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O que são e como tratar estrias e celulite?


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           Estrias e celulites (lipodistrofia ginoide) são duas alterações dermatológicas muito comuns e normais na população humana, especialmente após a puberdade e nos indivíduos do sexo feminino. As etiologias de ambas as condições não são ainda bem esclarecidas e intervenções estéticas com suporte científico para preveni-las, reduzi-las ou elimina-las são muito limitadas.

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      ESTRIAS - ETIOLOGIA

             As estrias (striae cutis distensae) surgem quando a tensão aplicada à pele é mais rápida  e intensa do que a sua habilidade de se expandir e criar mais tecido epitelial, levando a uma extensa ruptura das fibras elásticas. Como resultado, uma ferida leve aparece, a qual, primeiramente vermelha ou arroxeada (striae rubrae), se transforma ao longo do tempo em uma cicatriz dérmica linear branca (striae albae) com subsequente atrofia epidérmica. A striae rubrae apresenta um excesso de finas fibras elásticas na área papilar da derme, com a presença de fibras mais grossas na periferia, e incluindo vasodilatação e edema. Existe também uma redução nas fibras elastina e fibrilina e mudanças estruturais nas fibras de colágeno. No estágio de striae albae, a região afetada exibe atrofia epidérmica, menor vascularização e linhas horizontais de colágena mais densas, finas e cicatrizadas.

            Ainda hoje o mecanismo exato que leva à formação das estrias não é bem esclarecido, e ainda é incerto por que algumas pessoas são mais suscetíveis a tê-las enquanto outras não. Em vários casos, as estrias podem inclusive surgir em pessoas magras, que nunca passaram por um processo de estiramento da pele. De qualquer forma, os fatores de risco frequentemente envolvem condições onde a pele se estica rapidamente, dificultando os processos regenerativos, ou estão relacionados com problemas na elasticidade natural da epiderme; entre esses fatores, podemos citar:

- gravidez e histórico de estrias em gravidezes prévias;
- ganho acelerado de massa corporal e alto índice de massa corporal (IMC);
- aumento rápido de massa muscular (ex.: uso de anabolizantes associado ao treino de musculação);
- aumento rápido de tamanho durante a puberdade (o famoso "Estirão") e idade jovem;
- uso de corticoides;
- cirurgias plásticas envolvendo o aumento do volume de alguma parte do corpo, como os implantes de silicone nas mamas e nádegas (mais comumente ocorrem nas mamas);
- genética (e histórico familiar), aliás, a principal determinante no surgimento e grau das estrias (se você possui parentes próximos com estrias, as chances são altas de você também desenvolvê-las, e variantes genéticas associadas a baixa expressão de colágeno e fibronectina parecem estar envolvidas);
- algumas doenças, como as síndromes de Cushing, de Marfan e de Ehlers-Danlos.



            Mais de 70% das adolescentes do sexo feminino e cerca de 40% dos adolescentes do sexo masculino acabam desenvolvendo as estrias na puberdade. Nas grávidas, a manifestação de estrias ocorre em 50-90% dos casos, dependendo da população analisada (etnia, área geográfica, etc.) e do tamanho do feto (ou fetos) se desenvolvendo no útero (o que impacta no grau de estiramento da pele na barriga da grávida) (!). As mulheres são as mais afetadas devido ao perfil hormonal feminino Na adolescência, o estradiol (um dos hormônios sexuais femininos predominantes, responsável pelas características sexuais secundárias) estimula um acúmulo de gordura nas regiões das mamas, das coxas e das nádegas, fazendo com que ocorra um rápido e acentuado estiramento da pele nessas regiões. Durante a gravidez, o estiramento da pele na barriga é ainda maior, fazendo com que as estrias apareçam em grande parte dos casos, em menor ou maior grau. Em indivíduos com ganho excessivo de massa corporal, a prevalência de estrias é de 43%. 

