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Comer placenta traz algum benefício?



          Nos últimos anos uma nova moda surgiu entre as mães. Disseminado de forma suspeita pela internet e entre celebridades, a placentofagia (ato de comer a placenta do recém-nascido) está se espalhando por diversos países e já existem centenas de websites que até mostram receitas para consumir o tecido fetal. Defensores da prática afirmam que a mesma traz inúmeros benefícios para as mães, incluindo melhora de humor, melhor lactação, diminuição na depressão pós-parto, entre outros. Mas será que isso possui alguma verdade científica?

           De acordo com especialistas, não existe evidência nenhuma de benefícios vindos deste ato. Pelo contrário, pode até conter grandes riscos à saúde, já que a placenta funciona como um filtro para o feto, e acaba estocando fezes, uma quantidade absurda de bactérias e vírus, além de vários outros resíduos. Comê-la pode não ser a melhor escolha. Estudos já mostraram quantidades consideráveis, por exemplo, de metais pesados como o mercúrio acumulados na placenta. Além disso, não existem relatos históricos dessa prática dentro da civilização humana. Se fosse algo realmente benéfico para os humanos, a prática seria bem comum e sempre constante desde a antiguidade. Por que não o fazemos? Nem as tribos indígenas o fazem como tradição.

           Existe uma hipótese bem interessante que relaciona o uso do fogo pelos humanos com um possível fim na prática de placentofagia, caso ela tenha existido na nossa espécie em algum momento evolutivo. Segundo ela, a partir do momento que o ser humano começou a queimar a comida, entre outras coisas, bastante fumaça e cinzas começou a ser aspirada pelos nossos antepassados. No caso das mulheres grávidas, a placenta acabava filtrando toda a fumaça tóxica para que os poluentes não chegassem ao feto. No final da gravidez, somando a fumaça e outras toxinas no ambiente, a placenta acabava se transformando em um alimento potencialmente tóxico para ser ingerido, podendo ter causado problemas de saúde ou mal estar passageiro em várias mães, o que pode ter feito a prática perder força até sumir. Se essa hipótese é verdadeira ou não, o fato é que os humanos nunca precisaram comer placenta até onde nós conhecemos. E pode existir um bom motivo para isso.

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           Do lado dos que defendem a prática ( leigos na medicina...), a justificativa vem do fato de que diversos mamíferos (1) a fazem, e, portanto, segundo os espertões, deve ser algo saudável, mesmo não existindo relatos históricos dessa prática na sociedade humana, como eu já mencionei. Para os gênios curandeiros de plantão, é preciso levar em conta de que no meio selvagem, a imunidade dos animais costuma ser muito maior do que a dos humanos modernos, e estamos muito mais propensos a sofrer de infecções graves vindas de um órgão todo infectado. Os benefícios obtidos pelos animais (hormônios, anestésicos e nutrientes) valem a pena porque eles não estão munidos com a nossa tecnologia de saúde. Além do mais, eles fazem isso para impedir que predadores farejem e sigam os rastros de sangue e vestígios do parto, o que seria um perigo para as recém crias. Ou seja, é tanto uma medida de limpeza quanto nutricional. . A placenta não é um tecido da mãe, e, sim, do feto. Algo que possa não afetar este órgão pode muito bem ser bem danoso ao corpo materno se ingerido. Porém, os riscos compensam no meio selvagem. E, somando-se a isso, se a mãe já está bem nutrida (come bem, por exemplo), não há necessidade de comer a placenta para obter maiores benefícios (se é que eles existem...). A maioria das pessoas que disseminam o hábito são guiados mais por crenças populares e lendas do que pela lógica.

Uma cabra comendo a placenta da sua cria; os animais mamíferos fazem isso para não deixarem rastros do nascimento para os predadores e para obterem benefícios nutritivos; em humanos, não existem vantagens que valham o ato

          Apesar dos riscos, algumas mães dizem obter benefícios corporais generalizados com a placentofagia, como o aumento na produção de leite e melhor sensação de bem estar. Segundo os médicos talvez, possa existir alguma verdade para o caso de depressão pós-parto, já que quando a placenta é retirada junto com o bebê, diversos hormônios produzidos por ela deixam de circular pelo corpo materno, trazendo efeitos colaterais indesejados por um breve período de tempo. Ingerir a placenta pode ser uma fonte garantida destes hormônios, mesmo que não existam estudos científicos consensuais comprovando isso. Mas, por outro lado, seria muito mais fácil recorrer aos tratamentos modernos do que se arriscar com as infecções. Alguns falam para cozinhar a placenta junto com outros alimentos, para, assim, se livrar das bactérias e vírus. Porém, com isso, também se vai boa parte dos hormônios no aquecimento. Ou seja, você estará comendo uma carne como outra qualquer. As cápsulas contendo placenta desidratada seria outra forma de combater as bactérias, porém não garante a eliminação de outras toxinas, não possuem respaldo científico de eficiência e geram uma controvérsia: se é para ser algo natural, imitando a placentofagia dos animais no meio selvagem, consumi-la em cápsula quebra toda essa ´magia´, não é mesmo? E, para o resto das alegações de melhorias corporais, é mais provável que sejam causadas por um efeito placebo do que qualquer outra coisa. De qualquer forma, e ignorando a ciência, existem diversos pratos populares, como a ´placenta com brócolis´ e ´placenta australiana picante´. Vai encarar?

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         Conselho então para as mamães: esperem por estudos mostrando algum benefício significativo, e balanço de riscos, antes de seguirem ideias sem fundamentos de terceiros. Não arrisquem a saúde à toda, principalmente depois de ganharem um presente tão especial.

(1) Muitos defensores da placentofagia, no intuito de darem mais força às suas teorias, geralmente afirmam que todos os mamíferos comem a sua placenta depois do parto. O ser humano, portanto, estaria fugindo desse ritual natural, deixando de aproveitar os benefícios proporcionados pelo ´nutritivo´ órgão gestativo. Mas nem todos os mamíferos praticam a placentofagia, com os camelos sendo um exemplo de exceção bem conhecido além dos humanos.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  British Journal of Midwifery . Jul2012, Vol. 20 Issue 7, p464-469. 6p. 1 Color Photograph
  2. http://www.buffalo.edu/content/dam/www/news/imported/pdf/July07/USATodayKristalPlacenta.pdf
  3. https://www.nichd.nih.gov/news/releases/Pages/062615-podcast-placenta-consumption.aspx 
  4. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1240842/
  5. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0149763480900123
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S088421751500009X
  7. http://link.springer.com/article/10.1007/s00737-015-0538-8
  8. http://www.ingentaconnect.com/content/springer/clac/2014/00000005/00000004/art00003 
  9. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03670244.2012.719356
  10. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jmwh.12309/abstract?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0271531716300227 
  12. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03670244.2012.661349