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Religião e Desenvolvimento Humano


             Sobre a segunda parte do que eu vou escrever a seguir é baseado apenas em uma hipótese científica, e não deve ser levado como uma verdade conclusiva.

          Como todos que acompanham meus artigos devem ter notado, eu defendo bastante a existência das diversas religiões e culturas ao redor do planeta. Eu também costumo dizer que as religiões podem ter tido um papel crucial durante o desenvolvimento da nossa civilização, apesar das críticas contrários de muitos ateístas. Se fosse algo tão ridículo e desnecessário nos primórdios, a própria evolução social provavelmente teria dado um jeito de eliminá-las durante o longo percurso de existência humana.

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           Primeiro, a religião, sob as suas mais variadas representatividades ao longo da história provavelmente surgiu como uma urgência humana em explicar os mistérios da vida e da morte, e de fenômenos naturais ainda fora do nosso alcance tecnológico. Da mesma forma que a ciência moderna hoje propõe um modelo atômico sem nunca ter visto um próton, elétron, nêutron, gravidade, eletromagnetismo, fóton, etc., com os próprios 'olhos'. Mas os modelos funcionam, e são aplicados com perfeição na nossa atual tecnologia cotidiana, mesmo sem explicarmos em profundo detalhamento vários dos seus aspectos mais fundamentais. Da mesma forma, quando os povos mais antigos representavam seus deuses como explicações das forças da natureza, isso também expressava uma ciência primitiva (sob uma perspectiva atual).

            Os gregos antigos explicavam os ventos como os deuses soprando pelos céus. Nós explicamos o vento, hoje, como diferenças de baixa e alta pressão atmosférica. Ambos "funcionam", sendo diferenciados apenas nas limitações de aplicação do conhecimento. Teoricamente, sabemos que existem próton e nêutrons no núcleo, ligados por forças que ainda são relativamente desconhecidas para nós, apenas explicadas por hipóteses quânticas. Apesar das limitações, conseguimos aplicar esse modelo satisfatoriamente nas nossas tecnologias. Um povo alienígena muito mais avançado pode ter um conhecimento bem mais detalhado sobre essas questões fundamentais desconhecidas por nós dos átomos e achar muitas das nossas hipóteses quânticas bem ingênuas.

             O que eu até agora escrevi - de forma opinativa - foi apenas para impedir que as pessoas menosprezem a ocorrência das religiões durante a história humana. De certo modo, podemos até mesmo encará-las como uma resposta científica primitiva para explicar a natureza. Agora, vem a parte hipotética, da qual este artigo realmente se trata, e a qual cobre a afirmação de que a religião pode ter sido algo essencial para a construção da nossa poderosa civilização humana, organizada da forma em que a conhecemos atualmente. E a inspiração para este artigo veio da publicação recente de um estudo científico na Nature (Ref.5). Nesse estudo, é reforçado ainda mais uma hipótese antiga sobre as causas de um misterioso fenômeno ocorrido na humanidade, baseado nos princípios do comportamento pró-social.

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    RELIGIÃO E UNIÃO

            Desde que a agricultura tornou-se um importante meio de alimentação dentro das sociedades humanas ao redor do globo, uma escala extraordinária de cooperação humana e complexidade nas relações sociais cresceu vigorosamente entre os grupos da nossa subespécie (Homo sapiens sapiens). A partir daí, sociedades gigantescas foram construídas, impérios formados e, posteriormente, países emergiram. Nenhum modelo ecológico de evolução consegue explicar isso.

         Normalmente, na natureza, pequenas populações tendem a ser extremamente agressivas, mesmo pertencendo à mesma espécie e estando na mesma área de ocupação. Até os períodos que abrangem o surgimento da agricultura, isso também era verdade para os humanos modernos, os quais não conseguiam unir os seus pequenos grupos. Existem algumas explicações para elucidarem tal processo, porém nenhuma é conclusiva. E uma das mais aceitas hoje reside no papel que os deuses criados por nós tiveram em unir os povos que compartilhavam as mesmas crenças.

            Sim, o surgimento das religiões que prezam pelo acolhimento/respeito ao próximo e que defendem a existência de entidades especiais (Deuses moralistas) que estão olhando para baixo, condenando os pecados e desvirtuamentos (ideia de punição divina), também explodiram nessa mesma época. Portanto, através da disseminação dessas crenças pelos grupos próximos em uma mesma área, teria sido possível unir os humanos relacionados pela mesma religião, sob a supervisão imparcial de um ser superior. Assim, impulsionados pela expectativa de uma boa vida após a morte e recompensas por bom comportamento entre os semelhantes de uma mesma crença, os grupos começaram a se unir em grandes povos e, assim, teria sido possível construir gigantescas e complexas sociedades.

          Claro, povos com crenças diferentes iriam se desentender e alguns manipuladores iriam utilizar as religiões para se promoverem, mas essa situação é ainda milhares de vezes melhor quando comparamos milhares de pequenos grupos humanos morando lado a lado e duelando até a morte. Agora, eram gigantescos povos duelando uns contra os outros, mas com melhores chances de mais pessoas sobreviverem por estarem em enormes grupos de união. E a união de um número exponencialmente maior de pessoas também fez os progressos tecnológicos surgirem como estrelas no céu noturno.

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    CONCLUSÃO

            Hoje, somos civilizados o bastante para termos um censo moral que não depende mais de religiões (mesmo ela ajudando em certas proporções), mas pode ser muito errado dizer que as mesmas foram inúteis no desenvolvimento da nossa sociedade, e que foram apenas um retrocesso desnecessário. No passado distante, as religiões podem ter sido as únicas vias de unir os grupos humanos em povos poderosos. Para eu estar enviando este texto para vocês através deste computador, talvez seja preciso agradecer bastante as religiões por tornar esse avanço tecnológico possível. Você pode não acreditar em nenhuma delas, mas desrespeitá-las pode ser um mal agradecimento sem precedentes.

Obs.: Sou ateu.
   
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. www.pnas.org/content/110/41/16384
  2. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9449169&fileId=S0140525X14001356
  3. http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs12110-002-1012-7
  4. link.springer.com/article/10.1007%2Fs12110-005-1017-0
  5. http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature16980.html#ref3