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Deuses moralistas foram cruciais para a emergência das grandes civilizações humanas?


- Artigo atualizado no dia 21 de março de 2019 -


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         Praticamente todas as religiões modernas possuem uma coisa em comum: Deuses ou leis sobrenaturais que ditam comportamentos morais a serem seguidos e comportamentos transgressores que devem ser punidos. Como mais conhecido exemplo, temos a religião Cristã, onde, em geral, pessoas transgressoras são ameaçadas com o Inferno caso não se arrependam e parem de cometer crimes ou agir contra as normas religiosas estabelecidas, e pessoas benevolentes e comportadas que são agraciadas com a garantia de passagem para o Paraíso. Nesse sentido, será que a emergência desse tipo de religião foi fundamental para a organização e/ou estabilidade de grandes civilizações no passado?

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   DEUSES MORALISTAS

          Muitos acadêmicos e estudos antropológicos defendem a ideia de que os Deuses moralistas foram necessários para a construção e estabilidade de sociedades de larga escala, uma sugestão frequentemente conhecida como a 'Hipótese dos Grandes Deuses' ou MGH (moralizing high gods), a qual também é englobada pela BSP  (broad supernatural punishment) a qual é uma hipótese mais ampla que inclui leis morais sobrenaturais sem personificação divina.

          Entidades sobrenaturais moralistas parecem ser raras na história humana. Antropólogos sabem - a partir de análises etnográficas - que os Deuses de sociedades de caçadores-coletoras (sociedades muito pequenas e primitivas), por exemplo, não se preocupam muito com humanos, muito menos com comportamentos ditos morais. Muitas das divindades emergentes de sociedades primitivas se preocupam mais com os fenômenos da Natureza e em punir quem as afrontam diretamente (por exemplo, falha em realizar sacrifícios ou observar taboos), mas raramente essas divindades puniam violações morais em interações entre humanos..
   
          Nos últimos milênios, no entanto, houve um aumento e disseminação de várias religiões pró-sociais, as quais incluem poderosos Deuses moralistas (como o Deus Abraâmico) ou entidades sobrenaturais não-personificadas que punem transgressões morais (como o karma no Budismo).

             Nesse sentido, as hipótese BSP - a partir de princípios de comportamento pró-social atrelados a certas religiões - vem para explicar especificamente um misterioso fenômeno ocorrido na humanidade no pós-Neolítico.

            Desde que a agricultura tornou-se uma importante fonte de alimentos dentro das sociedades humanas de várias regiões do mundo, especialmente na Ásia e na Europa, uma escalada extraordinária de cooperação humana e complexidade nas relações sociais emergiu entre os grupos da nossa espécie (Homo sapiens). A partir daí, civilizações gigantescas foram construídas, impérios formados e, posteriormente, países emergiram. Nenhum modelo ecológico de evolução consegue explicar isso.

         Frequentemente, no meio selvagem, pequenas populações de seres mais complexos (como mamíferos) tendem a ser extremamente agressivas, mesmo pertencendo à mesma espécie e estando na mesma área de ocupação. Até próximo do período que abrange o surgimento da agricultura, isso também era verdade para os humanos modernos, os quais não conseguiam unir os seus pequenos grupos. Neandertais (Homo neanderthalensis) (1) sofreram ainda mais com isso, e talvez seja essa a principal causa de extinção dos nossos parentes evolutivos mais próximos. Existem algumas explicações para elucidarem tal processo, porém nenhuma é conclusiva. E uma das mais debatidas hoje explora o papel de Deuses moralistas na união entre os povos que compartilham as mesmas crenças.


