YouTube

Artigos Recentes

A problemática questão do autismo



          O autismo é um dos tópicos de saúde psiquiátrica mais discutidos atualmente, e o qual origina mais desinformação do que entendimento. Antes, pensava-se que era um transtorno neurológico determinado apenas pela herança genética. Estudos e evidências posteriores começaram a questionar esse consenso e hoje assume-se que o autismo é causado tanto por fatores genéticos quanto por ambientais (externos ao material genético do indivíduo). E é neste último ponto que a bagunça começa.

         Apesar de ser, popularmente, mencionada como uma única desordem, o autismo é distribuído em um espectro de quadros clínicos, reunindo três principais em um conjunto denominado  Transtorno do Espectro Autista (TEA). De forma geral, o autismo é uma falha no desenvolvimento neurológico, a qual é caracterizada pela maior dificuldade de interação social, verbal e não-verbal, além de descrever também comportamentos repetitivos e restritivos (ser impassivo em mudanças de ações, por exemplo). Sua gravidade varia muito e, normalmente, os sinais começam a surgir antes dos 2 anos de idade e precisam ser evidentes até os 3 anos para caracterizar o autismo. Os sintomas podem ir evoluindo gradualmente durante a vida do indivíduo, ter um declínio após certo momento na vida ou até mesmo regredir totalmente, em casos bem raros.

         É estimado que mais de 67 milhões de pessoas possuem autismo ao redor do mundo. Nos EUA, cerca de 1 em cada 68 crianças possuem a condição. Aqui no Brasil é estimado que possam existir quase 2 milhões de casos. O sexo masculino possui chances até 5 vezes maiores de manifestar o autismo do que o feminino, e o seu desenvolvimento pode iniciar-se ou durante a gravidez ou durante o início de infância.

Além da dificuldade em estabelecer contato social, a mania de empilhar e enfileirar objetos com grande insistência é um dos possíveis sinais que pode indicar autismo na criança

         Desde 1980, o número de casos de autismo aumentou drasticamente e uma voraz caçada pela causa desse fenômeno teve início. Vacinas, pesticidas, gravidez de mulheres mais velhas, maior consumo de alimentos industrializados, maior uso das tecnologias sem fios, intoxicação por metais tóxicos, maior exposição à televisão, alimentos transgênicos, diabetes e etc., etc, e etc. Ou seja, crenças populares se misturam com o método científico, gerando muitas más interpretações e até mesmo perigo para a saúde pública, no caso da culpabilização das vacinas. Neste último, em específico, um estudo criminoso foi um dos maiores causadores do mal entendido.

   
    VACINAS?

            O ex-médico britânico Andrew Wakefield, hoje com 58 anos, publicou um "trabalho" em 1998, junto com colegas, onde sugeria que as vacinas do sarampo, rubéola e caxumba de estarem ligadas diretamente com a ocorrência de autismo nas crianças e problemas gastrointestinais (onde Wakefield e seus colegas de pesquisa sugeriam uma relação íntima entre ambos). Ele, claro, eventualmente perdeu o registro médico e o periódico The Lancet, o qual publicou o estudo, teve que se retratar publicamente anos mais tarde, depois que nenhum outro estudo mostrou veracidade alguma em suas conclusões e hipóteses, e após descobrirem que a pesquisa "científica" conduzida por Wakefield era altamente tendenciosa e fraudulenta. Todo o seu trabalho foi porcamente conduzido e uma investigação posterior mostrou que ele estava recebendo investimento de advogados representando interesses de grupos cujo objetivo era processar as companhias produtoras de vacinas, desde 1996. Ou seja, um puro golpe visando somente o lucro. (Ref.15, 16, 17 e 18)

            Infelizmente, devido ao seu trabalho criminoso e contínua defesa do seu ponto de vista distorcido, ocorreu um declínio acentuado nos números de vacinação pelo mundo, especialmente nos EUA, Reino Unido e Irlanda. Com isso, o sarampo e a caxumba, que antes estavam controladas, voltaram a se alastrar em diversos pontos desses países. E o pior: o medo e recusa das vacinas só veio aumentando ao longo dos anos, alimentados por um bandido e diversas outras teorias conspiratórias derivadas. Muitas doenças antes pensadas quase extintas estão voltando porque as pessoas se recusam a ser vacinadas ou deixarem vacinar os seus filhos. AS VACINAS NÃO CAUSAM AUTISMO OU QUAISQUER OUTRAS DOENÇAS CONSPIRATÓRIAS! Os prejuízos à saúde relacionados com as vacinas só ocorrem se elas não forem tomadas.