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> Tem sido postulado que alguns hormônios, como estrógenos, relaxina e hormônio adrenocortical, reduzem a adesividade entre fibras de colágeno e aumentam a substância fundamental na matriz extracelular, resultando na formação de estrias na gravidez à medida que a pele na região abdominal é esticada com o crescimento fetal e ganho de massa adiposa (striae gravidarum). A condição pode resultar também de mudanças na estrutura conectiva que incluem realinhamento e reduzido conteúdo de elastina e fibrilina na derme. Ref.22

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       CELULITE - ETIOLOGIA

               No caso da celulite, é importante primeiro esclarecer uma confusão bastante comum. Existem dois tipos de 'celulite': um caracterizado por infecção na pele e o outro associado a uma condição benigna com importância apenas estética (não é uma patologia). O tipo mais popular é a condição não-patológica, cientificamente conhecida como hidrolipodistrofia ginoide. A condição patológica ("celulite genuína") é uma infecção cutânea causada por bactérias. A "celulite popular" é aquela em que a pele fica com o clássico aspecto de "casca de laranja", podendo ocorrer com diferentes graus de intensidade - enquanto algumas deformações na pele ficam visíveis o tempo todo, outras apenas ficam notáveis quando a pele é dobrada; algumas possuem relevos mais fundos, outras mais discretos.




            A celulite estética afeta quase todas as mulheres, com prevalência superior a 90% na população feminina após a puberdade. Esse tipo de celulite ocorre devido às diferenças de elasticidade das fibras que unem o tecido epitelial ao músculos, onde a gordura (tecido adiposo) fica no meio. Se as fibras não forem muito elásticas, um acúmulo de gordura começará a empurrar a pele para cima nos pontos pouco fibrados, causando os relevos característicos das celulites. As mulheres, por terem um perfil de pele/fibras e acúmulo de gordura (estrógenos) diferente daquele observado nos homens, acabam ficando muito mais suscetível à condição. Os locais mais comuns de manifestação das celulites estéticas são as coxas, nádegas e abdômen. Assim como as estrias, o mecanismo exato associado ao desenvolvimento da celulite estética não é totalmente esclarecido, mas podemos citar alguns fatores de risco:

- idade, onde quanto mais avançada, maior o risco;
- genética;
- cigarro;
- obesidade;
- desidratação;
- estresse;
- sedentarismo;
- acúmulo de água no corpo (ex.: dietas com excesso de sódio).


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Reforçando: As estrias e celulite fazem parte do corpo feminino, assim como o aumento do tecido mamário e de outras características sexuais secundárias, e dependentes de fatores hormonais. Praticamente todos os indivíduos do sexo feminino possuem celulite e/ou estrias em algum grau. Preocupações com essas condições dermatológicas são apenas estéticas, mas obviamente problemas de saúde mental podem emergir por causa de preocupações estéticas fomentadas por padrões modernos e irreais de beleza.
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        TRATAMENTOS PLÁSTICOS

             Não existem "tratamentos" hoje no mercado estético que sejam altamente eficazes ou ideais para resolver estrias e celulites, e apenas intervenções cirúrgicas e outros procedimentos invasivos têm demonstrado bons resultados, apesar de limitados. E importante: NÃO existe suporte científico para cremes, suplementos, pílulas ou alimentos realmente efetivos como tratamento para qualquer uma dessas condições. O uso tópico de cremes para prevenir o desenvolvimento de estrias nas grávidas não parece ser eficaz (Ref.16). Suplementação com colágeno é outra intervenção preventiva/terapêutica sem suporte científico (Vale a pena investir na suplementação com colágeno?).

          Para as estrias, intervenções com suporte científico visam melhorar a circulação sanguínea nas regiões afetadas e estimular a produção de colágeno e fibronectina, e uso de microinjeções, peeling químico, mesoterapia com microagulhas, radiofrequência, fototermólise, plasma rico em plaquetas e terapias com laser têm sido opções nesse sentido. No caso das celulites, a maioria das terapias visam reduzir o tecido adiposo na pele, envolvendo uso de radiofrequência com efeitos termolipolíticos ou intervenções que causam danos nas células adiposas (ex.: criolipólise e cavitação ultrassônica). Os procedimentos envolvendo microagulhas (uso de agulhas muito finas para profundas penetrações na pele) visam estimular processos regenerativos diversos na pele (Ref.17-18, 24). Carboxiterapia (aplicação de dióxido de carbono para estimular a microcirculação sanguínea) também tem emergido nos últimos anos como uma alternativa para o tratamento tanto de estrias quanto de celulite (Ref.19-20).