            O surgimento das religiões que prezam pelo acolhimento/respeito ao próximo do mesmo grupo e que defendem a existência de entidades divinas (Deuses moralistas) que estão olhando para baixo, condenando os pecados e desvirtuamentos (ideia de punição divina), também explodiram nessa mesma época e eventualmente tomaram controle do cenário cultural. Portanto, através da disseminação dessas crenças pelos grupos próximos em uma mesma área, teria sido possível unir os humanos relacionados pela mesma religião, sob a supervisão imparcial de um alegado ser ou norma superior sobrenatural. Assim, impulsionados pela expectativa de uma boa vida após a morte e recompensas por bom comportamento entre os semelhantes de uma mesma crença, os grupos começaram a se unir em grandes povos e, assim, teria sido possível construir gigantescas e complexas sociedades. Quanto mais pessoas cooperando por acreditarem que estão sendo vigiadas pelas divindades ou que estão vinculadas a leis sobrenaturais, mais a sociedade cresce. Essa é a ideia central da hipótese BSP.




          Até mesmo na poderosa sociedade Viking (750-1050 d.C.) (2), onde os Deuses Nórdicos não se importavam muito com as ações morais entre humanos, existem evidências arqueológicas suficientes mostrando que os povos Escandinavos nessa época acreditavam que entidades sobrenaturais estavam monitorando as pessoas em alguns contextos, com essas últimas podendo ser punidas por certas transgressões (Ref.6). Deuses como Odin e Thor, apesar de poderosos e capazes de se comunicarem com os vivos e os mortos, agiam de forma imoral em alguns contextos e de forma moral em outros, como, por exemplo, ajudando a reforçar juramentos de lealdade entre os humanos (ações pró-sociais). Porém, como não eram percebidos como onipresentes, imortais (3), criadores únicos do Cosmo e inexoravelmente morais pelos povos Escandinavos, isso desfavorece a classificação deles como 'Grandes Deuses'. Nesse sentido, a alta complexidade sócio-política dos Vikings que emergiu rapidamente a partir de numerosos pequenos grupos tribais que dominavam a Escandinávia antes do século V d.C.  pode ter sido fomentada pela mais ampla hipótese BSP. Aliás, a presença não muito consistente da interferência de crenças sobrenaturais moralistas entre os Vikings pode explicar em parte porque esses notórios exploradores marítimos sucumbiram em relativo pouco tempo e abriram espaço para a entrada do Cristianismo na cultura Nórdica.


          Claro, crenças sobrenaturais diferentes entre os povos acabaram fomentando inúmeras guerras, mas essa situação é ainda um cenário muito melhor quando comparamos milhares de pequenos grupos humanos morando lado a lado e duelando até a morte. Com grandes sociedades sendo organizadas e auto-controladas pela crença em divindades moralistas, temos agora gigantescos povos duelando uns contra os outros, mas com melhores chances de mais pessoas sobreviverem por estarem em enormes grupos de união. E essa união também acaba promovendo enormes avanços no desenvolvimento de novas tecnologias.

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   SESHAT

          Um estudo publicado recentemente na Nature (Ref.7) testou a hipótese BSP a partir de um grande banco de dados históricos chamado de Seshat (em homenagem à antiga Deusa Egípcia da sabedoria). O Seshat contém informações sobre os tamanhos, governos, forças militares, religiões e economias de centenas de sociedades dos últimos 10 mil anos. Isso torna possível uma análise comparativa das sociedades humanas ao longo da pré-história e história.

          No estudo, os pesquisadores analisaram 414 sociedades de 30 regiões ao redor do mundo, desde o início do Neolítico até a Revolução Industrial. Eles classificaram cada sociedade de acordo com 51 medidas de complexidade social, incluindo quantas pessoas pertenciam a cada grupo social e se elas possuíam liderança hierárquica. Além disso, os pesquisadores buscaram determinar se cada sociedade acreditava em um Deus (ou Deuses) moralista ou em uma lei sobrenatural que reforça valores como justiça e lealdade.

         Os resultados do estudo mostraram que, de fato, sociedades de larga-escala tendiam a possuir entidades sobrenaturais moralistas, e já pequenas sociedades não. Mas os pesquisadores também encontraram que essas entidades moralistas consistentemente apareceram depois que uma dada sociedade tinha já alcançado um grande tamanho e complexidade.