- Continua após o anúncio -


 
    REAIS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

         Bem, tirando esse absurdo ´científico´ associado às vacinas do caminho, só é possível chegar a uma conclusão com a revisão de vários artigos científicos sobre o assunto: ainda não se sabe as causas específicas que levam ao autismo, tanto genéticas quanto ambientais (sendo que a causa genética por herança familiar provavelmente é a mais comum, segundo as evidências acumuladas até o momento, e é sugerido que represente algo entre 40% e 80% dos casos). Além disso, o autismo não possui cura e é pouco entendido pela ciência no quesito ´funcionamento´. Embora bem caracterizada em seus sintomas, todo o resto ainda continua obscuro. Uma hipótese, contudo, que levanta bastante controvérsia, é a relação entre o maior uso dos herbicidas/pesticidas e o aumento expressivo do número de casos do transtorno nas últimas décadas.

          Dentro dos herbicidas (produtos tóxicos usados para matar ervas que prejudicam o crescimento das plantações), o principal culpado seria o componente glifosato. Essa substância causaria danos no tecido cerebral do feto e do recém-nascido, através da placenta ou do aleitamento materno (algumas pesquisas acharam níveis elevados de glifosato no leite de mães que se alimentavam de produtos tratados com os herbicidas). Porém, nenhuma evidência significativa ou conclusão científica foram encontradas ainda. De qualquer forma, tanto os pesticidas quanto os herbicidas são bem prejudiciais à saúde em doses de ingestão que fogem das quantidades ínfimas.

        Cinco outros candidatos são bem mais visados para uma relação direta entre autismo e fatores não-genéticos:

1. Diabetes materna: embora a diabetes tipo 2 tradicional já tenha sido, virtualmente, descartada, quando ocorre a diabetes mellitus (aquela originada durante a gravidez, induzida por hormônios produzidos na placenta) parece que os riscos aumentam para o autismo. Existe também uma menos clara associação com a diabetes tipo 1;

2. Gravidez em mulheres de idade mais avançada: além de existir os riscos já conhecidos, especialmente de más formações genética no feto, engravidar em idades superiores a 35 anos (especialmente depois dos 40), gera maior probabilidade no nascimento de um bebê com autismo, e isso já é quase conclusivo;

3. Falta de vitamina D: a deficiência dessa vitamina, tanto durante a gravidez quanto no início de infância, aumentaria os riscos de autismo;

4. Utilizar os medicamentos Valproato Sódico (ácido valproico, um anticonvulsionante e estabilizante de humor ) ou a Talidomida (um droga para imunoterapia, sedativo, anti-inflamatório e hipnótico) durante a gravidez podem também aumentar os riscos. A Talidomida, em especial, já é proibida durante a gravidez por ser, comprovadamente, um agente teratogênico (qualquer substância, organismo, agente físico ou estado de deficiência, que estando presente durante a vida embrionária ou fetal, produz alteração na estrutura ou função da descendência, como deformações no corpo).

A Talidomida é um medicamento que deve ser usado apenas sob estrita orientação médica; durante a gravidez, ela é terminantemente proibida, pois induz à sérias deformações no feto

        Três desses possíveis fatores têm aumentado bastante de incidência dentro da população nas últimas décadas , assim como o autismo, embora os possíveis mecanismos de ação não sejam muito bem conhecidos. Portanto, é preciso que as futuras mães, e mães, estejam bem atentas aos cuidados necessários para contornar esses fatores. E, falando nesse padrão de crescimento no número dos afetados pelo autismo, um fator bem óbvio pode também explicar grande parte desse aumento: os parâmetros de diagnóstico do transtorno se diversificaram, além do maior esforço em rastrear suas ocorrências ao redor do mundo. Assim, mais casos foram reportados e iluminados, e isso não significa, necessariamente, que mais casos surgiram. Poderiam estar apenas escondidos. Os fatores ambientais, por exemplo, podem existir e estar agindo há muito mais tempo do que os pesquisadores previam. E, para complicar ainda mais a história, o papel genético pode, ou não, ser várias vezes mais importante do que o ambiental, sendo preciso considerá-lo sempre como fundamental no desenvolvimento do autismo.

- Continua após o anúncio -


 
   CONCLUSÃO

        Embora bastante obscuridade permeie a questão, diversas medidas podem ser adotadas para permitir o desenvolvimento social saudável da criança com autismo. Uma educação especial de qualidade, muito amor por parte dos amigos e pais, insistência em querer sempre incluí-la nos círculos sociais e, acima de tudo, paciência. E como cada caso de autismo possui suas peculiaridades, a abordagem de tratamento também deve ser diferencial para cada cada indivíduo. Homens e mulheres, por exemplo, tendem a possuir comportamentos bem diferentes quando atingidos por esse transtorno.

         Um erro comum é pensar que a criança com autismo gosta de ficar isolada. Estudos clínicos já mostraram que elas tendem a sofrer mais com o isolamento do que indivíduos sem o transtorno. O melhor a se fazer é consultar um especialista o mais rápido possível caso exista qualquer suspeita de autismo no seu filho/a. Quanto mais cedo os cuidados começam, melhor o prognóstico.