            Durante o desenvolvimento inicial das estrias, é possível aplicar injeções de ácido retinóico (tretinoína) nas manchas avermelhadas/roxeadas, junto a um dermatologista, onde pode-se obter melhoras significativas (mas não eliminação total). Depois que as cicatrizes ficam brancas, não existe mais essa opção. 

         Outra forma de "melhora" nas estrias seria seu mascaramento com pigmentos que imitem o tom da pele, os quais, porém, não são totalmente efetivos e são bastante sensíveis à radiação solar tanto na área colorida quanto em volta (se você bronzear a pele em volta, a cor ficará diferente novamente das áreas delimitadas pelas estrias).

              Caso você se sinta realmente incomodada/o com as estrias e com a celulite, procure sempre um dermatologista, e não caia no truque de cremes ou outros produtos que prometem milagres. É bom já deixar claro: por enquanto, somente cirurgias plásticas ou tratamentos invasivos/agressivos, feitos por um profissional dermatologista, irão surtir um real efeito, mas não eliminação total das marcas ou prevenção de que novas delas surgirão. No caso das celulites, as famosas massagens e drenagens linfáticas apenas resultam em melhoras temporárias (esses procedimentos apenas distribuem melhor a gordura na pele e precisam ser continuados para manter os resultados). 

             Para ajudar a prevenir estrias e celulites, recomenda-se evitar ganhos excessivos de massa corporal, manter uma dieta saudável e sempre manter o corpo bem hidratado

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Importante: No caso de gravidez, sempre procure um dermatologista caso você queira uma indicação de tratamento para prevenir o surgimento de estrias. Usar qualquer produto ou formulação cosmética pode ser um risco para o feto em desenvolvimento, caso a administração ocorra sem a devida orientação e aprovação de um profissional de saúde. O mesmo se aplica durante a amamentação, onde qualquer produto medicinal ou suplemento deve ser consumido apenas sob expressa orientação médica para não trazer prejuízos à qualidade e à taxa de produção do leite no tecido mamário.
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Artigo relacionado: Ácido retinóico e Isotretinoína no combate às espinhas


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.pharmaceutical-journal.com/learning/learning-article/questions-from-practice-stretch-marks/10997321.article
  2. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD000066.pub2/abstract
  3. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ics.12029/abstract
  4. http://www.mdsaude.com/2011/12/estrias-tratamento.html
  5. http://link.springer.com/article/10.1007/s00403-013-1336-7
  6. http://bmcpregnancychildbirth.biomedcentral.com/articles/10.1186/1471-2393-14-330
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0266613814001715
  8. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bjd.12681/abstract
  9. http://link.springer.com/article/10.1007/s40257-015-0129-5
  10. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0097493
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S174014451500042X
  12. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jocd.12154/abstract
  13. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jdv.12193/abstract
  14. http://www.redalyc.org/pdf/2655/265541072002.pdf
  15. http://www.mdsaude.com/2011/03/celulite-tratamento.html
  16. https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD000066.pub2/full 
  17. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/dth.12714
  18. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jocd.12481
  19. Kołodziejczak, A., Podgórna, K., & Rotsztejn, H. (2018). Is carboxytherapy a good alternative method in the removal of various skin defects? Dermatologic Therapy, e12699. https://doi.org/10.1111/dth.12699
  20. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.2147/CCID.S405715
  21. https://www.mdpi.com/2227-9032/10/12/2565
  22. Türkmen & Yörük (2022). Risk factors of striae gravidarum and chloasma melasma and their effects on quality of life. Journal of Cosmetic Dermatology, Volume 22, Issue 2, Pages 603-612. https://doi.org/10.1111/jocd.14783
  23. Menashe & Heller (2023). Striae distensae treatment: evaluating laser efficacy and safety. International Journal of Dermatology, Volume 63, Issue 1, Pages 46-50. https://doi.org/10.1111/ijd.16914
  24. Siadat et al. (2023). Evaluating the efficacy of microneedling technique in treating striae alba lesions. Archives of Dermatological Research 315, 2075–2078. https://doi.org/10.1007/s00403-023-02601-w