          A primeira aparição de entidades sobrenaturais moralistas apontada pelos pesquisadores apareceu no Egito, onde o conceito de imposição sobrenatural do Maat (ordem) é atestado pela Segunda Dinastia, há cerca de 2800 a.C. Isso foi seguido pelas emergências esporádicas de religiões locais através da Eurásia (Mesopotâmia, ao redor de 2200 a.C.), Anatólia (ao redor de 1500 a.C.) e na China (ao redor de 1000 a.C.) antes da ampla disseminação de religiões transnacionais durante o primeiro milênio a.C., com o Zoroastrianismo e Budismo, seguidos mais tarde pelo Cristianismo e pelo Islamismo. Na Roma Antiga, acredita-se que Deuses começaram a punir quebras de promessa entre humanos ao redor de 500 a.C., bem antes da chegada do Cristianismo. Zeus, por exemplo, zela pelos juramentos e pelo repeito devido aos hóspedes. Porém, na maior parte das regiões do globo analisadas pelo novo estudo, os Deuses moralistas emergiram em torno de 100 anos após megasociedades terem se estabelecidos, como fruto de transição de rituais religiosos prévios.


          Isso significa que parte da hipótese BSP pode estar errada, já que essas divindades e leis sobrenaturais moralistas não ajudaram as sociedades humanas no crescimento explosivo inicial no pós-Neolítico. Segundo o autor principal do estudo, Patrick Savage, da Universidade de Keio, em Fujisawa, Japão, os resultados sugerem que participar de rituais religiosos - os quais tendem a aparecer à medida que a complexidade social aumenta - pode ser mais importante do que acreditar em Deuses ou outras entidades sobrenaturais moralistas para primeiro promover a cooperação ao facilitar a padronização de crenças e tradições ao longo de grandes populações, e assim estabelecer um identidade comum. Ainda segundo Savage, uma vez que as sociedades alcançam cerca de 1 milhão de membros - ou algo nesse nível populacional -, entidades sobrenaturais moralistas parecem vir para estabilizar a cooperação entre pessoas que podem ter diferentes linguagens, etnias ou background cultural. Em outras palavras, forças sobrenaturais moralistas não são pré-requisito para a evolução de complexidade social, mas eles ajudam a sustentar e expandir impérios complexos e multi-étnico após eles terem se estabelecido.

          No entanto, outros especialistas em antropologia e psicologia evolutiva (Ref.8) estão ainda com um pé atrás em relação ao novo estudo e suas conclusões. Eles apontam, por exemplo, que os dados do Seshat, apesar de extensos, são limitados em alguns aspectos. Para exemplificar, evidências escritas ou arqueológicas apontando para Deuses e forças sobrenaturais moralistas provavelmente emergiram bem depois na crença neles ter se iniciado, o que torna os dados do Seshat atrelados a uma significativa margem de incerteza.

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    CONCLUSÃO

          Deuses e leis sobrenaturais moralistas - desde Zeus até Ahura Mazda e Jesus Cristo - de fato estão associados com civilizações de grande complexidade social, mas é incerto se o robusto crescimento social dessas sociedades precedeu ou sucedeu a emergência dessas entidades sobrenaturais moralistas . De qualquer forma, seja para fomentar seja para estabilizar, o atual estado de desenvolvimento da sociedade humana parece dever sua base de complexa estruturação ao temor sistemático do sobrenatural.         

   
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. www.pnas.org/content/110/41/16384
  2. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9449169&fileId=S0140525X14001356
  3. http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs12110-002-1012-7
  4. link.springer.com/article/10.1007%2Fs12110-005-1017-0
  5. http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature16980.html#ref3
  6. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/2153599X.2017.1395764
  7. https://www.nature.com/articles/s41586-019-1043-4
  8. https://www.sciencemag.org/news/2019/03/did-judgmental-gods-help-societies-grow