Os indivíduos com autismo não gostam de ficar isolados, como muitos pensam; é preciso oferecer muito amor e companhia para eles, especialmente na infância

E reforçando mais uma vez: O AUTISMO NÃO ESTÁ RELACIONADO COM VACINA ALGUMA! É o mesmo que acreditar que realmente existiu uma Terra-Média povoada por Orcs, Elfos e Hobbits em um passado distante no nosso planeta. O criador do Facebook, Mark Zuckerberg foi amplamente criticado por fanáticos ´anti-vacinação´ porque ele postou uma foto sua com sua filha esperando o médico para aplicar as vacinas obrigatórias nela. O fato ocorreu há duas semanas atrás. Bem, mas como ele é um cara inteligente, apenas ignorou os ignorantes.

OBSERVAÇÃO: Existe também um movimento que quer acabar com a nomeação do autismo como um problema, justificando que os indivíduos portadores do transtorno são apenas um pouco diferentes (tipo, uma pessoa mais fechada). Eu, particularmente, não concordo, porque isso mascara o problema e pode dificultar o reconhecimento da necessidade de um tratamento especial, essencial para o desenvolvimento saudável de quem possui autismo.

ATUALIZAÇÃO (22/02/17): E cientistas no Centro de Infecção e Imunidade da Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia e do Instituto Norueguês de Saúde Pública mostraram que mulheres ativamente infectadas com herpes genital durante o período inicial de gravidez possuem um risco 2 vezes maior de dar a luz a uma criança diagnosticada com autismo.

          No caso, não seria uma infecção direta do feto pelo vírus o responsável pelo problema, e, sim, a resposta imune do corpo materno durante o combate à infecção, em específico com os anticorpos  anti-HSV-2. Isso também abre a possibilidade de que outras infecções podem estar ligadas ao desenvolvimento do autismo e outros problemas no feto em desenvolvimento.

        Nesse estudo, só foi encontrado ligação com o desenvolvimento de autismo nas crianças do sexo masculino. Mas como o transtorno afeta muito mais os homens do que as mulheres, os grupos de controle analisados podem apenas não terem sido grandes o suficiente para ligar também as crianças do sexo feminino. (Ref.13)



ATUALIZAÇÃO (02/06/17): É estimado que entre 2 e 5 vezes mais meninos são afetados pelo autismo do que as meninas. Além das causas do autismo ainda não serem conhecidas, apenas existindo suspeitos, esse é outro mistério: por que as crianças do sexo masculino são bem mais afetadas pelo autismo? A resposta pode estar nas micróglias.

As micróglias são um tipo de célula glial localizadas no cérebro e na medula espinhal, representando de 10 a 15% das células encontradas no tecido cerebral. A função das micróglias é, basicamente, de limpeza e defesa imune, sendo essenciais para a boa saúde do sistema nervoso. Evidências nos últimos anos também apontam essas células como uma das causas suspeitas do autismo quando algum problema as afetam.

Agora, um novo estudo publicado na Nature (Ref.14) sugere que o número e o comportamento das micróglias variam em meninos e meninas. Segundo os pesquisadores responsáveis, foi encontrado que os genes associados com as micróglias são mais ativos no cérebro masculino do que no feminino um mês antes do nascimento, algo que pode estar intimamente ligado ao fato do autismo atingir mais o sexo masculino e que também representa mais uma evidência de que o problema está, de fato, associado às micróglias.

Os resultados do estudo podem indicar que a maior atividade das micróglias nos bebês do sexo masculino antes do nascimento fazem eles mais sensíveis aos gentes associados com o autismo. Outra possibilidade é que os bebês do sexo feminino, possuindo micróglias menos ativas, pode protegê-los mais desses genes.

Mais pesquisas são necessárias para confirmar as possíveis associações, mas agora um novo e interessante caminho foi aberto para tentarmos elucidar a elusiva questão do autismo.

ATUALIZAÇÃO (14/10): Sequenciamento completo do genoma identifica nova promissora assinatura genética para o autismo! (Acesso o link para saber mais)


Artigo relacionado:  A homeopatia funciona?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/facts.html
  2. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4538578/
  3. http://link.springer.com/article/10.1007/s12402-012-0086-2
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0891422212000431
  5. http://www.hoajonline.com/journals/pdf/2054-992X-3-1.pdf
  6. http://www.omicsonline.com/open-access/the-possible-link-between-autism-and-glyphosate-acting-as-glycine-mimetic-a-review-of-evidence-from-the-literature-with-analysis-1747-0862-1000187.php?aid=64626
  7. http://www.neuroregulation.org/article/view/15833/10086
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3513682/
  9. http://search.proquest.com/openview/d5f29194778c0a592f34a46f47a93561/1?pq-origsite=gscholar
  10. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0892036213000056
  11. http://scielo.sld.cu/scielo.php?pid=S1727-81202010000300002&script=sci_arttext&tlng=pt
  12. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304394014009422 
  13. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-02/cums-arl021517.php
  14. https://www.nature.com/articles/n-12286624 
  15. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3136032/
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24316883
  17. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22748860
  18. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3004684/