que Leão X chegasse a exclamar: "Ai de mim! Esse homem nunca fará nada, porque ele começa já pensando no final do trabalho, antes mesmo de começar." De fato, a permanência de Leonardo no Vaticano durou menos do que 3 anos e, ao contrário de artistas como Michelangelo e Rafael, não deixou nenhum traço da sua passagem por Roma.

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          Junto com reportes de comportamentos erráticos e projetos incompletos de outros artistas companheiros e de patrões, existem evidências indiretas sugerindo que o cérebro de Leonardo era organizado de forma significativamente diferente da organização comumente vista nas pessoas em geral (>95%). Ele era canhoto, provavelmente era disléxico, e possuía dominância da linguagem no lado destro do seu cérebro (aos 65 anos de idade, Leonardo sofreu um severo derrame no lado direito do seu cérebro, mas o qual deixou suas habilidades linguísticas intactas). Todas essas características são comuns entre pessoas com TDAH. Aliás, pessoas com dislexia tendem a possuir uma performance superior em tarefas de discriminação visual e de memória visual, algo ligado ao TDAH que pode explicar as habilidades artísticas avantajadas de Leonardo.


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          De acordo com Catani, o TDAH pode ter sido um importante fator de fomento à criatividade de Leonardo, permitindo que este também se interessasse profundamente por diversas áreas do conhecimento. Porém, como efeito colateral negativo, a condição também fazia com que seus interesses fossem extremamente volúveis, prejudicando a finalização dos seus trabalhos.

          Apesar de não ser conclusivo, o novo estudo ajuda a derrubar o mito de que pessoas com TDAH estão necessariamente associadas com um baixo QI ou com falta de criatividade. Nos últimos anos, diversos exemplos de TDAH já foram apontados em universitários e profissionais de sucesso. Se positivamente canalizada, algumas características do TDAH podem se transformar em uma grande vantagem: volubilidade da mente pode fomentar criatividade e originalidade; inquietação pode impulsionar a busca por novidades e ações de mudança. Esse último ponto reforça a forte persistência dos genes associados ao TDAH ao longo da evolução humana.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.nimh.nih.gov/health/topics/attention-deficit-hyperactivity-disorder-adhd/index.shtml
  2. http://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm269188.htm 
  3. https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2717035
  4. https://jaacap.org/article/S0890-8567(19)32232-4/fulltext
  5.  https://www.nature.com/articles/s41598-020-65322-4
  6. https://academic.oup.com/brain/advance-article/doi/10.1093/brain/awz131/5492606